A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
3 Capítulo 2.
Ao longe, entre os canteiros e arbustos, Helis observava o rapaz recém-chegado. De alguma forma, o jardim parecia transformá-lo. Ele já não era o jovem retraído de horas atrás, agora parecia à vontade, sereno. Seus dedos deslizavam pelas folhas das árvores com uma leveza cuidadosa, como se tivesse medo de feri-las. De tempos em tempos, ele se abaixava para sentir o aroma doce dos lírios recém-desabrochados.
— Charmoso, amante de flores... Aposto que escreve poemas nas horas vagas — murmurou, com um sorriso de canto.
O rapaz parou diante de um pequeno cravo branco, cujo botão murcho parecia à beira do fim. Ele o fitou por alguns instantes, pensativo. Então, pegou o botão delicadamente entre as mãos e as fechou. Um brilho suave, esverdeado, emanou entre seus dedos. Quando as mãos se abriram, o que antes era um cravo desfalecido agora se tornara uma nova e vigorosa muda. Ainda agachado, ele plantou a flor restaurada entre os outros cravos, com o mesmo cuidado e ternura com que a havia transformado.
— E ainda é cheio de truques, senhor perfeito — sussurrou Helis, saindo de seu esconderijo. — Olá, Dante.
Ele se levantou de maneira um pouco desajeitada.
— Desculpe, não foi minha intenção te assustar.
— Está tudo bem, princesa. — O rapaz limpava a terra e a sujeira de suas roupas com as mãos.
— Eu acabei vendo, totalmente por acidente, é claro, o que você fez com aquele botão. Queria ter magia também, como você ou meu irmão. Talvez assim as pessoas parassem de me ver como uma pobre donzela indefesa — disse Helis, com um toque de entusiasmo, gesticulando de forma exagerada e um tanto teatral.
Dante sorriu timidamente.
— Bom, eu não sou exatamente um mago, como o Hugo. Digamos que tenho uma afinidade especial com as plantas — respondeu ele, estendendo a mão em direção a um botão ainda meio fechado. Com um movimento suave, a flor tímida começou a desabrochar, revelando toda a sua beleza e exalando um doce perfume. Dante a retirou com delicadeza e a prendeu nos cabelos de Helis. Depois, deslizou o dedo sobre a haste onde estava o antigo botão, deixando o caule curado e intacto.
Helis sorriu, maravilhada.
— Você seria perfeito para trabalhar nas colheitas. Os fazendeiros adorariam ter você por perto.
Ambos trocaram sorrisos, compartilhando o momento de leveza.
Andando mais pelos jardins, passaram por grandes ipês, cujas flores cor-de-rosa forravam o chão ao redor dos troncos. Dante parou diante de um deles, admirando a árvore saudável e bem cuidada. O simples fato de ver tamanha beleza natural aquecia seu coração.
— Seus jardins, e os lugares que vimos pelo reino enquanto estávamos na carruagem, me fazem lembrar de casa... todas essas cores e perfumes — comentou Dante, com o olhar fixo na imponente árvore rosa.
— De onde exatamente você é? — perguntou Helis, curiosa.
— Não morava em uma cidade ou reino, exatamente... Era mais um pequeno povoado ao leste, cercado por um bosque e uma cachoeira alta. Mas meu povo é de muitos lugares. Nós nos espalhamos pelo oeste, sul, e alguns foram para o norte. Sempre em pequenos grupos — respondeu Dante, pensativo.
— Deve ser incrível viajar assim, para onde quiser, conhecendo novos costumes, novas pessoas — disse Helis, com uma ponta de inveja no tom.
Dante sorriu de leve, olhando para as flores ao redor.
— Há muitas coisas boas a se conhecer pelo mundo, mas também há muito o que apreciar no lugar em que vivemos. Às vezes, só precisamos olhar mais atentamente para enxergar as pequenas belezas que se escondem dos olhos desatentos.
Seguiram caminhando e conversando pelo caminho de pequenas pedras, perfeitamente alinhadas. Cruzaram por um grande carvalho à beira de um lago, onde cisnes nadavam graciosamente. Canteiros imensos de tulipas coloriam o ambiente, enquanto os beija-flores se apressavam para sugar o máximo de néctar, nos últimos momentos de luz.
Por fim, chegaram às portas do palácio.
