A Cura
6 Myovírus

Namjoon já havia pesquisado exaustivamente sobre aquele tratamento. Leu artigos, consultou especialistas, buscou fontes confiáveis. Tudo para garantir que não estava tomando uma decisão precipitada.
Dimitri tinha uma reputação impecável. Sua droga experimental já estava apresentando bons resultados em outros pacientes terminais. O tratamento parecia seguro.
Namjoon segurava a caneta com firmeza, ainda concentrado, como se quisesse ter certeza uma última vez. Respirou fundo. E então assinou. O papel, agora carimbado com sua autorização, mudaria o destino de Jimin para sempre.
Dimitri sorriu satisfeito, pegando os documentos de volta.
— Fez a escolha certa, senhor Namjoon! — disse com confiança. — Em breve, Jimin estará saudável. Assim como meu filho, que fará o mesmo tratamento. Eles crescerão e se tornarão adultos fortes e saudáveis.
Namjoon sentiu uma onda de esperança invadir seu peito. Ele queria acreditar. Precisava acreditar. Jimin ficaria bem. Namjoon sorriu, sentindo o peso da decisão se transformar em alívio.
— É isso o que mais quero.
…
Na manhã seguinte, os preparativos para o tratamento de Jimin começaram. Ele já aguardava no quarto onde ficaria internado durante o dia. Se tudo ocorresse conforme o planejado, poderia voltar para casa naquela mesma noite.
Enquanto isso, Dimitri seguiu para seu escritório. Fechou a porta atrás de si e caminhou até um quadro elegante pendurado na parede. Com um movimento preciso, o deslizou para o lado, revelando um cofre secreto embutido na parede.
Digitou uma senha e pressionou sua digital no painel de segurança. Um clique metálico ecoou no silêncio do escritório, e a porta do cofre se abriu lentamente.
Lá dentro, repousava uma maleta de metal prateada. Dimitri a retirou com cautela, pousando-a sobre sua mesa. Abriu a trava de segurança e, ao erguer a tampa, revelou vários frascos de vidro cuidadosamente armazenados.
O conteúdo dentro deles era um líquido espesso, verde-escuro e viscoso, seu verdadeiro experimento. O Myovirus.
Dimitri pegou um dos frascos e, sem hesitar, fechou novamente a maleta e a guardou no cofre. Em seguida, retirou a etiqueta original do frasco, que trazia a data, o horário e o nome do vírus. No lugar, colocou uma nova etiqueta, com o nome da droga experimental que deveria ser administrada em Jimin.
Com a falsa identificação no frasco, ele saiu do escritório, mantendo sua expressão fria e controlada.
De volta ao quarto onde Jimin aguardava, Dimitri encontrou Hoseok já preparando os equipamentos. Com a ajuda do assistente, ele montou toda a medicação necessária, incluindo a falsa droga que injetaria em Jimin.
— Vai ser só uma picadinha — disse Hoseok para acalmar Jimin, ele parecia um pouco assustado.
— Eu já estou acostumado e não estou com medo — Jimin tentava parecer corajoso.
— Você é um garotinho muito valente — disse Hoseok preparando o acesso em seu braço.
Hoseok segurou a seringa com firmeza e injetou o líquido na veia de Jimin.
O menino se encolheu imediatamente, não por causa da picada, mas pela ardência intensa que percorreu seu corpo assim que a substância entrou em sua corrente sanguínea.
Seu rosto se contorceu em desconforto, e ele apertou os olhos, segurando o lençol da cama com força.
— Isso… isso queima… — murmurou baixinho, respirando de forma irregular.
Hoseok franziu o cenho, observando a reação do menino. Olhou de relance para Dimitri, esperando alguma explicação.
Dimitri, por sua vez, mantinha os olhos fixos em Jimin, analisando cada pequeno detalhe. Seu exterior parecia calmo e profissional, mas por dentro, uma euforia crescente tomava conta dele. Tudo estava indo como esperado.
