A Cura
36 Sobreviventes

Era fim de tarde quando Taehyung e Jungkook seguiam Jeongin pelas ruas silenciosas de Union. Os três avançavam em formação, atentos a qualquer movimento ao redor. Taehyung mantinha a metralhadora firme nas mãos, percorrendo cada janela, telhado e esquina com o cano da arma. Jungkook caminhava alguns passos à frente, com as duas cimitarras desembainhadas, pronto para reagir a qualquer ameaça. Jeongin, por sua vez, segurava o taco de beisebol com força, tentando controlar o nervosismo enquanto guiava os dois pelas ruas que conhecia tão bem, mas que agora pareciam completamente estranhas.
Durante todo o trajeto, quase não trocaram uma palavra. O único som que os acompanhava era o da respiração acelerada dos três e o ranger ocasional dos equipamentos enquanto caminhavam. A tensão era sufocante. A qualquer instante, uma horda de infectados poderia surgir de alguma viela, de dentro de uma casa ou até mesmo dos carros abandonados espalhados pelas ruas. Por isso, cada passo era dado com cautela.
Depois de alguns minutos, a silhueta do shopping finalmente surgiu à frente. Mesmo em meio ao caos da cidade, sua arquitetura continuava impressionante. O edifício de linhas modernas, fachadas envidraçadas e estrutura imponente parecia ter sido construído para simbolizar a prosperidade de Union. Em outra época, aquele lugar estaria cheio de famílias, crianças correndo pelos corredores, casais passeando e pessoas carregando sacolas de compras. Agora, porém, o enorme prédio permanecia mergulhado no silêncio.
Ao alcançarem a entrada principal, Jeongin aproximou-se das grandes portas de vidro reforçado e bateu três vezes, seguindo um ritmo específico que parecia ter sido combinado previamente.
— Sou eu... o Innie. — anunciou, alto o bastante para que alguém do outro lado pudesse ouvi-lo.
Alguns segundos se passaram até que ouviram o destrancar das travas metálicas. As portas se abriram apenas o suficiente para permitir a passagem. Jeongin fez um gesto para que Taehyung e Jungkook entrassem primeiro. Somente depois de vê-los em segurança do lado de dentro foi que atravessou a entrada.
Taehyung e Jungkook atravessaram a entrada e pararam por um instante para observar o ambiente. Apesar do silêncio e da iluminação reduzida, o interior ainda parecia um shopping comum. As vitrines permaneciam montadas, os corredores limpos e as escadas rolantes imóveis, como se o tempo tivesse simplesmente parado. Quem havia aberto a porta para eles era um rapaz loiro, de estatura baixa, rosto coberto por sardas e expressão amigável. Assim que Jeongin entrou, cumprimentou-o com um leve toque no ombro, enquanto Felix voltava a fechar e trancar cuidadosamente as grandes portas.
— E esses dois? — Felix lançou um olhar curioso para Taehyung e Jungkook antes de voltar sua atenção para Jeongin.
— Esses são Taehyung e Jungkook. Vieram da Coreia do Sul e fazem parte de uma equipe de resgate. Estão procurando uma pessoa e não faziam ideia do caos que encontrariam aqui. Rapazes, este é o Felix, um dos sobreviventes que está abrigado conosco.
Os três fizeram uma breve reverência em sinal de respeito, cumprimentando-se educadamente.
— Prazer em conhecê-los... — Felix sorriu com simpatia para os dois e, enquanto terminava de conferir as travas da porta, voltou-se para Jeongin. — O Hyunjin está desesperado procurando por você.
— O que eu posso fazer? — Jeongin deu de ombros. — Os antibióticos da farmácia onde eu costumo buscar remédios tinham acabado, então precisei procurar em outro lugar. O Hyunjin saiu atrás de munição e eu não podia ficar esperando por ele. Não posso depender dele para tudo. Sei me virar sozinho.
— Claro que sabe. — Jungkook soltou uma risada.
— Ei, aquilo foi só um pequeno contratempo. — Jeongin protestou, cruzando os braços. — No geral, eu realmente sei me virar sozinho.
Felix balançou a cabeça, ainda sem entender direito a conversa entre os três, mas logo voltou sua atenção para Taehyung. Havia esperança em seu olhar, misturada ao cansaço de quem já havia sobrevivido mais do que imaginava ser possível.
— Vocês também vão nos tirar daqui... não vão? — perguntou com seriedade.
— Vamos. — Taehyung respondeu sem hesitar. — Vamos tirar todos os sobreviventes desse lugar.
Felix soltou o ar lentamente, como se aquelas palavras retirassem um enorme peso de seus ombros.
— Mas, antes de qualquer coisa, eu preciso encontrar o meu Jimin. — Jungkook interrompeu, sem conseguir esconder a ansiedade.
— E nós vamos encontrá-lo. — Taehyung respondeu, apertando de leve o ombro dele em um gesto de apoio.
— Venham. — Jeongin fez um sinal para que os acompanhassem. — Talvez o Jimin esteja com o restante do pessoal.
