A Crônica da Sereia
2 Conciliação
Notas iniciais
Kyara a fitava de forma receosa. As duas se encontravam em uma região mais deserta do que a anterior em que Elisa fora atacada. Imaginou que ela havia a levado para lá para que ninguém associasse a morte daquele homem a um dos membros da equipe esportiva.
Ela nada falava. Mantinha-se sentada, abraçando as longas pernas e apoiando o queixo nos joelhos, e apenas os olhos apareciam, brilhando na luz da noite como chamas recentemente iniciadas.
Um fogo vivo.
Elisa também estava sentada, há uns cinco passos de distância de Kyara. Apesar da colega ter lhe dado a camisa branca que usava por baixo do casaco, ela ainda continuava tremendo de frio. Não haviam falado nada até agora, depois da discussão terrível que aquela pergunta que jogara no ar fora sugada pela colega.
"Eu salvei você!", foi o que Kyara respondeu, entre gritos, para Elisa. Aquela pergunta cheia de acusações a irritara e a ofendia tanto, que teve quase certeza que a sereia a jogaria de volta no mar se pudesse. Nunca havia visto ela com uma fúria transparente na face, os punhos cerrados, a boca crispada na tentativa de conter a raiva que sairia a cada palavra cuspida de forma impensada, que logo se tornaria ressentimento.
“E isso não isenta sua culpa de tê-lo matado!”.
E aquilo fora o suficiente para que a pólvora explodisse. Começaram um bombardeio de gritos sobre ética e moral, em que Elisa dizia o quanto aquilo era errado, mas Kyara se justificava, dizendo o que estava fazendo — a salvando. Entre gritos, Kyara cuspiu um sussurro cheio de dor: "me espanta você estar mais preocupada sobre o que eu fiz com aquele homem, do que eu ser um monstro marinho!"
E um silêncio se instalou depois disso. Elisa se afastou, jogando-se na areia para sentar. E se mantinham assim desde então, encarando uma à outra com um misto de preocupação, raiva, abandono e entendimento.
Estavam da mesma forma, exatamente da mesma forma em que se viram pela última vez. O silêncio sepulcral, os sentimentos mistos e conflituosos que se encontravam em ambas, a vergonha... Tudo aquilo lhe trazia memórias pouco agradáveis a ela.
— Então, foi por isso que me abandonou? — aquela pergunta foi tão repentina, que até Elisa arregalou os olhos com as palavras que saíram de forma espontânea dos seus lábios.
Kyara a olhou assustada. Os dedos que rodeavam parte do calcanhar repuxaram um pedaço do tecido da calça que vestia. Os olhos logo mudaram de foco, e ela fitou um ponto dos pés descalços. Parecia envergonhada ou triste demais para olhar para a humana.
Mas a verdade é que Elisa ainda se sentia tão mal por ter sido largada pela ex-amiga, que pensar em ser abandonada por Kyara ser uma sereia era compreensível, mas um abandono sem motivo aparente lhe estraçalhava o coração, que batia mais que rapidamente na tentativa de conter a emoção em seu rosto. Ser abandonada sem uma justificativa plausível lhe dava a sensação de descarte, de que seus sentimentos não importavam de verdade para a maioria. Ela não era ninguém.
Ela nada respondeu, pelo menos não em palavras. As rosáceas no rosto mostravam a vergonha, e um leve balançar de cabeça confirmou que sim. E aquilo a lembrara quando perguntou o motivo quando era mais nova. Era o mesmo olhar vazio, o mesmo rubor. A diferença era que havia um pedido de desculpas nos anos anteriores.
— Por que não me contou? — perguntou ela, um pouco ferida e indignada por não ser levada em consideração. Eram melhores amigas! Kyara sabia quase tudo sobre ela naquela época, desde seu desinteresse romântico, até qualquer garoto que afirmava gostar dela. Se houvesse um segredo tão profundo que devesse ser contato...
Repentinamente, Elisa colocou as mãos na boca, como se tentasse conter que qualquer pensamento corresse entre seus lábios. Ela parecia prestes a chorar.
Os olhos de Kyara continuavam brilhando, mas Elisa não sabia se ela também controlava o choro ou se a noite lhe fazia parecer mais bela do que já era. Ambas se fitaram, e logo trocaram o olhar para qualquer outro ponto.
