A Dama Branca
18 A Quebra de uma Maldição
Notas iniciais

Enquanto ela dormia:
Ayato ficou olhando pela janela durante algum tempo, mas seu olhar não parecia fixado em nada, ele parecia estar bem longe dali, aparentemente, emerso em seus pensamentos. Seu ego parecia severamente ferido, afinal, como um homem como aquele, aparentando ser tão mortal, havia o superado tanto na força, quanto na velocidade e astúcia?!
Possivelmente, Ayato questionava a si mesmo de muitas coisas, e dentre elas, o que havia acontecido após ele ter ficado inconsciente?
Ao questionar a si mesmo, Ayato voltou-se para o quarto, e examinou o mesmo com os olhos, até que seu olhar parou onde ele acordara no colo de Marshmallow. Havia no chão e na parede uma marca que formavam, juntas, um círculo e a causa dessa marca foi uma sutil corrosão, originada por algo desconhecido. Inevitavelmente, algo havia acontecido e querendo ele ou não, ela tinha o salvado.
Após uma breve análise daquele local, Ayato viu de relance alguém deitado sobre a cama. Ele focou sua visão afim de ver quem era, e assim avistou Marshmallow, que se encontrava dormindo.
Ela passara por ele sem ele sequer notar, e isso mostrava o quanto emerso em seus pensamentos ele se encontrava. Shiro se estava vestida com uma de suas camisas sociais de manga longa e que possuía detalhes em xadrez. Seus longos cabelos brancos chamavam bastante a atenção, afinal, em meio a parcial escuridão, era possível distingui-los com exatidão.
Ela se encontrava levemente encolhida em posição fetal, e vê-la assim desprotegida e completamente vulnerável fez brotar em Ayato um sentimento estranho.
Ayato foi caminhando até a cama, parou ao lado direito da mesma. As luzes dos abajures se encontravam acesas, e isso possibilitava que ele visse a expressão dela. Seu rosto se encontrava sereno, calmo e delicado.
Instintivamente, ele a cobriu com a colcha aveludada que se encontrava dobrada na parte inferior da cama, e após isso se reclinou na direção do rosto de Shiro.
— Não deixarei ninguém levá-la para longe de mim... – fez uma pausa encarando seu rosto. – Nem mesmo você, Marshmallow. – murmurou Ayato, beijando-lhe a testa. – Você pertence a mim agora! – disse por fim acariciando o rosto dela.
Assim, ele voltou a sua posição inicial, olhou novamente para ela, e caminhou na direção do banheiro. Depois de tudo aquilo, ficar com a camisa suja de sangue não seria algo bom, e muito menos agradável. Um banho viria muito bem a calhar, não só para lavar o corpo, mas também a alma, se ele realmente tivesse uma.
Após seu banho, Ayato sai do banheiro já trajando uma calça cinza de algodão, ele caminha até o guarda roupas, abre as portas do mesmo, olha, mas não pega nenhuma peça, em seguida fecha as portas e parte na direção das cortinas do quarto. Chegando em frente à janela, ele para mais um vez e começa a admirar a paisagem que a mesma transmite, embora escuro, era possível ver as sombras das árvores e além disso a chuva estava ficando mais fraca. Alguns minutos depois, ele agarra as cortinas carmesim e as fecha para que caso o dia amanheça ensolarado, o sol não o incomode em seu quarto.
Assim, ele se volta para a cama, e se encaminha para a mesma. Ao chegar, ele se senta, admira mais uma vez a garota e deita-se próximo a ela. Apesar de nunca dormir, não custava nada a acompanhar em um descanso. Embora ele nunca demonstre gratidão, era o mínimo que ele poderia fazer.
O dia amanheceu belíssimo lá fora, o sol brilhava intensamente, o céu se encontrava com um tom azul forte e possuía poucas nuvens, possibilitando assim sua admiração.
Porém, no quarto os dois ainda se encontravam deitados. A luz do sol não atravessava completamente a cortina, mas seu contato com o tecido vermelho, fazia com que o quarto ficasse banhado com o mesmo tom. Um dos que se encontrava dormindo, acorda. Ayato se levanta lentamente, e olha para as cortinas fechadas.
— Tsc... Hoje o dia não está bom. – reclamou ele, passando a mão em seus cabelos ruivos.
Assim, ele parte em direção ao guarda-roupa, o abre, agarra uma camisa preta de manga e a joga sobre seu ombro enquanto caminha de volta até a cama, parando por fim do lado direito da cama, o lado no qual Shiro se encontrava.
