A sala de estar da Mansão Thorne parecia um cenário de teatro abandonado após a última apresentação. Móveis cobertos por lençóis brancos formavam dunas fantasmagóricas na penumbra, e o único foco de luz vinha da lareira — que estava apagada e fria, mas servia como ponto de referência visual. Julian acendeu um abajur de canto, a cúpula de tecido amarelado lançando uma luz doente sobre o papel de parede descascado.

Ele serviu o uísque em dois copos de cristal pesados. O som do líquido batendo no vidro — glug, glug — foi a única coisa que quebrou o ritmo da chuva por um instante.

— Saúde — disse ele, sem convicção, estendendo o copo para mim.

Peguei a bebida. O cristal estava empoeirado por fora, mas o líquido âmbar parecia limpo. Dei um gole generoso. O álcool desceu queimando, uma linha de fogo que ajudou a dissipar o gosto metálico do medo na minha boca.

Sentei-me na borda de um sofá Chesterfield de couro rachado, mantendo a postura ereta. Julian, por outro lado, desabou em uma poltrona de veludo em frente a mim, esticando as pernas compridas. Ele olhou para as próprias mãos, esfregando uma mancha de azul-cobalto no polegar que se recusava a sair.

— Você não foi embora — observou ele, girando o copo na mão. — A maioria das pessoas teria corrido na hora do "fantasmas datilografam".

— Eu não gosto de mistérios não resolvidos — respondi, observando-o por cima da borda do meu copo. — E também não gosto de ser manipulada. Alguém escreveu aquilo para me assustar. Se eu for embora, eles vencem.

— "Eles" — Julian soltou um riso curto. — Você fala como se fosse uma conspiração.

— E você fala como se fosse normal encontrar vizinhos assustadores na sua porta com correspondências extraviadas.

Meus olhos se desviaram para a mesa lateral de madeira escura, onde Julian havia jogado o envelope pardo que Elias trouxera. Ele estava lá, caído de qualquer jeito, o canto dobrado tocando o chão.

— O que você acha que tem ali? — perguntei.

Julian deu de ombros, bebendo metade do uísque de uma vez.

— Contas. Ameaças de corte de luz. O velho devia dinheiro até para o diabo. Elias disse que era da seguradora, deve ser algum aviso de renovação da apólice que foi para o endereço errado.

— Elias mentiu — afirmei.

Julian parou com o copo no meio do caminho para a boca.

— Como você sabe?

— O envelope — apontei. — Não tem selo postal.

Julian franziu a testa e se inclinou para pegar o envelope. Ele o segurou sob a luz fraca do abajur.

— Você tem olhos de águia, Vance.

— É apenas observação. Se tivesse chegado na caixa de correio de Elias "por engano", teria o carimbo dos correios ou de uma transportadora. Esse envelope está limpo. Elias o trouxe em mãos. Ele não o recebeu; ele o guardou.

Julian rasgou o envelope com uma violência súbita, o papel pardo cedendo com um som seco. Ele puxou o conteúdo: não era uma apólice de seguro moderna. Eram folhas de papel ofício amareladas, presas por um clipe de metal enferrujado.

Ele leu a primeira página em silêncio. Observei a garganta dele se mover enquanto engolia em seco. A expressão de tédio deu lugar a uma carranca profunda.

— O que é? — insisti.

Ele não respondeu imediatamente. Apenas jogou os papéis no meu colo.

Deixei meu copo na mesa de centro e peguei o documento. Minha mente registrou a data no cabeçalho instantaneamente: 14 de Março de 1994.

Era uma notificação extrajudicial.

REQUERENTE: ELIAS VANEREQUERIDO: ARTHUR THORNEASSUNTO: VIOLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS E APROPRIAÇÃO INDÉBITA DE PROPRIEDADE INTELECTUAL REFERENTE À OBRA "SANGUE NA NEBLINA".

Meus olhos correram pelas linhas densas do juridiquês. Elias não estava apenas acusando Arthur de plágio. Ele estava alegando que Sangue na Neblina — o livro que lançou Arthur ao estrelato e lhe rendeu milhões — era, na verdade, baseado nos diários pessoais de Elias sobre o desaparecimento de sua filha, Clara Vane. Diários que Elias confiara a Arthur "em segredo de confissão".

