Notas iniciais
Leiam as notas finais! ^^

[...]

Retirou, pregado na parede de seu quarto, o mapa que ganhou de presente dos pais — amava aquele pôster. Foi até a janela conferir se, daquela vez, o jornal teria anunciado certo e naquela noite algumas estrelas ficariam mais fáceis de serem vislumbradas.

Os olhos amendoados brilharam, tanto quanto os belos pontinhos que apreciavam na imensidão daquele céu negro, agraciados pelas várias luzes da U.A estarem apagadas devido ao toque de recolher e, assim, não atrapalharem a paisagem.

Suspirou resignada.

Ochako queria ter permissão para poder sair dali nem que por meros 10, Okay, 20 minutinhos e poder olhar sem os limites e riscos que sua janela pequenininha oferecia. Se estivesse em casa passaria a noite no telhado, sozinha com seus pensamentos, sonhando e fantasiando como fazia desde criança.

Foi o espetáculo de um céu estrelado que a ajudou em seu sonho de se tornar super heroína. Tinha o poder do universo, Zero Gravidade!, era onde as belas e incontáveis constelações adormeciam imponentes por toda a eternidade.

Quem sabe aquele não lhe seria um sinal, radiante, de que estaria destinada a realizar coisas majestosas e inimagináveis?!

Sorriu sozinha, lembrando das histórias que inventava para si mesma naquela época antes de dormir, quando um vulto no jardim em frente ao dormitório chamou sua atenção.

O Sol...

Quer dizer... — sentiu as bochechas corarem com seus devaneios idiotas sempre que aquela cabeleira rebelde aparecia em seu campo de visão — Bakugou andava tranquilamente, após sair pelo prédio deles, em direção a sabe-se lá onde. Era impressionante a preocupação nula que o rosto calmo, o que era uma raridade, esboçava descumprindo regras sem nenhum pudor.

O coração de Uraraka disparava na velocidade de um meteoro, como sempre acontecia quando seus pensamentos eram obrigados a repousar sobre a figura de Bakugou Katsuki. Os olhos vermelhos como chamas, os cabelos amarelos e dono de uma personalidade que combinava perfeitamente com sua individualidade devastadora.

Uraraka sempre preferiu os astros que lhe agraciavam a imaginação de noite, isso até conhecer um conjunto de explosões de alta periculosidade que pisava no gramado sem nenhum remorso naquele exato momento. Bateu no rosto com a palma da mão. A mãe daquele menino não havia lhe ensinado modos?!

Parecia uma ironia grotesca do destino sentir-se atraída por ele, porém não havia como negar que uma estrela específica só podia ser vista durante o dia, e aquela em particular era capaz de colocar todo seu sistema funcional de cabeça para baixo.

Não sabia o que estava fazendo. Odiava e amava ao mesmo tempo as reações que Bakugou causava nela, mas quando deu por si, pulou da janela com a adrenalina correndo solta por toda sua corrente sanguínea.

Uma parte sua gritava sobre o perigo daquilo, sobre regras, sobre etiquetas e hierarquia social. A outra lhe dizia que apenas ela daquela turma podia se jogar de um quarto, de qualquer andar, sem se preocupar nenhum pouco em morrer no processo de aterrissagem.

Era esse tipo de coisa que Bakugou inspirava nela, bem como em vários colegas de classe, e que lhe dava uma energia até então desconhecida. Como se fosse bobagem duvidar de si mesma, como se não houvesse outra alternativa a não ser escandecer...

Segundos antes de tocar o chão com os pés e uma das mãos, flutuou, tendo um pouso seguro e calmo. Mordeu os lábios olhando para trás, a parede que separava o dentro e o fora, o certo e o errado... Por outro lado, se demorasse mais acabaria perdendo Bakugou de vista.

Regulou seu peso para não fazer barulho ao correr e seguiu no encalço do loiro. Só queria se certificar que tudo estava bem, né?! Se ele se metesse em problemas de novo talvez fosse expulso e ...

Não queria nem pensar sobre essa última possibilidade.

Para sua surpresa de perseguidora — onde estava com a cabeça mesmo quando teve aquela ideia? — Bakugou foi até o lago que se estendia por fora do grande salão de treinamento de resgate, o que um dia foi invadido pela União dos vilões.

Ele se aproximou da borda e deitou no chão, relaxado, com os braços acima dos ombros servindo de apoio para a cabeça.

Observava o céu.

Escondida entre a vegetação, Uraraka achou a cena intrigante. Quem visse Bakugou tão descansado e disperso jamais imaginaria que aquele era o garoto mais odiado e temido do 1-A.

