Dei luz a meu filho em casa. Sozinha. Por horas e horas, sofri para que aquele pequeno ser olhasse para o novo mundo ao seu redor. Aliviada, pois minha gravidez não fora fácil, e ao mesmo tempo, preocupada com o seu futuro.

Eu estava fraca e com a visão turva, mas consegui pegar o bebê recém-nascido. Era um pequeno e frágil garoto e chorava como se o mundo fosse acabar naquele dia.

Peguei em meus braços e ele acalmou-se um pouco. Seus poucos cabelos eram de um tom loiro claríssimo e seus olhos eram acinzentados. Mas, havia algo errado...

Não, não podia ser verdade.

Ele era humano? Sim, ele era. Pude sentir a energia típica de humanos ao seu redor e estremeci. Se houvesse algo de demoníaco era tão fraco que se tornava impossível sentir. Olhei para seus olhos desolada... Era tão lindo.

- Por que, meu amor?

A pequena criatura em meus braços parecia entender meu sofrimento e recomeçou a chorar. Eu não sabia o que fazer. Era como se me roubassem outro sonho.

As palavras de Dante queimavam em meu cérebro como uma lição pelos meus erros. Seria possível que estivesse pagando por tudo aquilo? Nunca acreditei nesse tipo de castigo transcendental, como se fosse algo que escapasse de nossas mãos. Como se precisasse pensar em todos nossos atos, pois poderia haver castigos. Claro, sabia que tudo que fosse feito teria conseqüências, mas vê-las como castigo era algo além de minha compreensão.

Por ter feito tudo sozinha, pois desconfia de todos, tive maiores complicações em limpar todo o local. A sorte era que possuía mais forças que uma humana e pude levantar-me rapidamente e preocupar-me com o meu filho. Na verdade, preocupava-me mais com o que faria com aquele ser indefeso e que agora parara de chorar.

- Não esperava isso...

Sim, eu estava desapontada. E, ao observá-lo em toda sua fragilidade, não pude deixar de sentir um pouco de ódio e asco também. Ele ainda estava sujo; não conseguia limpá-lo. Aquela criança lembrava o passado humano que tanto tentávamos esquecer, aquela fraqueza inerente a eles. Não havia nada de melhor nele, seria mais uma na grande massa sem identidade.

Sentei na cama novamente e comecei a chorar. Sim, nem mais me lembrava o que eram lágrimas, mas elas saiam de meus olhos e não conseguia impedi-as. Eram tantas... Quem me visse ali, sentada e desnorteada, viria apenas uma humana fraca e desamparada. Sem esperança.

Levantei-me depois de algum tempo e comecei a caminhar pelo quarto, provocando mais choros do bebê. Ele deveria estar com fome? Frio? Não sabia... Na verdade, não me importava.

Caminhei até ele e o embrulhei na manta da cama.

- Quietinho, agora.

O pequeno continuava chorando. Coloquei um casaco com capuz e o peguei em meus braços. Talvez por sentir o calor do meu colo, parou de chorar. De qualquer forma, sai pela porta da frente da mansão e caminhei por várias horas até encontrar um táxi livre. Entrei e quando o motorista perguntou para onde, eu não soube o que responder.

- Querida, eu preciso saber para onde. Se quiser eu ando sem rumo, mas você vai pagar mesmo assim.

- Não. Apenas me leve para Fortuna.

- Espero que tenha dinheiro para pagar a viagem de ida e volta.

- Não precisamos conversar disso. Aliás, tudo o que acontecer nesta viagem será esquecido, humano – disse seriamente sem deixar de manter contato visual com o motorista. Apesar de ter meus sentidos enfraquecidos conseguia enfeitiçar um humano com facilidade. Principalmente almas fracas.

O motorista concordou com a cabeça e ligou o carro com o olhar vidrado. Era nítido que estava sobre meu efeito e eu agradeci por ainda ter forças para isso.

Fortuna... Uma cidade não muito longe, contudo afastada por sua disposição geográfica. Era uma ilha de porte médio e que abrigava uma cidade infestada de religiosos fanáticos. Um grupo conhecido como A Ordem, veneradores de Sparda; apesar de duvidar que conhecessem o real personagem por trás da lenda.