Jeongin conduziu os dois pelos corredores do shopping até os andares superiores. Depois de atravessarem a área da praça de alimentação, chegaram ao cinema e entraram em uma das salas, transformada em abrigo improvisado. Colchões, cobertores, caixas de mantimentos e algumas lanternas ocupavam o lugar onde antes ficavam as fileiras de espectadores. Assim que perceberam a chegada de Jeongin acompanhado por dois desconhecidos armados, todos interromperam o que estavam fazendo e voltaram a atenção para eles.
Jeongin explicou rapidamente quem eram Taehyung e Jungkook e o motivo de estarem ali. Enquanto ele falava, Jungkook percorria cada rosto presente na sala, procurando desesperadamente pelo único que realmente importava. Jimin não estava ali. Sem desistir, Taehyung pegou o celular e mostrou uma fotografia de Jimin para todos os sobreviventes, perguntando um por um se alguém o conhecia. As respostas, porém, foram sempre as mesmas. Ninguém jamais o havia visto, nem antes, nem depois de toda aquela tragédia.
— Nós vamos encontrá-lo. Nem que eu precise revirar esta cidade de cabeça para baixo, eu vou achar o Jimin. — A determinação na voz de Jungkook era inabalável, como se aquela promessa tivesse sido feita primeiro a si mesmo.
— Vamos organizar uma busca. — Taehyung caminhou até uma das janelas da sala e observou a cidade lá fora. — Procuraremos por toda Union e também nos laboratórios subterrâneos de que o Innie falou. Se o Jimin ainda estiver por lá, nós vamos trazê-lo de volta.
— Vocês vão precisar de mais munição ou de algum mantimento? — perguntou Jeongin.
— Munição não é tanto o problema. Viemos preparados para enfrentar uma guerra de verdade... — Taehyung respondeu sem desviar os olhos da janela, observando alguns mortos-vivos vagando lentamente pelas ruas, sem rumo aparente. — Só nunca imaginei que essa guerra seria contra pessoas que já morreram.
— Ainda é difícil acreditar que tudo isso seja real... — Jungkook soltou um longo suspiro. — Eu só quero que o meu Chim esteja vivo e seguro.
— Ele vai estar. — Taehyung respondeu com firmeza. — O Jimin é mais forte do que parece e sabe cuidar de si mesmo. Além disso, ele é filho do presidente Park, aquele homem é uma muralha.
— É... — Jungkook assentiu lentamente, tentando se agarrar àquelas palavras. — O meu Jimin é forte... e está bem. Eu sei que está.
— Bom, daqui a pouco o meu noivo deve voltar. — disse Jeongin. — Ele saiu para buscar mais munição e, quando chegar, vocês poderão levar um pouco também. Não fazemos ideia do que existe nos laboratórios subterrâneos, mas imagino que a situação lá embaixo seja muito pior do que aqui na superfície. É melhor estarem preparados. Enquanto isso, descansem um pouco e comam alguma coisa. Vocês vão precisar de todas as forças para enfrentar os monstros que estão lá fora.
— Vamos seguir o seu conselho. — Taehyung sorriu em agradecimento. — Obrigado, Innie.
Naquele fim de tarde, Taehyung praticamente obrigou Jungkook a se acalmar e comer alguma coisa antes de voltarem à estrada. Ainda havia um longo caminho pela frente, e sair novamente sem descansar nem recuperar as energias seria um risco desnecessário.
Jeongin preparou uma refeição simples, mas bastante nutritiva. Estavam em um shopping e comida era uma das poucas coisas que ainda existiam em abundância naquele lugar. Os quatro se acomodaram em uma das praças de alimentação completamente vazias e comeram enquanto conversavam sobre tudo o que havia acontecido desde o início da tragédia. Jeongin tentou explicar, da melhor forma possível, o que compreendia sobre a parte científica daquilo tudo. Compartilhou hipóteses, levantou teorias e comentou as observações que havia feito durante os experimentos, deixando claro que eram apenas suposições, já que não existiam equipamentos nem condições para realizar pesquisas capazes de confirmar qualquer conclusão sobre o vírus que havia transformado aquelas pessoas.
Quando já estavam terminando a refeição, um rapaz alto surgiu correndo pelo corredor do shopping. Assim que avistou Jeongin, disparou em sua direção sem pensar duas vezes.
— Amor! Innie! Meu Deus, onde você estava? — Hyunjin o envolveu em um abraço apertado e, logo em seguida, começou a examiná-lo da cabeça aos pés, procurando qualquer sinal de machucado.
— Calma, amor... eu estou bem. — Jeongin respondeu com um sorriso sem graça. — Precisei sair. Era urgente.
— Não faz mais isso! — Hyunjin segurou seus ombros e o encarou com o cenho completamente fechado. — Eu não posso te perder. Lá fora é perigoso demais. Se precisar sair outra vez, você só sai comigo. Estamos entendidos?
— Está bem... está bem, amor. — Jeongin respondeu em tom conciliador, acariciando delicadamente os cabelos dele. — Desculpa por te preocupar. Prometo que não vou mais sair sozinho.
