A Cura
37 O poço

Jungkook ia soltando a corda aos poucos, permitindo que Taehyung descesse cada vez mais pelo interior escuro do poço.
— Como tá aí embaixo, Tae? — gritou Jungkook lá do alto.
Taehyung descia com a lanterna presa entre os dentes, já que precisava manter as duas mãos ocupadas na corda. Alguns instantes depois, seus pés finalmente encontraram uma superfície firme. Ele apoiou o peso do corpo, retirou a lanterna da boca e iluminou cuidadosamente o ambiente ao redor.
— Está tudo bem, Kook. Cheguei em... uma espécie de piso de madeira. Espera um pouco...
Taehyung abaixou-se para examinar melhor o assoalho. Posicionou a lanterna de lado, criando um ângulo que iluminava melhor a superfície, e passou os dedos entre as tábuas. Logo encontrou uma pequena fresta. Dela escapava uma corrente constante de ar frio, suficiente para confirmar sua suspeita. Abaixo daquele piso provavelmente existia um espaço vazio, talvez o fim do poço ou, quem sabe, uma passagem que levasse aos laboratórios subterrâneos.
Movido pela curiosidade, Taehyung começou a pisar com força sobre as tábuas, tentando quebrá-las. Era exatamente o tipo de ideia impulsiva que costumava lhe render problemas. A cada impacto, a madeira rangia um pouco mais sob seus pés. Quando ouviu um estalo mais alto que os anteriores, abriu um sorriso satisfeito. Estava muito perto de conseguir atravessar aquele piso.
— Tae? Que barulho é esse? — Jungkook perguntou lá de cima, sentindo pela tensão da corda que Taehyung estava fazendo algum esforço.
— Estou tentando quebrar essa madeira. Tá quase... — Taehyung nem conseguiu terminar a frase. Com mais uma pisada forte, a tábua finalmente cedeu. O problema era que não foi apenas ela. Toda a estrutura de madeira, já completamente apodrecida pelo tempo e pela umidade, desabou de uma vez, abrindo um enorme buraco sob seus pés.
Taehyung ainda tentou se agarrar à corda por instinto, mas já era tarde. O impulso que havia usado para romper a madeira o lançou para baixo no exato instante em que o piso desmoronou. Lá em cima, Jungkook foi violentamente puxado contra a borda do poço, sentindo a corda escapar por suas mãos enquanto tentava desesperadamente segurá-la. O impacto foi tão brusco que o nó improvisado na cintura de Taehyung acabou se desfazendo, e ele despencou cerca de três metros até atingir o chão do nível inferior.
No instante seguinte, Jungkook sentiu a corda perder completamente o peso. Um frio percorreu seu corpo inteiro.
— Tae? TAE? — gritou, ajoelhando-se na borda do poço e tentando enxergar alguma coisa na escuridão abaixo. Nenhuma resposta veio. Apenas um silêncio pesado engoliu sua voz.
Lá embaixo, estendido entre tábuas quebradas e pedaços de madeira espalhados pelo chão, Taehyung escutava a voz de Jungkook ecoando do alto do poço, distante e abafada. A queda havia sido forte. Sua cabeça latejava, a visão permanecia turva e tudo ao redor parecia girar lentamente. Durante alguns minutos, ficou completamente imóvel, encarando o pequeno círculo de luz no alto, onde a lanterna de Jungkook iluminava a abertura do poço como uma estrela solitária em meio à escuridão.
Jungkook continuava gritando sem parar, tomado pelo desespero. Cada segundo de silêncio aumentava sua angústia, e a ausência de qualquer resposta fazia sua imaginação construir os piores cenários possíveis.