— Foi ótimo conversar com você, Dante. Você é deveras interessante e sua companhia... muito agradável — disse Helis, dando um leve cutucão no braço dele.
— O prazer foi meu, princesa. E confesso que Hugo falou bastante de você.
— Espero que só tenha falado coisas boas! — retrucou ela, fazendo uma pose pomposa e exagerada.
Ambos riram, compartilhando o momento descontraído.
***
Ao caminharem pelos longos corredores do palácio, depararam-se com Miranda, que vinha apressada na direção da princesa.
— Onde esteve? Procurei por você em todos os cantos! — disse Miranda, levemente ofegante. — O banquete será servido em breve, e você ainda não está pronta. Vamos, temos que nos apressar.
— Já vou, pode ir na frente, encontro você em um minuto — respondeu Helis, sem muita pressa.
— Por favor, não demore — insistiu Miranda, saindo apressada em direção ao quarto de Helis.
Quando Miranda se afastou, Helis suspirou, virando-se para Dante com um olhar maroto.
— Você viu isso? "Não demore"?! Assim não é jeito de falar com uma princesa! Quem sabe uma punição a faça lembrar o seu lugar... Trinta chicotadas deveriam ser suficientes, não acha? — disse Helis, com um brilho malicioso nos olhos.
Dante a encarou, claramente surpreso e preocupado com a sugestão.
A princesa então soltou uma gargalhada, cobrindo a boca.
— Estou brincando! Jamais faria algo assim a Miranda. Ela é muito mais do que uma dama de companhia, é uma amiga, quase parte da família. Além disso, não costumamos punir nossos empregados desse jeito — explicou, ainda rindo. — Você devia ter visto sua cara! Mas agora preciso ir, tenho um vestido apertado e desnecessariamente brilhante para vestir. Te vejo no banquete!
— Até logo, princesa — respondeu Dante, sorrindo levemente enquanto a observava se afastar.
***
Uma imponente mesa de madeira aveludada, decorada com um delicado bordado e majestosos buquês de flores brancas e douradas, encontrava-se repleta de carnes de diferentes animais, acompanhadas de legumes e grãos cozidos. Pães feitos de farinha de batata, recheados com creme salgado à base de leite e carne desfiada, estavam perfeitamente empilhados em reluzentes bandejas prateadas. Frutas das mais diversas cores e formas estavam dispostas por toda a mesa, colorindo e adocicando o ar.
Empregados estavam à disposição próximos às mesas, preparados para reabastecer as taças com vinho, licor ou qualquer outra bebida ali disponível.
— Gostaria de apresentar-lhes meu filho do meio, Hugo — disse a rainha Soriana. — Este jantar é em honra ao seu regresso.
— É um prazer, caro príncipe. — O clérigo fez uma reverência formal.
— A última vez que o vi, você ainda cabia em meus braços, aquela coisinha pequenina de bochechas rosadas — disse a rainha Ada, acariciando o rosto do rapaz. — Herdou o mesmo olhar calmo e acolhedor de sua mãe.
Hugo sorriu em meio às palavras gentis da rainha.
— O que os traz ao reino? Creio que meu regresso não seja um motivo forte o bastante para a visita dos senhores.
— Está correto, mas acredito que não seja um bom momento para falarmos sobre esse assunto — explicou o clérigo.
— Ele tem razão, são assuntos para uma outra ocasião — concordou a rainha Soriana. — Vamos, sentem-se, aproveitem o banquete.
Durante o jantar, o rei indagava de forma curiosa, e até um pouco invasiva, sobre o progresso de Hugo nas habilidades que adquiriu ao longo dos anos de estudo e treinamento. Ele sabia exatamente aonde seu pai queria chegar com essas perguntas: controle. O rei queria se certificar de que Hugo havia dominado por completo sua magia. Provavelmente não toleraria outro incidente como o que aconteceu na infância, quando, em um momento de estresse, os poderes de Hugo se descontrolaram e ele acabou liberando um pulso telecinético que lançou seu tão amado primogênito por uma janela, deixando-o gravemente ferido.
Para fazer uma breve demonstração de suas habilidades, o rapaz, com um movimento suave das mãos, conjurou um pequeno orbe de brilho dourado e o lançou para o alto. A magia então tomou a forma de um cavalo, galopando no ar sobre os convidados. Com uma manobra graciosa, a projeção mergulhou, desfazendo-se em uma delicada chuva de fagulhas reluzentes.
