A Criança Pesadelo
5 O Corvo
—John? John...
John Watson abriu os olhos. Estava sentado numa cadeira confortável, branca, mas tinha as mãos atadas para trás. Tiraram-lhe o casaco, o colete, a gravata. Vestia apenas sua camisa e calças. Estava descalço. Encontrava-se numa sala ampla e mal iluminada, com apenas uma luz grande e branca acima de sua cabeça. As paredes eram limpas, e não havia sinal de sujeira no chão, que era um piso liso que refletia imperfeitamente sua figura. Ele começou a torcer as mãos, procurando se soltar, quando viu à sua frente uma mulher loira, bem vestida, que o olhava de volta de forma compassiva.
—Mary? — Mary Watson sorri. Tinha tal expressão doce que os sentimentos de John se tornaram um furacão dentro de seu peito. Ele juntou as sobrancelhas, deixando a cabeça cair para frente. — Eu sinto muito.
Mary se ajoelha diante do marido, que soluçava. Ela acariciou seu rosto, procurando consolá-lo.
—Ah meu querido, não se sinta assim... Eu sei que não foi você.
—E quem foi? — ele a encarou. — Quem fez isso? Quem a levou?
—Não sei... — ela escolhia as palavras com cuidado. — Você vai descobrir, eu confio nisso. Não vai desistir até encontrá-la.
—Eu não pude protegê-la. — ele dizia com voz entrecortada. — Eu não cuidei dela.
—Mentira. — ela asseverou. — Você cuidou de nossa filha como nenhum outro pai conseguiria, e eu te amo muito por isso.
Watson encarou a esposa, suplicante.
—Mas ela ainda está por aí. Eu não sei como encontrá-la. Não sei nem se está viva. O que posso fazer agora?
—John...
—Diga-me o que fazer.
—Não posso fazer isso.
—Estou preso, Mary. Eles acham que eu a matei. — ele volta a soluçar com força. — Como se atrevem?
—Eles se baseiam apenas no que podem ver. Vão perceber que não foi você, estou certa disso, eles verão que você é inocente.
A porta se abre, e entram o Dr. Hyslop com um ajudante.
—Como está agora, Dr. Watson? — ele pergunta.
John se agita, e ignora Hyslop, encarando a esposa.
—Mary, preciso que encontre Holmes. — ela se coloca de pé, baixando a cabeça, olhando as próprias luvas. — Preciso que o ajude a encontrar Rosie, ou então a me tirar daqui. Você será de mais ajuda do que eu.
—Não posso fazer isso, John. — ela disse, sem olhá-lo.
—O quê? — John ofega. O ajudante traz uma mesinha com rodas, que tem uma seringa e um potinho com líquido transparente. O Dr. Hyslop pega ambos, fincando a seringa na tampa do potinho e enchendo o embolo da seringa com o líquido. John olhava ora ele, ora a esposa. — Por que não?
Mary o encara, séria.
—Por que estou morta. Eu morri há 8 anos. Eu não estou de verdade aqui.
John não consegue respirar. Ao olhar detrás da esposa, percebe que não há sombra projetando-se além dela. Nem reflexo no chão.
—Não pode ser... Não pode ser...
—Muito bem, doutor. — disse Hyslop, postando-se em frente a John com a seringa nas mãos. Mary havia desaparecido. O olhar do psiquiatra-chefe era terno. — Hora de começar o tratamento. Espero de coração que você sobreviva, doutor.
***
Sherlock Holmes estava sentado em sua poltrona. Não cruzara as pernas, batia os dedos incansavelmente sobre os braços do assento e olhava diretamente para frente. Seus olhos estavam parados, transbordando fúria, e ele controlava a respiração. Todo seu corpo estava tenso, seus músculos retesados, e sua testa franzida.
No sofá, Vee jazia sentada, com a caixinha preta nas mãos. Seus dedos giravam pequenos botões na parte de trás, indo e voltando, e seus olhos verdes de vez em quando sondavam o rosto de Sherlock. Ela também parecia tensa.
—Será que dá para você parar de mexer nisso? — ele rosnou, sem olhá-la. Ela parou imediatamente, olhando-o. Holmes balançava levemente a cabeça. Parara de bater os dedos. — Não acredito nisso... Não posso acreditar nisso... Aqueles antílopes descerebrados... Eles não conseguem ver nem coisas escritas à sua frente com luzes piscantes, quanto mais evidências de um crime que não se pode ter certeza nem se realmente ocorreu... Almofadinhas decrépitos... Como libertarei Watson agora? Eles não vão me ajudar, jamais admitiriam que estavam errados... Será um inferno... E você... — ele volta o olhar fulminante para ela. — Achei que fosse uma aliada, achei que quisesse ajudar... Mas você foi completamente inútil... — ela pareceu querer dizer algo, mas preferiu voltar a mexer na caixinha preta. Ele voltou a olhar para frente. — Como todos os outros que encontrei no caminho...