Pela hora da noite o leve vento chicoteava gelado na pele clara de Uraraka. Claro que agindo como uma teimosa quebradora de regras não havia pegado um casaco ou nada do tipo.

Queria poder dizer que se perdeu admirando livremente o céu noturno que tanto amava, como havia desejado a poucos minutos atrás. Entretanto, a dança que as madeixas loiras realizava pelas bochechas, bem como por todo o rosto de Bakugou, era a estrela principal do palco denominado "total atenção de Ochako".

As feições podiam ser melhor desenhadas quando ele não estava gritando e ameaçando matar qualquer pobre coitado. Se já havia conseguido enxergar beleza em alguém explosivo e barraqueiro, imagine naquela pessoa serena que parecia apenas meditar diante de uma paisagem tão encantadora.

A luz da lua cheia refletia sobre a água. Parecia surreal àquela hora, aquela noite, dentro da U.A existir um cenário digno de um cartão postal. Se não fosse a temperatura baixa estaria tudo perfeito.

Tentando se posicionar melhor e evitar uma cãibra nas panturrilhas, Uraraka para mudar de posição se mexeu de leve, ou foi o que pensou até o simples quebrar de um graveto fino parecer a própria cantoria em soprano do Present Mic, dado o silêncio religioso que aquele cenário descrevia.

Primeiro arregalou seus olhos castanhos, sentindo o sangue fugir em alta velocidade de seu rosto — que era o que ela mesma sentia vontade de fazer se não fosse, de alguma forma, piorar ainda mais sua situação.

Talvez ele não tenha escutado?!

Enquanto fazia uma oração silenciosa de agradecimento, torcendo para o outro nem ter notado, ou associado o barulho a pequenos roedores, teve seus pensamentos interrompidos por uma voz grave e que jamais poderia ser sinônimo de calmaria, mas que era exatamente como ela se apresentou:

— Eu sei que está aí, Cara de lua. — Bakugou não fez nenhuma menção de sair de seu lugar. Havia achado a posição perfeita e revezava o olhar entre o céu estrelado e a água que apenas o refletia, só que com um filtro diferenciado.

Uraraka suspirou derrotada. Em uma escala de 0 a 10, se odiava a 1 bilhão naquele momento. Onde iria enfiar sua "cara de lua"?! Estava sempre passando vergonha na frente de Bakugou, preferia mil vezes passar despercebida ao invés de fazer papel de boba, ou como a atual situação sugeria: uma stalker.

— E como você sabe que sou eu?! — Perguntou resignada, ainda atrás daquele tronco de árvore idiota, sabendo que seu rosto deveria estar vermelho como um pimentão.

Bakugou sorriu de canto, tendo ciência de que ela não conseguiria ver esse gesto. Confessaria que o vento denunciou seu perfume?! Aroma esse muito bem conhecido e prezado por ele?

Jamais.

— Eu só sei. — Se limitou a dizer. — Pode ficar aí pra sempre ou trazer essa cara de lua pra cá e sentar aqui de uma fucking vez.

— A-aah, n-nã-a-oo, eu... Eu só estava... — Se atrapalhou toda desejando cavar um buraco, pular dentro e nunca mais sair dele.

Só estava o que, Uraraka?! PASSEANDO ALEATORIAMENTE NAQUELE MESMO HORÁRIO E LUGAR?!

Engoliu a vontade de chorar, frustrada, e saiu de seu "esconderijo secreto". Indo sentar-se ao lado, não muito perto, dele.

— É ... — sentiu que precisava falar alguma coisa. — Não sabia que você gostava de observar a natureza.

— Tenho a impressão de que você não sabe quase porra nenhuma sobre mim. — Apesar da fala direta, bem a seu modo, não saiu de maneira ríspida.

— Bom, isso é verdade. Mas quis dizer que não é o tipo de coisa que alguém associaria a sua pessoa, como pré-julgamento mesmo. — Pontuou.

— Não que eu dê a mínima pra essa merda, mas que tipo de coisa alguém associaria a mim? — Achou que se desse corda, talvez ela ficasse mais à vontade e não com aquela cara de cachorro que caiu da mudança.

— Tortura e esquartejamento. — Respondeu na lata.

Ele virou o rosto para encará-la. Deveria surpreender-se por achá-la linda como sempre? Provavelmente não. Acabou rindo de leve pela resposta, carregando ela no embalo.

Quebrado um pouco o gelo, Ochako resolveu também deitar de costas na grama. Para o bem ou para o mal, teve seu desejo realizado, podendo contemplar aquele show celestial.

