A Criada Francesa
20 O plano cruel
— A conversa que tivemos em nossa visita anterior já foi suficiente para que eu percebesse que a relação entre mãe e filho não era tão perfeita quanto vocês queriam que o mundo acreditasse. – prosseguiu Holmes com suas explanações. – Já de imediato pude ver que, apesar de o Sr. Hyde já ser um homem feito, ele era controlado pela mãe. Desde jovem o senhor sempre fez tudo o que ela pediu e parecia ter um medo terrível de desapontá-la. Por esse motivo o destino da Srta. Renard acabou sendo tão macabro. O senhor pode até não ter participado de seu assassinato, mas sua incapacidade de seguir seus próprios sentimentos, levou a ela, seu filho, e até mesmo o senhor, à ruína. Não se iluda, acreditando que apenas a sua mãe é o monstro dessa história, pois apesar de suas mãos não estarem sujas de sangue, grande parte disso também é culpa sua.
Ethan Hyde ouviu as palavras duras de Holmes em silêncio, pois sabia que meu colega tinha toda a razão. Ele apenas continuou escutando a narrativa, envergonhado por sua covardia.
— Imediatamente, vi que, embora vocês tivessem nos contado basicamente a mesma história, havia pequenas discrepâncias, principalmente no que se referia aos seus sentimentos em relação a Srta. Renard. Sua mãe afirmou que tudo não tinha passado de um caso passageiro e sem importância, mas o senhor disse que “foi quase impossível não se apaixonar por ela”. Ora bolas, até mesmo eu, que não sou nenhum especialista em matéria romance, entendi que tinha sido muito mais do que uma simples aventura. Vocês realmente se amavam, mas foram imprudentes e a moça acabou engravidando. Provavelmente tentaram esconder tudo até encontrarem uma solução, mas uma gravidez não é algo que se consiga esconder por muito tempo, e a Sra. Hyde descobriu. Acredito que os outros criados também, mas eles certamente desconheciam quem era o pai. Sua mãe jamais aceitaria um neto de uma empregada, e o senhor embora quisesse ficar com Juliette e o bebê, não teve coragem para impedi-la de expulsar a moça de casa. Muito pelo contrário, preferiu aceitar a solução mais prática encontrada por sua mãe e se deixou convencer por seus argumentos de que um escândalo arruinaria a empresa e a apoiou na decisão de que Juliette precisava ir embora, levando consigo o filho que o senhor nunca veria nascer ou crescer. Para vocês, esse era um problema muito simples de se resolver, bastava uma boa “ajuda de custo”. Contudo, o senhor não imaginava que sua mãe ainda tinha outros planos, muito mais cruéis.
“Mesmo ela própria tendo sido a responsável pela ordem de expulsão da moça, para ela não bastava que a mãe e a criança desaparecessem pelo mundo. Não. Ela precisava ter certeza de que eles nunca mais seriam vistos, então armou um plano quase perfeito.”
“Ela planejou para que tudo acontecesse durante a noite de ano novo, quando as duas estivessem sozinhas. O Sr. Hyde estaria na empresa, ocupado com a organização da festa de confraternização de fim de ano dos funcionários, e os criados da casa estariam longe, já que ela mesma havia se encarregado de dar folga a todos eles.”
“Estando sozinha com Juliette, que não tinha família na cidade e nem para onde ir durante os festejos, garanto que também a convenceu a beber ou comer algo que a mataria junto com o bebê. Muito simples. Depois, ela só precisaria esperar, pois assim que o veneno fizesse efeito, Juliette cairia morta em algum canto, e à senhora sua mãe, caberia apenas fingir surpresa ao encontrar o corpo quando vocês retornassem da festa. Mas ela se esqueceu de uma coisa ou apenas não achou que aquilo seria um problema. Esqueceu-se de que Juliette não era a única funcionária sem família que morava na casa. Havia mais alguém, alguém que não foi mencionado por vocês, mas que o destino acabou colocando em nosso caminho: o Sr. Vincent.”
“Não foi fácil descobrir quem ele era de fato ou se possuía alguma conexão real com a família. Tudo o que eu tinha eram suposições, mas hoje, graças a uma testemunha, consegui finalmente comprovar o que eu já desconfiava.”
— Que testemunha? – interrompi, sem saber de quem se tratava, e curioso pra saber de onde Holmes tinha conseguido aquelas novas informações que me eram completamente desconhecidas.