“Escute como os sinos tocam
Doces sinos de prata
Todos parecem dizer
Livre-se das preocupações”
Sherlock Holmes sentiu-se congelar. Virou-se lentamente na direção de Vee, os olhos arregalados, a respiração interrompida. Ela encarou-o, uma pequena gota de sangue escorrendo de seu nariz, enquanto da caixinha preta saía a voz infantil que cantava uma música de Natal. Ele se levantou, ajoelhando-se em frente a ela, os olhos multicores pregados na caixinha preta com buracos na frente.
“O Natal está aqui
Trazendo coisas boas
Para jovens e velhos
Bons e corajosos”
Ele pegou a caixinha das mãos dela, estudando-a por completo, e por fim colando-a no ouvido. Logo tudo o que se podia ouvir era um suave chiado. Vee fechou os olhos, visivelmente triste. Sherlock segurou o braço dela, sacudindo-a delicadamente.
—Quem... — ele se esforçava para manter a calma. — Quem estava cantando? Quem era?
Vee olhou-o nos olhos, esboçando um sorriso.
—Rosie.
***
O Detetive-Inspetor Lestrade estava parado, sentado num sofá simples, o olhar preocupado. Muitas vezes tinha a sensação de que não devia estar em algum lugar. Era algo constante. Teve esta sensação até mesmo no dia de seu casamento. Mas desta vez esta sensação viera mais forte. Estava no apartamento de Sherlock Holmes, mais uma vez, e fizera isso a chamado do próprio detetive, que queria lhe mostrar algo inacreditável. Bem, era isso o que dizia a mensagem que ele lhe mandara através de seus capangas mirins, e acreditando nisso, o detetive se dirigiu a Baker Street, esperando algo de fato inacreditável. Chegando lá, encontrou uma caixinha preta que soltava chiados.
—Isso é uma piada... — Lestrade observava Holmes, incrédulo. — Não é?
Sherlock não respondeu. Observava seu quadro e suas anotações. Logo Lestrade percebeu que o grande detetive conversava consigo mesmo.
—Perfeitamente compreensível... — Holmes murmurava para si. — Ela não ficaria cantando o tempo todo, foi um lance de sorte ouvi-la... Levando-se em conta onde ela pode estar, o silêncio se faz necessário... Preciso de mais informações... — ele tirou um pequeno papel que estava pregado à parede, lendo-o com atenção. — Lestrade, preciso que me espere aqui.
Lestrade devolve a caixinha à mesinha de centro.
—Aonde vai?
—Tenho um compromisso. — ele disse, dirigindo-se à porta. — Fique e proteja a moça.
—Proteger a moça? — Lestrade riu. Holmes já descera as escadas, deixando-o falando sozinho. — Não é ela que precisa de proteção, ela pode trancar portas com a mente, pelo amor de Deus!
Holmes abriu a porta da frente e saiu para a rua. O vento frio misturado a fumaça veio saudá-lo, vento esse já velho conhecido de todos os moradores daquela cidade. Ele colocou seu chapéu enquanto caminhava, mantendo-se na calçada, observando os cavalos e carruagens que passavam, os jornaleiros que gritavam, os transeuntes que se apressavam em seus objetivos. Tudo corria normalmente, a cidade se movimentava como sempre fizera. Ninguém se dava conta de que talvez houvesse algo terrível acontecendo naquele instante. E também não se importavam. Essa falta de humanidade, na própria humanidade, era um dos motivos do total desprezo que Holmes sentia pela raça humana.
Ele parou em frente a uma porta simples, nada chamativa, abriu-a e entrou. Passando por um cômodo notoriamente escuro, puxou uma cortina de diante de si e viu-se numa sala de recepção ornamentada e rica, que levava a um corredor cheio de portas fechadas, onde um senhor idoso encontrava-se detrás de um balcão, tranquilamente e silenciosamente lendo um livro. O silêncio, de fato, dominava todo o lugar. E não era à toa.
O Clube Diógenes fora inaugurado com o objetivo de permitir que homens antissociais pudessem tirar proveito da total quietude e da total falta de contato humano. Era um lugar onde se podia fazer tudo, menos falar. O contato era reduzido ao máximo. Era um lugar para homens que quisessem apenas a si mesmos por companhia. Um dos fundadores fora o irmão mais velho de Holmes, que provavelmente estava lá naquele momento. Mas não era seu irmão que Holmes procurava. Encontrara uma mensagem escrita no canto de uma das fotos de seu mural, e esta mensagem o trouxera àquele lugar. Chegou até o balcão, sorrindo e começando a fazer sinais. Como falar era proibido, todos os membros do Clube tinham de ser fluentes na linguagem de libras.