Levantou o polegar, medindo algumas.

— O que diabos você está fazendo, Cara de Lua?! — O outro perguntou curioso.

— Estou mapeando. — Respondeu dispersa. — Você entende algo sobre?!

— Porra nenhuma. — Bakugou agora prestava atenção no lago. — Mas é bonito pra caralho, é só o que eu preciso saber.

Sabia sobre a lua e suas fases, porém, ficou com preguiça de explicar.

— Nisso concordamos. — Ela suspirou, sentindo que parte sua voltava àquela época que adormecia no telhado de casa. Bons tempos. — Você não sente frio?! Locais próximos da água parecem piores! — Esfregou os braços tremendo de leve.

— Foi exatamente por isso que eu escolhi esse lugar. — Confidenciou sem saber porque raios sentiu vontade de contar o que viria a seguir: — É difícil competir com minha maldita temperatura interna. Aqui consigo ficar neutro.

Olhou de soslaio pra ela, certificando-se que não estaria o achando um grande idiota.

— Neutro?! — Os dentes baterem algumas vezes. A cena lhe pareceu fascinante e acabou sorrindo de novo, fechando os olhos e balançando de leve a cabeça.

— Você não deveria ter trazido um casaco ou alguma merda do tipo?! — Se Bakugou prezava pelo baixo grau, óbvio que não trouxe nada consigo.

— Eu não pensei muito antes de vir. Nem deveríamos estar aqui! Você sabe disso, não é?! — Não que, graças a sua recente conduta, estivesse em posição de dar lição de moral em alguém.

— Foda-se. — Foi tudo que ele respondeu, o que levou ela a adotar o silêncio continuo.

Engoliu em seco, contrariado, não foi uma tirada nem nada assim.

Merda.

— Às vezes... — Limpou a garganta, desconcertado. Caralho era só a porra de uma conversa normal, seja uma pessoa! — Às vezes não, sempre, eu preciso relaxar pra conseguir pensar direito. Geralmente tô sempre ligado no 220 então... – Procurou novamente o rosto dela, porra, tinha a completa atenção da única garota que o fazia olhar pra trás. — E você não deve tá querendo saber das minhas merdas ...

— Não, por favor! — A porra daquele sorriso sincero. Engoliu em seco fitando o céu pra distrair. — Você parece estar agindo sempre por impulso mesmo, é difícil acompanhar...

Uraraka tentou ser casual, sentia uma luz piscando dentro de si por vê-lo tão à vontade na sua presença, sentiu-se boba por pensar que estar por perto causaria algum incômodo nele.

— Eu não consigo desacelerar esse caralho. — O peixe mordeu a isca. — Uma vez que dou partida minha própria cabeça parece que vai explodir junto com tudo que eu faço. Às vezes consigo colocar alguma porra de juízo, mas nada que faça grande diferença no fim das contas.

— Bom, apesar das constantes ameaças, você nunca realmente matou alguém. Então talvez tenha uma grande diferença sim. — Ponderou fazendo com que ele sorrisse pelo nariz.

— Porra, verdade. — Fechou os olhos pra balançar a cabeça. — Nesse ponto você tá certa, Cara de lua.

— Espero não estar te prejudicando nesse seu ritual de purificação ou algo do tipo. — Acabou de se tocar que aquilo era o máximo que ele se permitiria chegar se tratando de terapia e, hey, lá estava ela, se intrometendo e estragando tudo.

Se amanhã alguém for pra UTI sabemos quem terá sua parcela de culpa, ironicamente falando.

— Não, não, relaxa. Você... — Quase mordeu a porra da própria língua pra evitar de falar merda. "Você ajuda", era o que quase pronunciou como um otário. — Você não tá atrapalhando nem nada assim.

— Ah que bom. – A voz era tão melodiosa, tudo nela parecia ser harmonioso.

Franziu as sobrancelhas pensando no suposto melhor amigo dela.

Todos já haviam comentando a mesma coisa e, se fosse para colocar a lápis, as qualidades e o jeito de agir do Deku realmente combinavam, estavam bem abaixo na sua opinião, porém, ainda era o mais próximo que alguém ali poderia chegar perto da nobreza de Ochako.

Chegava a ser clichê de tão previsível, e essas não eram características que Katsuki associaria a morena baixinha de rosto encantador.

Contudo, era inegável que andavam juntos para cima e para baixo na companhia do quatro olhos, seria uma inocência que beirava a estupidez não considerar que rolava algo, pelo menos de alguma das partes. Quem em sã consciência viveria pregado naquele chaveirinho sem sentir nada?! Só se fosse cego, surdo, mudo... E por aí vai.