— Se eu contasse, ainda estaríamos tendo a mesma conversa, com a única diferença que éramos mais imaturas do que somos agora — concluiu ela, entre palavras abafadas por afundar vez ou outra os lábios nos joelhos. — E ninguém podia saber. Se você contasse pra alguém naquela época, eu estaria condenada.
E Elisa não sabia o que dizer. Talvez ela estivesse certa, mas ter constatado aquilo a irritou profundamente.
— Eu era sua amiga! – cuspiu as palavras com uma raiva tão grande, que qualquer um que ouvisse aquilo com certeza duvidaria que ambas tiveram uma amizade. – E você me descartou como se eu fosse só uma roupa perdida no seu armário, que você repentinamente encontrou e achou desinteressante!
Ela nada falou. Apenas a fitou rapidamente e desviou o olhar. Dessa vez, foi possível ver que ela fungava, e os olhos avermelhados mostravam que realmente estava fazendo muito esforço para chorar.
— Você não entende, Lis – chamou ela pelo apelido carinhoso, mas fora prontamente interrompida por um “não” tão engasgado e ferido da sua ex-melhor-amiga.
— Não ouse! Eu, mais do ninguém, entenderia você! – rosnou entredentes. – Nós falávamos que esconderíamos um corpo uma pela outra...
— Como agora? – zombou Kyara. Aquilo fora como uma faca em seu peito. – Vê agora? Seria a mesma conversa, com a única diferença sendo a idade, Elisa. Você não entende e tampouco eu. Não posso explicar algo que eu não sei!
Os gritos de Kyara saiam engasgados, e na última palavra ela simplesmente desabou. Seu choro parecia tão dolorido e cheio de sentimentos ocultos que Elisa não soube o que fazer a não ser chorar também. Havia até esquecido do frio com o calor da discussão, mas ela ainda tremia, tanto por estar molhada, quanto pelas chacoalhadas do choro que tinha. Kyara se levantou, aproximou-se de Elisa, agachando-se e entre soluços a abraçou. Aquele abraço desengonçado a constrangeu no início, mas logo ela estava com os dedos enroscados na roupa das costas da mais alta, como se pedisse que ela se fundisse à loira em uma tentativa se não afastá-la.
— Me perdoe, por favor – implorou Kyara de forma chorosa, enquanto mantinha o rosto afundado nos cabelos claros de Elisa. – Me perdoe, Elisa! Você precisa acreditar que tudo que eu fiz foi pensando em manter as coisas minimamente bem.
E Elisa não conseguia responder, mas assentiu com a face enterrada nos ombros de Kyara.
Mantiveram-se assim por um bom momento, apenas chorando e se acalentando. Não precisavam dizer mais nada. Qualquer coisa que dissessem apenas aumentaria a ferida que tinham, porque o essencial já havia sido proferido pelas duas.
Repentinamente, Kyara se levantou e voltou à distância que tinham antes, jogando-se na areia e abraçando as pernas, ela limpou a garganta antes de falar:
— Se você quiser, eu...- e ela mesma se interrompeu, quase em um misto de vergonha e culpa.
— O quê?
Dessa vez ela a olhou profundamente.
— Posso fazer você esquecer o que aconteceu aqui hoje — confessou baixinho. Era estranho como uma garota de quase dois metros parecia tão sensível e amorosa. – Tudo o que aconteceu – e com isso, ela também mencionava o trauma de mais cedo, além do segredo de que era sereia.
Elisa se ergueu, aproximando-se da colega para se abaixar bem próximo ao rosto dela. Suas mãos espalmaram a clavícula de Kyara, que jogou os olhos em direção a areia, um pouco envergonhada. A humana riu, para que logo suas mãos se aproximassem do abdômen de Kyara, encaixando o zíper do casaco e puxando-o até a base do pescoço, para que a colega não continuasse mostrando o corpo desnudo.
— É o que quer? — perguntou de forma sincera. Se ela quisesse para manter seu segredo, com certeza aceitaria. – Se você me disser que sim, eu aceitarei.
— Não — respondeu imediatamente, fitando-a. — Nem um pouco. Pela primeira vez, não quero ter que tomar responsabilidade por um ato tão volátil e que pode me arruinar — sussurrou. — Então, você decide o que fazer — a sinceridade na fala a fez tentar imaginar o que a colega havia passado durante esses anos. – E não quero mais me sentir só – confessou quase em um engasgo.