O senhor idoso encarou-o. Holmes começou a “falar”.
“Bom dia, Wilder. Estou sendo esperado.”
“Sala 6.” respondeu o senhor.
Holmes encaminhou-se à sala 6, abriu a porta, chegando a uma ampla sala de leitura, e fechando-a em seguida. Virou-se para o homem que estava sentado numa das poltronas, e apontou-lhe a bengala agressivamente. O homem mostrou-lhe um acendedor nas mãos, também de forma não muito amigável. Holmes ocupou outra poltrona, e encarou severamente o homem à sua frente.
Frederick Abberline soltou um suspiro cansado.
“Não quero brigar.” gesticulou. “Quero ajudar.”
“Vá. Se. Danar.” Holmes gesticulou compassadamente.
“Não tive escolha. A Promotoria surgiu com a prova. Não havia o que pudesse fazer.”
“Poderia ter nos avisado.”
“E acrescentar ‘fugitivo’ à lista dos crimes de Watson?”
“Você o mandou para o hospício.”
Abberline fechou o cenho. Agora parecia irritado.
“A esposa dele morreu. E ele ainda a vê. Por que não contou que ele ficou louco?”
“Não é loucura.” Holmes pensa no que dizer. “Ele não conseguiu lidar com a perda. Tomou remédios, mas não suportou não vê-la. Por isso parou o tratamento. Ele não aceita que ela morreu.”
“Eles o levaram. Farão de tudo para que ele pareça mesmo louco. Tentarão fazê-lo confessar.”
“Temos de tirá-lo de lá antes.”
“Por que não me contou?” Abberline gesticula nervosamente. “Se eu soubesse poderia protegê-lo, eu fui pego desanimado.”
Holmes o encara, confuso.
“Como?”
“Espera... Eu fui pego... Desprevenido. Isso. Desprevenido. Devia ter me contado.”
“Ninguém sabe. Apenas eu, as empregadas e Rosie sabíamos.”
“Eles sabiam. Temos um problema. Não me deixam examinar as evidências contra Watson. Assim que o comeram, tiraram as provas de mim.”
“Assim que fizeram o quê?”
“Ainda estou aprendendo!”
“Esqueça as provas.” Holmes se impacientou. “Encontrei algo melhor.”
“O quê?”
“Quero que venha à Baker Street. Mas jure que não contará a ninguém o que vir lá.”
“Que infantil...” Abberline sorri. “Vai pedir que eu faça a jura do mindinho?”
Holmes lhe faz um sinal feio, e Abberline revira os olhos. Os dois se levantam, saindo da sala de leitura, se despedindo de Wilder, que nem os olhou, e chegando à rua.
—O que você encontrou? — pergunta Abberline, feliz por finalmente poder falar.
Sherlock não o olhava. Tirara um papel do casaco e escrevia algo nele.
—Sabia que Watson estava tendo visões da filha?
—Ele tem visões da esposa morta, não me admiro nem um pouco em ouvir isso.
—Havia uma mensagem crivada na madeira da janela de um dos quartos da Sra. Hudson. Algo que só Rosie escreveria. Um pedido de ajuda enviado diretamente para o pai.
—O que estava escrito?
—Era o desenho de um corvo. — Holmes vê algo do outro lado da rua e atravessa-a. Frederick o segue.
—Isso pode estar lá há tempos, Watson pode ter encontrado só agora e...
—Era Rosie.
—Como sabe?
—Ela é canhota. — ele para em frente a um garotinho que brincava com um graveto e lhe entrega o papel. O menino pega a folha, abre um sorriso sem dentes e sai correndo. — E sabe diferenciar bicos de pássaros como ninguém. Ela fez questão de caprichar no bico da ave.
—O que quer dizer o desenho?
—Um código entre Rosie e Watson, ela cita corvos quando quer que o pai a leve embora.
—Meu Deus... — Abberline coloca as mãos nos bolsos, os dois ainda caminhando. — Onde ela está?
—Seja lá onde for, ela quer ir embora.
—O que Watson viu?
—Ele disse que teve sonhos com um lugar parecido com o que ele realmente estava, mas de alguma forma diferente.
—Como sabe que não é outro sintoma de esquizofrenia?
—Eu sei, por causa do que vou lhe mostrar.
