A Culpa - Parte Ii
11 Capítulo 11
CAPÍTULO XI
Era estranho o modo como ele continuava a me tratar depois de todas as experiências que tivemos, mas respeitava seu modo de agir. Apesar de não esperar afeto ou demonstrações de amor, eu esperava não ser ignorada, não depois de tudo que passei. E foi com este pensamento que decidi discutir sobre minhas dúvidas na mesa de jantar.
Ele permanecia calado enquanto comia o prato servido por um empregado humano escolhido, treinado e de certa forma encantado por Vergil. Eu, por outro lado, ao ver o homem desaparecer pela porta disse sem rodeios:
- O que faz quando desaparece?
Vergil me encarou e disse friamente, como de costume:
- Eu preciso de silêncio para me concentrar.
Não pude deixar de rir.
- Não há ninguém aqui para você dizer isso. Apenas me diga a verdade, pois eu acho que tenho o direito de ouvi-la.
Ele pousou o garfo no prato e disse:
- Por que quer tanto saber? Não é necessário.
- Sim, é necessário. Acredito que depois de tudo que passamos, você não pode me esconder o que está planejando. Já que conta para Arkham, qual o problema em me colocar a par da situação?
- São coisas diferentes.
- Diferentes? Claro que são! Ele é um maldito humano! E mesmo assim você o coloca em um patamar elevado!
- Não há motivo para o nervosismo. Não o trato de forma diferenciada e não pretendo continuar ouvindo suas mentiras.
Como ele podia mentir daquela forma?
- Vergil. Eu só quero saber por que também faço parte disso.
Ele permaneceu calado.
- Por que teima em esconder isso? Você ainda não confia em mim ou acha que não sou digna? – respondi ironicamente. Aquele jogo começava a me cansar.
- Se achasse isso não estaria aqui hoje.
- Então? Por que não me conta os motivos de seus desaparecimentos? De seus machucados?
Levantou-se pomposamente me surpreendendo e logo em seguida disse:
- Eu irei lhe mostrar, mas quero que não confunda as coisas.
- Eu não entendo...
- Você entenderá.
Calei-me e o segui. Vergil caminhava apressadamente e me obrigou a pegar minha arma, pois iria me levar finalmente ao local que tanto visitava com Arkham. Subi apressadamente e peguei meu sabre de lâmina curva e voltei ao lado de Vergil.
Já era noite e caminhamos longamente sem trocar qualquer palavra para longe da cidade. Chegamos a uma área arborizada e escura. Parecia um bosque, mas não conhecia bem aquela área para afirmar, além do mais, a escuridão impedia de enxergar com clareza.
Vergil adentrou a mata e eu o segui intrigada, mas não o suficiente para fazer perguntas. Continuei por aquele caminho por vários minutos até que chegamos a uma clareira. Pude perceber uma estátua quebrada não muito longe de onde estávamos e foi até ela que Vergil caminhou. Permaneci parada até entender o que se passava. O mestiço abriu o que parecia ser um alçapão e desapareceu por ele, então eu voltei a segui-lo.
Desci as escadas curiosa e disse ao sentir a umidade do lugar:
- Que lugar é este?
- Aparentemente os humanos o usavam como esconderijo de guerra. Quando o descobri estava abandonado. Ele desce mais pelo subterrâneo e é até onde nós iremos.
O local exalava lodo e umidade e quanto mais descíamos mais frio ficava. Não deveria ser apenas o local, havia algo estranho. Sentia a presença de algum demônio.
- Demônios...
Ele me olhou e voltou a andar até chegarmos a uma área mais ampla e iluminada por archotes. Havia uma porta de madeira e Vergil caminhou até ela.
- Sim, há um demônio aqui.
Mal tive tempo de dizer qualquer palavra, pois logo em seguida Vergil abriu as portas e pude ver ao longe uma grande jaula e dentro dela o que parecia ser um animal.
Caminhei até mais perto para poder compreender o que era aquele ser deitado e arfando como se estivesse cansado. O demônio era maior que um animal selvagem, com pele grossa e cascuda de tom escuro, além de possuir chifres curvos e quebrados. Apesar de sua aparência continuava assustador e ao ver a presença de mestiços ele bufou irritado e colocou-se de pé. Caminhou até a jaula e me encarou cuidadosamente. Suas garras tocaram o metal e pude sentir o hálito quente sair de sua boca.