Aquilo a atingiu. Como uma garota cheia de amigos podia se sentir tão só? Como um segredo como aquele podia despedaça-la de tal forma a se isolar, ao mesmo tempo em que parecia estar no meio de todo mundo?
— Você decide o que fazer – sibilou novamente, sem olhá-la. Fitava os pés que, há algum tempo atrás, era nada mais que grandes nadadeiras.
A última sentença para ela pareceu a morte. Ela parecia dizer "se quiser contar para alguém, eu não farei nada contra você".
Elisa riu, fazendo com que os olhos de Kyara alcançasse o seu. Os rostos estavam próximos o suficiente para que ambas pudessem sentir o calor que emanava ao falarem.
— Obrigada por ter me salvado.
E, dessa vez, Kyara soltou um sorriso genuíno.
— E não, não vou contar pra ninguém. Primeiro, porque não tenho intenção de causar qualquer problema pra você. Segundo, porque me internariam imediatamente com esquizofrenia paranoide se eu falasse que minha amiga de infância é uma sereia.
Estendeu as mãos pra a mais alta, que aceitou, para que se levantasse.
— O que vamos fazer? — questionou Kyara.
— Quanto ao amanhã? Não faço ideia. Hoje minha ideia é voltar pra festa e beber. Depois de hoje, tudo o que eu preciso é de algo que me faça esquecer esse maldito dia — e logo parou de falar ao ver a faceta desconfiada de Kyara. — Temporiamente. Temporariamente, eu digo — se corrigiu imediatamente antes que sua amiga lhe fizesse uma lavagem cerebral.
Kyara sorriu, tomando sua mão e a guiando de volta.
***
Se tinha coisa pior que acordar com uma dor de cabeça lancinante, era beber e depois ter a dor lancinante. Levantar e sentir como se seu mundo fosse desmoronar. Parou assim que se levantou, confusa. "Como eu vim parar aqui?", questionou, ainda com a mão na cabeça, enquanto rodeava o quarto com o corpo. As meninas não estavam mais lá. Rumou ao banheiro para tomar banho e escovar os dentes, e ainda de toalha, ficou tentando se lembrar em como diabos tinha voltado ao quarto. Não lembrava de muita coisa.
Penteou o cabelo, vestiu um dos uniformes esportivos azuis da equipe e rumou para a entrada, abrindo a porta enquanto pegava o celular.
— Bom dia — falou Kyara assim que a porta fora aberta.
E mais um susto.
— Você não vai parar de fazer isso, não? — questionou ela, um pouco desacreditada.
Ela sorriu de forma genuína. Era incrível a facilidade daquela moça em parecer confiável mesmo com quase dois metros de altura. Sorriu em retribuição.
— Vim te convidar pra tomar café da manhã — ela pareceu engolir as palavras um pouco receosa, mas em um sussurro disse: — comigo.
E Elisa sorriu novamente ao ver a amiga oferecer um dos braços, aceitando e rumando em direção ao restaurante do hotel.
— Sabe... — disse Elisa, limpando a garganta. — Não me lembro de nada de ontem.
E Kyara a fitou assustada, parando no corredor para olhá-la mais a fundo.
— Não se lembra? — Kyara se curvou para olhar bem em seus olhos, como se procurasse algo.
Elisa corou, desviando o olhar.
E então percebeu o que havia dito, e logo segurou o casaco de Kyara em pura euforia.
— Depois daquilo — disse. — Eu me lembro daquilo, só não me lembro depois que chegamos à festa novamente.
Kyara suspirou aliviada, ajustando a postura.
— Pensei que tinha hipnotizado você sem querer — corou. – Mas em resumo: chegamos à festa, você bebeu todas, vomitou, dormiu, e eu te levei pro seu quarto – e ela sorriu genuinamente enquanto se lembrava da situação.
E Kyara tomou novamente as mãos de Elisa nas suas, rumando novamente em direção ao restaurante.
Ao abrirem as portas do local, Elisa sentiu que alguns olhos as fitavam de forma curiosa. Kyara soltou suas mãos para abrir a porta e segurá-la enquanto a mais nova passava, e logo começou o show de cumprimentos de uma pessoa tão famosa quanto ela. Assim que passou, a mais alta fechou a porta e passou um dos braços pelo ombro da mais baixa enquanto olhava em que local podiam sentar.
E logo ela a guiou para uma das piores mesas que podia imaginar sentar.