— Meu Deus — murmurei. — "Arthur não escrevia ficção, ele escrevia confissões".

— O velho bastardo roubou a tragédia do vizinho — disse Julian, a voz cheia de um desgosto amargo. — Todo mundo sabia que a filha de Elias tinha sumido, mas Arthur... ele transformou isso em entretenimento de aeroporto.

— E Elias tentou processá-lo — completei, virando a página. Havia uma carta de resposta anexada, assinada pelos advogados de Arthur. Era brutal. Ameaçava Elias com um contra-processo por difamação que o deixaria na miséria se ele não retirasse a acusação.

— Elias desistiu do processo — concluiu Julian, olhando para o teto escuro. — Ele não tinha dinheiro para brigar com a máquina de guerra jurídica do meu avô. Então ele engoliu o orgulho e continuou morando na casa ao lado, vendo Arthur ficar rico com a história da filha morta dele.

O peso da revelação pairou entre nós. O envelope não era um aviso de seguro. Era um lembrete. Uma declaração de guerra antiga que nunca tinha acabado de verdade.

— Por que ele traria isso agora? — perguntei. — Trinta anos depois?

— Porque o réu está morto — disse Julian, olhando para mim com olhos frios e sóbrios. — E talvez Elias ache que chegou a hora de cobrar a dívida.

Bebi o resto do meu uísque. O gosto metálico tinha sumido, substituído por algo pior: a certeza de que estávamos pisando em um campo minado.

— Se Elias acha que pode entrar aqui e reivindicar a casa ou o dinheiro... — comecei.

— Ele não quer dinheiro, Noa — Julian me interrompeu, levantando-se e caminhando inquieto pela sala, a sombra dele se alongando nas paredes. — Você viu a cara dele. Ele quer sangue. Ou, no mínimo, ele quer destruir a reputação do grande Arthur Thorne.

Ele parou diante de uma das paredes cobertas por quadros. Eram pinturas a óleo, paisagens marítimas melancólicas, provavelmente compradas em leilões para decorar o mausoléu.

— Precisamos saber o que mais está escondido nesta casa — disse ele, de costas para mim. — Se Elias estava certo, se o meu avô roubou aquela história... o que mais ele roubou? E o que, exatamente, a máquina de escrever lá embaixo está tentando nos contar?

Peguei meu celular do bolso. O sinal estava fraco, apenas uma barra, mas era o suficiente.

— Eu não sei — respondi, levantando-me também. — Mas eu conheço alguém que pode ver coisas que nós dois estamos perdendo.

— Quem? A polícia?

— Não. Alguém melhor. — Desbloqueei a tela. — Minha irmã.

Julian me olhou com ceticismo, o copo de uísque parado a meio caminho da boca.

— Sua irmã é detetive particular?

— Não. Ela é designer gráfica. E é surda. — Toquei no ícone de videochamada. — O que significa que ela presta atenção no mundo visual de uma maneira que eu e você, distraídos pelo barulho, jamais conseguiremos.

O telefone chamou duas vezes antes da tela se iluminar. O rosto de Margo apareceu, pixelado pela conexão ruim, mas o sorriso dela era nítido. Ela estava no apartamento dela na cidade, com uma luz quente ao fundo e um gato laranja dormindo no encosto do sofá.

Ela acenou, um movimento rápido e fluido.

Noa! Achei que a mansão mal-assombrada tivesse engolido você, ela sinalizou. Suas mãos se moviam com a graça de quem transformou a comunicação em dança.

Apoiei o celular contra uma pilha de livros na mesa de centro para ter as mãos livres.

Quase, respondi, meus dedos assumindo as formas familiares da Língua de Sinais. A casa é horrível. O herdeiro é rabugento. E está chovendo dentro e fora da minha cabeça.

Julian se aproximou, fascinado. Ele nunca devia ter visto uma conversa fluente em sinais antes. Para um artista visual, aquilo devia ser hipnótico.

