A Cura
49 Segura minha mão
Notas iniciais

Naqueles segundos que pareciam se arrastar por uma eternidade, Yoongi finalmente fez sua escolha.
Dimitri permanecia agarrado à cintura de Taehyung, aumentando ainda mais o peso que ele precisava sustentar. Taehyung se segurava desesperadamente à borda com sua mão deformada, fazendo um esforço sobre-humano para não despencar, mas suas forças estavam chegando ao limite.
Yoongi tentava puxá-lo de volta a todo custo, enquanto ouvia os insultos e as provocações de Dimitri, que gargalhava, completamente fora de si, determinado a arrastar Taehyung para a morte junto com ele.
Ao perceber que não conseguiria trazer Taehyung de volta enquanto Dimitri continuasse agarrado a ele, Yoongi sacou sua arma e apontou diretamente para a cabeça do cientista.
— Vai fazer zumbi no inferno, seu filho da puta! — Sem hesitar, Yoongi apertou o gatilho e disparou contra Dimitri, que imediatamente soltou Taehyung e despencou nas profundezas do abismo.
Livre daquele peso, Taehyung conseguiu se firmar por mais alguns instantes, dando tempo para que Yoongi o agarrasse e, reunindo todas as forças que ainda lhe restavam, o puxasse de volta para a borda.
— Taehy, meu amor... — Yoongi o puxou para o colo, envolvendo-o em um abraço desesperado. — Eu jamais iria deixar você.
Yoongi beijava repetidamente o topo de sua cabeça, abraçando-o com tanta força que parecia ter medo de que ele desaparecesse caso o soltasse. As lágrimas escorriam sem controle por seu rosto. Havia sentido novamente o desespero de quase perder o homem que amava, e não suportaria passar por aquela dor outra vez. Quando olhou para o lado, percebeu que o último frasco do vírus havia desaparecido, provavelmente caindo no abismo junto com Dimitri. Aquele segredo estava perdido para sempre, enterrado nas profundezas daquele laboratório, e com ele se ia qualquer esperança de concluir sua missão. Mas Yoongi pouco se importava. Podia ter fracassado como agente, perdido a única amostra que precisava recuperar e colocado tudo a perder. Nada daquilo tinha importância naquele momento, porque tudo o que realmente precisava estava ali, vivo e seguro em seus braços.
— Yoonie... — Taehyung chamou com a voz fraca. — Me desculpa, eu... — Ele interrompeu a própria frase e soltou um suspiro triste, como se lhe faltasse coragem para continuar.
— Ei... — Yoongi segurou delicadamente seu rosto, fazendo-o olhar em seus olhos. — Desculpa pelo quê?
— Eu... sou um monstro.
— Para com isso, Taehy. Você é o meu Tae, e nada vai mudar isso. Quem deveria pedir desculpas sou eu. A culpa foi toda minha. Se eu não tivesse vindo com você, ainda teria seu braço, não teria passado por nada disso... — Yoongi desviou o olhar, tomado pela culpa e pela tristeza.
— E provavelmente eu teria morrido. Não dá pra saber o que poderia ter acontecido, Yoonie. E se aquele contêiner tivesse caído em cima de mim? — Taehyung também estava assustado. Temia que o vírus se espalhasse pelo restante de seu corpo e o transformasse em uma daquelas criaturas horríveis contra as quais havia lutado nos últimos dias. Perder um braço já seria algo aterrorizante, mas seu maior medo era perder a própria consciência, deixando de ser quem era para se tornar uma criatura presa entre a vida e a morte. Apesar de todos aqueles pensamentos angustiantes, sua maior preocupação continuava sendo Yoongi. Mesmo naquela situação, colocava o bem-estar do homem que amava acima do seu próprio.
— Eu sou horrível, Tae... — lamentou Yoongi, com a voz carregada de culpa.
— Não diga isso, por favor. Eu amo tanto você... E não amaria alguém que fosse horrível — Taehyung sorriu gentilmente. Estava longe de se sentir bem, mas, mesmo assim, queria confortar Yoongi e aliviar um pouco de sua dor.
