A Cura

33 Agentes TaeKook



Jungkook tamborilava os dedos no braço da poltrona do avião, incapaz de permanecer parado por mais de alguns segundos. A ansiedade parecia consumir cada pensamento seu. Olhava constantemente para o relógio, depois para a pequena janela da aeronave, como se isso pudesse fazer o avião voar mais rápido. Desde que decolaram, sua mente só conseguia formar a imagem de Jimin. Não importava o quanto tentasse se concentrar na missão, acabava imaginando onde ele estaria, se ainda estava vivo, se estava machucado ou se tinha medo. Precisava encontrá-lo. Precisava trazê-lo de volta.

A aeronave particular de Namjoon seguia em absoluto sigilo rumo à Rússia. Aquela operação jamais poderia se tornar pública. Se alguém descobrisse que agentes do governo sul-coreano estavam entrando clandestinamente em território russo, as consequências diplomáticas poderiam ser desastrosas.

Taehyung lançou-lhe um breve olhar antes de voltar a encarar a janela. Lá embaixo havia apenas um imenso mar de nuvens iluminadas pelo sol.

— Nós vamos encontrá-lo. — disse calmamente, sem sequer virar o rosto.

— Eu sei. — Jungkook respondeu em tom seco. — Nós vamos.

Taehyung soltou um suspiro impaciente e finalmente desviou o olhar da janela. Cruzou os braços e encarou Jungkook por alguns segundos antes de falar.

— Escuta... eu não estou aqui para ser seu amigo. Também não faço questão nenhuma disso. Estou cumprindo uma missão como soldado e como alguém que o presidente confia. Quero resgatar o Jimin tanto quanto você, então seria interessante que, pelo menos durante essa operação, você lembrasse que somos parceiros. Se cada um resolver agir sozinho, nós dois vamos morrer antes mesmo de chegar perto dele.

Jungkook passou a mão pelos cabelos e mordeu discretamente o lábio inferior. Sabia que Taehyung tinha razão, mas a angústia era grande demais para permitir que pensasse com clareza. Sentia um peso constante no peito desde o desaparecimento de Jimin.

— Eu só... não posso falhar. — Sua voz saiu mais baixa dessa vez. — Não vou voltar sem ele. Preferia ter vindo sozinho. Não sei o que vamos encontrar lá e... não quero colocar mais ninguém em risco. Se eu tiver que me preocupar com você também, tudo fica ainda mais difícil.

— Ai, meu Deus... — Taehyung abriu um sorriso divertido e apertou uma das bochechas de Jungkook como se ele fosse uma criança emburrada. — Que bonitinho... ele está preocupado comigo. Olha só que gracinha. Quase fiquei emocionado.

Jungkook afastou sua mão imediatamente.

— Para com isso.

— Deixa de ser idiota, seu babaca. — Taehyung deu uma risadinha. — Você nem me conhece e já decidiu que vai ter que me carregar nas costas. Relaxa, zé bosta. Eu sobrevivia em missão quando você ainda devia estar aprendendo a dar cambalhota. Faz o seguinte: você salva o seu namorado, eu salvo a sua bunda. Assim ninguém precisa se preocupar com ninguém.

Jungkook o encarou, completamente surpreso. Nunca imaginaria que alguém com aquele rosto tranquilo, sorriso simpático e jeito aparentemente gentil fosse responder daquela maneira. Ainda assim, seu orgulho era grande demais para simplesmente aceitar a provocação.

— Ah, então você é o fodão da história? — retrucou, arqueando uma sobrancelha. — Quero só ver, gênio. Pelo jeito, vai ter bastante oportunidade para provar isso.

— Provar? — Taehyung soltou uma risada de deboche. — Meu cu com farinha que eu tenho que provar alguma coisa. Eu só vou fazer o meu trabalho e foda-se o que pensa de mim.

Jungkook arregalou os olhos, completamente incrédulo. Não conseguia acreditar que aquele era o mesmo homem educado, sorridente e impecável que, minutos antes, estava diante de Namjoon respondendo cada ordem com um respeitoso "sim, senhor".

— Escuta aqui... me respeita, moleque. Eu sou mais...

— Mais velho? — Taehyung o interrompeu antes mesmo que terminasse a frase e caiu na gargalhada. — Ai, Jungkook... você caiu direitinho. Eu tenho cara de neném porque fui abençoado com essa beleza extraordinária, mas sou mais velho que você. Bem mais velho. Então faz o favor de me chamar de Hyung, pirralho fedendo a leite.

— Hyung é o caralho. — Jungkook fez uma careta. — Seu... seu…

Parou por alguns segundos, procurando algum xingamento realmente ofensivo. Não encontrou nenhum. Taehyung cruzou os braços, esperando.

— Vai. Continua. Tô curioso.

— Ah... sei lá! Você é muito irritante!

Taehyung deu uma risada alta.

— Sabia que você ainda vai me chamar de Hyung?