- Não se deixe enganar. Ele continua poderoso e poderia fugir daqui se não fosse por minha causa.
O demônio urrou e encarou Vergil. Sua cauda balançava de um lado para o outro ameaçadoramente.
- Ele não fala?
- Eu cortei sua língua.
- Por que mantém um demônio aqui?
- Eu preciso como forma de evoluir.
- Como é possível? Pensei que...
Vergil me interrompeu dizendo:
- Eu não evoluo meu físico humano e sim minha essência demoníaca. Preciso me transformar em um para poder aproveitar-me de sua força.
- Deste jeito pode-se aprisionar quantos demônios quiser! – respondi sem esconder minha excitação.
- É um processo perigoso e que requer prática de um mestiço. Este demônio não sai daqui porque o mantenho com um feitiço, vê? – apontou o chão que estava riscado com vários símbolos desconhecidos. — Os demônios... Eles possuem seus próprios meios de evoluírem. Eles sacrificam e escravizam humanos, matam entre si, tudo é aceito para alcançar seus objetivos. Os humanos possuem regras morais e nós, mestiços, muitas vezes caiamos nessa teia de moralidade, mas não eu. Prefiro caminhar de forma dolorosa a vender-me aos demônios, sim... Não nego. Mas, isso – apontou o demônio. – É necessário.
- Qualquer mestiço pode conseguir?
- Sim, qualquer um – continuou andando pela sala até uma mesa. – Mas são poucos que desejam. Meu irmão, por exemplo, nunca teve a idéia e mesmo que tivesse não ousaria. Há outros mestiços escondidos por aí, mas todos fingem ser humanos.
- São poucos que querem alcançar a força deles... – continuei sua frase olhando para o demônio enjaulado.
Ele tirou seu casaco e retirou da bainha Yamato. Depois foi até a entrada da jaula e disse:
- Quando lhe disse para não confundir as coisas estava me referindo ao que você verá. Eu preciso da ajuda de Arkham porque saio debilitado daqui e assim permaneço por algumas horas. É o tempo necessário de dor que preciso enfrentar para ver meu lado demoníaco sobrepor-se ao humano. Agora, que está aqui, você me ajudará.
- Haverá uma hora em que parecerei prestes a morrer, mas não me ajude. Quando finalmente o demônio cair, você pode abrir a jaula e me tirar de lá. Compreende?
Acenei que sim, apesar de não entender naquele momento o que poderia ocorrer entre Vergil e o demônio que parecia enfraquecido.
Assim que Vergil transformou-se em sua forma demoníaca e trancou-se junto ao demônio, jogando a chave para minha direção, percebi que estava errada quanto ao ser bestial.
Ele urrou novamente e de suas costas saíram dois pares de asas machucadas e em vários pontos rasgadas. Ele voou na direção de Vergil e o agarrou com violência. O mestiço, por outro lado, utilizou Yamato com destreza e com um golpe certeiro atingiu um dos olhos do demônio. Sangue jorrou de sua ferida, manchando o chão.
O demônio era maior e não se intimidou com aquele gesto. Vergil saiu da direção da besta e esperou o próximo ataque que veio logo em seguida, mas que desta vez não foi na direção de Vergil e sim, para minha surpresa, na minha.
Pulei na direção contrária ao sentir que o demônio cuspira ácido. Não gritei, apesar de sentir que minha perna havia sido atingida. Olhei para ela e percebi que o local havia sido queimado e a o tecido da calça se desmanchara. Tirei meu sabre por instinto, mas Vergil havia me impedido de abrir a jaula; o que me deixou ainda mais desesperada.
O mestiço ao perceber qual era o objetivo do demônio pulou em sua direção com mais violência que antes e pôs-se a lutar com tamanho afinco que não conseguia distinguir qual dos dois venceria.