— O que ela disse? — ele perguntou, sussurrando como se pudesse atrapalhar a conversa visual.

— Disse que achou que a casa tinha me engolido.

Margo franziu a testa, aproximando o rosto da câmera. Ela fez um sinal rápido apontando para o lado, fora do meu campo de visão na tela, mas dentro do campo da câmera do celular.

Quem é a sombra triste atrás de você? perguntou ela.

Sorri de leve.

Esse é o Julian. O herdeiro rabugento.

Julian, percebendo que era o assunto, acenou desajeitadamente para a câmera. Margo rolou os olhos de brincadeira e depois ficou séria. O olhar dela varreu o ambiente atrás de nós, capturado pela lente grande angular do meu celular.

Observei os olhos dela. Margo tinha um "olhar de varredura". Ela não olhava para as coisas; ela as dissecava. Ela via padrões, simetrias e, o mais importante, a quebra deles.

De repente, ela ergueu a mão, pedindo para eu parar.

Noa, mova o celular para a direita. Devagar, ela pediu.

Obedeci, girando o aparelho até enquadrar a parede onde Julian estivera parado momentos antes, a parede coberta de pinturas marítimas.

Pare, sinalizou ela. Ali. O quadro do navio afundando.

Olhei para a parede. Era uma pintura grande, a óleo, retratando um veleiro sendo engolido por uma onda escura. Parecia normal para mim. Velho, empoeirado, deprimente.

— O que foi? — perguntou Julian, vendo minha expressão mudar.

— Ela está olhando para o quadro do navio — traduzi.

Margo fez um gesto de "quadrado" com as mãos e depois o gesto de "torto".

O quadro está nivelado, sinalizou ela, mas a poeira não está. Tem uma linha de poeira um centímetro acima da moldura superior. Alguém moveu esse quadro recentemente e o colocou de volta um pouco mais baixo.

Senti aquele arrepio familiar na nuca.

— Julian — chamei, minha voz tensa. — Margo diz que o quadro do navio foi movido. A poeira na parede não bate com a posição da moldura.

Julian largou o copo na mesa com um baque surdo. Ele caminhou até a pintura, estreitando os olhos. Como pintor, ele devia ter notado. Mas ele estava tão focado na própria miséria e na sujeira da casa que deixou passar. Agora, guiado pelo olhar de Margo, ele viu.

Ele passou o dedo na parede, logo acima da moldura dourada. O dedo voltou cinza de poeira, mas havia uma faixa sutil, quase invisível, onde a parede estava mais limpa.

— Ela tem razão — sussurrou ele. — Alguém tirou isso da parede e colocou de volta. Recentemente.

Pergunte a ele se ele tem mania de arrumar a decoração, sinalizou Margo, percebendo nossa reação.

Não, respondi para ela. Ele quer queimar a casa, não decorá-la.

Julian segurou as laterais da moldura pesada.

— Ajude-me aqui, Noa.

Peguei o celular e disse a Margo:

Tenho que ir. Você acabou de encontrar uma pista. Te amo.

Cuidado, Noa, ela sinalizou, a expressão preocupada voltando. Essa casa tem dentes.

Encerrei a chamada e enfiei o celular no bolso. Fui até Julian.

— No três — disse ele.

Erguemos o quadro pesado. O cheiro de mofo floresceu quando o afastamos da parede. Colocamos a pintura no chão, encostada no sofá.

A parede atrás do quadro não estava vazia.

Havia um nicho cortado no papel de parede e no gesso, um buraco quadrado e escuro que o quadro escondia perfeitamente. E dentro do nicho, não havia joias ou dinheiro.

Havia uma pilha de papéis datilografados, amarrados com um barbante vermelho desbotado.

Julian olhou para mim, o rosto pálido iluminado pela luz fraca do abajur.

— Acho que acabamos de encontrar o motivo pelo qual Elias estava rondando a casa.

Julian estendeu a mão para o nicho escuro, mas hesitou por uma fração de segundo. Era como se ele esperasse que o buraco na parede fosse morder seus dedos. Finalmente, ele agarrou o maço de papéis e o trouxe para a luz.

