A luz cálida do sol da manhã reluzia sobre sua pele levemente bronzeada, enquanto a doce e refrescante brisa, que cruzava as imponentes janelas, balançava as cortinas e agitava seus cabelos. A jovem se mantinha firme, seguindo seu irmão pelos corredores do palácio e o importunando com questionamentos e súplicas.

— Por favor, me deixe ir com você? — implorou ela.

— Esta não é uma viagem de lazer. Não posso, e não vou, te levar para o meio de algo cujo real perigo nem sequer conheço — disse Hugo, de maneira firme.

— Você é forte, sei que consegue enfrentar qualquer coisa que se oponha a você — insistiu a jovem, bajulando-o. — Prometo que não irei te atrapalhar, você nem notará minha presença.

— Esse não é o ponto. É uma viagem longa, cansativa e possivelmente perigosa. Há bandidos, criaturas selvagens e hostis que espreitam nas sombras… é muito perigoso para você — argumentou o príncipe, virando-se para ela e encarando-a com uma expressão séria. — Além do mais, nossos pais nunca permitiriam sua ida.

— Por favor… — sussurrou ela, cabisbaixa.

— Já está decidido, Helis — disse ele, suavizando a voz, levantando o queixo da garota com o dedo. — Sabe que te amo, você é minha irmãzinha. Só não quero que corra riscos desnecessários, entende?

— Está bem… eu entendo — concordou a princesa, virando o rosto para a janela, cujo vidro límpido refletia seu olhar de insatisfação.

— Tenho que ir à biblioteca checar algumas coisas. Te vejo depois, está bem? — disse o jovem, beijando-a na testa antes de se retirar.

***

— Isso não é justo Miranda. Eu queria tanto poder acompanhá-lo nesta viagem — resmungou ela, deitada em sua cama.

— Se o príncipe faz isso, é somente pensando na sua segurança — disse a dama, sentada em uma cadeira ao lado da cama.

— Eu sei disso e entendo a preocupação dele, mas é pedir muito ter um pouco de liberdade? Eu só queria conhecer o que tem lá fora — disse a jovem, com um semblante sonhador, olhando fixamente para a paisagem pintada no teto de seu quarto. — Mas eu tenho que ficar aqui, presa. Não quero acreditar que o único futuro que me espera é um casamento diplomático.

— A senhora está exagerando. A preocupação de seu irmão e de seus pais, acredito eu, é apenas por conta do risco da viagem. Não se trata de um simples passeio; é uma missão importante e perigosa — disse Miranda. — Eles não querem prendê-la, apenas mantê-la segura, aqui no castelo, junto a eles.

— É isso! Você acaba de me dar uma ideia fantástica, Miranda. — A princesa se levantou bruscamente da cama. — E vou precisar que você me ajude.

— Por que tenho a sensação de que ainda vou acabar presa por te ajudar nessas suas “ideias fantásticas”? — disse a dama de companhia, cobrindo o rosto com as mãos.

— Às vezes você reclama demais, Miranda. Diga-me, quando foi que te coloquei uma furada? — disse Helis, de forma cínica.

A jovem dama deu apenas um longo e profundo suspiro.

***



— Preciso de um mapa da região de Brumos. Onde posso encontrá-lo, por gentileza?

O imenso local abrigava majestosas e imponentes estantes de madeira escura, que guardavam eras de conhecimento em seus mais diversos livros. O chão de pedra clara refletia a luz proveniente de uma exuberante claraboia, projetando uma iluminação suave que conferia uma aura serena ao lugar. Mais fileiras de estantes estendiam-se pelo segundo andar, visíveis através do mezanino.

— Não é um destino que costuma atrair muito interesse, mas acredito que ainda haja alguns mapas da região nas estantes do terceiro corredor à esquerda, senhor — respondeu o homem, trajado com vestes compridas em tom verde-musgo. Seus longos cabelos pretos, com alguns fios grisalhos, encontravam-se presos em uma trança perfeitamente alinhada. — Se me der um momento, já retorno com o mapa que deseja, Vossa Majestade.

— Não se incomode, eu mesmo posso procurá-lo, obrigado — disse Hugo, com um sorriso cordial em agradecimento, dirigindo-se ao local indicado pelo homem.

Passou por entre mais estantes de madeira com adornos dourados. Entre elas, em uma área cujo chão era coberto por um aveludado tapete vermelho, destacava-se um elegante armário de portas de vidro e cobre, que ostentava uma vasta coleção de pergaminhos élficos, abrigando histórias e cânticos de eras imensuráveis. Um singelo presente, dado por um rei élfico ao bisavô do atual monarca, diretamente de um de seus gigantescos acervos. Que outro povo seria mais adequado para documentar e preservar os mais variados tipos de conhecimento, senão aqueles que se dizem imunes ao passar dos séculos, e que afirmam ter contemplado a própria face de Zahara, a Donzela Branca?