Augusto acenava freneticamente para Kyara. Os dois eram amigos. Ele olhava pra ela como um cachorro assanhado, e aquilo a fez revirar os olhos.
Assim que chegaram, a morena puxou a cadeira para que Elisa sentasse, e percebeu alguns olhares inquietos. Limpou a garganta, agradecendo a gentileza. Na mesa se encontrava os mais variados atletas. Augusto e Lucas eram do futebol. Daiana estava ao lado de Lucas, e fazia parte do time de caratê; Jonas, namorado de Daiana, jogava vôlei.
Elisa olhou disfarçadamente ao redor e notou que algumas pessoas cochichavam entre si olhando para a mesa dela. Entre elas, estava Daniela, sentada bem próxima à porta, que a encarava de forma mortal, enquanto assentia a qualquer coisa que uma das amigas falava, mas ela não parecia se importar tanto com o tema da conversa.
Saiu do devaneio em um susto ao ser questionada pelo jogador de futebol:
— Vocês estão se pegando, né? — Augusto questionou, e o resto da mesa, que falava de forma animada, se manteve em silêncio para escutar a resposta da capitã do time de natação.
— Claro que não! — disse ela sorrindo amarelo.
Augusto não parecia muito convencido, olhando para as duas de forma desconfiada, e quando Kyara olhou pra ela novamente, como se escondessem um segredo, ele logo soltou: — vocês têm cara de que transaram!
E dessa vez Lucas, envergonhado, tapou a boca do mais alto, sorrindo nervosamente.
— Ele é um idiota, me desculpe!
— Fala sério, cara! Todo mundo viu vocês duas dormirem juntinhas na praia ontem à noite. Tá todo mundo falando disso – comentou, e ainda fez questão de mostrar a foto que havia tirado das duas e compartilhado no grupo dos atletas.
E Elisa corou, ao tempo que Kyara se levantava pra dar um tapa nas costas e cabeça de Augusto, que soltou um xingamento enquanto ambos se atracavam como irmãos.
— Por que não me falou que nós dormimos juntas?
E Kyara, que puxava o cabelo do garoto, parou o que fazia. Augusto e ela fitavam a mais baixa da mesa.
— Não vi problema.
E corou com aquilo.
— Eu vejo. Você normalmente pega mulheres mais velhas ou da sua idade. Estranho pegar uma menina do segundo ano — soltou o amigo da morena, e ela lhe deu um tapa novamente.
— Não foi nada de mais — disse a mais alta fitando Elisa, enquanto ainda estapeava o amigo. — Você estava meio bêbada, e se aconchegou em mim. Fiquei do seu lado e nós dormimos, e depois de algumas horas eu acordei e levei você pro seu quarto.
Suspirou aliviada. Pensou na tragédia que seria ter relações sexuais com a amiga, e bêbada ainda por cima! Um rubor tomou sua face.
— E nós temos a mesma idade – respondeu a morena. – Ela é só alguns meses mais nova que eu.
Kyara deu um último tapa antes de se levantar e avisar que ia pegar algo para comer.
— Mesmo assim, ainda acho que vocês estão escondendo alguma coisa — falou Augusto, que tivera a boca tapada novamente pelo garoto de cabelo castanho cacheado.
— Somos amigas de infância — soltou, enquanto observava Kyara na fila do café.
— E descobriu isso só agora? – questionou Augusto de maneira debochada. – Cansei de ver as duas conversarem polidamente. Pareciam mais duas freiras se cumprimentando no dia do culto de domingo do que amigas, e agora estão iguais àquelas personagens do clipe da Kuoko.
— É Kiyoko – corrigiu, sem se importar com as falas afiadas dele. – E fizemos as pazes – revelou, ainda sem fitá-lo.
Ele soltou um “ah, então tá”, cheio de deboche na tentativa de atiçá-la.
E funcionou.
— Se está interessado nela, vá em frente – cuspiu a declaração, já irritada com ele.
Augusto olhou para ela totalmente descrente com a constatação da estranha em sua mesa.
— Mana, você está louca – disse ele exasperado. Apontou para Lucas, que o fitava descrente. – Esse aqui é meu namorado!
E como se não fosse suficiente, simulou uma vontade de vomitar ao escutar um possível relacionamento entre ele e sua amiga. Lucas sorriu envergonhado, tentando apaziguar o ambiente. Colocava as mãos no cabelo castanho cacheado, tentando a todo custo fazer com o que o namorado calasse a boca.
