Nos dias seguintes, a vida de Rony não melhorou nem um pouco: a varinha quebrada estava lhe dando problemas ainda maiores do que as aulas já complicadas do segundo ano estavam lhe proporcionando. Como se não fosse o bastante, o auge de seu mau funcionamento ocorreu na sexta-feira, na aula de Feitiços, quando ao se atirar da mão de Rony ela atingiu o Prof. Flitwick bem no meio dos olhos, produzindo um grande furúnculo verde e latejante no lugar em que bateu.

Por outro lado, finalmente era chegado o fim de semana. Harry, Rony e Mione estavam planejando visitar Hagrid no sábado de manhã — no qual Rony acordou com alguém cochichando no quarto e, ao abrir os olhos,viu Olívio chamando Harry em sua cama. Estava muito cansado e parecia muito cedo, então apenas virou pro lado e voltou a dormir.

Mais tarde, quando realmente acordou viu que Harry não estava por lá, deduziu que Olívio devia tê-lo levado para treinar. Assim, se arrumou e desceu, esperando encontrar ao menos Hermione para tomar café.

A amiga estava sentada na sala comunal à espera deles e logo que o viu se levantou, querendo saber:

—Onde está Harry?

—Bom dia pra você também, Mione. — falou Rony, sério.

—Ah... desculpe... bom dia, Rony. — ela corou um pouco. Não tivera a intenção de ser indelicada, mas ele também não parecia estar num ótimo humor ultimamente.

—Acho que Harry foi treinar quadribol, vi quando Olívio veio o chamar muito, muito cedo.

—Então, vamos tomar café. — ela sugeriu, se virando para a saída e sendo acompanhada pelo ruivo.

Os dois caminharam em silêncio: sem Harry junto a eles, por algum motivo incompreensível, se sentiam mais encabulados.

O café da manhã sem o amigo passara despercebido: afinal, era a presença de Harry que sempre chamava alguma atenção até eles. Então, Rony comeu seus ovos com bacon sem interrupções, enquanto Hermione se concentrava em sua leitura matinal com cereal.

Passado algum tempo, no entanto, a garota quebrou o silêncio.

—Acho melhor irmos ver se o treino já acabou, ou não conseguiremos visitar Hagrid agora pela manhã.- ela sugeriu, fechando seu livro.

Rony assentiu com a cabeça, já que sua boca estava cheia, e se levantou, pegando ainda uma torrada com geleia para comer no caminho. Ao chegarem no campo, se sentaram nas arquibancadas e esperaram por Harry.

—Como foi sua viagem? — Rony perguntou de repente, se lembrando que não tinha perguntado a ela sobre isso.

—Ah... foi muito boa, fomos passar uns dias na praia, aproveitar um pouco o sol, sabe! — ela respondeu, um pouco surpresa pelo interesse dele.

—Legal...! — ele respondeu, sorrindo um pouco — Quem sabe no próximo verão você possa passar uns dias lá em casa, Harry adorou ficar lá. Não é muita coisa, sabe... — ele falou encabulado, esfregando a mão na nuca.

—Seria ótimo! — ela o interrompeu feliz, percebendo que ele estava um pouco envergonhado. Talvez por não ser rico, nem nada, mas ela também não era. — Tenho muita curiosidade em conhecer uma casa de bruxos, e a sua deve ser incrível.

Rony olhou pra ela sorrindo e ficou muito vermelho, felizmente surpreso. E assim que percebeu o calor em suas bochechas, desviou rápido o olhar a tempo de ver Harry entrar no campo, ainda de uniforme.

— Vocês ainda não acabaram? – gritou Rony, surpreso, sobressaltando Hermione, que tinha abaixado os olhos também envergonhada.

— Nem começamos – respondeu Harry, olhando com inveja a torrada com geleia que Rony e Mione tinham trazido do Salão. – Wood esteve ensinando novas jogadas ao time.

Ele montou na vassoura, meteu o pé no chão para dar impulso e saiu voando. Rony e Hermione ficaram olhando para o amigo que voava alto e rápido e logo ouviram alguém gritar de umas cadeiras mais para cima da arquibancada.

—Olhe para cá, Harry! Para cá! – gritava, se esganiçando.