Helis, sorrindo impressionada, estendeu as mãos, tentando tocar as luzes.
— Isso foi lindo — disse ela. — No meu próximo aniversário, quero uma manada inteira de cavalos como esse. Deve ser ainda mais bonito sob o céu escuro.
— Ela tem razão, é um truque maravilhoso para animar festas, mas... o que de mais, digamos, ofensivo você aprendeu, filho? — perguntou o rei Terius, curioso.
Hugo baixou o olhar por um momento, ponderando algo que pudesse impressionar o rei. Quando ergueu novamente a cabeça, seus olhos brilharam com intensidade. Um turbilhão de espadas mágicas, feitas de pura energia, começou a girar ao redor da mesa, emitindo um som cortante e ameaçador.
— Isso sim é magia de verdade. — O rei ergueu sua taça, lançando um olhar de aprovação ao filho.
— Para os sábios de Thro'mir, o uso da magia exige cautela. Principalmente para aqueles que não a possuem de forma inata e acabam recorrendo a outros meios para obtê-la — disse Hugo, enquanto as lâminas de energia se dissipavam em pequenas faíscas. — Muitas vezes, esses meios envolvem uma afiliação com a magia das trevas.
— Não existe magia boa ou má. É como o conhecimento; você escolhe como vai utilizá-lo. Ambos são forças neutras — pontuou o clérigo, levando mais uma porção de carne à boca.
— Concordo plenamente com o senhor, meu caro — afirmou a rainha Ada, assentindo.
— Os sábios de Thro'mir também insistiam no treinamento físico rigoroso. Diziam que poderiam haver situações em que estaríamos impedidos de usar magia, seja por feitiços de contenção ou outras circunstâncias adversas — completou Hugo.
— E eles estão cobertos de razão. Seu avô sempre dizia: “O corpo é a verdadeira arma; a espada é apenas uma extensão" — refletiu o rei, com um sorriso de nostalgia.
À direita, sentado ao lado do rei, Hilius permanecia em silêncio, quase invisível em sua cadeira, apenas observando a todos à mesa com seus olhos de cor mel. Seus cabelos curtos e perfeitamente alinhados tinham um tom de loiro escuro, que contrastava suavemente com sua pele levemente bronzeada. Do outro lado da mesa, sua irmã estava sentada próxima à rainha, junto de Hugo e de seu convidado.
Já havia se passado um bom tempo desde o início do jantar, mas o prato de Dante permanecia intocado. A carne de bisão, acompanhada de legumes e outras iguarias, era muito apreciada por todos no reino e até fora dele. A carne dos animais era amplamente distribuída para outras regiões, graças ao fluxo de comerciantes. O clima favorável e outros fatores naturais tornavam os rebanhos fartos e numerosos nesta terra, possibilitando tal prática.
Hilius observava Dante com certa sutileza, como se o estudasse. Sentindo o peso daquele olhar constante sobre si, o rapaz pegou, com um dos talheres de prata, uma pequena porção de legumes. Levou-a lentamente à boca, mastigando devagar, como se o ato o protegesse da análise de seu observador. O príncipe estreitou ligeiramente os olhos antes de desviar sua atenção, voltando-se para a conversa dos demais presentes à mesa.
***
Os empregados rapidamente se apressaram em limpar a mesa, organizando os pratos, bandejas e talheres, para levá-los de volta à cozinha. Os monarcas já haviam se retirado do salão refinado, dirigindo-se para seus aposentos reais. No entanto, os três irmãos ainda permaneciam próximos à grande porta. Eles se despediram com uma leve reverência formal.
Helis, ao notar Dante mais ao fundo do salão, ergueu a mão em um gesto de “até mais” antes de seguir seu irmão Hilius pelo corredor, rumo aos respectivos quartos.
Enquanto isso, os olhos de Hugo vagavam pelo grande salão, até se fixarem em Dante, que estava apoiado em uma das imensas colunas de mármore bege, magistralmente esculpidas. Com passos firmes, Hugo caminhou até ele e, parando ao seu lado, também se apoiou na mesma coluna.
— A Helis me contou que vocês deram um passeio pelos jardins. Como foi, ela te encheu de perguntas, não é mesmo? — disse o príncipe, cruzando os braços.