Bakugou sabia que a resposta iria doer mais do que fosse demonstrar, mas precisava ouvir pra seu cérebro de merda não ficar fantasiando depois como o completo babaca que ele era.

— Você achou que eu iria brigar com o nerd filho da puta de novo. — Declarou do absoluto nada. — Por isso me seguiu.

Apesar de não alterar os apelidinhos carinhosos, todos já conseguiram notar que algo havia mudado na relação dos dois, Katsuki e Midorya. Uraraka foi de longe a primeira a perceber, tanto que, diferente das outras vezes, não houve o ódio por trás das palavras dele naquele momento, algo que antes era o esperado.

Porém, havia uma certeza que a deixou com uma pulga atrás da orelha: aquilo não era uma pergunta, era uma afirmação. Poderia querer dizer alguma coisa?

— Na verdade, não. — Declarou sem reservas. — Eu estava tentando ver o céu melhor pela janela do quarto quando te flagrei escapulindo sozinho.

Não saberia decifrar aqueles olhos vermelhos que passaram a lhe encarar com intensidade depois de sua última fala. Queria dizer que conseguiu desviar a tempo, mas acabou se perdendo nas brasas que pareciam lhe queimar viva.

O contato se estendeu por incontáveis segundos, Ochako esqueceu como usar a voz, sabia que se não falasse algo ficaria ali, hipnotizada como uma boba apaixonada para sempre.

Será que, só naquela troca de olhares, ele conseguiria ler seus segredos mais obscuros?! Como as vezes que se pegava sonhando acordada, tendo permissão de passar os dedos entres as madeixas loiras tão selvagens.

Não importava o quanto evitasse, sempre acabava pensando naquele esquentadinho e, quanto mais pensava, mais desejava ter algum contato com ele. Contato físico, diretamente falando.

Sentiu as bochechas ardendo, como se aqueles orbes flamejantes tivessem adquirido o poder de esquentá-la só fitando-a daquele jeito enigmático. Sem contar todas as explosões que se desencadeavam, naquele momento, em seu sistema nervoso.

— É, eu sei, um dia essa curiosidade ainda me mata! – Conseguiu, com muito esforço, desembuchar. Se referindo ao fato de tê-lo seguido só para descobrir o que estaria aprontando, o que não era da sua conta.

Riu nervosa tentando disfarçar. Por fim, virou a cabeça para o outro lado, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha para tentar evitar o impulso de cobrir todo o rosto com as mãos e, assim, acabar se entregando mais ainda.

Céus, era tão óbvia!

— E você, Cara de lua, entende algo?! — Puxou assunto, tentando aliviar a pesada tensão que se instaurou no ar. Não queria vê-la inventando uma desculpa esfarrapada e saindo correndo, que era exatamente o que ela estava prestes a fazer.

— O quê?! — Uraraka parecia perdida. Ele apenas retirou um dos braços, que estavam servindo de apoio no pescoço, para apontar para o céu com movimentos circulares.

— Ah, sim. Muito, para falar a verdade. Eu sempre amei as estrelas, mas não é lá grande coisa.

— Qual o nome daquela ali?! — Apontou para uma que se destacava em seu campo de visão.

— Qual?! — Teve que se aproximar dele para ter uma exata noção de para onde o dedo indicava. Inocente, se debruçou levemente, girando a cabeça para que ficasse reta com a mão masculina estirada.

Amava quando testavam seus conhecimentos astronômicos, era a única hora que podia se exibir com um assunto que não parecia importante no dia a dia.

Nem notou que seus cabelos soltos acabaram dançando sobre o rosto e o pescoço do outro. Mas Bakugou sim, e como notou! O coração falhou algumas batidas com o cheiro dela tão perto. As mechas sedosas fazendo cócegas sobre a pele desnuda.

Engoliu em seco.

— Órion. — Uraraka respondeu satisfeita. — Você sabia que...

Os olhos dela eram tão grandes. Foi uma das primeiras coisas que pensou ao vê-la pela primeira vez. Era o que achava de mais bonito nela.

Deslumbrantes.

Óbvio que prestava atenção no que ela falava, como se tivesse ensaiado em frente ao espelho, porém conseguia estar ligado em várias coisas ao mesmo tempo, tinha sentidos aguçados.

Exemplo? As bochechas estavam coradas desde que ficou olhando feito um besta para aquele rostinho angelical. Na verdade, Ochako sempre ficava com aquela aparência na frente dele, gostaria que não fosse coincidência, mas não era otário ao ponto de sonhar com besteiras.