Eles chegam à Baker, entrando, subindo as escadas e deparando-se com Lestrade sentado à entrada do apartamento de Sherlock, com a porta fechada.
—O que é isso?
—Ela estava me olhando estranho.
Holmes desconsidera Lestrade, entrando em seu apartamento e vendo Vee sentada no sofá. Ao vê-lo, ela esboça um sorriso. Ao ver Abberline, seu sorriso desaparece.
—Eu te conheço. — diz Frederick. — É a moça do bordel.
—Aqueles homens que derrubamos a estavam mantendo refém. — Holmes pega seu relógio, acertando-o. — Tenho motivos para acreditar que ela tenha saído do...
—Do Bedlam. — ele completa, encarando-a. — Já dei uma olhada por lá. É o único lugar onde os médicos tem o cuidado de raspar a cabeça de seus pacientes para que não peguem piolhos. Outras instituições não dão a mínima para isso. Então havia um grupo de capangas que estavam atrás dela, três deles morreram, o resto a captura. Podem estar trabalhando para o Dr. Hyslop.
—Que está interessado em John Watson.
—Mas o que tem o sumiço de Rosie a ver com essa mulher?
—Grande parte das informações que consegui do paradeiro da menina vieram dela.
—Ela sabe onde a criança está?
—É meio difícil saber. Ela não fala muito. — Holmes aponta para seu quadro. — Mas ela desenha. Reconhece estes lugares?
—É o Hyde Park. — Abberline se aproxima para ver melhor. Lestrade ainda estava sentado no chão, na entrada. — Este desenho aqui... É o jardim da família Holland.
—Precisamente.
—Então os sumiços das três crianças estão conectados...
—E sempre, em todas as investigações existe a mão do Bedlam para atrapalhar. Você sabe disso, você era o detetive encarregado pelos dois casos.
—Sim. — Frederick concorda. Ainda estudava os desenhos na parede. — O único caso que não consegui resolver.
—Mas e o Estripador? — pergunta Lestrade.
Abberline se volta para Sherlock.
—Diga-me que você está resolvendo esse caso.
—Estou muito perto de entender tudo isso. — diz Holmes. — Mas para isso tive de reconhecer algo muito difícil.
—O quê?
Holmes aponta para Vee.
—Ela tem poderes telepáticos.
—Hã?!
—É verdade. — Lestrade se levanta, erguendo a mão. — Eu vi. Ela trancou a porta só olhando para ela.
—Mas o quê...
—Não. — os três homens se viram para Vee, que ainda encarava Abberline. Tinha o cenho de poucos amigos. — Não.
—Ele é um aliado. — diz Sherlock. — Não vai te fazer mal.
—Não.
Frederick ergue uma sobrancelha.
—Ela vai me matar?
—Não seja cínico, homem.
—Holmes disse que ela o fez ouvir Rosie cantando. — informa Gregory.
—Isso é verdade?
—Sim. — Holmes pega a caixinha preta. — Usando isso. Mas ela não conseguiu fazer de novo.
—O que diabos é isso? — pergunta Frederick.
—Foi um presente. Um cliente satisfeito quis me dar um mimo. Não achei que servisse para algo. Mas agora preciso que ele me explique o que é isso realmente.
—Um portal... — murmura Lestrade. Abberline coça a cabeça.
—Não quero parecer pragmático, mas vocês não acham que isso soa um tanto... Retardado?
—Você viu os desenhos.
—Sim, mas... Ainda assim é difícil acreditar. Ainda mais com uma mulher, que vocês disseram que move coisas com a mente, me encarando como se quisesse me estrangular.
—Ela não quer isso. — afirma Holmes. — Só está te estranhando.
—Fala como se ela fosse seu mascote.
—Vou visitar meu cliente, e gostaria que viessem comigo. — Holmes vai até Vee. — Gostaria que você viesse também.
—Ficou louco? — assusta-se Lestrade.
—Ela foi a única que fez esse objeto funcionar, precisamos dela.
—Não é uma boa ideia. — Lestrade cutuca o companheiro com força. — Abberline, diga a ele!
Frederick dá de ombros.
—Só acho que ela chamará muita atenção... Quero dizer, olhem para ela.
Holmes a encara, pensativo. Realmente, uma mulher magra, pálida e sem cabelos com certeza é uma visão que atrai todo tipo de olhares.
—Então vamos torná-la menos chamativa.
Frederick Abberline esperava muitas coisas de Sherlock Holmes. Esperava coisas interessantes, absurdas e terríveis. Mas com certeza ele não esperava um baú repleto de todo tipo de roupas, acessórios e perucas. E barbas.