— Até que não. Conversamos um pouco, mas ela me viu criar uma muda de flor enquanto me espiava escondida atrás das plantas, e agora acha que sou um mago. Mas parece que gostou de mim. Ela é bastante simpática — disse Dante, com um leve sorriso no rosto.
— Agora ela anda espionando as pessoas... Qual será o próximo passo? Bisbilhotar as roupas de cama? — brincou o príncipe. — Estou surpreso, até. A Helis de alguns anos atrás teria até mesmo perguntado os nomes dos seus avós.
— Aí eu estaria em maus lençóis — brincou Dante. — Mas, ao contrário dela, acho que seu irmão não simpatizou muito com minha presença.
— Por que acha isso? — perguntou o príncipe, confuso.
— Bom, ele ficou me encarando durante o jantar, como se estivesse tentando me ler.
— Ah, sim. Não ligue para isso. O Hilius é assim mesmo. Ele passa essa impressão de ser meio frio ou de que não gosta de ninguém, mas é uma boa pessoa. Não deixe que o jeito dele te intimide, tenho quase certeza de que não é proposital.
— Fico feliz em saber que não é algo pessoal — disse Dante, com um tom de alívio.
— Nosso pai o preparou, desde muito jovem, para que ele se torne o melhor rei que Hosendell já teve — explicou Hugo. — Talvez, e só talvez, toda essa pressão sobre ele seja a razão de ser tão fechado e introspectivo.
O príncipe deu um longo bocejo.
— Já está ficando tarde. Vamos, eu te mostro seu quarto — disse ele, repousando a mão sobre o ombro de Dante.
Os longos corredores eram impecavelmente decorados. Grandes tapetes, bordados com ramos e flores de alecrim, davam mais vida ao piso de mármore bege. Inúmeros vasos abrigavam imensos buquês de rosas brancas e vermelhas. As grandes janelas entreabertas, com cortinas em tons de púrpura, revelavam a escuridão que envolvia os jardins.
Pequenas esferas de fogo, adornadas com coroas em sua base feitas de ouro e prata, moviam-se pelo exterior, iluminando os arredores do palácio.
— Há muitas Sentinelas por aqui — observou Dante, olhando pela janela.
— É, são uma herança dos antigos reis. Pelo que sei, sempre estiveram com a nossa família — respondeu Hugo.
Os dois rapazes seguiram pelo corredor até pararem diante de uma grande porta de madeira escura, entalhada com ramos de oliveira.
— Prontinho, este será seu quarto — disse Hugo, abrindo a porta.
Ambos entraram no aposento. A cama, feita de madeira clara esculpida, era adornada com detalhes finos. Os lençóis, em tons de verde, eram bordados com fios violetas e dourados. No topo das colunas da cama, um véu caía enrolado, amarrado com fitas claras.
— Bom, daquele lado, atrás das cortinas, há uma banheira, caso queira se lavar — indicou Hugo, apontando para o canto esquerdo do quarto. — Você também encontrará um recipiente com sabão aromático próximo a ela.
— Existem maneiras mais sutis de dizer que uma pessoa está cheirando mal — disse Dante, franzindo a testa.
— Foi você que disse, não eu.
— Acho que é isso. Já vou indo, meu quarto fica um pouco mais distante — concluiu Hugo, se dirigindo à porta.
— Espere um momento, tenho uma pergunta.
— Claro, o que seria?
— Bom, você sabe, não sou muito familiarizado com estas portas. Poderia me mostrar como trancá-las? Seria embaraçoso alguém entrar enquanto estou me vestindo, não acha? — provocou Dante, caminhando em direção ao príncipe enquanto tirava o colete e começava a desabotoar a camisa.
— Claro, fico feliz em ajudar com isso. Não queremos que tal situação aconteça — disse Hugo, andando de costas até a porta e a trancando.
— Prontinho, agora está seguro — disse ele, com um sorriso de canto.
Dante aproximou-se lentamente, entrelaçando seus dedos nos de Hugo, puxando-o para mais perto.
— Eu já te disse como seus olhos são lindos? — perguntou Hugo, sorrindo enquanto o encarava.
— Sim, você já disse — respondeu Dante, devolvendo o sorriso.
Seus rostos se aproximaram lentamente, até que seus lábios se tocaram de maneira suave, como uma leve brisa de verão.
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