A insistência dos gritos acabou arrancando Taehyung daquele estado de torpor. Com dificuldade, abriu a mochila caída ao seu lado, pegou uma garrafa de água e despejou parte do conteúdo sobre o próprio rosto. A água gelada o fez recuperar um pouco da lucidez. Em seguida, passou as mãos pelo corpo, verificando braços, pernas e costelas. Sentia dores por toda parte e algumas escoriações ardiam, mas, para sua surpresa, parecia não haver nenhum osso quebrado. Respirou aliviado, apoiou uma das mãos no chão e, fazendo força, conseguiu se levantar lentamente, ainda um pouco cambaleante.
— Kook... — chamou com a voz fraca, mas o som morreu antes de alcançar a superfície. Jungkook continuou gritando seu nome sem ouvir nada. Taehyung então respirou fundo, encheu os pulmões de ar e gritou o mais alto que conseguiu — KOOK! EU TÔ BEM! CALMA!
Ao ouvir a resposta ecoando das profundezas do poço, Jungkook sentiu um alívio tão intenso que suas pernas quase cederam. Era como se um peso gigantesco tivesse sido arrancado de seu peito de uma só vez.
— SEU CUZÃO, FILHO DA PUTA! — berrou, a voz embargada enquanto fazia um enorme esforço para conter as lágrimas. — VOCÊ TÁ INTEIRO?
— SIM! TÔ VIVO... E INTEIRO! FOI SÓ UM SUSTO!
Jungkook levou uma das mãos ao peito e fechou os olhos por um instante, respirando profundamente enquanto tentava fazer o coração desacelerar.
Taehyung pegou a lanterna caída ao seu lado e iluminou lentamente o ambiente. Estava dentro de uma espécie de túnel estreito e úmido. Atrás dele havia apenas uma parede de concreto, sem qualquer passagem. À frente, porém, uma corrente de ar frio tocava seu rosto de tempos em tempos, indicando que existia alguma saída nas proximidades. O problema era a escuridão absoluta. O feixe da lanterna mal alcançava dois metros adiante, e tudo além daquele pequeno círculo de luz permanecia engolido pelas sombras.
— KOOK?
— OI? VOCÊ AINDA TÁ AÍ? POR QUE PAROU DE FALAR? — Jungkook gritou do alto do poço, incapaz de esconder a preocupação.
— CALMA, EU TÔ AQUI. ESTAVA TENTANDO VER O QUE TEM NA MINHA FRENTE...
— E? — Jungkook perguntou, cada vez mais impaciente.
— PARECE SER UM TÚNEL. E TEM OUTRA COISA... A CORDA NÃO CHEGA ATÉ AQUI EMBAIXO. — Taehyung soltou um suspiro discreto antes de continuar. Não queria preocupar ainda mais o amigo, mas não havia como esconder a realidade. — KOOK... VAMOS TER QUE NOS SEPARAR.
— O QUÊ? NÃO! NEM PENSAR! — A resposta veio imediata, ecoando pelo poço.
— NÃO TEMOS ESCOLHA. VOCÊ NÃO CONSEGUE DESCER ATÉ AQUI E EU NÃO TENHO COMO SUBIR. A CORDA É CURTA DEMAIS.
— ENTÃO O QUE A GENTE FAZ AGORA?
Taehyung permaneceu em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre a situação antes de soltar um longo suspiro. Talvez ainda houvesse uma saída simples para aquilo. Se alguém conhecia a estrutura daquela cidade melhor do que eles, era Jin. Levou a mão ao ponto eletrônico preso à orelha e tentou estabelecer contato, ouvindo apenas uma sequência de chiados antes que a comunicação finalmente se estabilizasse.
— Jin? — chamou, tentando ouvir a resposta em meio às interferências.
— Tae? O que aconteceu? — A voz de Jin surgiu imediatamente do outro lado. Seus dedos já corriam pelo teclado enquanto analisava a localização enviada pelo rastreador. — O sistema mostra que você está próximo à rede de esgoto da cidade.
— Eu caí, mas...
— VOCÊ CAIU? — Jin gritou, fazendo Taehyung afastar um pouco o comunicador do ouvido.