Por fim, Hugo chegou ao corredor indicado pelo bibliotecário. Seus olhos percorreram as estantes escuras e imponentes, carregadas de conhecimento e história. Ele deslizou os dedos pelas bordas da prateleira, retirando cuidadosamente alguns mapas e os comparando entre si. Finalmente, encontrou um que parecia adequado: o mapa era relativamente recente, mas, curiosamente, apresentava sinais de desgaste. As bordas estavam levemente amassadas e o papel, de um amarelado pálido, trazia manchas de manuseio, como se tivesse sido consultado muitas vezes ou apenas abandonado sem cuidado.

Após guardar os outros mapas em seus devidos lugares, Hugo se virou, pronto para se retirar. Porém, um movimento ao longe capturou sua atenção. Entre as estantes, sentado em uma mesa abarrotada por livros e folhas avulsas de papel antigo, estava Hilius. O irmão mais velho, ergueu os olhos de entre os textos espalhados à sua frente, que foram ao encontro dos de Hugo.

— Há algo que eu gostaria de compartilhar. — Hilius se levantou, com sua postura sempre impecável e imponente. — Referente à névoa.

— O que descobriu? — Hugo se aproximou, repousando o mapa sobre a mesa.

— Aparentemente, essa não é a primeira vez que a névoa aparece. Há um registro de algo semelhante ocorrido há algumas centenas de anos. O manuscrito que encontrei está deteriorado, e muitos trechos se perderam, mas, pelo pouco que consegui ler, a descrição do mensageiro de Brumos, coincide com o que relata o pergaminho.

Hugo franziu o cenho, processando a revelação.

— Se isso não é algo inédito, por que todos na reunião pareciam surpresos? — indagou Hugo.

— Pode ter sido um acontecimento isolado, ocorrido em alguma província tão remota que foi simplesmente negligenciada, talvez até mais afastada do que Brumos. Ou, quem sabe, o fenômeno nunca tenha chegado ao conhecimento dos demais reinos. Isso explicaria a escassez de registros e a surpresa de todos.

— É uma hipótese plausível — Hugo assentiu, embora ainda ponderasse as possibilidades. — Mas se temos esse relato aqui, não seria mais provável que o evento tenha acontecido em nosso território?

— Talvez. — Hilius olhou para as estantes imponentes ao redor. — Mas é importante lembrar que esta biblioteca foi, por muitos anos, administrada por um arquivista elfo. Quando veio, ele trouxe consigo uma vasta coleção de livros, pergaminhos e outros registros de terras distantes. É possível que o relato seja parte desse acervo estrangeiro.

— Independentemente de onde ocorreu, o que sabemos com certeza é que esta não é a primeira vez que isso acontece. — Hugo suspirou, jogando a cabeça para trás. — Seja lá o que tenha causado essa aparição inicial, parece que voltou a agir.

— Há mais uma coisa mencionada no documento. — Hilius fez uma pausa, examinando o pergaminho com cuidado.

— O que é? — Hugo perguntou, impaciente.

— Está um pouco apagado, difícil de ler... mas acredito que seja... Dahaka, isso significa algo para você?

— Pelo que sei, ele era uma criatura de aspecto dracônico, capaz de comandar tempestades — explicou Hugo, franzindo o cenho. — Mas ele foi destruído há eras, derrotado por uma cavaleira de asas flamejantes. Ao menos, é o que dizem as lendas.

— Talvez ele tenha sido o responsável pelo primeiro ataque — ponderou Hilius. — Mas, se Dahaka realmente está morto, quem é o novo algoz por trás dessa névoa?

— É o que espero descobrir durante a viagem. — Hugo suspirou, pegando o mapa sobre a mesa. — O manuscrito menciona algo sobre como a névoa foi dispersa?

— Sim. Diz que, ao desaparecer, ela se ergueu e precipitou-se como uma chuva de sangue, até se dissipar completamente.

— Isso é... repulsivo. — Hugo fez uma careta de desgosto. — Acho que preciso separar mais um conjunto de roupas.

— Continuarei pesquisando sobre o assunto — respondeu Hilius, ignorando o comentário com um leve erguer de ombros.

— Agradeço a ajuda, sei que seu tempo é valioso.

— Só quero garantir que o reino esteja intacto para quando eu assumir o trono — disse Hilius, com um sorriso quase imperceptível no canto dos lábios.

— Como quiser, futuro rei de Hosendell. — Hugo respondeu de forma provocativa. — Preciso ir agora, mas obrigado, irmão.

Hilius apenas assentiu, acompanhando o irmão com o olhar enquanto ele se retirava da biblioteca.

Notas finais
Obrigado por ler ʕ•́ᴥ•̀ʔっ