Rony virou para ver e comentou com Hermione:

—É o Colin, o fã número dois de Harry. — ele riu um pouco, desacreditado.

—Número dois? — perguntou ela, levantando as sobrancelhas.

—É claro. A número um é Gina, minha irmã, que não parou de falar nele o verão inteiro. Chegou até a me perguntar se você e ele eram só amigos, depois que viu uma de suas cartas. — contou, rolando os olhos.

—E o que é que você respondeu? — perguntou Hermione, agora entendendo a expressão da garota para ela no trem.

—Bem, o que é que havia para responder? Eu disse que sim. — retrucou ele, rápido, intrigado pela pergunta — Não era essa a resposta?

—Sim, sim... É claro que sim... Nem poderia ser outra coisa. — ela ficou vermelha, negando a sugestão com a cabeça, e voltou a atenção de novo a Harry.

Rony, também vermelho, voltou a olhar para Harry. Porém, antes que o clima pudesse ficar estranho entre os dois, eles viram Wood, Harry, Fred e Jorge aterrissarem em frente ao time da Sonserina, que vinha entrando em campo e correram lá para ver do que se tratava.

Ao se aproximarem, ouvira o capitão da Sonserina dizer:

— Ah, olha ali – disse Flint. – Uma invasão de campo.

— Que é que está havendo? – perguntou Rony a Harry. – Por que vocês não estão jogando? E que é que ele está fazendo aqui? — e olhava para Draco, reparando nas vestes de quadribol com as cores da Sonserina que o garoto usava.

— Sou o novo apanhador da Sonserina, Weasley – disse Draco, presunçoso. – O pessoal aqui está admirando as vassouras que meu pai comprou para o nosso time.

Rony olhou, boquiaberto, as sete magníficas vassouras diante dele.

— Boas, não são? – disse Draco com a voz macia. – Mas, quem sabe o time da Grifinória pode levantar um ourinho e comprar vassouras novas, também. Você podia fazer uma rifa dessas Cleansweep 5; imagino que um museu talvez queira comprá-las.

O time da Sonserina dava gargalhadas.

— Pelo menos ninguém do time da Grifinória teve de pagar para entrar – disse Mione com aspereza, surpreendendo Rony. – Entraram por puro talento.

O ar presunçoso de Draco pareceu, enfim, para a satisfação de ambos, oscilar. Rony arqueou as sobrancelhas, parecendo conter um júbilo crescente.

— Ninguém pediu sua opinião, sua sujeitinha de sangue ruim – xingou ele.

Houve um tumulto instantâneo em seguida às suas palavras. Rony se manteve no lugar, mas suas orelhas começaram a ficar escarlate, como se seu sangue fervesse, e suas mãos fechadas em punho pareciam tremular com ódio: toda a alegria fora embora. Flint teve que mergulhar na frente de Draco para impedir que Fred e Jorge se atirassem contra ele. Alícia gritou com voz aguda:

— Como é que você se atreve?!

Rony, ainda furioso, sequer pensou direito e mergulhou a mão nas vestes, puxando a varinha e gritando:

— Você vai me pagar! – E apontou a varinha, irado, para a cara de Draco, por baixo do braço de Flint. Um estrondo muito forte ecoou pelo estádio, e um jorro de luz verde saiu da ponta oposta da varinha de Rony, atingiu-o na barriga e o atirou de costas na grama.

— Rony! Rony! Você está bem? – gritou Mione, correndo até ele, se agachando ao seu lado.

Rony abriu a boca para falar, mas não saiu nada. Em vez disso, ele soltou um poderoso arroto e várias lesmas caíram de sua boca para o colo.

O time da Sonserina ficou paralisado de tanto rir. Flint, dobrado pela cintura, tentava se apoiar na vassoura nova. Draco caíra de quatro, dando murros no chão. Os alunos da Grifinória agrupavam-se em torno de Rony, que não parava de arrotar lesmas enormes. Ninguém parecia querer tocar nele.

— É melhor levarmos o Rony para a casa de Hagrid, é mais perto – disse Harry a Mione, que concordou, cheia de coragem, e os dois levantaram o amigo pelos braços.