A poeira dançou no feixe amarelado do abajur. O barbante vermelho que prendia as folhas estava esgarçado, a cor drenada pelo tempo.

— Manuscritos? — perguntei, aproximando-me.

— Parece a primeira versão de algo — murmurou Julian. Ele puxou o laço do barbante. O nó cedeu com facilidade, desfazendo-se em pó fibroso.

A primeira página não tinha título, apenas uma data datilografada no canto superior direito: 2 de Novembro de 1993.

Julian virou a página, revelando o texto. A fonte era a mesma Courier New da máquina lá embaixo, mas a fita estava mais gasta, as letras "e" e "a" levemente borradas.

— Leia — pediu ele, a voz tensa. — Minha dislexia piora quando estou nervoso. As letras estão dançando.

Peguei o maço das mãos dele. O papel era áspero, daquele tipo barato usado para rascunhos. Meus olhos varreram o primeiro parágrafo, minha memória automaticamente cruzando as palavras com o banco de dados que eu carregava na cabeça sobre a bibliografia de Arthur Thorne.

"A menina não gritou quando o chão acabou sob seus pés. Ela apenas olhou para trás, para a silhueta entre as árvores, com uma expressão de surpresa infantil. A queda foi silenciosa, abafada pelo musgo e pelas folhas podres. Mas o som do corpo atingindo a água negra da cisterna, trinta metros abaixo, ecoou como um tiro de canhão na floresta silenciosa."

Parei de ler. Um frio que não tinha nada a ver com a tempestade subiu pelas minhas pernas.

— Isso é o começo de Sangue na Neblina? — perguntou Julian, observando minha reação.

— Não — respondi, minha voz soando estranha aos meus próprios ouvidos. — Em Sangue na Neblina, a vítima, Clara, é encontrada enterrada em uma cova rasa na orla da floresta. Foi assim que a polícia achou o corpo na vida real também. Ou melhor, foi assim que Arthur descreveu no livro, e como a polícia encerrou o caso, embora nunca tenham achado os restos mortais.

Olhei para o texto novamente.

— Aqui... aqui diz que ela caiu na cisterna. Na Cisterna da Pedreira Velha.

Julian franziu a testa.

— A pedreira velha foi inundada e aterrada nos anos noventa. Construíram um shopping em cima dela na cidade vizinha.

— Exatamente — olhei para ele, a gravidade da situação pesando sobre nós. — Se Clara Vane foi jogada na cisterna antes do aterramento, o corpo dela nunca foi encontrado porque está sob toneladas de concreto e água.

Virei a página, procurando mais. Havia anotações nas margens. Letra cursiva, pontiaguda. A letra de Arthur.

Uma anotação em caneta vermelha circulava o parágrafo da cisterna com uma única palavra escrita ao lado, sublinhada três vezes:

VERDADE.

E logo abaixo, em tinta azul, uma correção:

Mudar para cova rasa. Ninguém pode saber da cisterna. Muito específico.

O papel tremeu nas minhas mãos.

— Julian — sussurrei. — Seu avô não roubou apenas a história de Elias. Ele sabia onde o corpo estava. Ele sabia como ela morreu de verdade.

Julian recuou um passo, esbarrando na poltrona. Ele olhou para o maço de papéis como se fosse radioativo.

— Você está dizendo que ele... que ele matou a filha de Elias?

— Ou ele matou, ou ele viu quem matou e ajudou a encobrir. — Levantei os olhos para encarar Julian. — Arthur Thorne construiu um império literário em cima de um túmulo que só ele sabia onde estava.

O silêncio na sala foi absoluto. A chuva lá fora parecia ter parado, como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração.

Então, ouvimos.

Não foi um trovão. Não foi o vento.

Foi o som inconfundível, mecânico e rítmico vindo do andar de baixo, ecoando pelo poço da escada e chegando até nós com uma clareza aterrorizante.

Clack. Clack. Clack. Ding.

A máquina de escrever. Alguém estava escrevendo de novo.