—Se colocarmos isso nela, — ele diz, segurando uma barba longa e mal penteada. — podemos fingir que é um primo distante, judeu e tuberculoso que veio te visitar.
—Não. — foi a resposta. Ele tirou um vestido cheio de babados do fundo do baú. Fitou Holmes.
—Você já usou isso?
—Podemos nos concentrar?
—Vou dar isso para ela vestir.
—Não seja estúpido. — diz Sherlock, com uma peruca longa e ruiva nas mãos. — Eu sou maior que ela.
—Consegui um casaco feminino com a Sra. Hudson. — diz Lestrade. —É longo, vai esconder bem os rasgados do vestido dela... Ah vocês acharam um vestido.
—Não eu não achei. — diz Frederick, segurando um sorriso maldoso. — Esse vestido é o tamanho do Holmes, não serve nela.
—Muito bem... — Sherlock tira o casaco das mãos de Lestrade. — Já temos o que precisamos.
Eles vão até a sala, e Vee veste o casaco, que é feito de tweed marrom escuro, e coloca a peruca. Ela fita os homens, de pé, esperando a reação deles.
—Puxa... — murmura Lestrade.
—Perfeita. — diz Frederick, sorrindo com o canto dos lábios.
Holmes limpa a garganta ruidosamente.
—Vamos indo. — eles vão até a porta quando deparam-se com um garoto maltrapilho, que viera correndo, mas para estático. — Ah Dustin, o que faz aqui?
—Olá, senhores... — o menino parecia envergonhado. — Como vão?
—Eu não vi você ainda hoje? — pergunta Abberline.
—Não, você nunca me viu. — solta Dustin, que dá as costas e sai correndo. Abberline volta o olhar para Sherlock.
—Colocou esse moleque para me seguir?
—Sim. — Holmes desce as escadas, indo até a porta.
—Diga para ele parar.
—Não.
Lestrade abre a porta, ele e Abberline saem. Holmes percebe que Vee não está com eles, volta-se para a escada e a vê parada, no último degrau, encarando a porta. Holmes vai até ela.
—Está tudo bem. — ele diz. — Ninguém te reconhecerá. — ela permanece em silêncio, ainda olhando a porta aberta. Suas mãos tremiam, e seu corpo fazia menção de querer voltar para cima. Do lado de fora, os dois homens procuravam um coche. Holmes estende a mão na direção dela. — Venha. Não há o que temer.
Ela hesita, mas pega a mão dele, descendo o último degrau, e ambos caminham para fora. Um coche já os esperava com a porta aberta. Eles entram, e o veículo parte. Vee se encolhe no banco, sem querer olhar pela janela. Frederick a observa, pensativo.
—Milady, se espera não chamar a atenção, esse não é o caminho. — ela o olha, arisca. Ele segura-a pelos ombros, puxando-a para cima. — Endireite-se, vamos. Mantenha o queixo sempre paralelo ao chão, mesmo quando caminhar. É assim que as damas inglesas se portam. E não olhe todo mundo com olhos arregalados, isso assusta.
—Quem é você, uma professora de boas maneiras?
—Você também não tem sido muito útil, Lestrade.
—Não fui eu quem mandou John Watson para o hospício.
Todos ficaram quietos, e continuaram assim até seu destino. Ao descerem, viram-se numa área menos abastada da cidade, com casinhas empilhadas e descoradas, e pessoas com roupas sóbrias e sem muitos acessórios. Sherlock vai até uma das muitas portas sem cor, batendo com força. Enquanto esperava os outros também descem do coche, indo até ele e também esperando. A porta demora a se abrir.
—Quem é? — vem de dentro.
—Sherlock Holmes, abra!
A porta se abre imediatamente, e todos podem ver um homem de estatura mediana, muito magro, porém bem vestido, de olhar vivaz e bigode preto. Ele vai até Holmes, apertando e sacudindo-lhe a mão animadamente.
—Detetive, como está? Que alegria vê-lo! — ele olha os outros, e fecha o cenho. — Você poderia ter vindo sem companhia.
—Você poderia ter me visitado.
—Há pessoas nas ruas, por que eu me aventuraria nelas?
—Senhores. — Holmes diz. — Este é Nikola Tesla, inventor e cientista. Possivelmente a mente mais brilhante de nossa geração.
—Não se esqueça de seu próprio cérebro, detetive. — sorri Tesla. — Estamos páreo a páreo. Entrem. — ele vai para dentro de sua casa. — Não toquem em nada. Conversaremos melhor na sala. — Tesla acende a lareira, observando todos se sentarem. — Você. — ele aponta para Abberline. — Você é o detetive do caso do Estripador.
