A Culpa é do Destino
3 Capítulo 3 - A pessoa mais doce que já conheci.
Notas iniciais
Ela desligou. Já eram mais ou menos sete horas da noite, e deduzi que daqui à alguns minutos, minha mãe iria entrar no quarto falando que era o horário dos remédios... E era. E ela entrou no meu quarto sem bater na porta, com uma bandeja de comida em suas mãos.
— Já sei, remédios e comer. — falei para ela quando entrou no quarto e revirei os olhos. — Vou tomar meus remédios super legais, oba! — ironizei.
— Hazel. — ela me repreendeu.
— Que é? — falei já indo em direção ao armário de remédios que havia no pequeno banheiro do meu quarto.
— Eu sei que os remédios não são "super legais", mas são pro seu bem. — ela respondeu.
— É só que...
— Só que? — perguntou.
— É só que eu queria ser uma pessoa normal.
— Você é normal, você só tem câncer.
Ok. Ouvir aquilo vindo da minha mãe foi estranho. Eu quase à respondi sendo grossa, mas como não consegui, abaixei a cabeça e ela saiu do quarto. Sempre dizem que quando você tem câncer, são os seus pais que sempre querem te ver bem e sorrindo, mas, sinceramente, não senti isso nas palavras de minha mãe. Deixei isso de lado (também deixei a bandeja que ela havia trazido), e deitei. Comecei a fuçar em alguns sites da internet, mas não encontrei nada de bom. Aí eu liguei a televisão, nada de bom também. Aí eu comecei fuçar (de novo!) no meus contatos do celular. A. Alice, Andressa, Augustus... Augustus. Cliquei no contato. Liguei para o contato. Sem mais de 10 segundos para ele atender a ligação, ouvi sua doce voz do outro lado da linha: "Hazel Grace!"
— Oi, Augustus. — falei num tom entendiado.
— Aconteceu alguma coisa, Hazel Grace?
— Não aconteceu nada. E é só Hazel.
— Ok, só Hazel Grace. — ri — Que tal eu ir aí, na sua casa?
— Agora?
— É. Algum problema?
— Não, é que meus pais estão aqui em casa.
— Ah, sim. Mesmo assim estou indo.
— Como é que...?
— Estou indo.
— Ah tá. — ri — Então te espero.
— Ok. — ele disse. E eu bati o celular na cara dele, uhul! Me senti idiota por ter batido o celular na cara dele, estava avoada. Desci com meu botijão literalmente de gás e sentei no sofá da sala, esperando Augustus chegar. Meus pais estavam preparando o jantar na cozinha. A campainha tocou e fui atender. Era Augustus, como estava lindo. O abracei e pedi para entrar.
— Uau! — ele falou.
— O que? — ri.
— Essa casa é demais!
— Ah, tá. — falei.
— E você... — ele sussurrou e eu mordi os lábios, rindo.
— Você não vai querer conhecer os meus pais, acredite.
— Por que acha isso?
— Não sei... — respondi e sentei no sofá. Ele se sentou em seguida, ao meu lado. — É...
— Que foi?
— Não sei puxar assunto. — sorri. — É, meus pais estão na cozinha e provavelmente vão vir aqui daqui à pouco. E vão fazer milhares de perguntas sobre você. Vão começar a ter a mesma conversa chata que tivemos com sua mãe. Então acho melhor irmos para meu quarto, não acha? — perguntei.
— Se eles vão achar estranho no meio da sala, por que achariam normal no quarto? — ele perguntou num tom malicioso, que até chegava à me assustar — Estou brincando, Hazel Grace! — ele riu.
— Ah. — ri de volta — Então venha.
O guiei até a escada para o próximo andar e subi na frente dele. Atravessamos o corredor, que a cada dia mais parecia aumentar, e finalmente chegamos à pequena porta do meu pequeno quarto. Entrei e ele entrou logo em seguida, e fechei a porta.
— É tudo isso... Onde eu vivo! — falei preguiçosamente e joguei-me em minha cama.
— Belo quarto. — ele fez cara de bobo.
— É muito provável que minha mãe entre no quarto daqui alguns minutos. Então vá se preparando para responder algumas perguntas... — suspirei, e ele deu sorriso torto — Eu sei que é horrível, mas os pais são assim, não é?
— Bem. Os pais costumam ser assim.
Ri. E acho que Augustus Waters pensava que eu era uma vidente ou algo do tipo, porque não se passaram nem 3 minutos e minha mãe entrou no quarto. Ela perguntou se nós estávamos namorando, perguntou sobre o diagnóstico de Augustus, perguntou se eu estava bem... Resumindo, se eu desse uma folha e uma caneta para minha mãe neste momento, ela poderia escrever a biografia inteira de Augustus Waters com participação da doença de Hazel. Legal!
— Mãe... — disse para ela, bufando.
— Que foi, meu amor?
— Deixe eu e o Augustus sozinhos, por favor? — revirando os olhos — Ele não quer saber das suas perguntas.
Ela ficou sem graça e só respondeu "Ok", tão baixo que eu acho que Gus mal ouviu. Era agoniante ver a minha mãe enchendo a minha vida só porque arranjei um novo amigo. Sim, amigo.
— Eu... — Gus disse.