Foi então que percebi o estava acontecendo, finalmente. Houve um clarão momentâneo e logo em seguida Vergil, em cima do demônio caído, fincava Yamato em seu peito. Outro urro, mas desta vez de dor, pois pequenos lampejos surgiam enquanto Vergil apoiava-se com mais força sobre a criatura. Aproximei-me mancando e pude ver que ele sussurrava um mantra desconhecido.
Outro clarão e um estrondo. Cai no chão com a surpresa e percebi que o demônio havia desfalecido como dito por Vergil.
Levantei-me no mesmo instante e caminhei receosa até a entrada da jaula. Vergil estava ainda sobre a criatura e me olhou rapidamente antes de cair ao lado dela. Foi então que abri o portão de metal e corri até ele. Com esforço o tirei do chão e senti a criatura arfar lentamente ao me ver tão perto. Pensei, por alguns instantes, que seria atacada pela besta, contudo estava errada. O demônio havia tombado completamente.
Já do lado de fora, coloquei Vergil no chão delicadamente e fechei a jaula com um estrondo. Coloquei o homem desfalecido sentado ao lado da única mesa do lugar. Fui até ela e voltei com seu casaco, colocando sobre o mestiço desmaiado. Ajoelhei-me e disse pausadamente, esperando algum sinal vital:
- Vergil...?
Havia vários ferimentos causados pelo combate frontal com o demônio e de uma das feridas, que se assemelhava a uma mordida, saia um liquido esbranquiçado que percebi ser o ácido expelido pelo demônio. Ele parecia fraco e incapaz de causar mal, pensei ao olhar seu rosto. Logo, ele acordou e suspirando com dificuldades disse:
- Nós precisamos ir.
Concordei com a cabeça e o ajudei a levantar. Ele apoiou seu corpo em mim e juntos saímos da sala subterrânea. O demônio continuava desacordado, mas não havia morrido. Vergil, por outro lado, estava fraco, como dissera que ficaria, e não disse qualquer palavra até sairmos do esconderijo. Ao fechar o alçapão e voltar até onde o havia deixado, encostado na estátua quebrada, ele disse:
- Você está mancando.
- Não é nada.
- Foi a primeira vez que ele tentou atingir alguém de fora...
Não sabia ao certo o que dizer, mas havia entendido o sentido das palavras ditas por ele. Ao invés de responder, apenas o ajudei a se levantar e continuei a andar pela clareia, rumo ao bosque.
O caminho foi silencioso até chegarmos à mansão. Ambos queríamos chegar logo ao conforto daquela casa e assim que alcançamos a porta de entrada, Vergil disse:
- Leve-me até meu quarto.
Assim o fiz. Deitei-o na cama e voltei depois de alguns minutos com uma jarra de água quente e uma toalha. Ao perceber isso, Vergil me olhou com censura, mas o ignorei.
- Até quando será necessário isso? – perguntei me sentando ao seu lado e tirando o casaco e colete que vestia. Apesar de não concordar com meus cuidados, estava fraco demais para opor-se a eles.
- Eu saberei quando for a hora – respondeu num tom baixo e contido.
- Eu posso ajudá-lo, se quiser – disse calmamente enquanto passava a toalha em seu peito e braços machucados.
- Por um momento pensei que não concordaria.
- É cruel e mostra que nos distanciamos lentamente da humanidade, mas eu acho que ambos sabemos disso, não é mesmo? Afinal, foi a minha escolha também...
Ouve minutos de silêncio enquanto limpava seus machucados até que Vergil disse:
- Será mais fácil conseguir o que quero de Dante. E ele aprenderá que permanecer ao lado dos humanos é fraqueza.
Dante... Estranhamente eu sentia falta daquele mestiço.
Depois que terminei meus cuidados levantei-me e disse antes de voltar a caminhar:
- Você pode me chamar se precisar – sabia que ele nunca faria isso, mas parecia algo normal a se dizer naquele momento.
Quando já estava na porta o ouvi dizer:
- Sua ferida logo cicatrizará. O veneno daquele demônio é poderoso, mas ele estava debilitado quando a atacou.
Concordei com a cabeça e sai de seu quarto sem olhar novamente para trás.
Notas finais
OBS: algo me diz que o Dante aparecerá no próximo capítulo *cof cof*
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