A Décima Terceira Esposa
7 Nas terras de Saxian
Notas iniciais
Olhei em volta e vi que o sol tornava a surgir no horizonte. Lord Drargul estava perto do lago do oásis, dando de beber aos cavalos. Perto da fogueira, alguma carne de animal assava e por cima de mim estava a sua túnica, colocada de tal forma que pareceu-me um kimono. Sentei-me na carruagem, com as pernas para fora e vi que realmente havia mais carruagens por ali. Eram os servos de Lord Drargul.
Deviam haver em torno de vinte pessoas, variando entre homens e mulheres, que conversavam animadamente, comendo e se divertindo em torno de uma grande fogueira, mas eu estava sozinho, pois a carruagem onde estava era a mais afastada do fogo.
Fiquei quieto ouvindo a música animada e assistindo a dança daquelas pessoas tão estrangeiras. Era como se eu estivesse lendo uma das histórias de Temari, ou ouvindo umas das canções de Tsunade, sobre um reino fantástico que era regido pela bravura, pela alegria e pela magia, que as pessoas eram respeitadas pelo o que elas eram e pelo que faziam, e não por status social ou por posse. Suspirei, sentindo-me melancólico, de repente.
No meio daquelas pessoas, dançando ao redor da fogueira, Lord Drargul me surgiu. Franzi o cenho quando ele me tomou pela mão e me puxou para perto do fogo. Todos os servos pararam e me cumprimentaram de forma sorridente e calorosa.
—Drargul-sama…? — fui sentado em um tapete grande, perto de uma moça e um rapaz que sorriam, cobertos por túnicas parecidas com a que eu usava, porém brancas.
—Não há motivo para tristeza, meu Nen. — soou aquela voz ecoada pela máscara. — Comemore hoje, com meus criados, o nascer de um novo dia, de uma nova época.
Suspirei e sorri para ele. Lord Drargul voltou para perto dos homens que dançavam com fervor ao som das vozes melodiosas das mulheres e de seus instrumentos. Era admirável sua capacidade de dançar e de louvar ao sol. A moça ao meu lado entregou-me uma bandeja contendo pão e frutas, enquanto o rapaz me serviu um pouco de água.
Agradeci a ambos e voltei a admirar aquele espetáculo lindo. Tão logo o sol exibiu todo o ar de sua graça nos céus, a comitiva de Lord Drargul partia para esse tal lugar. Saxian. O que me esperava em Saxian? Foram dois dias de viagem, seguindo para as montanhas, para podermos sair do deserto. Eu quase infartei quando reconheci as fronteiras de Konoha, a minha terra natal. Saxian fica perto de Konoha? Isso é ótimo sinal! Dependendo de minha posição, eu posso visitar meus pais.
Sorri ao reconhecer os campos de milho do velho Hiruzen, o homem que ensinou os ofícios de fazendeiro ao meu pai. Senti o olhar pesado de Lord Drargul sobre mim. Eu ia ao seu lado, sentado do lado de fora, no banco do cocheiro.
—Perdoe-me, Drargul-sama. — murmurei antes de ouvir sua reclamação. Segurei com mais firmeza a manga da túnica e suspirei. — Não tive a intenção…
—Não te desculpes por sentir-se nostálgico, meu Nen. — ele falou com calma — Noto pelo teu olhar que estas terras lhe são caras.
—Eu nasci aqui, Drargul-sama.
—Entendo… — nós já abandonávamos os campos e eu conseguia ver a colina que dava acesso para a minha casa. Estava tudo ficando para trás. — Aquiete teu peito, meu Nen, um dia eu hei de trazer-te aqui e poderás apresentar-me teus pais.
—Sim! — animei-me como há tempos eu não me animava. — Sim, Drargul-sama, por favor, permita-me isso e eu serei imensamente grato.
Talvez ele me sorrisse, pois sua postura não me deixava entender nada. Depois de mais dois dias de viagem, ainda seguindo por um trilha escondida para as montanhas, eu me vi chegando em uma densa floresta perdida entre os cumes nevados que ficavam atrás de Konoha. Montanhas que sempre me foram muito misteriosas e atraentes.
No meio da floresta de árvores gigantes, entre as montanhas ainda mais altas e firmes, havia uma grande cidade, tal como mencionavam as histórias de Temari e as canções de Tsunade.