Pelo menos não até aquela noite. Estaria sendo um puto paranoico, ou talvez algum detalhe ali pudesse significar coisas boas?

A pele estava arrepiada, só que falando do que gostava, ela parecia ter esquecido que sentia frio enquanto gesticulava contando sobre as brigas que algumas constelações representavam.

— Pera, quem diabos ele matou?! — É, sem dúvidas ela sabia sobre o que falava, as pupilas cintilavam com confiança. Gostava quando a via segura, parecia brilhar mais do que habitualmente o fazia.

Querendo ou não, Uraraka sempre virava o foco de tudo.

— E foi assim. — Suspirou coçando a nuca por ver que havia falado demais. — Desculpe, deve ter ficado entediado.

— Ah porra, não se preocupe com isso, Cara de Lua. Me sentirei muito culto quando estiver explodindo a fuça desgraçada de alguém, inspirado nessa sua aula de "guerra das estrelas".

Após um segundo de silêncio, Uraraka gargalhou sincera, jogando a cabeça para trás e imaginando uma possível cena. O som inebriante parecia vibrar por cada centímetro de pele que Bakugou sabia existir em si.

Caralho... Nem a umidade trazida pela água estava adiantando para evitar sua temperatura de subir. As mãos começaram a suar e acabou engolindo em seco, pela milionésima fucking vez.

Sentia-se esquentando de verdade desde aquela encarada filha da puta que se deram. Podia jurar que ela lhe fitava do mesmo jeito. Porra, os olhos castanhos, ali apagados pela pouca claridade, mas ainda assim instigantes.

Não conseguiu disfarçar a cara de babaca que deveria estar fazendo, contudo, continuou observando-a, como se não estivesse bem ali ao seu lado com a mínima obrigação de participar da cena, e não ser apenas o puto de um espectador.

— Tudo bem — limpando uma lágrima do canto direito. — Me sinto honrada em ter lhe ajudado nisso.

— Qual sua favorita? — Talvez ela não notasse sua feição de besta maldita se estivesse ocupada pensando e respondendo coisas.

— Estrela?! — Ele acenou em positivo. — Bem, eu não tenho uma apenas, é difícil escolher quando se conhece tantas... — Pensou por alguns segundos. — Eu gosto muito da constelação de Capricórnio e Andrômeda.

Respondeu por fim, vendo-o assentir como se estivesse entendido tudo. A primeira era até o esperado, por se tratar de seu signo ocidental. A leveza que estava sentindo no peito parecia surreal. Estaria sonhando como uma boba?!

— Eu te perguntaria também, mas você disse não saber porra nenhuma. — Uraraka deu de ombros e ficou sem jeito pelo sorriso aberto que ele lhe deu.

— Você não está violando algum código com esse boca suja, Cara de lua?! — Ele estava nitidamente caçoando dela.

— Não sou tão careta quanto pareço! — Deu a língua, defendendo-se.

— A claro. — Respondeu com puro sarcasmo.

Uraraka deitou-se na grama de novo, desse vez bem ao lado dele, e ficaram um tempo apreciando o céu, deveria estar na alta madrugada. Ao contrário de antes, o silêncio parecia natural e agradável, não constrangedor. Acabou evidenciando como estava sendo legal aquela noite e a conversa que tiveram.

Foi tão... Divertido, apesar das tensões.

Bakugou apontou para o outro lado e, já em sincronia, Uraraka sabia o que fazer.

— Aquele é o Cruzeiro do Sul, muito utilizado em navegações. — Continuaram pelo que pareceram horas e, apesar do frio não estar fazendo seu papel de limpeza, Bakugou sentia que flutuava.

Que porra de ironia fodida já que se encontrava ao lado da Zero Gravity.

Sua "sessão de yoga" privada estava ainda melhor que das outras vezes sozinho, sentia-se nas nuvens, novinho em folha. Geralmente dormia sempre às 8h P.M. Porém, em certos picos de estresse, precisava quebrar a rotina e tomar medidas drásticas ou cometeria oficialmente seu primeiro crime.

Após não saber mais para onde apontar, provavelmente mapearam todo aquele hemisfério, o silêncio pacífico voltou a se estabelecer, com a mesma naturalidade da última vez.

O tempo passava, seguindo seu curso.

Bakugou olhou para o lado, ela havia pegado no sono. As feições delicadas serenas, o movimento sossegado que o corpo fazia enquanto respirava sem pressa. Esticou um dos braços por impulso e quase, quase alisou aquelas bochechas adoráveis.

