A Culpa - Parte Ii
1 Capítulo 1
Olhei para fora e percebi que já escurecia. Incrível como o tempo poderia passar rápido quando se encontrava algo interessante. Eu me espreguicei na poltrona e levantei, caminhando até meu quarto no final daquele corredor. A semana havia sido cansativa e ainda tentava encontrar maneiras de me divertir. Engraçado como o meu conceito de diversão havia mudado nos últimos meses desde o dia que decidi aceitar quem eu era. Ao chegar ao meu quarto liguei o abajur no criado-mudo, joguei o livro na cama e comecei a tirar minha roupa, ansiosa por um banho revigorante; foi quando ouvi um estranho barulho vindo do banheiro. Já estava praticamente nua e sabia que alguém me observava. Suspirei, pois sabia quem poderia ser...
— Alice, o que está fazendo aqui de novo? – perguntei mantendo a calma para Alice, que desta vez decidira aparecer em sua forma adulta.
Se existia algo que me irritava era essa mudança física de Alice. Com o tempo percebi que não havia muito de delicado naquela criança. Era só uma mortal desejando satisfazer seus desejos e vaidade vendendo a alma para o demônio. Em troca ela poderia transformar-se em adulta quando quisesse... Seduzir presas fáceis. Infelizmente, aquilo não dava certo comigo. Na verdade, ela quase não aparecia em sua forma adulta para mim; talvez ela gostasse de ser mimada como criança. Afinal de contas, ela era apenas uma criança mimada.
— Observando você – Alice falou num tom despojado. Parecia estar fazendo algo tão normal.
— Eu posso ver isso. E naturalmente, tentando me enganar. Eu não senti sua presença.
Dei às costas para Alice e peguei o roupão pendurado. Escutei seus passos atrás de mim e quando a olhei já havia se transformado numa doce menininha de sete anos. Como aquilo me irritava.
— Pensei que você fosse gostar de me ver aqui, como adulta – ela completou com um olhar malicioso.
— Você não é adulta para mim. Não se esqueça que a conheci primeiramente em sua forma infantil. Então... – suspirei – E além do mais, você me chamava de mãe.
— Você está certa. Desculpe – Alice me abraçou com força e logo em seguida correu para fora do quarto. Eu fiquei olhando alguns segundos o vazio ainda tentando compreender o que se passava com aquela menina.
— Dane-se – falei voltando para o banheiro. Desta vez tomaria um banho em paz...
Tantas coisas aconteciam ao meu redor e eram nestes momentos que podia parar para pensar nos meus atos. Enquanto observava a espuma na banheira pensei se as coisas poderiam realmente dar certo. Era algo estranho pensar sobre isso depois de meses naquela casa, mas, ás vezes, eu pensava se teria alguma chance em conquistar o que me fora negado por tanto tempo. Parecia tão distante, apesar de Vergil negar piamente isto. Constantemente meu diálogo com Vergil, o diálogo que iniciara minha nova vida, voltava em minha mente. Era como um lembrete do que havia me tornado. Por que era claro, a Taria de antes não existia mais.
“Você quer poder, não é? Posso te dar isso que tanto quer.”
Poder por vingança... Falando assim parecia fácil, mas não era. Eu segui meus instintos, confiei em Vergil e tudo parecia estar dando certo, mas ainda falta algo. Eu sinto um vazio dentro de mim que não consigo explicar, e tenho certeza que ele acabaria me censurando se explicasse o que se passava comigo. Falaria algo distante como:
“Isso é normal. É parte do treinamento. Logo tudo ficará claro para você”
Vergil... Tão diferente de Dante. Isso eu não poderia negar. Muitos falariam que ele era cruel e frio. E sim, ele realmente não se importava com pequenas coisas, mas não conseguia ser indiferente, se fosse não estaria ali.
Se fosse indiferente não perderia seu tempo comigo.
— Talvez ele vá me matar... Quando não for mais útil – suspirei desaparecendo na banheira.
O que adiantaria? As dúvidas não desapareceriam tentando se afogar na banheira.
Voltei à superfície e sai da banheira molhando o chão de mármore branco. Ao chegar no quarto me assustei ao notar um vestido preto de cetim na cama.
— Não acredito... Alice, sua pirralha. Você entrou aqui de novo sem minha permissão.
Mesmo assim não pude deixar de rir ao olhar o vestido cuidadosamente colocado na cama. E mesmo não gostando deste tipo de roupa, o coloquei.
Olhei-me no espelho e percebi que a cicatriz no ombro feita pela espada Yamato ainda não havia cicatrizado totalmente. Vergil me ferira em uma luta de tal forma, que era provável que aquilo fora feito somente para seu prazer sádico em ver qualquer pessoa subjugada perante seu poder. De qualquer forma, não poderia fazer muita coisa e logo desapareceria.
Joguei meus cabelos para trás num coque, peguei o pequeno livro velho que estava lendo e sai pela porta em direção à sala de estar. Não esperava encontrar Vergil, pois este havia saído pela manhã sem avisar quando voltaria e aquilo só poderia significar uma coisa: aquela mente estava planejando algo. Mas era melhor assim. Pelo menos poderia ler em paz na frente da lareira.
Parei na metade do caminho ao sentir sua presença — Vergil voltara — Suspirei profundamente, esperando que trouxesse boas notícias. Desci às escadas, sem mudar meu caminho, pois ele só poderia estar na sala de estar, mas parei antes de chegar à porta da sala ao sentir algo diferente. Ele não estava sozinho. Alice estava com ele, mas apesar de ouvir a voz infantil, não parecia a presença de uma criança. E eu ainda achava que já poderia ter visto tudo relacionado com aquela menina.
Pude escutar, enquanto caminhava até a porta da sala, a voz doce e delicada de Alice conversando com Vergil. Poderia ser uma filha pedindo algo para o pai ausente, mas não era este o tom de voz da pequena. Poderia soar doentio, mesmo sabendo que ela não era uma simples criança, mas a menina provocava Vergil, da mesma maneira que uma mulher poderia provocá-lo. Sacudi a cabeça tentando ignorar as falas da menina e apareci na porta da sala fingindo não ter ouvido nada.
Alice, que estava ajoelhada na frente de Vergil, apoiando as mãos de criança em seus joelhos, levantou-se rapidamente ao me ver e sorriu alegremente.
— Você colocou o vestido!
Alice correu até mim e disse:
— Eu gostei. Ficou bonita e parece uma dama. É assim que tem que ficar sempre e não daquele jeito masculino.
— Eu não posso lutar de vestido, querida – falei sorrindo de forma afetada.
Vergil, que até então fitava sua espada Yamato, olhou para nossa direção e falou com o costumeiro olhar arrogante:
— Alice, por que você não vai para seu quarto?
Alice, pude perceber, fuzilou Vergil com o olhar antes de sair da sala batendo os pés. Vergil não disse nada até ouvir uma porta sendo batida com violência.
— Por que não se senta?
— Claro – respondi indiferente sentando na poltrona oposta a ele.
— Preciso falar com você, Taria.
Como eu imaginava...
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