Era possível chegar até a cidade de Fortuna por um túnel que atravessava o mar que a circulava. Quando era pequena pensava que a mística Fortuna só era possível de se chegar através de barcos ou botes... Aquilo habitou minha mente até o momento que descobri que apesar de viverem pelo culto religioso e a cidade ser repleta de construções góticas, havia modernidade lá.

Depois de quase uma hora de viagem, pedi para o motorista parar o carro em uma rua deserta e escura, mas eu sabia qual era meu destino. Desci do carro e pedi para que esperasse pacientemente.

Olhei a rua e comecei a caminhar, parando na entrada de um beco. Havia uma construção imponente logo ali, que circulava o beco sem saída. Era o orfanato de Fortuna. Era conhecido por darem a órfãos uma melhor chance e acolhia crianças desamparadas não só de Fortuna.

Sentei-me na calçada do beco e olhei o bebê em meus braços. Ainda estava sujo, mas eu não conseguira tocá-lo direito ainda.

- Não vou conseguir.

Eu sabia que me sentiria culpada por ter dado luz a uma criança humana e toda vez que o olhasse me sentiria pior. Podia ser cruel, mas era o melhor. Eu nunca o aceitaria e lá, no orfanato, ele seria rodeado de crianças e adultos como ele. Lá ele poderia ser feliz, ao contrário do que aconteceria se permanecesse ao meu lado.

Levantou-se e colocou o recém-nascido na entrada do orfanato. Ele começou a chorar, mas eu o ignorei. Caminhei com passos apressados até o taxi e ao entrar pedi para que voltasse imediatamente.

Ainda olhei para trás, até o orfanato desaparecer na escuridão.

- Adeus, meu filho.

A partir daquele dia mergulhei na solidão e reflexão. Não procurei notícias de Dante e tentei esquecer o que o mestiço poderia estar planejando. Estudei atentamente o diário de Vergil e procurei algo que pudesse usar a meu favor, contudo nada me levava até uma solução para o desaparecimento de Vergil. Neste tempo matei humanos para usar em rituais, os transformei em fantoches, como os livros diziam; prendi demônios que pudessem me dizer algo sobre o inferno. Contudo, tudo foi em vão. Era como se uma barreira tivesse sido criada.

Anos se passaram e sempre me lembrava de meu filho, mas nunca tive coragem de revê-lo, pois a única coisa que me impedia era o orgulho. Constantemente tinha sonhos e visões sobre sua infância ou vislumbrava minha mãe perguntando por que fizera aquilo com uma simples criança.

Depois de três anos do desaparecimento de Vergil tivera uma visão estranha na entrada da mansão e aquilo me assombrou por diversos meses e me revigorou para buscar novas respostas. Um dia, quando estava na sala, senti uma presença desconhecida e forte como a de um demônio. Caminhei até a entrada e vi parada no jardim da frente uma pessoa vestida de roupas púrpuras e antigas. Seu rosto era tão branco quantos seus cabelos e ao perceber a semelhança com Vergil caminhei chocada o suficiente até mais perto.

- Vergil? – perguntei intrigada.

A figura pareceu perceber minha intenção e com um clarão desapareceu.

Era possível aquilo ocorrer? Era possível ser Vergil? Infelizmente, não obtive respostas, apesar de deduzir com meu conhecimento de que se tratava de uma visão fantasiosa, ou até mesmo, de um demônio querendo aproveitar-se de meus sentimentos.

Enquanto o tempo passava percebi que não era mais a mesma. Havia escolhido o caminho da solidão e amargura e, mesmo que tentasse nada mais despertava meu interesse, pois meu descontentamento era imensurável. Perdi o interesse por pequenas coisas e até feitiços e rituais não me interessavam mais. Talvez, tivesse perdido o interesse pela própria vida.

Por que continuar viva, então?

Notas finais
A Culpa está próximo ao fim, pessoal @_@ Espero que estajam gostando ;**