— Você o que? — aumentei o tom de voz com Gus. Até com o Gus. Sou uma idiota.
— Eu acho que você não tratou sua mãe como deveria. — ele disse rapidamente, e ficou quieto por alguns segundos depois. Olhava para baixo, para cima, para a janela.
— Ela só quer se meter na minha vida e agora até na sua vida, Augustus. — me sentei de costas para ele, na beira da cama — Eu só estou querendo te tirar disso, ela não tem direito algum de opinar a minha vida, e muito menos a sua. — e o silêncio continuava pelo quarto. Pude perceber que Gus não concordava comigo, e preenchi o silêncio com "Que tal assistirmos um filme? Depois você vai pra casa, ou... eu sei lá." ele me disse "Ok." e assistimos o filme mais triste das histórias dos filmes tristes, Sempre Ao seu Lado. Não era a primeira vez que eu o assistia, mas chorava em cada parte como se fosse. Notei Augustus me olhando e o senti me abraçando enquanto minhas lágrimas rolavam. Era bom, estar ali, com ele. Só que as coisas boas duram pouco, infelizmente. Olhei para o relógio e estavam marcando nada mais, nada menos do que 23h30.
— Gus. — olhei para ele, quase fechando os olhos de tanto sono. — Já são onze e meia.
— Onze e meia? — ele riu — Já é tarde...
— Sua mãe deve estar preocupada com você.
— Minha mãe? Sinceramente não.
— Por que você acha isso? Mães sempre se preocupam.
— A sua mãe sempre se preocupa. — ele me corrigiu — A minha mãe sabe que se eu estivesse com algum problema, ligaria para ela.
— Ah claro, como se tivesse sinal de celular de todos os lugares.
— Bem... Ela sabe que eu vim para cá. E aqui tem telefone fixo.
— Faz sentido. — sorri e me levantei da cama, fazendo um leve esforço. Me sentia um pouco tonta, mas acho que era só mais uma das típicas "quedas de pressão" que uma adolescente com câncer tem. Mas era estranho, e doía. Sentei na cama, fechei os olhos.
— Você está bem? — Augustus me perguntou.
— Aham. — disse. Abri os olhos e minha visão começou à se ajeitar, a dor passava — Foi só uma queda de pressão de uma garota com câncer.
— Queda de pressão de uma garota com câncer? — ele perguntou.
— É. Típico, né? — respondi brincando.
— Talvez. — não tinha entendido sua piada, mas aceitei.
— É... — falei — Não é muito tarde?
— Um pouco.
— Vamos lá embaixo, tomar alguma coisa. — pedi para ele.
Fomos. Ah, aquele corredor que ficava maior à cada dia, e as escadas... Resumindo em duas palavras: Era horrível. Atravessar o corredor, descer as escadas, tudo. "Aceitar" é horrível. Mas eu já aceitei, e por isso continua horrível. A maioria das pessoas pensa que a vida que você tem se gera de outra vida. Se você foi ruim em outra vida, você será uma pessoa sem muitas coisas nessa vida, e pelo visto eu fiz muitas coisas ruins em outra vida, ruins a ponto de não poder respirar. Eu e Augustus descemos as escadas e fomos até a cozinha, meu pai estava lá.
— Pai! Este é o Augustus. — o apresentei para meu pai.
— Muito prazer, Sr. Lancaster. — Augustus disse.
— Quanta formalidade, Gus! — ri.
— Só estou tentando ser educado. — ele me respondeu.
— O prazer é meu, Augustus. — papai completou — Vejo que vocês se dão muito bem.
— Bastante. — respondemos em uníssono, com uma leve risada depois.
Meu pai subiu para o quarto com minha mãe. Abri a geladeira e peguei um suco de uva para mim e para Gus. Tomamos, e foi engraçado o ver com aquele bigode de suco, era tão fofo. E tão tarde. Pelo visto ele não se preocupava com o horário, mas recebi um torpedo da minha mãe: "Pede para o Gus ir embora, já está muito tarde!!" então, pelo visto era bem tarde.
— Gus. — olhei para ele — Minha mãe me mandou isso. — falei mostrando o torpedo para ele.
— Ah meu Deus, a mãe da minha namorada me expulsando da casa dela? — ele disse fazendo uma cena falsa de drama.
— Namorada...? — perguntei. E olhei para baixo. O silêncio tomou conta do lugar logo em seguida. Então falei para ele entender o motivo de minha mãe estar pedindo isso: Preocupação. Ele entendeu, se despediu de mim e foi para casa. Eu fiquei super envergonhada com o "namorada" que ele havia falado. Respondi o torpedo de minha mãe com um "Já foi". Visualizado às 00h20. Meia noite e vinte? Oh Deus, o tempo voa ao lado de Gus. Então subi as enormes escadas (de novo!) e fui para meu quarto. Tomei um banho e coloquei a pijama mais quentinha que eu tenho, simplesmente para preencher o frio que Augustus havia me deixado. Uau, que poético. Deitei na cama e comecei a mexer no meu celular. E já era tarde, 1h00 em ponto. Como eu demoro dentro do chuveiro. Minha mãe veio até meu quarto e desconectou-me do botijão, ligando minha cânula ao BIPAP. Adormeci.
[...]
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