Ela tinha uma inocência que não era pura, uma bondade que não era fraqueza e uma força que não era amaldiçoada, como a sua. Qualquer um que se confundisse naquele jeito meigo entenderia da pior maneira que a doce Uraraka não levava desaforo para casa. Aquela garota era um paradoxo.

Sortudo da porra, seria o desgraçado que tivesse a sua afeição. E, mesmo que nunca admitisse, Bakugou desejava no canto mais recôndito de sua alma, que ele fosse o bendito filho da puta.

Acabou voltando o braço para sua função originária de travesseiro. Não era burro, sabia que era um bastardo completamente pirado, não queria causar jamais outra reação em Uraraka que não fosse aquela gargalhada gostosa que conseguiu arrancar anteriormente.

Chupa meu pau, Nerd bastardo dos infernos. Pensou sorrindo sozinho, aquele seria o seu troféu particular. E só ele precisava saber disso. Mas, infelizmente, aquele momento isolado representava uma porcentagem muito ínfima de todo seu ser.

Era inevitável, cedo ou tarde, todos perto dele acabavam com alguns arranhões, sem um pingo de humor reconhecia ser uma bomba relógio.

Com muita luta, parou de ficar admirando-a dormir e voltou a atenção para o lago. Porra, era burro sim, como apagaria aquelas imagens da cabeça?! Como seguiria a vida como se nada tivesse acontecido?

O som da risada, os olhos febris lhe encarando de volta, o cheiro tão perto, os cabelos macios... Segurou o ímpeto de se estapear. Se já sabia que era um completo fodido, agora tinha ainda mais certeza que tomou bem no meio do cu.

Olhou contrariado para as estrelas, malditas, a culpa era toda delas!

Se não estivessem tão convidativas naquela noite com a lua cheia, sua favorita, Bakugou talvez escolhesse outra hora para relaxar e meditar, e então Uraraka não estaria acordada até tarde para vê-las, e não o veria saindo do dormitório, e não o seguiria, e não terminaria de foder por completo seus resquícios de sanidade!

Merda. Mil vezes merda.

Quantas horas passaram juntos?! Não sabia dizer, e tampouco iria dormir, alguém precisava ficar alerta e de vigia, protegendo o perímetro.

O perfume dela era bom demais.

Saco.

Até que o escuro celeste foi dando lugar ao claro. Logo, logo amanheceria.

— Oh céus... — Uraraka sentou-se de súbito, coçando os olhos antes de se despreguiçar, a barra da blusa acabou subindo o que não deveria. Ah merda, mais uma imagem pra porra da galeria. Inferno. — Já está quase de manhã! Será que não teremos problemas?!

E lá estava de volta, a inocência nos belos olhos arregalados, uma das mãos sobre o queixo desenhado indicando preocupação.

Os únicos contatos, tirando os bruscos carinhos de sua mãe, que Bakugou possuía experiência era quebrar socando a cara de alguém. Entretanto, mais uma vez, naquela hora, por alguma razão idiota, sentiu vontade de tocá-la. E não para socá-la, porra, nada do tipo.

Droga, nem sabia o que fazer, outra prova que aquele instinto não passava de loucura da merda da sua cabeça.

Suspirou sentindo um incômodo incomum dentro do peito, como se aquele fosse o fim de uma alternativa de realidade em sua vida, uma que com toda certeza lhe garantiria a felicidade.

— É melhor a gente não testar o despertador do Aizawa-sensei. — Bakugou levantou-se e por impulso estendeu uma das mãos.

Sentiu-se um idiota? Sem sombra de dúvidas, só que ficaria bem pior se do nada recolhesse o convite. Tentou não se concentrar na maciez da pele e de como a palma pequena se perdia dentro da sua. Porra. Foi difícil soltá-la.

Limpou as roupas e deu início a caminhada que os levaria de volta ao mundo real.

Algo mudou entre o antes e o depois da sua soneca, Uraraka sabia. Sentia. Sexto sentido era uma coisa insana, mas nunca falhava e, sem saber, começou a partilhar o mesmo peso no coração que o outro.

— Então... — Foi tomada por uma vontade desesperadora de consertar as coisas, mesmo que isso não fizesse nexo algum. — Acha que deu certo mais uma vez essa sua terapia improvisada?

Tentou soar divertida.

— Uhum. — Ele respondeu seco.

Um tipo de reação totalmente normal, habitual daquele ser que andava na sua frente de costas pra si. Não era nada surpreendente, entretanto, Uraraka sentiu como se o próprio Midorya ou Lida-kun estivessem destratando-a.