— Que aconteceu, Harry? Que aconteceu? Ele está doente? Mas você pode curá-lo, não pode? – Colin descera correndo das arquibancadas e agora dançava em volta dos meninos que saíam de campo. Rony deu um enorme suspiro e mais lesmas rolaram pelo seu peito.

"Aaah!", exclamou Colin, fascinado, erguendo a máquina fotográfica. "Pode manter ele parado, Harry?"

— Sai da frente, Colin! – disse Harry com raiva. Ele e Mione carregaram Rony para fora do estádio e atravessaram os jardins em direção à orla da floresta.

— Estamos quase lá, Rony – disse Mione quando a cabana do guarda-caça tornou-se visível. – Você vai ficar bom num instante, estamos quase chegando... — Rony estava ficando meio verde e as lesmas não paravam de cair.

Estavam a uns cinco metros da casa de Hagrid quando a porta de entrada se abriu, mas não foi Hagrid que apareceu. Gilderoy Lockhart, hoje com vestes lilás clarinho, vinha saindo.

— Depressa, aqui atrás – sibilou Harry, arrastando Rony para trás de uma moita próxima. Mione seguiu-o, um tanto relutante.

"Porque se esconder? Talvez Lockhart pudesse ajudar." — Rony pensou, amargamente, mas apenas seguiu o amigo.

— É muito simples se você sabe o que está fazendo! – Lockhart dizia em voz alta a Hagrid. – Se precisar de ajuda, você sabe onde estou! Vou-lhe dar uma cópia do meu livro. Estou surpreso que ainda não o tenha comprado: vou autografar um exemplar hoje à noite e mandar para você. Bom, adeus. – E saiu em direção ao castelo.

Harry esperou até Lockhart desaparecer de vista, então puxou Rony da moita até a porta de Hagrid. Bateram apressados.

Hagrid abriu na mesma hora, parecendo muito rabugento, mas seu rosto se iluminou quando viu quem era.

— Estive pensando quando é que vocês viriam me ver, entrem, entrem, achei que podia ser o Prof. Lockhart outra vez...

Harry e Mione ajudaram Rony a entrar na cabana, que era sala e quarto — tinha uma cama enorme em um canto, uma lareira com um fogo vivo no outro. Hagrid não pareceu perturbado com o problema das lesmas de Rony, que Harry explicou em poucas palavras enquanto baixava o amigo em uma cadeira.

— Melhor para fora do que para dentro – disse Hagrid animado, baixando com ruído uma grande bacia de cobre na frente do menino. – Ponha todas para fora, Rony.

— Acho que não há nada a fazer exceto esperar que a coisa passe – disse Mione ansiosa, observando Rony se debruçar na bacia. – É um feitiço difícil de fazer em condições ideais, ainda mais com uma varinha quebrada...

Hagrid ocupou-se pela cabana preparando chá para os meninos. Seu cão de caçar javalis, Canino, fazia festas a Harry, sujando-o todo.

— Que é que Lockhart queria com você, Hagrid? – perguntou Harry, coçando as orelhas de Canino.

— Estava me dando conselhos para manter um poço livre de algas – rosnou Hagrid, tirando um galo meio depenado de cima da mesa bem esfregada e pousando nela o bule de chá. – Como se eu não soubesse. E ainda fez farol sobre um espírito agourento que ele espantou. Se uma única palavra do que disse for verdade eu como a minha chaleira.

Não era hábito de Hagrid criticar professores de Hogwarts, por isso Harry olhou-o surpreso — o que Rony também teria feito, talvez só com mais satisfação, se não estivesse ocupado agora. Mione, porém, disse num tom mais alto do que de costume:

— Acho que você está sendo injusto. É óbvio que o Prof. Dumbledore achou que ele era o melhor candidato para a vaga...

— Ele era o único candidato – disse Hagrid, oferecendo-lhes um prato de quadradinhos de chocolate, enquanto Rony tossia e vomitava na bacia. – E quero dizer o único mesmo. Está ficando muito difícil encontrar alguém para ensinar Artes das Trevas. As pessoas não andam muito animadas para assumir esta função. Estão começando a achar que está enfeitiçada. Ultimamente ninguém demorou muito nela. Agora me contem – disse Hagrid, indicando Rony com a cabeça. – Quem é que ele estava tentando enfeitiçar?