— Eu também te amo, Taehy. Muito. E é justamente por isso que preciso te contar uma coisa... — Yoongi suspirou profundamente, como se estivesse reunindo coragem para dizer algo importante.
— Estou te ouvindo, meu amor — respondeu Taehyung, ajeitando-se no colo dele para que pudesse olhar diretamente em seus olhos.
— Eu menti sobre o meu trabalho... Eu... — Yoongi abaixou o olhar para o chão, sem coragem de continuar. As palavras pareciam presas em sua garganta.
— Ei, eu não vou te julgar. Pode falar comigo, se estiver confortável. E, se não quiser contar agora, tudo bem também — Taehyung respondeu com um sorriso acolhedor, tentando tranquilizá-lo.
— É que eu quero começar algo verdadeiro com você, Tae. Sem segredos, sem mentiras.
Yoongi respirou fundo, reunindo coragem para finalmente contar a verdade. A maleta e o último frasco do vírus já haviam desaparecido nas profundezas daquele abismo. Havia fracassado na missão para a qual tanto treinou, mas, naquele momento, o que mais temia era perder a confiança de Taehyung.
— Eu... não trabalho para o governo russo, nem nada parecido. Na verdade, trabalho secretamente para um CEO milionário que financia pesquisas genéticas de maneira clandestina. Ele tem um cientista trabalhando para ele, um homem que antes fazia parte da equipe de Ivanov, mas conseguiu fugir e acabou se juntando ao projeto desse empresário.
Taehyung ouvia tudo atentamente, tentando assimilar aquelas revelações. Não fazia ideia de que algo daquela proporção estivesse acontecendo naquela cidade, muito menos de que existissem outras pessoas envolvidas nas pesquisas de Ivanov. Imaginou que nem mesmo Namjoon, o presidente, tivesse conhecimento daquilo antes de invadirem o laboratório. Entretanto, Yoongi havia entrado naquele lugar sabendo muito mais do que todos eles.
— Você sabia de tudo o que estava acontecendo aqui e, mesmo assim, decidiu vir? — Taehyung perguntou, encarando-o com uma expressão séria.
— Me desculpa, Tae. Eu... — Yoongi sentiu um nó se formar em sua garganta e desviou o olhar, incapaz de encarar Taehyung. Temia encontrar decepção em seus olhos.
— Yoonie, escuta... Eu não me importo com os motivos que trouxeram você até aqui. Era sua missão, seu trabalho, algo em que você acreditava. Mas, Yoon, você sabia o quanto este lugar era perigoso e, mesmo assim, veio sozinho! Meu Deus, e se alguma coisa tivesse acontecido com você?
Yoongi ergueu os olhos, encarando-o com uma expressão confusa. Não esperava aquela reação. Havia se preparado para enfrentar a raiva e a decepção de Taehyung por ter mentido durante tanto tempo, mas, em vez disso, encontrou apenas uma preocupação sincera. Mesmo depois de tudo o que havia acontecido, Taehyung parecia mais assustado com a possibilidade de perdê-lo do que com as mentiras que acabava de descobrir.
— Você não tá com raiva de mim? — Yoongi perguntou com a voz fraca, ainda receoso de ouvir a resposta.
— Claro que não, meu amor. Você teve seus motivos pra não me contar a verdade, e tudo bem. — Taehyung acariciou delicadamente seu rosto com a mão que não havia sido afetada pelo vírus.
— Taehy... — Yoongi murmurou com a voz embargada, antes de envolvê-lo em um abraço apertado. — Eu te amo tanto. Você é o melhor namorado do mundo.
— Namorado? — Taehyung repetiu, franzindo a testa com uma expressão de descontentamento.
— Ué, não somos namorados? — Yoongi perguntou, afastando-se um pouco para encará-lo, confuso.
— Hum... Acho que enjoei de namorar com você.