Murchou, como algumas flores fazem ao desabrochar da manhã. Deveria saber através delas que, a noite sempre se queima quando se relaciona com o dia. Permaneceu calada, segurando os olhos marejados, esperaria chegar na privacidade de seu quarto.

Entre alguns arbustos já podia avistar a pintura da parede. Sinceramente considerou sair correndo, mas o desespero em consertar o que quer que fosse não incomodava apenas o coração feminino.

— Tem uma coisa... — A voz grave saiu baixa e quase não foi possível decifrar.

Merda, Bakugou, o que raios você está fazendo?

— O quê? — Uraraka perguntou antes de vê-lo limpando a garganta.

— Apesar de não entender porra nenhuma, eu sempre tive uma parte do céu preferida, que é o suficiente para me fazer meditar a noite desde, bem, merda, desde sempre. — Confessou tacando o foda-se. — É a coisa mais linda que já vi.

— Oh. Interessante! — Ochako sentia um turbilhão de emoções, altos e baixos, fazendo toda e qualquer letargia de seu sono anterior regressar ao zero. Estava desperta como nunca. — E qual seria?

Bakugou parou antes que ficassem completamente expostos para o mundo exterior, e se virou, ficando de frente pra ela.

Pela segunda vez, de maneira muito direta, os olhos rubros caíram sobre os seus amendoados com a força de uma crua explosão.

— A lua. — Falou como se estivesse respondido a pergunta de um milhão de dólares, como se a cura para alguma terrível doença estivesse por trás daquelas palavras. – Eu sempre adorei a lua.

Estava nervosa, limpou as mãos suadas disfarçadamente na lateral da calça. O batimento descompassava e, se ele continuasse a olhando daquele jeito sério, entraria em combustão ali mesmo.

— Concordo, a lua é ...

Foi quando os olhos abriram o máximo que conseguiam, a compreensão estralando em sua mente com a mensagem ali explícita. Sempre zoaram ela por ser a única a não ter um apelido depreciativo do loiro mais esquentado da 1-A, mas nunca quis se deixar levar pelo que a alma apaixonada considerava migalhas.

O coração passou a bater tão rápido que era possível sentir o pulsar em seus ouvidos. Abriu a boca, mas, por não saber o que dizer, acabou fechando-a de novo. O que fez com que a atenção dele recaísse sobre seus lábios.

Não era casual, não era inocente, nem toda a insegurança de ser ou não ser correspondida de uma garota poderia competir com algo tão escancarado como aquilo. Sentiu as bochechas pegando fogo, bem como várias partes de seu corpo, o ar parecia ter ficado rarefeito e a respiração passou a sair alterada.

Bakugou acenou com a cabeça não conseguindo proferir mais nenhuma palavra e, ao virar-se, fazendo menção de ir embora, sentiu um aperto delicado ao redor de seu pulso.

Fechou os olhos sabendo que aquele era um caminho sem volta, mas já complemente vencido, entregue ao desejo que lhe consumia por dentro como se houvesse se tornado vítima de sua própria Individualidade.

Segurou a mão feminina em um movimento rápido de forma que, quando voltou-se para ela, a puxou de uma vez de encontro a si. O chocar repentino com o corpo dele fez Uraraka arfar, surpreendida.

Mas tudo aconteceu muito rápido.

Com a mão livre Bakugou a segurou pela nuca, aproximando seu rosto e, abaixando-se um pouco, capturou os lábios fartos sem cerimônias. Suspirou aliviado, como se toneladas acabassem de ter sido retiradas de seus ombros. Selou as bocas repetidas vezes, extasiado pela maciez que a dela possuía. O cheiro adocicado, tão perto como nunca esteve, terminou de inebriar todos os seus sentidos aguçados.

Queria ser capaz de devorá-la.

O gosto, os sons dos estalos de seus beijos, bem como a constatação do que estavam fazendo, resultou em uma descarga elétrica que percorreu por toda espinha de Uraraka, como se houvesse recebido um choque de alta voltagem. Era tão bom. Com a pele arrepiada, começou a tremer levemente. Os braços jogados de lado, totalmente inanimados.

Teve medo de desabar!

Bakugou soltou seu pulso para rodeá-la pela cintura delgada, apertando-a contra si sem reservas, satisfeito por senti-la tão intimamente daquele jeito. Fechou com firmeza os dedos sobre os cabelos castanhos e passou a beijá-la com maior intensidade, maneando sua cabeça para que o acompanhasse, a língua conquistando espaço e devastando tudo pela frente.

Foi nessa hora que Uraraka se viu completamente entregue em seus braços, derretendo, suspirando com frequência ao sentir os apertos que a mantinham presa como um laço arrochado.