— Calma, não precisa estourar meu tímpano. — Taehyung respondeu, soltando uma breve risada para aliviar a tensão. — Eu estou bem. Foi só um acidente idiota. A queda nem foi tão alta. O problema é outro. Preciso saber se existe alguma saída aqui embaixo.
— Meu Deus, Tae... — Jin passou a mão pelo rosto, tentando controlar a preocupação. — Você precisa tomar mais cuidado. Eu quero vocês dois vivos quando tudo isso acabar. Espera só um minuto. Vou abrir a planta da cidade e procurar alguma saída próxima da sua localização.
Na sala de monitoramento, Jin mergulhou completamente no computador. Em poucos segundos, acessou o mapa estrutural de Union e começou a cruzar informações com o sinal emitido pelo chip de rastreamento implantado em Taehyung antes da missão. Ao lado dele, Namjoon preparava duas canecas de café enquanto observava em silêncio o amado trabalhar freneticamente para encontrar uma rota segura que tirasse Taehyung daquele labirinto subterrâneo.
— Tae, é o seguinte... Se você seguir em frente por esse túnel, vai encontrar uma bifurcação à direita. Pegue esse caminho e continue andando. Ele dá acesso à rede de esgoto da cidade e, de lá, existe uma passagem que leva diretamente aos laboratórios subterrâneos. Mas, Tae...
— Sim? Estou ouvindo.
— Eu só consigo acessar a planta da cidade. As câmeras dessa região estão todas fora do ar, então não faço ideia do que existe nesse trajeto. Você vai entrar praticamente às cegas. Por isso, tome muito cuidado.
— Não se preocupe, Jin. Obrigado pela ajuda. O Kook ficou lá em cima, então não deixa de orientar ele também. Nós vamos nos encontrar mais à frente. Cuida dele, tá?
— Pode deixar. Eu cuido dele. Agora sua prioridade é continuar vivo e chegar aos laboratórios subterrâneos em segurança. Se o Jimin ainda estiver em algum lugar dessa cidade, é bem possível que esteja lá.
— Eu vou encontrá-lo. Daqui a pouco a gente se fala de novo.
— Boa sorte, Tae!
Taehyung desligou a comunicação e voltou a olhar para o alto, encarando o pequeno círculo de luz na superfície do poço por onde havia despencado.
— KOOK! É O SEGUINTE, EU VOU CONTINUAR POR ESSE TÚNEL E VER ONDE ELE VAI DAR. PELO QUE O JIN DISSE, SE EU SEGUIR EM FRENTE, DEVO CHEGAR AOS LABORATÓRIOS SUBTERRÂNEOS. ESCUTA... O JIN VAI GUIAR VOCÊ PELO PONTO E VAI TE MOSTRAR O CAMINHO PARA ENTRAR PELO LABORATÓRIO PRINCIPAL, TÁ BOM?
Jungkook aproximou-se novamente da borda do poço e tentou iluminar o fundo com a lanterna, mas a escuridão engolia quase toda a luz antes que ela alcançasse Taehyung.
— TÁ CERTO, TAE. EU VOU SEGUIR POR CIMA. A GENTE SE ENCONTRA MAIS À FRENTE.
— SE CUIDA, KOOK. NÃO BAIXA A GUARDA!
— PODE DEIXAR. SE CUIDA TAMBÉM, HYUNG. — A palavra “hyung” escapou naturalmente, antes mesmo que Jungkook percebesse o que havia dito. Lá embaixo, Taehyung arregalou os olhos por um instante e, sozinho naquele túnel escuro, abriu um sorriso.
Jungkook permaneceu parado por alguns segundos diante do poço, como se relutasse em abandonar o amigo. Por fim, respirou fundo, guardou os equipamentos, ajustou as armas nas costas e voltou os olhos para a rua escura que se estendia à sua frente.
— Agora vou seguir sozinho.
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