— Malfoy chamou Mione de alguma coisa. — Harry explicou — Deve ter sido muito ruim, porque ele ficou furioso.

— Foi ruim – disse Rony, rouco, erguendo-se, lívido e suado, até a superfície da mesa. Mesmo naquelas condições, ainda podia sentir o ódio de momentos antes. – Malfoy chamou Mione de sangue ruim, Hagrid...

Rony tornou a sumir debaixo da mesa e um novo jorro de lesmas caiu. Hagrid pareceu indignado.

— Ele não fez isso!

— Fez sim – confirmou Mione. – Mas eu não sei o que significa. Percebi que era uma grosseria muito grande, é claro...

—É praticamente a coisa mais ofensiva que ele podia dizer – ofegou Rony, voltando. – Sangue ruim é o pior nome para alguém que nasceu trouxa, sabe, que não tem pais bruxos. Existem uns bruxos, como os da família de Malfoy, que se acham melhores do que todo mundo porque têm o que as pessoas chamam de "sangue puro". – Ele deu um pequeno arroto, e uma única lesma caiu em sua mão estendida. Ele a atirou à bacia e continuou: – Quero dizer, nós sabemos que isso não faz a menor diferença. Olha só o Neville Longbottom, ele tem sangue puro e sequer consegue pôr um caldeirão em pé do lado certo.

— E ainda não inventaram um feitiço que a nossa Mione não saiba fazer – disse Hagrid orgulhoso, fazendo Mione ficar púrpura de tão corada.

— E é uma coisa revoltante chamar alguém de... – começou Rony, enxugando a testa suada com a mão trêmula – ... sangue sujo, sabe. Sangue comum. É ridículo. A maioria dos bruxos hoje em dia é mestiça. Se não tivéssemos casado com trouxas teríamos desaparecido da terra.

Ele disse sabiamente, mas logo teve uma ânsia de vômito e tornou a desaparecer de vista.

— Bem, não posso censurá-lo por querer enfeitiçar Draco – disse Hagrid alto, para encobrir o barulho das lesmas que caíam na bacia. – Mas talvez tenha sido bom a sua varinha ter errado. Acho que Lúcio Malfoy viria na mesma hora à escola se você tivesse enfeitiçado o filho dele. Pelo menos você não se meteu em apuros.

Hermione, que já tinha ficado impressionada por Rony a defender mesmo sem entender a gravidade do que Draco tinha dito, agora estava mais agradecida ainda — como Hagrid dissera, Rony podia ter se dado muito mal com aquilo. E não só pela influência do pai de Draco, mas pelo aviso da Sra. Weasley sobre Rony se meter em confusão -, e mesmo com tudo isso em mente, o amigo se arriscou para defendê-la, o que era para, no mínimo, se admirar e sentir grata.

Ela sabia, Rony podia ser grosseiro e até mesmo inconsequente às vezes, mas tudo isso era porque ele era alguém passional. Isso significava, como ela acabara de testemunhar, que ele nunca mediria pensamentos ou esforços para defender àqueles que eram importantes pra ele, ou às coisas em que acreditava, e isso era admirável também.

Hermione o encarou enquanto pensava em todas essas coisas e, quando ele se levantou de novo por um momento, seus olhares se cruzaram. Ela o desviou, olhando para Hagrid, e Rony voltou a sumir, inevitavelmente.

Rony achou estranho que Mione estivesse olhando pra ele e logo pensou ser coisa de sua cabeça — devia ter sido só uma coincidência enquanto observava a sala, ou uma alucinação de sua mente relapsa naquela ocasião, por si só, alucinante. É claro que ela não o ficaria olhando só por gosto, ainda mais naquela situação nojenta.

De toda forma, os dois foram tirados de seus pensamentos quando Hagrid disse abruptamente:

— Harry, tenho uma reclamação sobre você. Ouvi falar que andou distribuindo fotos autografadas. Como é que não ganhei nenhuma?

— Não andei distribuindo fotos autografadas – disse ele, alterado. – Se Lockhart continua a espalhar este boato...

Mas, então, Hagrid riu.

— Só estou brincando – disse, dando palmadinhas amigáveis nas costas de Harry, fazendo-o enfiar a cara na mesa. – Eu sabia que não tinha dado. Eu disse a Lockhart que você não precisava fazer isso. Você é mais famoso do que ele sem fazer a menor força.