Levantou as mãos, arranhando com as unhas os braços fortes e desnudos antes de abraçá-lo pelo pescoço — causando um calafrio gostoso que percorreu todos os poros de Bakugou — enfim realizando a vontade de alisar, bem como bagunçar ainda mais, aquelas mechas loiras e selvagens que combinavam em tudo com seu dono.

Estava quente, quente demais!

Era pura devoção a forma como ele deslizava os lábios aveludados sobre os seus, sugando-os com vontade antes de morde-los e recomeçar todo o processo de exploração.

Bakugou acabou descendo os dedos pelas costas dela, acariciando a cintura antes de segurá-la com firmeza pelos quadris, no ímpeto, as palmas bem abertas abrangendo praticamente toda a região, erguendo-a um pouco sobre si.

Todo local onde ele tocava parecia incendiar subitamente, só que daquela vez foi mais marcante, o jeito como os corpos colados como imãs entraram em atrito foi indecente, bem como o arfar de Uraraka contra sua boca, interrompendo o beijo pela clara necessidade de respirar de novo.

Então, era essa a sensação de ser queimada viva?

Bakugou sabia o que era ter uma mente nublada pelo calor ao ponto de não conseguir formar um frase corretamente em seu idioma natal. Mas aquilo?! Aquilo era diferente de tudo que já havia provado.

Não havia impulsos voltados para todas as direções, a bagunça que geralmente se resumia sua cabeça, ideias, fortes emoções e pensamentos em conflito ao mesmo tempo rodando por todo canto.

Não.

Havia um foco. Um único sentido, uma estrada específica que tinha um resultado diferente de fazê-lo querer destruir tudo.

Ela.

Uraraka o fez acreditar que enlouquecer podia, de fato, ser uma coisa boa. Porra, como era delicioso sentir os seios generosos esmagados contra seu tórax!

Beijou as bochechas coradas enquanto ela recuperava desesperadamente o ar – vê-la daquela maneira o deixou ainda mais excitado — os nós dos dedos pequenos já brancos agarrados em sua camiseta eram como uma súplica muda.

Continuou uma trilha até a orelha e então passou a atenção para o pescoço perfumado. Maldito inferno, poderiam fazer aquilo frequentemente?!

Com “aquilo” ele se referia ao ritual de conversarem com privacidade, liberdade, e, claro, se beijarem como loucos depois de tudo.

Algumas vozes aumentaram de volume e a movimentação no campus passou a ser constante, o que os acordou de uma vez para a possibilidade de serem pegos no flagra.

— A gente realmente precisa entrar. — Bakugou disse irritado.

Não queria nem imaginar o que seria se recebesse outra advertência ou castigo, tendo ele mesmo o trabalho de organizar algumas das mechas castanhas atrás da sua orelha, já que foi o responsável por bagunçar boa parte delas.

Porra, aquilo era bom também.

Ainda sem saber como usar a voz, sentia os lábios inchados, Uraraka apenas assentiu, resignada. Não queria sair dali. Levantou os olhos para encará-lo e, mesmo envergonhada, sorriu feliz.

A luz que ela emanava estava quase ao ponto de cegá-lo.

Bakugou respirou fundo calculando a possibilidade de passarem mais meia hora ali se atracando se ele cometesse a besteira de beijá-la de novo e acabar sendo pego por ninguém menos que Aizawa-sensei.

Se fosse expulso, ficaria longe dela.

Pronto, discussão ganha.

A puxou pela mão para, enfim, voltarem ao caralho daquele dormitório. Apesar de toda aquela reviravolta, com sentimentos tão profundos despertos e alimentados, Bakugou media o efeito de mil noites de relaxamento e calmaria correndo em suas veias.

Quando sentiu o calor do sol em seu rosto competindo com o da mão delicada entrelaçada a sua, se lembrou de que o céu e seus astros eram os responsáveis por aquele empurrãozinho do destino.

Tá, tá, malditas miseráveis.

A culpa, de fato, era das estrelas.

Notas finais
• Curiosidade: Já saiu uma nota oficial no mangá falando que uma das coisas favoritas da Ochako é ver o céu estrelado. Dando suporte a isso podemos ver em seu quarto um mapa com constelações pendurado na parede, que foi a imagem que eu disponibilizei no começo do capítulo. Enfim, foram essas informações que me inspiraram pra essa história fofínea ^^ Para quem quiser me seguir no face: https://www.facebook.com/zackary.uchiha.9 Sobre a história: O que acharam? Gostaram? Abraços ; )
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.