— O QUÊ? — Yoongi arqueou as sobrancelhas, completamente indignado.
— Calma, amor. É que acho que precisamos mudar de status. Namorados nós já éramos há muitos anos, quando servimos ao Exército. Agora eu quero algo mais com você. Quero ser seu... é... marido?
— V-você tá... m-me... me pedindo... Meu Deus! — Yoongi gaguejou, levando a mão ao peito enquanto tentava recuperar o fôlego, completamente atordoado com aquela pergunta.
Taehyung riu da reação eufórica do namorado. Yoongi não costumava ficar nervoso ou sem jeito com facilidade, e eram raríssimas as ocasiões em que perdia a compostura daquela maneira. Justamente por isso, Taehyung adorava presenciar aqueles momentos, principalmente quando era ele o responsável por deixá-lo assim.
— Quero me casar com você, Yoonie. Quero passar o resto da minha vida ao seu lado, acordar com você todas as manhãs e construir uma família linda juntos. Quero dividir tudo com você, até as coisas mais simples. — Taehyung falou com um sorriso singelo, olhando-o com todo o carinho que sentia.
— Taehy... — Yoongi murmurou, com a voz doce e os olhos marejados. — Eu te amo tanto, meu Taehy. Eu também quero passar a vida inteira com você. Não consigo imaginar um futuro em que você não esteja ao meu lado.
— Então vamos ter uma vida só nossa. Eu sou todinho seu, meu amor — Taehyung sussurrou antes de se aproximar e beijá-lo delicadamente, prolongando aquele instante para apreciar o calor e a maciez dos lábios de Yoongi, esquecendo-se, por alguns segundos, de todo o horror que os cercava.
Os dois foram arrancados daquele momento de carinho quando Taehyung recebeu uma chamada de Jin, obrigando-os a interromper os beijos e as carícias.
— Jin? Tae na escuta!
— Tae? O que aconteceu? Estou tentando falar com você há horas! — Jin parecia desesperado do outro lado da linha.
— Estou em uma área muito abaixo do térreo, então o sinal aqui é péssimo. Mas, de qualquer forma, a missão está cumprida.
— Ai, deuses... Você está bem?
— Defina "bem" — respondeu Taehyung, olhando de relance para o próprio braço deformado.
— Está inteiro?
— Hum... Digamos que sim.
— Como assim, "digamos"? O que aconteceu, menino?
— Quando eu voltar, conto tudo com mais detalhes. Mas estou bem, sim. Não precisa se preocupar.
— Eu ainda vou morrer de preocupação com vocês... E o Dr. Ivanov?
Taehyung inclinou a cabeça e olhou para as profundezas do abismo, onde conseguiu avistar o corpo de Dimitri, caído em meio a uma poça de sangue.
— Morto! Não vai mais realizar aqueles experimentos malucos. Não era nossa intenção matá-lo, mas acabou sendo inevitável.
— Ótimo! — Jin soltou um suspiro aliviado do outro lado da linha. — Quando voltar, você vai preparar um relatório completo de tudo o que viu e de tudo o que aconteceu aí. Mas agora temos algo muito mais importante para resolver...
— E o que seria?
— Preciso que saiam daí o mais rápido possível! Jimin e Jungkook já estão na superfície, junto dos outros sobreviventes. Enviamos uma equipe de resgate para retirá-los da cidade, e toda a operação está sendo conduzida em sigilo. Mas vocês precisam se apressar, porque...
— Porquê o quê, Jin? — Taehyung perguntou, começando a ficar impaciente com a demora em receber uma explicação.
— Precisamos acabar com esse lugar, Tae! Tudo o que existe aí precisa ser destruído. Já estamos evacuando a região, mas vocês precisam sair imediatamente. Um ataque aéreo vai reduzir essa cidade a escombros. Não podemos permitir que nada desses experimentos sobreviva. Tudo o que está aí vai virar cinzas e ruínas. Então, pelo amor dos deuses, SAIAM DAÍ AGORA!
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