— Aposto como ele não gostou disso – comentou Harry, erguendo a cabeça e esfregando o queixo.

— Acho que não – respondeu Hagrid, com os olhos cintilando. – E então falei que nunca tinha lido um livro dele e ele resolveu ir embora. Quadradinhos de chocolate, Rony? – acrescentou, ao ver Rony reaparecer.

— Não, obrigado – disse o menino, fraco. Ele soube que se não estivesse sentindo-se tão mal, teria se arrependido na mesma hora da resposta impensável. – É melhor não arriscar.

— Venham ver o que andei plantando – convidou Hagrid quando Harry e Mione terminaram de beber o chá.

Na pequena horta nos fundos da casa havia uma dúzia de abóboras do tamanho de um pedregulho.

— Estão crescendo bem, não acha? – perguntou Hagrid alegre. – Para a Festa das Bruxas... até lá já devem estar bem grandes.

— Que é que você está pondo na terra? – perguntou Harry.

Hagrid espiou por cima do ombro para ver se estavam sozinhos.

— Bom, tenho dado, sabe, uma ajudinha...

— Um feitiço de engorda? – perguntou Mione, num tom de quem se diverte e desaprova. – Bem, você fez um bom trabalho.

— Foi o que a sua irmãzinha disse – comentou Hagrid, fazendo sinal a Rony. – Encontrei-a ainda ontem. – Hagrid olhou de esguelha para Harry, a barba mexendo. – Ela me disse que estava só dando uma olhada pelos jardins, mas eu calculo que estava na esperança de encontrar alguém na minha casa. – E piscou para Harry. – Se alguém me perguntasse, ela é uma que não recusaria uma foto...

— Ah, cala a boca – disse Harry. Rony deu uma risada abafada e o chão ficou cheio de lesmas.

— Cuidado! – rugiu Hagrid, puxando Rony para longe das suas preciosas abóboras.

Segundos depois, eles notaram: era quase hora do almoço. Então, se despediram de Hagrid e regressaram ao castelo. Rony tossia de vez em quando, mas só vomitou duas lesminhas.

Mal tinham entrado no saguão quando ouviram uma voz.

— Aí estão vocês, Potter, Weasley. – A Profa McGonagall veio em direção a eles, com a cara séria. – Vocês dois vão cumprir suas detenções hoje à noite.

— O que nós fizemos, professora? – perguntou Rony, contendo, nervoso, um arroto.

— Você vai polir as pratas na sala de troféus com o Sr. Filch. E nada de magia, Weasley, no muque. — Rony engoliu em seco. Argo Filch, o zelador, era detestado por todos os alunos da escola.

— E você, Potter, vai ajudar o Prof. Lockhart a responder às cartas dos fãs.

— Ah, n..., professora, não posso ir também para a sala de troféus? – perguntou Harry, desesperado.

— É claro que não – respondeu ela, erguendo as sobrancelhas. – O Prof. Lockhart fez questão de que fosse você. Oito horas em ponto, os dois.

Harry e Rony entraram curvados no Salão Principal, no pior estado de ânimo possível, e Hermione atrás deles, com aquela expressão bom-vocês-desobedeceram-ao-regulamento.

Rony estava com gosto ruim na boca por causa das lesmas e bebeu quase um litro de suco. Conseguiu comer um pouco, mas ainda estava enjoado pelas lesmas e agora pela detenção que o aguardava.

— Filch vai me prender lá a noite inteira – disse Rony, com a voz deprimida. – Nada de magia! Deve ter umas cem taças naquela sala. Não entendo nada de limpeza de trouxas.

— Eu trocaria com você numa boa – disse Harry num tom cavo. – Treinei um bocado com os Dursley.

A tarde de sábado passou desapercebida e quando Rony se deu conta já estava indo para a sala de troféus cumprir seu castigo. Filch era uma pessoa cruel, tinha prazer em ver os alunos sofrerem — e Rony achava que já sofrera o bastante para um dia.

Quando chegou à sala, o zelador já o esperava com um pano mínimo, um líquido de polimento e um sorriso sarcástico nos lábios.