— Nem fodendo.

Jungkook cruzou os braços, virou o rosto para a janela e fez questão de ignorá-lo. Taehyung apenas sorriu de canto, colocou os fones de ouvido e recostou a cabeça na poltrona. A viagem seria longa. E, pelo jeito, provocar Jungkook seria uma excelente forma de passar o tempo.

O jatinho pousou discretamente em território russo, longe de aeroportos movimentados e de qualquer rota comercial. Assim que desembarcaram, Jungkook e Taehyung seguiram em silêncio até um carro preto que já os aguardava. A viagem prosseguiu por estradas desertas durante horas, até que, por fim, o veículo parou diante do único sinal de civilização a quilômetros de distância, em Union, a Cidade Perfeita.

— Daqui pra frente é com vocês. Só posso levá-los até este ponto. — disse o motorista enquanto os dois desciam do carro.

— Muito obrigado, senhor. — respondeu Taehyung com uma breve reverência antes de vê-lo partir.

Jungkook permaneceu imóvel por alguns instantes, contemplando a gigantesca muralha que cercava completamente a cidade. Era alta demais para que conseguisse enxergar o outro lado e extensa a ponto de desaparecer no horizonte. Enquanto ele observava aquela fortificação imponente, Taehyung acompanhava com os olhos o carro desaparecer pela estrada de terra. Ao redor deles não existia absolutamente nada além de vegetação e montanhas distantes. Nenhuma vila. Nenhuma fazenda. Nenhuma estrada movimentada. Apenas aquela cidade isolada no meio do vazio.

Taehyung voltou sua atenção para a muralha e soltou um longo suspiro. A missão sequer havia começado e já era possível perceber que não seria simples. Levou a mão ao comunicador preso discretamente ao ouvido e ativou o canal de comunicação.

— Jin? Jin, está me ouvindo?

— Taehyung? — a voz respondeu alguns segundos depois, com um leve ruído de estática. — Estou te ouvindo perfeitamente. Está tudo certo por aí? Conseguiram chegar?

— Sim. A viagem correu bem. Já estamos em Union e vamos iniciar a infiltração. Assim que conseguirmos entrar na cidade, volto a fazer contato.

— Perfeito. Vou permanecer na escuta. Boa sorte para vocês dois.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, Jin acompanhava toda a operação de dentro de uma sala restrita do gabinete presidencial de Namjoon. Diversos monitores exibiam imagens de satélite, mapas tridimensionais, plantas da região e dados de comunicação interceptados. Caberia a ele orientar Jungkook e Taehyung durante a missão, servindo como seus olhos à distância e fornecendo todas as informações que conseguisse obter em tempo real.

Taehyung e Jungkook começaram a preparar os equipamentos de escalada em absoluto silêncio. Aquela etapa da missão não representava nenhuma novidade para os dois. Ambos haviam recebido treinamento para operações de infiltração e já haviam escalado estruturas muito mais complexas do que aquela. O que realmente os preocupava não era subir a muralha, mas descobrir o que existia do outro lado dela. Poderiam estar entrando diretamente na mira de soldados russos ou em uma emboscada cuidadosamente preparada.

Taehyung ergueu o olhar para as torres de vigilância distribuídas ao longo da muralha e franziu a testa.

— Estranho...

— O que foi? — perguntou Jungkook enquanto ajustava os mosquetões ao cinturão.

— Não tem ninguém nas torres. Segundo o mapa e as informações que o Jin conseguiu, deveria haver pelo menos dois vigias em cada uma delas. Mas olha só... estão todas vazias.

— Devem estar no horário de almoço. — Jungkook respondeu com ironia, conferindo pela última vez os cabos. — Seja lá qual for o motivo, melhor para nós. Vamos.

Taehyung soltou um suspiro discreto e balançou a cabeça, ainda desconfiado.

— Vamos.

Os dois iniciaram a escalada quase ao mesmo tempo. As cordas e os equipamentos profissionais tornavam a subida muito mais rápida, mas o que realmente fazia diferença era a habilidade de ambos. Moviam-se com precisão, aproveitando cada apoio da estrutura sem desperdiçar energia. Em poucos instantes, a escalada deixou de ser apenas uma infiltração e se transformou em uma competição. Nenhum dos dois admitiria em voz alta, mas bastava um ganhar alguns metros de vantagem para o outro acelerar imediatamente, recusando-se a ficar para trás. Era uma disputa infantil e completamente desnecessária, justamente por isso nenhum deles estava disposto a perder.

Quando finalmente alcançaram o topo da muralha, interromperam a corrida imaginária por alguns segundos para observar a cidade que se estendia diante deles. Union parecia surpreendentemente moderna e organizada, com ruas largas, prédios bem planejados e áreas verdes espalhadas por diversos pontos. Vista dali de cima, transmitia a imagem de uma cidade próspera e tranquila. O único detalhe que quebrava aquela falsa perfeição eram algumas colunas de fumaça que subiam ao longe, em diferentes regiões, como feridas abertas em meio à paisagem. Jungkook e Taehyung trocaram um rápido olhar. Aquilo definitivamente não fazia parte do cenário descrito nos relatórios. Sem perder mais tempo, prenderam novamente os equipamentos e iniciaram a descida pelo lado interno da muralha, mergulhando de vez no desconhecido.