Chegávamos por uma estrada que contornava toda a cidade até a sua entrada principal. Paramos ali, para que as carruagens fossem descarregadas dos produtos que foram conseguidos ao longo da viagem e eu pude admirar um pouco do meu novo, e talvez, lar.
A cidade ocupava boa parte das terras do sopé da montanha, dada a sua grande extensão, ela fora erguida no alto de um morro, dividida, dessa forma, em duas partes.
As mais baixas construções ficavam na parte mais alta do morro, mais próxima à floresta e às montanhas, eram bastante arborizadas, com um aspecto lindo de jardim, eram todas feitas de madeira e suas ruas eram de ladrilhos. Essa parte era menor e tinha ares místicos, não sei se por causa da floresta, ou se por causa de todos os aspectos gerais, como as estátuas e as lanternas apagadas.
A parte mais baixa do morro, que correspondia a maior parte da cidade, estava apilhada de pessoas e de animais, suas construções possuíam mais de dois andares e o mais alto prédio tinha cinco andares, que mesclavam a pedra amarelada com a madeira escurecida, esta parte sendo mais próxima dos campos, relembrando-me Konoha, porém com mais pessoas e mais casas. O comércio me parecia fervilhar, os sons vindo de lá eram altos e, em determinados locais, a parte baixa dividia-se em pequenos agrupamentos, como bairros, mais distanciados do centro, porém ligados por estradas.
Parecia que a cidade fora construída no que restara de uma montanha, dada a sua altura e o seu distribuimento. Só assim para eu ser capaz de enxergar tão ao longe. E ainda sorri de alegria ao ver o Rio de Konoha cortando um dos “cantos” de Saxian.
Eu estava justamente nos degraus que permitiam o acesso constante da parte baixa com a alta, sem qualquer empecilho ou pedágio. Era uma larga escadaria, talvez tivesse mais de quinze metros de extensão, porém com poucos degraus. Nos lados havia estátuas feitas de pedra amarelada de animais que se repetiam — cavalo, corvo, lobo, águia e tigre — e atrás deles haviam postes com suportes para lanternas.
Coloquei-me completamente de frente para a entrada, uma rua única que cortava completamente a cidade, sendo esta a principal ao que me parece, e vi que as portas de entrada dessa grande cidade eram campos de trigos dourados que celebravam o sol, pois todo o lugar fora construído voltado para o sol. Os outros lados eram guardados pela floresta e pelas montanhas. Arfei, retomando meu fôlego.
Um reino de cores, pessoas, barulho, animais, prosperidade e, eu ouso dizer, magia. Os poucos instantes que fiquei ali, do lado de fora, observando aquela população ir e vir, eu constatei algumas características interessantes sobre as pessoas. Pude pensar sobre isso enquanto era levado para dentro da parte alta.
Notei que as pessoas eram claramente divididas por aspectos vestuários: haviam aqueles que tinham máscara, mas não necessariamente no rosto, muitas vezes estavam presas em outro lugar do corpo, e aqueles que não usavam.
As pessoas que usavam máscaras, trajavam vestes em tons fortes ou escuros, mas com estampas bonitas feitas em cores que contrastassem com a cor de fundo. As que não usavam, vestiam roupas em tons pastéis ou neutros, sem estampas ou com estampas mais discretas. Mas uma coisa eu percebi, ao andar pelas ruas acompanhado pela comitiva de Lord Drargul, e isso me chamou muita atenção: todas as mulheres, e alguns homens, usavam muitas joias por todo o corpo, enquanto os homens só usavam joias nos pés e nas mãos.
Uma cultura muito interessante, devo dizer. Fui levado por Lord Drargul e mais alguns servos para além da parte alta, seguindo por um caminho de pedra, por entre a floresta, que subia sutilmente até chegar a, provavelmente, maior casa da cidade. Parei diante de sua entrada.
Os alicerces da casa foram feitos da pedra maciça e as árvores “invadiam” todo ponto que estava às minhas vistas. A sólida pedra, que servia de base para os andares superiores, sustentava algo parecido com uma varanda, de onde uma mulher de cabelos rosas me olhava fixamente. Toda a casa, com três andares, sendo que o terceiro era justamente o que fora construído sobre a pedra, era daquela madeira escura e o telhado era do mesmo tom da folhagem da floresta, como se quisesse camuflar a casa.