—Infelizmente, sim.
—Eu torci muito por você.
—Obrigado.
—Você. — ele aponta para Lestrade. — Não sei quem é.
—Que surpresa... — ele rosna.
—E você. — ele aponta para Vee. — Gostei de você.
Ela não diz nada.
Tesla se senta, virando-se para Sherlock.
—Em que posso ajudá-lo, detetive?
Holmes lhe mostra a caixinha preta com furos na frente, e Tesla abre um largo sorriso.
—Ah, sim, meu presente. Gostou dele?
—O que é isso?
—É um rádio.
—O que é um rádio? — pergunta Frederick.
—É um aparelho fabricado para ouvirmos pessoas em lugares distantes. Não funciona, é claro, seria necessário algo que enviasse um sinal para esta coisinha captar.
—E se eu lhe disser que ele funcionou ontem? — diz Sherlock.
—Isso é impossível. — Tesla afirma. — A menos... Que exista um sinal.
—Eu não entendi nada. — diz Lestrade.
—Esperava isso. — Tesla encara Lestrade de modo irônico. — Vamos tentar simplificar as coisas para sua cabecinha, certo? Imagine nossa voz e todos os ruídos como ondas invisíveis que partem de quem fala para quem escuta. Se pudéssemos aumentar o tamanho destas ondas para algo incomensurável, poderíamos ouvir suas vozes e ruídos do outro lado do mundo. Só precisaríamos de algo que conseguisse enviar estas gigantescas ondas, e algo que conseguisse captá-las. — ele aponta para a caixinha. — Isto aqui é o que capta. Mas não há nada que envie neste mundo, portanto esta coisinha não tem o que captar.
Holmes entrega a caixinha a Vee, que parece confusa.
—Não... — murmura.
—Tesla é confiável. — ele diz a ela.
—Por quê está dizendo isso à moça?
—Por que foi ela que fez a caixinha funcionar.
O rosto do inventor é descrente.
—Como?
—Detalhe. — Holmes lhe prega um olhar repreensivo. — Ontem ela captou a voz de uma criança que está desaparecida. Ela cantava, mas estava apavorada, portanto possivelmente cantava para se acalmar. — ele aponta para a caixinha. — Quero algo mais potente que isso.
—O que você quer dizer com “mais potente”.
—Que capte ondas mais distantes.
Tesla olhava cada uma de suas visitas com olhar desconfiado. Não era necessário ser um mestre da dedução para perceber que ele não estava comprando aquela história.
—Preciso de mais informações. — disse finalmente. — E especialmente, de uma demonstração.
—Você já tem tudo o que precisa.
—Então vocês podem ir embora. — o inventor se levanta, ajeitando seu paletó. Seu rosto era impassível.
Lestrade se levanta, revoltado.
—Você não ouviu? Uma criança está em perigo e você pode ajudá-la.
—Sou um cientista, senhor, não um fiel numa igreja. Não podem afirmar algo tão fantástico e esperar que eu acredite sem questionar a validade de suas afirmações. Eu recebo informações, eu testo estas informações, eu me certifico de que são verdadeiras. Não me guio pela fé, guio-me pela observação. Sem exceções. Se não querem compartilhar conhecimento comigo, não posso fazer nada a respeito.
“Eu vi a sombra dela... Eu pude ver... Havia algo lá... Havia algo lá.”
Todos os homens se voltam para Vee, que segurava a caixinha entre as mãos. Mal fechou os olhos, e a caixinha começou a falar. E para a surpresa de Holmes, falava com a voz de John Watson.
—Isso é bruxaria, só pode ser. — geme Lestrade.
—É o Watson. — diz Abberline. — Está captando ele?
—Isso é... — Tesla mal conseguia falar. — Impressionante.
“EU NÃO ESTOU LOUCO!!!” ecoou por toda a sala.
***
—EU NÃO ESTOU LOUCO!!!
Watson gritava, e esmurrava a parede. Estava cansado, coberto de suor, e isso em virtude do tempo que estava gastando atacando a parede e gritando que não perdera a sanidade.
Ele encostou o rosto no cimento. A sensação era gelada, e um tanto áspera. Ele continuou assim, de pé, colado à parede branca, lutando contra os pensamentos confusos que giravam dentro de sua mente. Pensamentos de culpa, perda, morte, desenhos estranhos e figuras horríveis. A cada três horas vinha um médico e lhe aplicava um injeção parecida a que o Dr. Hyslop lhe aplicara naquela sala de luz forte. O líquido queimava em seu pescoço, e lhe dava um sono terrível. Ele sabia o que estava acontecendo, apesar de não conseguir pensar direito.
