A Criada Francesa
6 Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?
Toda aquela determinação de verdadeiro escritor, que me envolvia no momento em saltara da cama naquela manhã, parecia ter desaparecido quase que por completo. Quando Holmes voltou para casa, eu já estava lá há mais de meia hora e mal havia conseguido datilografar uma dúzia de palavras. Ele entrou na sala silenciosamente e seu semblante indicava que estava pensativo ou preocupado com alguma coisa.
— E então, já descobriu por onde anda nosso francês misterioso? – perguntei, curioso, já que ele não parecia querer me dizer muita coisa por vontade própria.
Ele olhou para o relógio sobre o consolo da lareira antes de responder.
— Eu ainda tenho 45 minutos.
— Você vai sair novamente para procurá-lo?
— Não será necessário. – respondeu, enigmático, enquanto se sentava na poltrona e fechava os olhos.
Ele realmente parecia não querer conversar naquele momento, então preferi deixá-lo sozinho e desci as escadas. Fui ver a Sra. Hudson, pois ela ainda estava muito preocupada com tudo o que tinha acontecido com Lestrade, principalmente depois de saber que aquele não tinha sido apenas um problema de saúde. Ela temia que o bandido pudesse tentar matá-lo novamente, já que não tinha conseguido dar cabo dele de primeira. Na tentativa de acalmá-la, eu afirmei que isso seria pouco provável, já que o hospital agora vivia cheio de policiais. Também lhe disse para que não se preocupasse muito com o estado de saúde do inspetor, pois se Holmes estivesse realmente certo quanto ao envenenamento, como eu acreditava que estava, ele começaria a demonstrar sinais de recuperação muito em breve.
Acho que fiquei em companhia de nossa senhoria por cerca de meia hora e quando voltei para o apartamento, me surpreendi ao ver que Holmes continuava exatamente na mesma posição em que tinha se colocado assim que chegou: sentado na poltrona com os olhos fechados, as pernas cruzadas e as mãos, com os dedos entrelaçados, sobre os joelhos. Parecia não ter movido um músculo sequer. Perguntei-me se ele estaria dormindo, ou algo pior, afinal aquela completa imobilidade não era lá muito comum. Curioso, me aproximei silenciosamente, apenas o suficiente para confirmar se ele estava respirando, mas quase que imediatamente, quem parou de respirar por um instante fui eu, com o susto que levei.
— Isso! – gritou ele de repente, abrindo os olhos e se levantando bruscamente. Esquivei-me por puro reflexo ou então teria levado uma bela de uma cabeçada no queixo.
Quando ele abriu os olhos e me viu tão próximo dele, com os olhos arregalados pela surpresa, achou a situação estranha.
— O que foi, Watson? Por acaso veio ver se eu ainda estava vivo?
— É mais ou menos isso... – respondi me afastando, tentando me refazer do susto. – Mas o que foi que aconteceu?
— Eu consegui me lembrar, Watson! – disse ele animadamente.
— Meus parabéns, então. – respondi, mesmo sem saber do que ele estava falando. – Mas, conseguiu se lembrar de que, exatamente?
— Do uniforme da enfermeira do velho! – continuou, com a mesma animação.
— Mas você ainda está pensando nisso? Achei que já tinha deixado essa história de lado. – respondi, ainda não entendendo o motivo de tanta euforia.
— De maneira alguma, Watson. Aquele homem queria me dizer alguma coisa e isso está me incomodando. Não faz sentido até mesmo para mim, mas algo me diz que isso também tem a ver com o caso do Lestrade.
— Mas como isso poderia ser possível? O que é que uma coisa tem a ver com a outra?
— Para falar a verdade, eu também não sei. Confesso que dessa vez, é pura intuição... – respondeu ele, para a minha surpresa e desalento. Uma pessoa tão racional e dedutiva como ele não costumava se deixar levar por uma simples intuição, mas daquela vez, ele estava considerando o fato muito seriamente, e isso foi suficiente para me deixar encucado também.