Mais uma vez ele admirou sua face, reclinou-se sobre ela e pousou sua mão no ombro da mesma.
— Já é hora de acordar, Marshmallow... – disse ele a sacodindo levemente.
Ele ficou durante alguns segundos esperando um retorno, que não ocorreu.
— Vamos logo! Já amanheceu... – afirmou ele com certa apreensão, batendo suavemente no ombro dela.
— Está cedo ainda... – murmurou Shiro virando as costas para a origem da voz.
— Tsc... era só o que faltava! Levante logo, você precisa tomar seu café... – disse Ayato, em sua voz havia uma pontada de raiva.
Aquela situação estava o despertando nele certo aborrecimento.
— Você fala demais... – murmurou Shiro rolando para o outro lado da cama, de forma que ficasse longe de quem estivesse tentando acordá-la.
Os olhos de Ayato queimaram em fúria, e em um movimento extremamente rápido ele apareceu do lado esquerdo da cama.
— Já sei um jeito de te acordar rapidinho... – disse ele com um sorriso nos lábios.
Seu olhar havia mudado, não havia mais raiva neles e sim travessura, algo que o divertia preencheu seus pensamentos. Assim, ele jogou no chão a camisa que se encontrava apoiada em seu ombro, ajeitou o corpo de Shiro o mudando de posição, de forma que ela ficasse com o ventre voltado para cima.
— Pode ir... – fez uma pausa esticando o braço, mas aparentemente ainda dormindo. – Pode ir na frente... – murmurou ela antes que ele terminasse sua ação, balançando a mão para cima e para baixo.
Ayato não pensou duas vezes, interrompeu o que estava prestes a fazer, abocanhou a mão da Marshmallow, e olhou para o rosto dela, na espera de alguma reação. Mas ela ficou lá de olhos fechados, aparentando estar completamente emersa em seu sono. A dor de ter sua carne perfurada pelas presas dele não foi suficiente para que ela acordasse, e isso deixou Ayato indignado.
— Tsc... que sem graça! – murmurou ele afastando-se de Shiro.
Ele realmente esperava uma reação melhor ao que ele havia feito, porém não obteve o que queria, então ele agarrou a camisa preta que havia jogado no chão, e partiu na direção da porta, saindo em seguida do quarto.
Acordei em uma cama macia, era realmente bom ficar ali em meio ás coxas macias e aveludadas, bem diferentes de tudo o que eu estava acostumada. Sempre acordei em um chão, uma maca ou um tanque de água, todos eles extremamente gélidos. Por mim eu passaria meu dia ali, porém eu tinha que aproveitar o dia, aproveitar que estava livre daquele pesadelo.
Assim, me levantei ainda sonolenta e parti em direção ao banheiro.
O quarto se encontrava totalmente tingido em vermelho, pois a luz que atravessava parcialmente as cortinas carmesim, adquiria tal cor, que era realmente esplendorosa. Eu realmente gostava da cor vermelha.
Durante meu trajeto passei a mão em meu rosto, na tentativa de espantar o sono que estava realmente impregnado em mim, embora eu não necessitasse dormir. Realmente, pra quem não precisava dormir, eu estava bem sonolenta...Malditos costumes!
Entrei no banheiro e fiquei um tempo me olhando no espelho. Aos poucos alguns flashes preencheram minha mente.
“Eu me encontrava naquele lugar, parada no meio de um dos milhares de corredores daquela instalação. As paredes e o chão eram de metal polido, e eu trajava uma camisola azul clara, típica de hospitais.
Porém em um piscar de olhos o que era limpo e polido, foi tingido de sangue, um sangue que no fundo eu sabia que não pertencia a mim.”
Balancei a cabeça na tentativa de afastar tais imagens dos meus pensamentos. Mas uma pergunta não se afastava, por mais que eu tentasse...Seria isso imaginação minha? Essas imagens que vieram de repente em minha mente, eram reais?!
— Melhor eu não pensar nisso... – murmurei para mim mesma, passando a mão sobre meu rosto.
Novamente voltei a olhar-me no espelho. Até que eu não era feia, mas também não era bonita, acho que sou algo meio indiferente, que não chama muito a atenção...tipo uma cadeira.
Ao pensar nisso soltei uma risada sutil, realmente fazia muito sentido tudo aquilo.
— Xô momento filosófico! – pensei alto.
Não era hora pra filosofar ou pensar na vida, era hora de aproveitar o dia, que parecia estar lindo. Um belo sábado diga-se de passagem.