— Augusto, por que você não vai pegar aquele café para a gente agora, hein? – pediu Daiana, e ele a fitou, para logo bufar e ir a contragosto.
— Desculpa – pediu ela. – Ele está enciumado que a melhor amiga dele tem uma melhor amiga – desabafou ela.
Elisa sorriu. Agora, Augusto estava na fila do café e, vez ou outra, puxava o rabo de cavalo da amiga mais alta para lhe atazanar. Agora a morena havia virado para ele, e ambos discutiam e se engalfinhavam.
— Um novo trauma para ele desabafar na terapia dele – brincou Lucas, que sorriu pra ela. – Nós nunca nem nos falamos, né? Sou Lucas.
— Eu sei – respondeu. – Fui no campeonato de futebol de salão ano passado. Vocês foram incríveis.
Os olhos dele brilharam com o reconhecimento.
— Caramba! Jamais imaginei que gostasse de futebol – confessou ele.
— Um pouco... – admitiu. Adorava ver esportes em geral. – O seu gol foi decisivo naquela partida. Até mesmo Augusto, ele driblou como... – falou em tom eufórico, logo se contendo. Podia ser um pouco intensa às vezes.
— Você acha mesmo?! Graças a Deus, temos uma fã! – brincou ele, tocando na mão dela de forma acolhedora. – Não esquece de ir nos ver amanhã – pediu ele.
— Combinado!
Com a fila do café grande, era possível ver a irritação de Augusto, que bufava enquanto dava pequenos tapinhas nas costas de quem estava à sua frente apressando os outros.
— Ele é antipático – soltou Elisa de forma rabugenta, e Lucas riu ao perceber que ela falava do namorado dele.
— Demais. Mas ele é igual cachorro doido: se você não encarar, ele não te morde.
— Ele roubou meu sanduíche da última vez – confessou ela. Não era exatamente um roubo, mas sentiu uma pontada de rancor em ter perdido.
Ele assentiu.
— É que você tem fama de certinha – confessou, e aquilo a surpreendeu. – Ele é infantil, estava testando seus limites, acredite. Mas se você tivesse dito que queria o sanduíche, ele provavelmente te daria. Mas, sim, ele é bem idiota.
Ela riu.
— Ei, Elisa!
Olhou na direção da mesa que a chamava, e percebeu que seu time de corrida estava ali, acenando com as mãos para que ela fosse se sentar com eles. Pediu licença e se levantou, caminhando até eles.
— Vocês me abandonaram – lamentou.
Haviam sete pessoas ali além dela. Bernardo, Mariana, André, Jorge, Carla, Paula e Bianca. Todos eles a olharam como se ela fosse louca.
— Claro que não! – Bernardo berrou. – Falei que nós iriamos no centro da cidade e depois viajar até o pico da morte para fazer uma corrida!
E se lembrou exatamente do motivo de não ter ido. Pico da morte.
— E como foi o Pico da Morte? – questionou, rindo da faceta exausta de Mariana.
— Cair da calçada é mais mortal do que aquele pico – respondeu ela. – Pura enganação.
E todos pareciam meio depressivos com a paisagem.
— Vocês perderam a festa de ontem – falou, tentando ignorar o que ocorrera com ela.
E Mariana ergueu a cabeça confusa, antes de soltar um: — e você foi? – ela perguntou, mas já parecia saber a resposta. A foto estava ali no grupo para quem quisesse ver, mas ela queria escutar da boca da própria Elisa.
Assentiu com a cabeça.
— E qual foi o milagre? – questionou ela, já sabendo que normalmente tinham os mesmos gostos.
A conversa foi interrompida quando Kyara apareceu sorrindo e cumprimentando todos. Ela se manteve em pé, ao tempo que Mariana se levantou e se acomodou em outro local para que a mais alta sentasse ao lado de Elisa. Ela tirava os pires e xícaras de café da bandeja que trazia, assim como um pote de frutas para cada, além de um sanduíche de queijo.
— Trouxe café com leite, sem açúcar. Você ainda gosta assim? – perguntou ela, um pouco apreensiva.
E Elisa concordou, agradecendo. Olhou para a xícara e percebeu que ela realmente havia colocado do jeito que gostava: o café estava só um pouco esbranquiçado pela pouca quantidade do leite. Corou, e enquanto dava um gole saboreando a bebida, Kya se levantava apressadamente.