Assim que tocaram o chão do lado de dentro da muralha, perceberam que a realidade era completamente diferente da imagem tranquila vista do alto. Os dois sacaram as armas imediatamente e passaram a examinar os arredores com atenção. Taehyung trazia um rifle de precisão preso às costas, reservado para situações em que precisasse eliminar alvos a longa distância. Era uma arma capaz de atingir com extrema precisão um alvo a quase quatro quilômetros, e, ironicamente, havia sido fabricada na própria Rússia. Nas mãos, carregava um fuzil de assalto equipado com um lançador de granadas acoplado sob o cano. Jungkook, por sua vez, levava duas pequenas cimitarras cruzadas nas costas e mantinha empunhada uma Magnum 357, cuja potência era suficiente para derrubar praticamente qualquer alvo com um disparo bem colocado.

A rua onde haviam desembarcado parecia saída de um catálogo imobiliário. De ambos os lados havia fileiras de casas idênticas, construídas em madeira, pintadas de um amarelo suave e cercadas por pequenos jardins muito bem planejados. Árvores alinhadas acompanhavam toda a extensão da calçada, formando um corredor agradável e acolhedor. Em qualquer outro contexto, seria o tipo de bairro onde famílias caminhariam tranquilamente ao entardecer. Mas aquela falsa tranquilidade terminava onde o asfalto estava tomado por corpos espalhados. Alguns permaneciam inteiros, como se simplesmente tivessem caído onde estavam. Outros haviam sido completamente mutilados, deixando membros, vísceras e manchas escuras de sangue seco espalhados pelas calçadas. Moscas zumbiam incessantemente sobre a carne em decomposição, enquanto corvos pousavam sem qualquer receio para arrancar pedaços dos cadáveres com violentas bicadas. O cheiro de putrefação impregnava o ar de forma pesada e sufocante.

Taehyung voltou o olhar para Jungkook, incapaz de esconder o horror estampado em seu rosto. Aquela cena era muito pior do que qualquer relatório poderia descrever. Jungkook, porém, permaneceu inabalável. Seu olhar percorria cada janela, cada telhado e cada esquina, procurando ameaças vivas em vez de lamentar os mortos. Sem dizer uma única palavra, fez um sinal para que Taehyung continuasse avançando. O atirador respirou fundo através do próprio desconforto, tentando ignorar o odor nauseante da decomposição, e seguiu atrás do parceiro, escolhendo cuidadosamente onde pisava para não tocar os restos humanos espalhados pelas calçadas.

Os dois seguiam em absoluto silêncio. Nenhum deles conseguia encontrar palavras para descrever o que via. A única pergunta que martelava suas mentes era: “o que havia acontecido naquele lugar?”

Apesar do silêncio, ambos pareciam compreender exatamente o que o outro estava pensando. Não era hora de formular teorias nem de se deixar abalar pelo cenário à sua volta. Precisavam manter a concentração na missão. Em meio àquele massacre, a única esperança que se recusavam a abandonar era a de encontrar Jimin vivo.

Alguns metros adiante, uma figura solitária chamou a atenção dos dois. Um senhor permanecia parado de costas para eles, imóvel diante de uma grande fogueira improvisada. Não era uma fogueira comum. As chamas consumiam uma pilha de corpos humanos empilhados uns sobre os outros, enquanto uma fumaça espessa e enegrecida subia lentamente para o céu. O homem observava o fogo em absoluto silêncio, sem demonstrar qualquer reação, como se estivesse completamente hipnotizado pelas labaredas. Nem sequer parecia perceber a presença de Jungkook e Taehyung. Jungkook fez um discreto sinal com a mão, indicando que se aproximariam com cautela.

Empunhando a arma, Taehyung avançou lentamente até ficar a poucos metros do desconhecido.

— Senhor? — chamou com a voz firme — Está tudo bem? Nós somos do Exército da Coreia do Sul. Estamos procurando um amigo... — Ele tirou uma fotografia de Jimin do bolso do colete e a ergueu para que o homem pudesse vê-la. — O senhor poderia olhar esta foto? Viu esse rapaz em algum lugar?

Por alguns segundos, o velho permaneceu completamente imóvel. Então um murmúrio rouco escapou de sua garganta, um som estranho e animalesco, como alguém despertando de um longo transe, e lentamente ele começou a se virar na direção deles.

Notas finais
VKOOK TA CHEGANDO NESSE CARALHO AHHHHHHHH Aguenta firme, Chim! (╯°□°)╯︵ ┻━┻