Assim, escovei meus dentes, lavei meu rosto, e em seguida penteei meus cabelos, com uma escova que encontrei em uma gaveta, e após isso sai do banheiro. Ao entrar no quarto, vi ao fundo, sentado na beira da cama, Ayato.
— Finalmente acordou! – disse ele se levantando, cruzando os braços e caminhando em minha direção, parando por fim no centro do quarto.
Eu sabia que havia um porque daquelas palavras, mas resolvi não perguntar sobre e principalmente não tocar nesse assunto.
Logo, caminhei na direção dele, sem falar nada. Mas antes de me encontrar com ele, desviei meu caminho indo em direção as cortinas. Ao chegar lá, as abri sem pensar duas vezes. Porém enquanto as abria ouvi Ayato gritar.
— Não! – exclamou ele.
Aquele grito me pegou de surpresa e me fez saltar de susto, mas era tarde demais, as cortinas já estavam abertas.
— Feche-as rápido! – ordenou ele, desesperado. – Eu não posso com ... – Ayato começou a falar, porém ele parou antes de concluir sua frase.
Virei-me para ele, na tentativa de ver o porquê de ele não ter terminado de falar. E lá estava Ayato, completamente atônito, encarando sua mão direita em contato com o sol. Seu olhar mostrava que ele estava completamente confuso, mas não entendi a causa dessa confusão.
— Algum problema? – indaguei confusa, também olhando para a mão que ele encarava incrédulo.
Eu realmente não entendi o porquê daquele alvoroço todo. Seria por causa do sol? Mas estava um dia tão lindo.
Ayato não respondeu, mas começou a vir na direção da janela. Enquanto ele caminhava, ele olhava, atentamente, seus braços e mãos. Parecia estar buscando algo, ou esperando algum tipo de acontecimento.
— Ayato...? – murmurei tentando chamar-lhe a atenção.
— Isso não está certo... – murmurou ele.
— O que não está certo? – perguntei um pouco curiosa e confusa.
— O sol não está corroendo minha pele. – respondeu ele desnorteado, encarando a janela. – Normalmente era pra isso acontecer, mas não entendo porque isso não ocorreu. – disse ele voltando seu olhar para mim, de forma a me encarar.
O olhar de Ayato parecia querer explicações, mas infelizmente eu não era capaz de ajudá-lo. Eu não sabia explicar nem coisas sobre mim, quem dirá sobre os outros.
— Entendo... – disse assentindo com a cabeça. – Mas porque o sol deveria queimar você?! – indaguei curiosa.
— Porque eu e todos os outros aqui dessa casa somos vampiros. – respondeu Ayato, me fitando.
A resposta dele me deixou realmente surpresa, sempre achei que vampiros, lobisomens e afins eram coisas que só existiam em filmes ou na mitologia, porém naquela casa haviam vários deles. Isso explicava muita coisa, mas no fundo eu não achava aquilo estranho, pois mais estranho que eles era eu, que dentre muitas coisas, era incapaz de morrer.
— Isso explica muita coisa... – disse voltando-me para a janela.
— Tsc...não vai ficar com medo, ou sair gritando?! – indagou Ayato se aproximando de mim.
— Isso não é nada demais... – disse tornando a olhar para ele. – Do mesmo jeito que existem criaturas que se alimentam de animais ou vegetais, algumas se alimentam de fé, outras de almas.... Você se alimenta de sangue. Inevitavelmente como todo ser vivo, você precisa se manter vivo e não o condeno por isso. – conclui olhando fixamente em seu olhar.
Eu realmente não estranhava aquilo, depois de tudo o que passei nada mais me abalava, ou teria grande impacto sobre mim. E realmente o que eu disse tinha fundamento, os humanos se alimentam de vegetais ou carne de animais, muitos dizem que Deus ou os Deuses se alimentam e dependem da fé de seus fiéis, e que demônios se alimentam de almas ou pecados. Verdade ou não as criaturas necessitavam de algo para se manterem vivas, e no caso dos Sakamaki eles precisavam de sangue para poder existir.
Ayato ficou realmente surpreso com minha resposta, mas o que o deixava mais surpreso era poder ficar diante e sobre o sol. Por um lado, quando olhava no fundo dos seus olhos pude ver que ele se sentia um pouco feliz por aquilo, afinal aquela era a maldição dele, como vampiro. E não é que toda pessoa possui seu tipo de maldição...Eu por exemplo possuo várias, infelizmente. Mas o importante é que elas até agora não prejudicaram as pessoas que me rodeiam, e que de algum modo cuidam de mim, querendo elas ou não.
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