— O que houve? – perguntou para a veterana, que sorriu.
— Sei que você gosta de sanduíche de peito de peru – e saiu da mesa, colocando-se na fila do café da manhã novamente.
Todos a olhavam chocados.
— Então é real? – questionou Bianca, meio boquiaberta.
— Lá se vai minha chance bi de ficar com uma das pessoas mais requisitadas do campus – lamentou Paula enquanto fazia uma pose teatral: colocava as costas da mão na testa e fechava os olhos.
E Elisa apenas revirou os olhos e negou, explicando que ela havia a ajudado após uma noite de bebedeira – que todos olhavam desconfiados pelo novo comportamento da colega de equipe.
— Eu não a acho tão atraente assim – pontuou Bernardo de forma desinteressada após um tempo, e as moças o olharam de forma indignada, com exceção de Mariana. – É sério. É o que algumas meninas falam: ela foi feita pra mulheres – continuou, enquanto apontava disfarçadamente. – Olha só pra ela: alta, esguia, atlética, extrovertida, com músculos definidos. Ela te carregou no colo até o seu quarto como se não fosse nada! Ela facilmente conseguiria me carregar também.
— Alguns homens gostam de fragilidade – disse Mariana, entediada. – Kyara é mulher demais pra você, eu acho.
Ele bufou.
— Ela é bonita, não estou dizendo que não. Falar que não é hipocrisia, mas eu não namoraria uma mulher como ela.
— E nem ela com você – replicou Mariana. – Ela tem um fã clube de mulheres e homens. Deve ter uma fila de espera pra ver quem vai dar primeiro pra ela. Fala sério, Bernardo, ela tem quase dois metros de altura. Você tem um e setenta.
— Exatamente! – replicou ele, consternado. – Ela é um mulherão da porra – disse, enquanto colocava seu braço lá em cima para demonstrar a altura dela, enquanto a outra estava embaixo para comparar com a sua. – Como eu disse, essa mulher foi criada por Deus para que ela namore outras mulheres. Homem nenhum foi criado pra ela – lamentou.
— Eu fui criado pra amar – replicou André, enquanto olhava Kyara. – Se ela me desse uma chance, eu bem faria valer a pena – comentou, com a voz aveludada.
Era bem óbvio que André, assim como a maioria do campus, nutria uma paixonite pela moça mais alta da universidade, e isso não era segredo. A disputa era grande.
Elisa sorriu assim como as outras.
— Soube que alguns caras já ficaram com ela – informou Mariana. – Confesso que se eu fosse a fim de mulheres, meu nome claramente estaria na lista de espera – e suspirou enquanto apreciava a beleza de Kyara, que aguardava seu sanduíche ser esquentado na chapa. – É tão triste gostar de homens – lamentou, enquanto colocava a cabeça entre os braços em total desamparo.
— Ei! – comentou Jorge de maneira ofendida. – Você sabe como é escutar isso da sua namorada?
— Não, porque não tenho uma, e esse é exatamente meu ponto – revirou os olhos. – Ela foi fazer um sanduíche de peito de peru pra Elisa só porque lembrou que ela gosta. Você só faz as coisas se eu deixar bem óbvio!
Ele a fitou ofendido.
— E como eu vou saber? Não tem como adivinhar o que vocês mulheres querem!
E todas as moças da mesa olharam para Kyara, que ainda aguardava o sanduíche ser esquentado, se entreolharam e logo viraram de volta pra Jorge, que parecia derrotado.
— Tem algo que eu possa buscar pra você? – perguntou ele em um muxoxo para a namorada.
— Me traz um café, por favor.
E ele saiu em disparada, com medo de perder o posto de namorado.
Bernardo se levantou de onde estava, colocou-se na cadeira vazia da capitã do time de natação, limpou a garganta após tomar o café quente, e soltou: — Essa garota parece que enfeitiça todo mundo. Surreal! Difícil achar alguém que não goste dela, sabe? Acho que de todo o campus, você é uma das únicas garotas que não... sabe, que não tem uma paixonite por ela ou que está com os quatro pneus arriados. Que falava apenas o mínimo com ela, né? – e ele deixou a pergunta no ar, mas ele mesmo continuou: — até agora.