Havia janelas grandes, por toda parte, mas a visão do interior era impedida por cortinas brancas de algum tecido opaco. Olhei para a entrada da casa e vi que Lord Drargul já se colocava para dentro, então apressei-me de acompanhá-lo. Assim que pus meus pés dentro do ambiente, me deparei com um magnífico jardim de inverno e ao seu redor havia uma espécie de passeio, de onde eu via portas fechadas e escadas do lado esquerdo e direito.
Bem ao meio da casa, crescia uma frondosa árvore, que ia bem acima do telhado do último andar e alguns de seus galhos entravam dentro da casa. Era incrível todo esse lugar, eu mal conseguia piscar de tanto admirar. Empregados iam e vinham, usando roupas de acordo com o fato de usarem máscaras ou não. Alguns me cumprimentavam sorrindo, outros, com pressa demais, simplesmente passavam por mim como se eu não estivesse ali.
—Ei, você. — uma voz feminina e forte falou. Virei-me apressadamente e me deparei com aquela mesma mulher, ela usava um vestido verde muito claro, sem mangas, com um véu em seu pescoço ajustado de forma a cobrir-lhe os cabelos. — Qual é o seu nome?
—Uzumaki Naruto, senhora. — eu falei apertando o tecido da túnica de Lord Drargul em meus dedos, sentindo-me intimidado por essa mulher.
Ela veio até mim, com seus olhos cor de esmeralda me analisando de cima a baixo, fazendo seu longo vestido farfalhar com seu caminhar impetuoso. A mulher puxou meus cabelos de leve e segurou meu queixo, avaliando meus olhos, depois largou-me como se eu fosse um animal qualquer. Fechei a cara para o seu lado.
—A partir de hoje esqueça seu sobrenome. — disse-me e estalou os dedos. Duas criadas apareceram e me levaram para uma daquelas portas. A mulher de cabelos rosa, aquela que me olhava do alto, seguiu-nos. — Hoje você se casará com Lord Drargul, então esqueça sua antiga família. — olhei-a com desespero — Pertencerá a ele agora.
Caminhamos por um corredor curto e entramos numa espécie de banheiro.
—Mas… — as criadas tiraram rapidamente as minhas roupas, eu nem me importava muito, eu só estava preocupado com essa nova informação. — Meus pais?
—Se for do desejo do marido que você os veja, você os verá. — ela apontou para as minhas costas e eu me vi sendo colocado dentro de uma banheira pequena.
Havia sais cheirosos e relaxantes dentro da água. Eu teria aproveitado bem o banho de espuma e sais se eu não estivesse tão preocupado com esse casamento repentino. As duas criadas começaram a limpar o meu corpo com esponjas macias, enquanto a mulher coordenava as ações de mais duas criadas que já estavam ali dentro. Uma ficou responsável pelas roupas, enquanto a outra pela provável maquiagem.
—Por que ele quer se casar comigo? — indaguei mais para mim do que para a mulher.
—Eu não sei… Provavelmente é pelo fato de você ser um Filho do Sol, nada mais que isso. — eu sentia o desprezo em sua voz e o desdém em seu olhar. — Não vejo nenhuma outra razão para ele sentir interesse em alguém como você.
Engoli em seco e me enxuguei depois do banho, indo me vestir.
Eu não contarei a ela sobre o meu momento com Lord Drargul no deserto, deixarei em meu coração, tal como fiz com o meu encontro com o menino. Enquanto eu me vestia, pude olhar para essa mulher que me lembrava a Senhora Tsunade. A mulher de cabelos rosa.
Sua pele era clara, como a minha, mas ela tinha várias pulseiras em seus braços e gargantilha em seu pescoço. Ainda tinha presilhas que arrumavam seu cabelo num penteado meio preso e meio solto. Em seus olhos, um leve sombreado vermelho que destacava ainda mais os seus olhos esmeraldinos. Parecia ser uma mulher forte, imperiosa, mas muito arrogante e cheia de si.