Aqueles médicos estavam tentando deixá-lo louco.
—Eu não vou deixar! — gritou, dando novo tapa na parede impecável. Sabia que, se realmente achassem que ele enlouqueceu, jamais acreditariam em qualquer coisa que dissesse. E desistiriam de procurar Rosie. — Por quê? Por que não querem que eu a encontre?
Watson escorregou até o chão, caindo sentado e olhando para o nada.
Não Holmes. Ele não desistiria. Ele era seu amigo, e nunca desistiria. E acabaria na mesma cela que ele estava agora.
John soltou uma risada gostosa, imaginando ele e Holmes dividindo uma cela. Imaginou Holmes preso num cubículo sem poder trabalhar. Imaginou-o sem resolver casos. Daí imaginou-o sem seu violino.
—Deus, ele que ia me enlouquecer... — murmurou, olhando para o chão e vendo uma formiga. Ele a viu correr pelo canto da parede, e não sentiu vontade de impedi-la. Logo ela entrou por um mínimo buraquinho. John sentiu-se feliz pela formiguinha. Ao menos ela era livre.
Ele desviou o olhar da formiga, olhando novamente para o nada. Seu corpo sacudiu. Ele se levantou num salto, pressionando-se contra a parede e respirando como se tivesse um gato preso em sua garganta.
A cama estava colada ao teto.
—Oh Deus... — ele gemeu, fechando os olhos com força. — De novo não...
Abriu os olhos, e nada mudara. A cama estava no teto, e a janelinha estava próxima ao chão, assim como a lâmpada desligada. Watson caminhou até a lâmpada, esticando a mão e tocando-a. Era real.
—Isso não é real... — murmurou.
Um ranger ecoou pela cela. Ele seguiu o som, indo até a porta e vendo que estava destrancada. Ele a abriu, tendo dificuldades de alcançar a maçaneta, uma vez que tudo estava invertido, e chegou ao corredor, tendo o cuidado de não tropeçar na moldura da porta. Observar aquele corredor de cabeça para baixo dava vertigem. Ele continuou andando, lentamente. Olhou dentro de algumas celas, e encontrou todas vazias. O ambiente era escuro e úmido, e pequenas plumas pairavam no ar. Ele se desviava das lâmpadas no chão, avistando mais à frente um hall amplo cujas lâmpadas piscavam. Ele ouviu um estalo atrás de si. John ficou parado, mordendo a língua. Não queria se virar.
—Papai?
O coração de John retumbou. Ele se virou rapidamente, mas quando deu por si tudo estava claro, tudo voltara para o chão e havia uma dezena de enfermeiros, acompanhados pelo Dr. Hyslop, encarando-o com olhares apavorados.
—Dr. Watson? — Hyslop dizia de modo cuidadoso. Outros enfermeiros observavam de longe, com cenho não menos assustado. — Doutor, pode me ouvir?
John não respondeu. Permaneceu parado, encarando o psiquiatra-chefe. Não teve vontade de responder. Não se sentia de fato naquele lugar.
—Quer que o peguemos, doutor? — pergunta um dos enfermeiros. O Dr. Hyslop lhe faz um sinal negativo.
—Dr. Watson, — disse. — como saiu de sua cela?
A voz do psiquiatra pareceu desaparecer. John sentiu tontura, e de repente ele se viu de volta ao lugar escuro e de cabeça para baixo. Ele olhou ao redor, e esfregou o rosto, procurando ficar mais desperto. Respirou fundo, voltando a caminhar. Tinha o pensamento mais claro agora, e conseguiu raciocinar. e ele saiu de sua cela naquele sonho, e quando retornou à realidade ele estava fora da cela, então aquilo era mais real do que imaginava. Tinha de aproveitar sua estada lá. Ele ouvira a voz de Rosie. Andou até chegar numa escadaria longa que levava ao andar de cima. Se tudo estava invertido, era o andar de baixo. Ele começou a descer os degraus. Tinha de encontrar sua filha.
***
Vee se sentara em silêncio diante do aparato estranho e metálico. Era uma mesa grande, com caixas cheias de botões, outras cheias de furinhos, e algo grande que se abria no final, também de metal, no chão ao lado da mesa. Fez isso e olhou para Tesla, inquiridora.
—Faça o que fez com o rádio. — diz o inventor. — Exatamente como fez com o rádio.
Ela aquiesceu, fechando os olhos e se concentrando. Todos estavam parados ao seu redor, visivelmente tensos. Abberline pegara uma cadeira e a arrastara para perto da antena, Lestrade se sentara o mais longe possível, e Tesla continuou de pé.