E aquilo a pegou de surpresa. “Essa garota parece que enfeitiça todo mundo”. Fitou Kyara, que conversava com um aluno do time de basquete, e pensou na possibilidade. Há poucos minutos, ela tinha dito que pensou ter enfeitiçado ela sem querer. Tinha essa possibilidade?
E lembrou quando Kyara a beijou, e a sensação de paz que sentiu assim que os lábios macios tocaram os dela. Seu dedo indicador pressionou lentamente o lábio inferior, questionando se havia essa possibilidade. Será que ela não havia sido enfeitiçada porque, apesar de tudo, a estudante de engenharia ainda tinha consideração por terem sido amigas há um tempo, ou por que não tinha qualquer valor para ser enfeitiçada?
Sua sobrancelha se curvou, refletindo fixamente sobre.
— Ser legal virou feitiço – debochou Mariana, mas o tom nas últimas palavras parecia demonstrar irritação. – Ela é uma garota legal, cara. Eu gosto dela porque ela me ajudou um bocado na mudança pro campus. Ela sozinha reuniu várias pessoas pra carregar as caixas e montar os móveis comigo. Nada romântico. Só gentileza. E, sinceramente, tem tanta gente que é de boa com todo mundo, e você pega no pé dela só porque é bonita.
— É. E ela é popular, né? Ela é a capitã do time de natação, e adora fazer parte de vários clubes acadêmicos e grêmios estudantis. Me pergunto como ela tem tempo de ficar indo pra lá e pra cá. Aquele meme de fazer várias coisas ao mesmo tempo mal feito não cola com ela. Ela é a segunda melhor da sala dela – completou Bianca.
A verdade é que desde muito nova, Kyara sempre foi bastante, bastante, focada. Se ela precisasse, qualquer assunto virava sua obsessão até que ela ficasse expert em algo. Pelo visto, aquilo não havia mudado.
— E quem é a primeira? – questionou Elisa.
— Eu – respondeu Mariana de forma cansada. Aquilo fez com que a loira risse da falta de vontade da colega. — Mas eu tenho mais tempo que ela! Me mataria se ficasse abaixo de uma pessoa que tem mil e uma atividades extracurriculares, enquanto eu só foco em uma.
— Mas você corre – constatou.
— E ela faz natação, e várias outras coisas – explanou o óbvio. – Pra mim isso é um hobby – disparou. – Estudar é minha função principal. Meu namoro também fica atrás dos estudos, e o Jorge sabe disso, então nem se incomoda muito porque ele também é assim.
E um pequeno silêncio se instaurou na mesa assim que viram Kyara voltar. Ela pediu delicadamente que Bernardo saísse de sua cadeira – visto que tinha pegado uma única bandeja para a duas – e ele o fez sem criar desafeto.
— Aqui – disse ela, enquanto pegava um pequeno prato com dois sanduíches, um de queijo e um de peito de peru com creme azedo.
O ato a fez ruborizar quando todos a observavam. Era mais um dos itens que Kyara lembrava do que Elisa gostava, e imaginou que talvez a quebra dos laços das duas tenha doído mais na garota alta, que teve que se afastar por um motivo maior.
— E eu pensando que você nunca ia namorar – soltou Louise, puxando uma cadeira para sentar entre as duas, passando os braços entre elas e beijando a bochecha de cada uma. – Tão lindinhas. Ah! O amor...
A mesa riu, enquanto Kyara continuava calada, dando um peteleco na testa da mais nova. Diferente de Elisa, Louise não se importava com o afastamento repentino da mais velha, e quando se reencontraram, pouco se importou, correndo pra velha amiga de sua irmã como se fosse só sua. E pelo visto era. Uma pitada de ciúmes lhe corroeu. Elas estavam mais ligadas que as duas atualmente, e isso lhe incomodava.
— Agora eu começo a pensar que é verdade – soltou Bernardo, enquanto enfiava um pedaço enorme de mamão na boca.
Elisa parecia tão importunada com aquilo, que Kyara segurou sua mão e acenou com a cabeça. As pessoas que viam aquilo olhavam de maneira desconfiada.
— Sapatonas, sinto de longe o cheiro de couro – debochou Louise, que roubava um pedaço de melancia do prato da morena.
A mesa riu, mas Kyara se manteve calada. Ao virar o rosto, percebeu que ela estava ruborizada, e a face mantinha os olhos esbugalhados fitando religiosamente um pedaço de pão do seu prato.