Ele pegou seu estetoscópio e começou a examinar o menino, checando batimentos cardíacos, respiração e temperatura. Jimin estava estável.
Dimitri disfarçou sua satisfação, mantendo a expressão neutra, mas, no fundo, sentia um entusiasmo difícil de conter. Seu experimento estava funcionando. Se Jimin resistisse, isso significaria que o vírus poderia ser um sucesso. E, se fosse um sucesso… então seu verdadeiro objetivo estava cada vez mais próximo de ser alcançado.
— Como se sente, Jimin? — Dimitri perguntou.
— Estou… normal, eu acho.
— Hum, ótimo. Os efeitos demoram um pouco, são gradativos, mas se sentir algum incômodo precisa nos dizer, combinado?
— Sim, Doutor. Combinado!
Dimitri solicitou uma série de exames para monitorar a reação de Jimin ao tratamento. Ele passou a semana inteira em observação, enquanto sua equipe avaliava cuidadosamente como seu corpo reagia à "droga”.
O tratamento levaria meses, exigindo que Jimin viajasse para a Rússia uma vez por mês para continuar o protocolo.
Mas, o que ninguém sabia, nem mesmo Hoseok ou Namjoon, era que Jimin já estava infectado com o Myovirus. A única pessoa ciente disso era Dimitri, que trocara a medicação sem levantar suspeitas.
Durante a semana de internação, Jimin apresentou apenas efeitos colaterais leves — uma febre passageira e um leve resfriado.
— Isso é completamente normal. — Dimitri garantiu a Namjoon com profissionalismo. — É uma resposta esperada ao tratamento.
E, de fato, nada alarmante aconteceu. Assim que Jimin estava estável e pronto para partir, Namjoon começou os preparativos para a viagem. Mas eles não iriam direto para casa.
— Vamos para a Disney, como eu prometi. — Namjoon anunciou, sorrindo para o filho.
Os olhos de Jimin brilharam de empolgação, e ele pulou nos braços do pai, animado. Antes de irem embora, Dimitri levou Nikolai até a clínica para que os dois pudessem se despedir.
— Mês que vem eu volto, Niko! — Jimin disse com entusiasmo. — Vamos desenhar e brincar muito mais!
— Sim, nós vamos… — Nikolai respondeu, mas sua voz saiu fraca.
Jimin notou imediatamente. O amigo parecia ainda mais abatido, seus olhos cansados, o corpo frágil como se estivesse perdendo cada vez mais forças.
Ele engoliu em seco, tentando manter o otimismo.
— Vai ficar tudo bem, Niko. — disse, segurando suas mãos frias. — Vamos ficar curados dessa doença. Vamos crescer, fazer faculdade, trabalhar e viajar juntos. Vai ser divertido.
Nikolai tentou sorrir, mas até isso parecia exigir um grande esforço.
— Sim, Jimin… mal posso esperar…
Jimin mordeu o lábio, tentando ignorar a sensação ruim que tomava conta de seu peito.
— Niko, se cuide, tá bom? Se alimente bem e durma certinho, tem que ficar forte!
Nikolai sorriu de leve, tentando não demonstrar o quão fraco se sentia.
— Vou me cuidar… mas você também, ok? — alertou. — Não coma só doces, precisa comer alimentos saudáveis.
Jimin cruzou os braços e fez bico.
— Parece meu pai falando.
Nikolai soltou uma risadinha fraca, um riso pequeno, mas sincero.
— Divirta-se e tire muitas fotos! Quero ver todas!
— Pode deixar, Niko. — Jimin assentiu animado. Seu olhar brilhou de expectativa. — Quero muito tirar várias fotos quando meu cabelo estiver grande também. Vou ficar lindo!
Nikolai o observou por um instante antes de levantar a mão e acariciar suavemente seu rosto.
— Jimin, você já é lindo.Independente de ter cabelo ou não, você já é lindo.