— A pessoa que fui encontrar um pouco antes de vir aqui. A verdadeira última peça do quebra-cabeça. Mas depois voltaremos a falar dela, agora, continuemos. De acordo com a testemunha, o Sr. Vincent era o jardineiro da família na época, e apesar de possuir uma deficiência mental, ele trabalhava para os Hydes já há vários anos. O desaparecido, ou falecido, Sr. Alexander insistia em mantê-lo trabalhando para a família em honra a uma antiga dívida de amizade com o falecido pai do Sr. Vincent. Nem todos tinham a paciência, ou a vontade, necessárias para lidar com ele, mas Juliette acabou se afeiçoando ao homem. Soube que ela era uma das poucas pessoas que o tratava com carinho, e que cuidava dele quase que como de um irmão menor, apesar de ele ser bem mais velho que ela.
“Ele morava sozinho em uma casinha isolada no jardim, mas naquele exato momento, por uma infelicidade do destino, deve ter visto a moça passando mal e, em sua inocência, tentou socorrê-la. A senhora deve ter perdido o controle por apenas alguns instantes, mas logo tratou de usar aquilo ao seu favor. – disse Holmes, voltando-se novamente para a dona da casa, que ouvia em silêncio, mas com um olhar de ira.
— A moça estava morta, mas o que parecia ser um problema, acabou se tornando uma ajuda bem-vinda. Com essa nova intervenção do destino, a senhora nem precisaria mais se dar ao trabalho de fingir surpresa ao encontrar Juliette quando retornasse para casa com seu filho, pois já tinha alguém para finalizar o serviço. Então ordenou ao pobre homem que se livrasse do corpo em meio a esse imenso jardim, que ele conhecia melhor do que ninguém.
“O Sr. Vincent não seria um problema, pois se ele falasse alguma coisa, ninguém jamais acreditaria mesmo. Naquele momento, Juliette havia se tornado apenas mais uma pessoa desaparecida nesta imensa cidade. Assim era até mais prático. Mas a senhora não imaginou que o Sr. Vincent também desapareceria logo em seguida e não sabia se aquela seria uma boa ou uma má notícia.”
“Não saber de seu paradeiro, deve ter lhe causado alguma apreensão, mas conforme os anos foram passando sem nenhum sinal do jardineiro, a senhora baixou a guarda e seguiu a vida como se nada tivesse acontecido, até poucas semanas atrás, quando deu de cara com ele no Hospital Royal Bethlem, em uma de suas desprezíveis visitas ao lugar. A senhora, com certeza, é o tipo de pessoa que visita aquele lugar.”
“O que fez ao pobre homem no passado foi algo tão traumatizante para ele, que mesmo passando anos completamente absorto da realidade, ele a reconheceu e entrou em pânico, fazendo com que fosse agredido pelos guardas e indo parar justamente no St. Thomas, onde ele teve a sorte de me encontrar.”
“Como o senhor mesmo me confirmou anteriormente, – continuou Holmes, agora se voltando para o dono da casa. – o senhor vinha investigando o desaparecimento de Juliette em segredo e acredito que também desconfiava que o Sr. Vincent pudesse ser a chave de todo o mistério, porque além de ele ter desaparecido no mesmo dia que a moça, ele também era muito amigo dela. Como o senhor não se sentiu à vontade para contratar os meus serviços, contratou os de outro detetive, ou melhor, de outra detetive, que acabou descobrindo o paradeiro do jardineiro.”
— Então quer dizer que a mulher que levou o Sr. Vincent embora ontem era essa detetive e não Violet Hyde? – perguntei.
— Sim, Watson, mas pare com as interrupções, por favor. Continuando... Ao se encontrar com ele, juntamente com a detetive, o homem não o reconheceu, mas daquele dia em diante, o senhor passou a cuidar dele, por intermédio da detetive. Não o tirou de lá porque acreditou que ele estivesse seguro, pois nunca imaginou que sua mãe o encontraria num lugar como aquele, mas tudo foi por água abaixo quando eles abriram o hospital para visitação pública e os dois acabaram se encontrando. Com medo que ela pudesse fazer algo, o senhor pediu à detetive que o tirasse de lá às pressas e foi isso o que aconteceu ontem.
“Bem, isso esclarece o que de fato aconteceu à desafortunada criada francesa, porém, aconteceram algumas outras coisas que foram mantidas em segredo até o momento, e eu tenho o prazer de informar à Sra. Hyde, que apesar das atrocidades que cometeu em nome do “amor” por seu filho, nem tudo saiu como a senhora gostaria.”
Violet Hyde olhou para Holmes sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Para falar a verdade, ninguém entendeu.
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