— Mas não somos namoradas – soltou Elisa, com as mãos espalmadas na frente do corpo. Tentava desfazer o mal entendido. – Sabe, éramos amigas de infância.
E aquela declaração pegou todo mundo de surpresa, e Bernardo olhou para ela desconfiadíssimo pelo novo relato.
— Mas vocês mal conversavam! E agora você está toda de papinho pra ela – e soltou um “sem querer ofender, viu?” para a veterana de engenharia, que apenas deu de ombros.
— Não nos falávamos, porque o fim da amizade não foi muito bom – respondeu Kyara baixinho, ainda sem olhar pra ela. – Mas éramos muito próximas.
— Quase como irmãs! – respondeu imediatamente, fazendo Louise estalar a língua em desaprovação, e Kyara rir com a zanga da mais nova.
E toda a mesa soltou um “ah” em uníssono. Quase todo mundo tinha alguma amizade que não teve um fim muito bom. Naquele momento, acreditaram piamente em ambas.
Kyara se afastou para pegar mais café, e Louise foi atrás como um bom golden retriever. Elas eram bem parecidas. Observou as duas conversando enquanto apontavam para um bolo, provavelmente decidindo o que iam comer.
— Mas você tem que ter cuidado, viu? As pessoas estão comentando sobre vocês duas. O fã clube da capitã está esbaforido querendo mais fofocas – disse André, tirando-a do devaneio. Lembrou no primeiro ano em que entrou. André tinha uma página na rede social com o intuito de juntar casais. “Mostre seu crush”, algo assim. As pessoas tiravam fotos das pessoas que estavam interessadas. Ele a desativou em pouco tempo: noventa por cento eram fotos de Kyara. “Quem vir meus posts vai achar que é crime de stalking”, e excluiu a página.
Mas achava mesmo que ele não gostava de saber que outras pessoas gostavam dela da mesma forma que ele.
— É, principalmente quando a namorada da Kyara está dormindo no seu quarto. Por isso todo o bafafá – soltou Paula, balançando o mingau de aveia em puro desinteresse pela comida – de que você talaricou a namorada dela.
E quase se engasgou com o pão. Agora entendia o motivo da sua colega de quarto ficar encarando ela o tempo inteiro durante o café.
Kyara retornou com Louise ao seu lado, ambas com os olhos brilhando para as novas guloseimas que pegaram.
— Vem aqui um instantinho, Kya – a chamou pelo antigo apelido, e todos a fitaram com uma sobrancelha arqueada. A agarrou pela manga do casaco assim que tudo fora colocado na mesa.
A puxou para o canto dos chás, que ninguém nem se esforçava para pegar, para ter uma conversa minimamente privada. Kyara se curvou o máximo que pôde para que Elisa pudesse falar o mais baixo e próximo da sua orelha.
— Não sei como funciona isso – disse, balançando o dedo. Apesar de não ser clara, Kyara tinha entendido que isso era ser sereia – Mas você normalmente não dorme de conchinha com outra mulher quando está de compromisso com outra pessoa! – ralhou, dando pequenos tapas no braço da veterana.
Ela a fitou confusa, mas riu da palavra conchinha.
— Mas nós nem fizemos nada, Elisa. O que há de errado? – questionou, e realmente havia dúvida em sua face.
Ela suspirou frustrada.
— Mesmo que sejamos amigas, isso não me dá o direito de passar a noite com você, dormindo juntas! O Augusto tirou uma foto nossa e postou no grupo, e agora a Daniela, sua namorada, e que está dormindo no mesmo quarto que eu, está me fuzilando com o olhar de mil assassinos.
Não queria se meter em encrenca, tampouco ser o centro das atenções, mas imaginou que uma fama de talarica ia acabar com sua reputação. Mas não queria problemas é com o time de natação. Daniela não tinha fama de ser uma pessoa muito agradável, mas enquanto mal se conheciam, havia cumprimentos e limites que respeitavam. Com aquele olhar, imaginou que Daniela na verdade iria matá-la.
Kyara sorriu de forma descontraída.
— O quê?! – questionou a loira irritada.
— Ela não está com raiva de você – respondeu a mais alta. – Ela está zangada comigo! A cara de bunda dela é comigo.
E aquilo era uma situação totalmente nova.
— E por que?
— Porque ela está a fim de você.
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