—Quero todos os troféus brilhando, Weasley! E nem se atreva a fazer qualquer gracinha como aqueles seus irmãos gêmeos, ou eu dou parte de você ao diretor e quem sabe assim você consegue ser expulso de uma vez.

Rony sequer respondeu: pegou o pano e o líquido de polimento e começou a trabalhar. Era um trabalho demorado — as taças eram cheias de detalhes e Filch vez ou outra passava examinando e exigindo mais atenção dele indicando lugares que não brilhavam muito, na visão dele.

Ele limpou taças de quadribol, taças-troféu de Desafio em Polo e, quando chegou às Taças de Serviços Prestados à Escola, entre um resmungo baixo sobre como suas mãos estavam travando àquela altura, com uma câimbra terrível, Rony engasgou-se e, noutro instante, estava vomitando lesmas em cima de uma enorme taça, velha e empoeirada, nomeada à T.S.Riddle.

Ele teve a esperança de que Filch não tivesse notado, mas logo o zelador estava berrando com ele, dizendo que ele iria polir aquela Taça até ficar nova outra vez.

A princípio, com a exaustão geral e a impaciência, lhe ocorreu a ideia de tirar apenas as lesmas que conseguisse e então simplesmente esconder muito bem aquela Taça, quando Filch não estivesse olhando. Afinal, quem quer que fosse T.S. Riddle, pelo aspecto muito velho daquela coisa que havia ganho e, é claro, pelo ano que ela marcava (1942), já devia estar bem longe dali e há muito tempo: ele provavelmente nem devia se lembrar mais daquele prêmio.

Mas, Rony soube, Filch se lembraria e, principalmente, com certeza checaria o seu trabalho nos detalhes. Então, se apressou ao máximo que pôde para tirar todas as lesmas da Taça inteira e principalmente do nome nela — e mesmo assim ficou uma hora inteira naquilo, e depois lustrando aquela velharia.

Enfim passaram-se quase cinco horas e as pernas de Rony estavam bambas por ficar tanto tempo em pé. Seus braços e mãos latejavam, sendo que nem conseguia mover o braço direito. Quando chegou no dormitório, já de madrugada, viu que Harry, já deitado e de pijama, o esperava acordado.

— Os meus músculos estão em cãibra – gemeu ele, afundando-se na cama. – Catorze vezes ele me fez dar brilho naquela taça de quadribol antes de ficar satisfeito. E tive mais um acesso de lesmas em cima de um prêmio especial por serviços prestados à escola. Levou séculos para retirar as lesmas... Como foi com o Lockhart?

Em voz baixa, para não acordar Neville, Dino e Simas, Harry contou a Rony que ouvira uma voz assustadora dizendo "Venha... venha para mim... Me deixe rasgá-lo... Me deixe rompê-lo... Me deixe matá-lo..."

Rony achou aquilo muito estranho.

— E Lockhart disse que não estava ouvindo nada? – perguntou Rony, franzindo o cenho com desconfiança – Você acha que ele estava mentindo? — perguntou, tentando dar um sentido àquela história.

Lockhart gostava muito de se aparecer, então poderia ter dito que ouvira e exibido uma de suas grandes habilidades ali mesmo — a oportunidade perfeita. Mas, ao mesmo tempo, se ele era mesmo uma farsa covarde como havia se mostrado na aula com os diabretes — e como Rony acreditava ser de fato — caberia muito bem fingir que não ouvira nada.

A menos que fosse alguma criatura de que ele nunca ouvira falar estando por perto, ou uma pessoa com uma capa da invisibilidade, teria que haver algum sinal — uma porta abrindo, algo se mexendo.

Ou ainda, a menos que Harry estivesse mesmo ouvindo vozes. E isso, embora não soubesse o que significava exatamente, Rony sabia, não era um bom presságio.

—Mas, não entendo.- ele continuou a ponderar — Mesmo alguém invisível teria tido que abrir a porta.

— Eu sei – disse Harry, recostando-se na cama de colunas e fixando o olhar no dossel. – Eu também não entendo.

Rony, então, se pôs a pensar naquilo: já era estranho ouvir vozes, ainda mais com aquele tipo de coisa a se dizer. Mas, ele estava tão cansado que logo estava dormindo — o braço, ainda com câimbra, latejando por debaixo do travesseiro.