Logo que vesti uma calça vermelha de seda, uma das criadas pediu que eu me sentasse para me maquiar. Olhei os objetos que estavam no toucador. Eram semelhantes aos que eu usava para me preparar como geisha. Fitei a mulher de cabelos rosa.
—Eu não sei como devo… — comecei a expressar a minha confusão.
—Meu marido quer que se prepare como sua antiga profissão. — então eu vi a porta do banheiro ser aberta e a criada responsável pelas vestes entrar com um cabideiro grande, onde estava bem arrumado um kimono branco com o desenhos em tons de azuis que lembravam o mar.
Maquiei-me com gosto. Quanto tempo faz que não me torno uma geisha? Era como voltar no tempo e me sentir a idolatrada Taiyou de novo. Preparei-me com muito esmero e cuidado, chegando a sorrir a cada etapa da maquiagem. Quando eu estava pronto, arrumei meu cabelo com ainda mais cuidado, prendendo as joias que Lord Drargul deixara para mim.
Eu nem me importava com os olhares ferozes que aquela mulher de cabelos rosa mandava para mim. Eu só queria me sentir eu mesmo de novo, depois de tanto tempo. Sentir-me vivo e belo de novo. Sentir-me especial pelo o que eu sou.
—Passe isso ao redor dos olhos. — ela colocou com uma força exagerada um potinho negro com o desenho de um leque vermelho e branco na tampa. — Isso vai dizer que a partir de hoje você é uma pessoa casada, que você é esposa de alguém. — falou e finalmente saiu, deixando-me a sós com as criadas.
—Obrigado. — eu murmurei e ri comigo mesmo. Abri o potinho e vi que era uma sombra para os olhos, num tom que variava do vermelho para o laranja.
Passei-o e vi o quanto combinava com o batom em meus lábios e com o kimono que eu usaria. Suspirei, satisfeito com o resultado e fui para perto das criadas que me ajudaram a me vestir. O kimono interno era branco, liso, muito suave, mas o externo era belíssimo, o branco com estampa do mar, eu cheguei a temer colocá-lo. Era estampado por dentro: o fundo vinho com várias flores que variavam do amarelo ao vermelho vivo.
Vesti-o com muito gosto, sentindo minha cintura ser apertada pelo obi branco com as pontas seguindo o mesmo desenho do kimono. Perfeito. Sorri para mim mesmo, diante do espelho, e sorri em agradecimento as criadas.
—De todas as noivas que já arrumei para Lord Drargul… — sussurrou a que me ajudara com o obi — Você é a mais bela de todas. — eu sorri ainda mais, completamente emocionado.
Fui guiado para o local da cerimônia. Não era na casa, na verdade era numa espécie de templo que havia na entrada do caminho que levava a casa de Lord Drargul. Assim que cheguei, todos os presentes curvaram-se, numa reverência honrosa, diante de mim, inclusive a mulher de cabelos rosa e outras duas que estavam com ela.
Segui o macio tapete branco até uma espécie de altar, onde o sacerdote, pelo menos eu acho que seja um tipo de sacerdote, me esperava. A criada que me acompanhava disse-me para ficar sentado sobre meus calcanhares, como mandava a minha cultura. E isso fiz.
Fiquei ali, observando a criada, que me dizia o que fazer ou como me portar. Ela fez um gesto para que eu ficasse de frente para a entrada da casa. Girei, sem me levantar e fitei a entrada do templo. Lá estava ele, Lord Drargul, usando calças negras e, por cima, uma túnica preta com desenhos feitos por bordado de ouro. Era o desenho de uma águia, cujas asas pareciam abraçar o corpo de meu futuro marido.
Ele usava uma máscara diferente. Não mais a de ferro, mas uma também preta que imitava o rosto de uma águia. Por cima de tudo isso estava um casaco feito de pele de tigre, na qual a cabeça do animal servia de capuz e cobria a cabeça de Lord Drargul.
Seus tornozelos e seus pulsos estavam adornados por tiras de couro negro com pedras preciosas encravadas. Lord Drargul estava magnífico naquelas vestes, que eu julgo ser cerimoniais por causa da ocasião. Eu mal conseguia piscar, tomado completamente por sua presença poderosa e animalesca.