—Acho que vou vomitar. — reclama Lestrade.
Abberline aponta para o aparato sobre a mesa.
—Isso é a caixinha preta... Versão grande?
—Precisamente. — responde o inventor. Tesla foi até Holmes, que se sentara na mesa ao lado de Vee, e baixou a voz. — Você notou que o nariz dela sangrou?
—Sim. — Holmes o encara. — Por quê?
—Não deixe ela se esforçar muito seja lá no que ela sabe fazer. — Tesla fez seu rosto grave. — Ou isso vai matá-la.
O rádio começou a chiar alto, até que o chiado se tornou um som fino e por fim parou. Todos os homens se levantaram, os olhos cravados no aparato.
O som que se ouvia era de uma respiração pesada.
—O que é isso? — pergunta Lestrade.
—Shhh... — faz Sherlock. Ele aproxima o ouvido da caixa com furinhos, de onde saía o som, e fecha os olhos. — Watson...
—Tem certeza?
Som de passos lentos. Era como se estivesse subindo uma escada. Os passos se normalizam, e agora fazem eco.
—Parece um corredor. — diz Abberline. — Watson está andando... Achei que ele estava preso numa cela.
Watson solta um resfôlego de susto. O som agora é de passos rápidos, e o bom doutor arquejava enquanto corria. Tossia com força, como se estivesse sufocando.
“Meu Deus...” ecoou. “Vou morrer aqui.”
—Não... — Holmes ofegou. — Tem como eu falar com ele?
—Sinto muito. — diz Tesla, realmente preocupado. Ele olha em volta, correndo até uma pilha de sucata e tirando algo também com furinhos e um fio saindo de suas costas. Ele vai até o aparato, e o conecta nele. — Tente isso, é um microfone.
Sherlock pega o microfone, e Tesla aperta um botão. Uma luz vermelha se acende.
—Watson... Watson, pode me ouvir?
A respiração no rádio continua pesada. Não havia mais som de passos. Ecoa algo como que um metal sendo arranhado.
“ROSIE!!! Rosie, é o papai!”
—Watson, fale comigo!
As luzes começam a falhar. Abberline se ajoelha ao lado de Vee, que parece agitada, ainda com olhos fechados.
—Moça, você está bem?
O som de metal sendo arranhado fica cada vez mais alto a ponto de se tornar insuportável.
“Meu Deus...” Watson choraminga. “Proteja minha filha!”
—John!!! — grita Holmes no microfone.
Neste momento todas as luzes se apagam, e ecoa o mais aterrorizante rugido que aqueles homens já haviam ouvido. Neste momento o aparato estoura, soltando faíscas e criando labaredas de fogo.
—Watson! — Sherlock solta o microfone raivosamente, soltando um gemido frustrado.
—Saiam daqui! — ordena Tesla, pegando um pote, abrindo-o e jogando um pó branco estranho sobre o fogo.
Holmes se ajoelha diante de Vee, que pendera a cabeça para o lado. Ele segura o rosto dela, vendo um fio de sangue descendo de seu nariz em direção á boca.
—Você está bem?
Ela não responde. Está praticamente inconsciente.
—Vocês saiam. — diz Tesla, apontando para Abberline e Lestrade, que obedecem. Ele se abaixa junto a Holmes. — Melhor você carregá-la.
—Vão precisar de ajuda? — pergunta Abberline.
—Sr. Holmes!
O grito viera de uma janelinha quase colada ao teto. Isso era esperado, pois o aparato de Tesla estava no porão. Sherlock se levantou, deixando Tesla com Vee. Pegou uma cadeira, subindo nela e abrindo com dificuldade a janelinha.
—Dustin? O que faz aqui?
—Você colocou ele para me seguir, lembra? — solta Frederick.
—Sr. Holmes. — continuou o menino, de joelhos para conseguir olhar pela janelinha. — Tem homens seguindo vocês. Eu os vi desde seu apartamento. Estão armados.
—Quantos são?
—Dez, eu mesmo contei.
—Onde estão?
—Aqui fora, do outro lado da rua.
Holmes pensa algum tempo, daí desce da cadeira.
—Dustin, vá embora e se esconda! — o menino desaparece da janelinha. Holmes passa os braços por debaixo de Vee, levantando-a. — Temos de sair daqui.
—Tem uma saída pelos fundos. — diz Tesla.
Abberline vai até Holmes. Aponta nervosamente para o aparato carbonizado.
—Mas e o Watson?
Holmes observa o rádio queimado.
—Você acredita em Deus?
—Sim. — o detetive responde, confuso. Holmes aquiesce.
—Reze por ele.
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