— Mas afinal, o que tem o uniforme da moça?
— Tinha um logotipo nele, mas como só vi de relance, não estava conseguindo me lembrar. Passei esse tempo concentrado, tentando remontar a imagem na minha cabeça, até que finalmente consegui!
— E era o logotipo de onde?
— Do Bethlem Royal Hospital.
— O hospital psiquiátrico?
— Esse mesmo!
— Minha nossa! Aquele lugar é uma monstruosidade, não sei como continua com as portas abertas. Agora eu acredito que o homem realmente estivesse pedindo ajuda! As histórias que contam daquele lugar são tão macabras que é até difícil de acreditar.
— Você já foi lá alguma vez, Watson?
— Não. Nunca.
— Pois então chegou a hora de vermos esse lugar com nossos próprios olhos.
— E você acha que vai conseguir entrar lá assim tão fácil, sem nem saber o nome do paciente.
— É por isso que você vai comigo, doutor. Você vai abrir as portas que eu preciso.
— Eu? Mas eu não tenho nenhuma ligação com pacientes psiquiátricos. Como vou entrar lá e ainda levar você comigo?
— Esses são apenas detalhes sobre os quais eu ainda preciso pensar, mas se conseguirmos permissão de entrar no lugar, poderemos procurar pelo nosso velhinho.
— “Apenas detalhes”? – repeti, incrédulo por seu inesperado otimismo.
— Isso mesmo. Garanto que não encontraremos grandes obstáculos. Eu achei que depois de todos esses anos, você já tivesse um pouco mais de fé em mim, homem! – respondeu com toda a confiança que lhe era característica.
Naquele mesmo instante a campainha tocou.
— A-há! Bem na hora! – disse Holmes, aparentemente já ciente de quem é que estava a nossa porta. A pessoa não entrou, apenas deixou um bilhete que nos foi entregue pela Sra. Hudson.
— “Gilbert Renard – Pensão Castleton”. – foi o que ele leu do bilhete com um sorriso matreiro. – E foi antes de duas horas!
Olhei no relógio e entendi o que queria dizer. Aquele era o nome do nosso francês misterioso e o lugar onde ele estava hospedado. O miserável presunçoso realmente tinha conseguido descobrir a informação antes do prazo e sem nem mesmo sair de casa. Eu precisava dar o braço a torcer, ele era bom.
— E como você descobriu isso?
— Se esqueceu da rede de sem-tetos, Watson? Eles são meus olhos e ouvidos nesta cidade, e suas habilidades nunca me decepcionaram. Dei a eles a descrição de nosso homem e pedi para que perguntassem por aí se alguém sabia sobre um jovem cavalheiro francês recém-chegado, que provavelmente estaria hospedado em uma pensão ou albergue, e voilà!
Holmes conhecia praticamente todos os moradores de rua de Londres e algumas vezes se utilizava do serviço deles para descobrir alguma informação do submundo. Nesse caso, pediu para que procurassem pelo nosso francês.
— Eu preciso admitir que eles são mesmo muito eficientes.
— Extremamente! – disse ele, enquanto voltava para a poltrona perto da lareira, em posse do pequeno pedaço de papel.
Holmes ainda não tinha um plano a respeito de como conseguiríamos encontrar nosso velhinho no hospital psiquiátrico, afinal, isso não poderia ser feito com a ajuda da rede de sem-tetos, e sim por nós mesmos, se é que era realmente possível. Eu tinha ficado confuso e ainda não conseguia ver nenhuma possível conexão do idoso com o caso de Lestrade, e para falar a verdade, nem Holmes, mas meu colega estava convencido de que descobrir sobre ele era parte importante da investigação. Contudo, aquilo precisaria ficar para depois, já que agora, havia uma pista concreta e tínhamos toda a intenção de segui-la o mais rápido possível.
Fale com o autor