Ele veio até mim e ouvi a criada me dizer para voltar a posição inicial. Virei-me de novo e vi que Lord Drargul ajoelhara-se ao meu lado, ficando em semelhante posição que a minha e então a cerimônia começou. Eu não entendi uma palavra do que aquele sacerdote dissera, mas, por sorte, eu não tive que dizer uma única palavra, tampouco Lord Drargul. Apenas eu acompanhava-o nos movimentos que deveriam ser feitos.
Em dado momento, justamente o final, ele se virou e eu me virei também, ficando um de frente para o outro. O sacerdote entregou a Lord Drargul uma adaga. O homem retirou sua luva, nas quais as pontas imitavam garras felinas, e feriu-se a palma da mão. Depois, ele recebeu uma par de pulseiras de ouro cravejada com safiras.
Seu sangue manchou as joias e então elas foram colocadas em meus pulsos. Fitei aquela máscara e tentei esboçar alguma felicidade num sorriso dolorido. Eu sei que não convenci.
A verdade? Eu estava me casando, isso é, de certa forma, bom, mas sem a presença dos meus pais. Eu me senti, novamente, sozinho e pequeno ante aquelas pessoas que me olhavam com curiosidade. Eu realmente estava sozinho numa terra de estranho. De novo.
A mão de Lord Drargul foi limpa e enfaixada. Seus braços envolveram-me num abraço forte e eu vi pétalas vermelhas de rosa serem jogadas sobre nós dois, enquanto as pessoas batiam palmas e bradavam em alegria. Eu quis chorar, mas não de felicidade, de desalento mesmo, por me sentir cada vez mais sozinho. Ao invés de acabar-me em lágrimas, eu apertei o corpo de Lord Drargul com toda força que me era possível.
Nos soltamos, mas demos as mãos. Nós dois caminhamos pelo tapete vermelho, mas antes de cada passo, as pessoas lançaram sobre ele pétalas brancas de rosa. Por fim saímos e, para meu espanto, o céu chorava pelos meus sentimentos. Uma criada me trouxe um guarda-chuva e eu me protegi da chuva, enquanto era guiado para o pátio do templo.
A festa começara e ninguém se importava com a chuva, apenas eu. Um local seco e protegido foi preparado para mim, onde fiquei sentado a noite inteira, assistindo as danças, as apresentações artísticas e tudo mais o que aconteceu. Eu comia pouco e nada dizia.
Quando a chuva deu trégua, uma enorme fogueira foi acesa, que serviu de palco para as pessoas que dançavam, contarem histórias, mas eu continuava lá, embaixo de minha proteção, triste e sozinho.
—Aqui, quando os céus ousam chorar sobre a terra, quando um casal une-se no matrimônio sacro… — ergui meu olhar e me deparei com Lord Drargul, sem seu casaco de pele de tigre, mas com suas roupas de noivo já secas. — Significa que os deuses sorriem para os cônjuges afortunados. — ele sentou-se ao meu lado e virou o rosto para mim. — Mas pressinto que parte dessas lágrimas tão frias, sejam em decorrência de tua tristeza.
Estremeci e engoli em seco.
—N-Não estou triste, Drargul-sama… — o nó em minha garganta só piorou. — E-Estou emocionado, apenas isso… — ele fez um gesto para que eu silenciasse e estalou os dedos.
Duas criadas vieram até mim.
—Levem-no para minha casa. Limpem-no para que possa chorar os sentimentos que ainda se prendem em teu peito. — disse-me.
Eu pensei em lhe dizer algo mais, no entanto apenas assenti e me deixei ser levado dentro de uma carruagem para a casa. Eu ainda ouvia os sons da festa do quarto que me fora reservado, um de certa forma frio e bem perto da entrada da casa. Limpei-me, troquei meu kimono de casamento por uma roupa mais simples: um kimono laranja na altura das minhas coxas e calças de mesma cor que ficaram arregaçadas nas panturrilhas.
Passei toda a noite observando as pedras que compunham a paisagem triste da minha janela apenas sentindo o vento frio contra meu rosto. Pensei em meus pais e não me aguentei mais: comecei a chorar copiosamente, encolhido sobre o colchão e os lençóis no chão do meu quarto. Chamei por meus pais, mas sei que ninguém me ouviu. Chorei até não ter mais forças, até o sol nascer e eu acabar dormindo, completamente entregue a tristeza.
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