O pequeno ficou sem palavras por um momento, depois abriu um sorriso tímido.
— Obrigado, Niko…
Jimin se inclinou e o abraçou com força, mas o aperto no peito permaneceu. Algo dentro dele dizia que talvez essa fosse a última vez que o veria.
— Até mês que vem. — disse, sentindo um peso em cada palavra.
— Até, Jimin.
Depois da despedida e das últimas orientações de Dimitri, Namjoon e Jimin voltaram para o hotel. Descansaram um pouco, e então, finalmente se prepararam para a viagem tão esperada. A Disney os aguardava. E Jimin mal podia esperar para viver aquele sonho.
…
Jimin corria como um louco pelos parques, a energia transbordando em cada passo. Vestia uma fantasia de príncipe, e era impossível negar o quanto aquilo combinava com ele.
No começo, ele ficou um pouco hesitante. Sentia vergonha de estar sem sua touquinha, pois não gostava que as pessoas vissem sua cabeça sem cabelo. Mas, afinal… príncipe de touca não combinava.
Namjoon percebeu seu desconforto e, antes que pudesse perguntar, Jimin olhou para ele com os olhos brilhando de curiosidade.
— Papai, quando meu cabelo vai começar a crescer?
Namjoon se ajoelhou diante do filho, sorriu com ternura, ajeitando sua roupinha.
— Em alguns meses, meu amor. — disse com confiança. — Depois que o tratamento acabar, seu cabelo vai ficar beeeeem grandão. Vamos deixar até chegar no chão!
Jimin franziu o cenho e cruzou os braços, fingindo indignação.
— Também não, né, papai — protestou. — Assim eu ia virar a Rapunzel! E diferente dela, eu não vou viver preso.
Namjoon riu da resposta afiada do filho.
— E outra coisa! — continuou Jimin, brincando com uma mecha do cabelo do pai. — Cabelo muito grande dá trabalho. Vou deixar igual ao seu, papai. Seu cabelo é bonito.
Namjoon sorriu largamente, o coração apertado de amor.
— Vamos ficar ainda mais parecidos… sabe de uma coisa? Tive uma ideia.
Ele pegou Jimin pela mão e o levou até uma das lojinhas do parque. Minutos depois, Jimin saía de lá com um chapeuzinho do Woody, de Toy Story, na cabeça.
— Agora você é o príncipe dos caubóis! — Namjoon anunciou, rindo. — E sabe o que isso significa? Esses são os príncipes mais fortes de todos!
Jimin se olhou no espelho, admirado. Seu sorriso cresceu e, naquele instante, qualquer resquício de tristeza desapareceu. Ele estava feliz. Estava se divertindo.
Pelo menos naquele dia, Namjoon deixou que ele comesse o que quisesse, e, como era de se esperar, isso significou muitos e muitos doces. O único acordo era que Jimin teria que comer todos os legumes e verduras depois.
Enquanto o pequeno corria de um lado para o outro, Namjoon o observava com admiração. Nunca o havia visto tão bem, tão animado, tão cheio de energia. Um pensamento passou por sua mente, e seu sorriso cresceu. Talvez o tratamento já estivesse fazendo efeito.
…
No silêncio de seu laboratório, Dimitri analisava atentamente os resultados mais recentes dos exames de Jimin.
Os números, os gráficos, tudo confirmava o que ele mais desejava ver. O câncer de Jimin estava parcialmente curado.
Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios. Ele não comemorou em voz alta, mas sua expressão carregava o orgulho e a euforia de um homem que finalmente alcançava seu objetivo.
Ele deslizou os dedos sobre os papéis, observando cada detalhe dos relatórios, saboreando o momento.
— Acho que finalmente consegui a cura. — murmurou, o olhar brilhando em triunfo.
Ele recostou-se na cadeira, inspirando fundo.
— Finalmente… — continuou, baixando os olhos para um dos frascos do Myovírus ao seu lado. — Vou poder curar meu filho de forma segura.
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