— Meu Deus... eu fiquei tão assustado... — Hyunjin o abraçou outra vez com toda a força, aliviado por vê-lo vivo, sem sequer perceber que Taehyung e Jungkook continuavam parados, observando a cena em silêncio.
— Deu tudo certo, meu amor. Calma. — Jeongin segurou o rosto de Hyunjin por um instante e o afastou apenas o suficiente para que ele pudesse enxergar os outros dois. — Amor... temos visitas.
— Visitas? — Hyunjin olhou para o lado e finalmente percebeu a presença dos dois homens. Endireitou a postura, um pouco sem graça. — Me desculpem pela falta de educação. Eu estava desesperado procurando por ele.
— Não precisa se desculpar. Eu entendo perfeitamente. — Jungkook respondeu, lançando um olhar impaciente para Taehyung. Cada minuto parado ali parecia uma eternidade enquanto Jimin continuava desaparecido.
— Esses são Taehyung e Jungkook. Vieram da Coreia do Sul para resgatar um amigo e também vão nos ajudar a sair desta cidade.
— É um prazer conhecê-los. Meu nome é Hyunjin. Eu fazia parte da equipe médica do doutor Ivanov, assim como o Innie.
Taehyung e Jungkook fizeram uma breve reverência em cumprimento.
— O prazer é nosso, Hyunjin. — respondeu Taehyung. — O Innie comentou que vocês conseguiram trazer munições. Ficaria muito grato se pudesse nos ceder uma parte delas. Vamos descer até os laboratórios subterrâneos e não fazemos ideia do que encontraremos por lá.
— Claro, sem problema. — Hyunjin assentiu. — Conseguimos recolher praticamente todo o arsenal que estava no depósito dos guardas da cidade. Armas, munições e até algumas granadas. Os antigos donos... bem, já morreram ou agora estão vagando por Union como aqueles mortos-vivos.
— Agradecemos muito, Hyunjin. — disse Taehyung com sinceridade.
Depois que terminaram a refeição, Taehyung e Jungkook começaram a se preparar para partir mais uma vez. Reabasteceram as armas, separaram carregadores extras, organizaram mochilas com suprimentos e conferiram cada equipamento que poderia fazer diferença lá embaixo. Lanternas, cordas, kit de primeiros socorros e tudo o que julgavam necessário foi cuidadosamente distribuído entre os dois.
Quando finalmente estavam prontos, despediram-se de Jeongin e Hyunjin. Prometeram que voltariam para buscá-los assim que encontrassem Jimin e pediram que ninguém deixasse o abrigo até que retornassem, por mais tentadora que parecesse qualquer oportunidade de sair dali.
Como imaginavam que as chances de encontrar Jimin seriam maiores nos laboratórios subterrâneos, aquele passou a ser o novo destino dos dois. Para chegar até lá, precisariam atravessar praticamente toda a cidade. O problema era que a noite já havia caído, reduzindo drasticamente a visibilidade. Felizmente, os postes de iluminação ainda funcionavam em boa parte das ruas, lançando uma luz amarelada sobre o asfalto e tornando o caminho um pouco menos perigoso.
— Tae... olha aquilo. — Jungkook apontou para uma estrutura alguns metros adiante. — Vem, vamos ver de perto.
Taehyung caminhou ao lado dele. Os dois pararam diante de uma enorme abertura circular no chão. À primeira vista, parecia um poço, embora também pudesse ser algum tipo de duto de ventilação. Nenhum dos dois conseguia dizer com certeza qual era a função daquela estrutura.
— Você acha que isso pode levar até os laboratórios subterrâneos? — Jungkook perguntou, iluminando o interior do enorme buraco com a lanterna. A luz desapareceu rapidamente na escuridão.
— Só existe um jeito de descobrir. — Taehyung abaixou-se, pegou uma pedra no chão e a lançou lá dentro. Os dois ficaram em silêncio, atentos ao eco. Alguns segundos depois, ouviram a pedra bater contra uma superfície sólida. — Não tem água. Então definitivamente não é um poço. Deve ser uma saída de ventilação ou algum acesso ao subsolo.
— Eu vou descer. — Jungkook declarou sem hesitar.
— Nem pensar. — Taehyung o interrompeu imediatamente. — Quem vai descer sou eu.
— Taehyung, eu...
— Jungkook, já está decidido. — A voz de Taehyung não deixou espaço para discussão. — Eu desço. Você fica aqui em cima segurando a corda.
Jungkook soltou um suspiro impaciente e revirou os olhos. Era considerado um dos melhores agentes do presidente Park, mas, para Taehyung, continuava sendo alguém que precisava ser protegido.
Taehyung passou a corda ao redor da cintura e apertou um nó firme, conferindo duas vezes se estava bem preso. Depois caminhou até a borda da abertura. Jungkook amarrou a outra extremidade da corda na própria cintura, apoiou os pés no pequeno muro de concreto ao redor do duto e preparou-se para sustentar o peso do parceiro.
— Tudo certo. — Jungkook respondeu, firmando ainda mais a postura.
Taehyung respirou fundo, lançou um último olhar para Jungkook e, sem dizer mais nada, começou a descer lentamente.
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