A Criada Francesa

18 De volta à mansão


Nossa melhor pista tinha se perdido bem diante de nossos olhos e os planos que havíamos feito tinham ido por água abaixo, mas Holmes parecia não ter se deixado abater por esse pequeno contratempo.

— O que faremos agora que perdemos nosso possível melhor informante? – perguntei, meio desanimado. – Qual será nosso próximo passo?

— Nenhum.

— Nenhum?

— Nenhum. – respondeu pensativamente. – A retirada inesperada do Sr. Vincent do jogo me leva a cogitar duas hipóteses distintas. A primeira, é de que estamos certos em pensar que ele seja a chave de todo esse mistério, e com medo de que conseguíssemos extrair alguma informação valiosa dele, decidiram afastá-lo de nós. A segunda também concorda que ele seja a chave do mistério, mas talvez tenhamos nos enganado quanto as verdadeiras identidades dos seus benfeitores, assim como os reais motivos pelos quais o estavam mantendo lá. Apesar de aquele ser um lugar abominável, é possível que ele estivesse lá para sua própria proteção, e conforme nos aproximamos da verdade, acham que isso pode colocá-lo em perigo.

— Pode ser, mas de qualquer modo, as duas hipóteses confirmam que estamos no caminho certo e nos aproximando da verdade. – constatei, um pouco mais esperançoso.

— Exatamente. E pensando melhor, talvez até já tenhamos as respostas para todas as perguntas, apenas é preciso extraí-las dentre tudo o que descobrimos durante esses dias.

Dito isso, Holmes entrou em seu quarto e não tive contato com ele por mais de 12 horas. De seu aposento vinha apenas um silêncio absoluto, o que me deixou um pouco preocupado, mas isso foi só até por volta das sete da noite do dia seguinte, quando a porta se abriu abruptamente e, sem mais nem menos, ele saiu correndo de lá, me dando um grande susto.

Completamente surpreso por sua atitude repentina, a única coisa que consegui fazer foi perguntar aos gritos aonde ele estava indo, e ele me respondeu da mesma maneira enquanto descia as escadas:

— Solucionar o caso! Chame o Gregson e vão para a casa dos Hydes, eu os encontrarei lá!

Depois disso, apenas ouvi o bater da porta. Ainda atônito, larguei o jornal com o qual me distraía respondendo às palavras cruzadas, calcei os sapatos, peguei meu chapéu e fui correndo para a Scotland Yard.

Já havia passado das 21 horas quando chegamos a Hampstead Heath. Aquele, obviamente, não era um horário apropriado para visitas, mas como aquela não seria uma visita de cortesia, muito pelo contrário, o horário era mais do que perfeito.

Gregson havia trazido consigo mais três policiais, mas não parecia muito confiante com o que estávamos prestes a fazer.

— Holmes tem mesmo provas que incriminem os Hydes? Porque você sabe que se não tiver e eles forem inocentes, na melhor das hipóteses, nossas carreiras estarão arruinadas para sempre.

— Para falar a verdade eu não sei se ele tem provas concretas, mas do jeito que ele é, não me surpreenderia se mesmo sem prova alguma ele conseguisse uma confissão hoje mesmo. Creio que isso seja mais do que suficiente para prendê-los.

— Bem, se você diz... – disse Gregson ainda não tão convencido de que estava fazendo a coisa certa. – E quando é que ele vai chegar?

— Não tenho a mínima ideia. – respondi honestamente. – Vamos ter que esperar.

Para evitar chamar a atenção dos nossos suspeitos antes da hora, ficamos há três quarteirões de distância da Mansão Hyde. Nós já esperávamos por Holmes há quase meia hora, quando quem apareceu foi Gilbert Renard. Nós não o estávamos aguardando, mas isso só comprovava que Holmes realmente pretendia esclarecer as coisas naquela mesma noite.

— Ora, boa noite, Sr. Renard. Confesso que não o esperávamos por aqui. – falei, ao cumprimentá-lo.

— Bon soir, docteur Watson. O monsieur Holmes esteve lá na pensão, bastante acelerado, e pediu para que eu viesse até aqui.

— Entendo. Ele costuma fazer esse tipo de coisa, mas não se preocupe, porque isso significa que hoje mesmo todos nós saberemos de uma vez por todas o que houve com a sua irmã.

— Assim espero. – disse o rapaz com um suspiro. – O monsieur Holmes pediu para que fôssemos e para a Mansão Hyde e o aguardássemos lá, porque ele chegará em breve.

— Então vamos, mas eu só peço um favor ao senhor: não faça nada até que Holmes chegue e nos diga o que de fato aconteceu. Eu sei que vai ser difícil se controlar ante os assassinos da sua irmã, mas peço para que tenha apenas mais um pouco de paciência.

— Eu vou tentar não acabar com a raça daqueles fils de pute quando os vir.

Atendendo ao pedido de Holmes enviado por intermédio de Gilbert Renard, nosso pequeno grupo seguiu caminhando, até chegarmos em frente ao já conhecido enorme portão de ferro. Um funcionário, que não era o mesmo que havia nos recepcionado em nossa primeira visita e que provavelmente deveria estar montando guarda, cochilava sentado em uma banqueta de madeira com a cabeça escorada no portão.

Gregson o acordou de uma forma não muito educada, chacoalhando-o e fazendo com que ele despertasse assustado.

— Queremos ver os donos da casa. – disse o inspetor.

— Eu não sei se... – balbuciou o homem ainda meio sonolento.

— Nós temos um mandado de prisão. Abra agora mesmo. – ordenou Gregson antes que o criado pudesse dizer mais alguma coisa.

Sem outra opção, o homem permitiu nossa entrada. Começamos a andar pelo longo caminho de pedras até finalmente estarmos em frente à porta da casa, onde obviamente ninguém nos aguardava. Aos poucos o lugar foi se iluminando com os funcionários que acordavam para ver o que estava acontecendo.

Os oficiais ficaram do lado de fora, enquanto Gregson, o Sr. Renard e eu entramos e nos acomodamos na bela sala. Pouco tempo depois, os donos da casa apareceram no alto da escadaria trajando seus robes elegantes por sobre os pijamas.

— Desculpe a demora, mas é que não esperávamos visitas a esta hora da noite. Muito menos da polícia. – disse Ethan Hyde.

— Infelizmente esta não é uma visita de cortesia, senhor. – disse Gregson. – A Scotland Yard vai aonde quer que seja necessário e a qualquer momento para fazer cumprir a lei.

— Eu não sei quais assuntos nós poderíamos ter com a polícia, mas fiquem à vontade. – disse Violet Hyde.

— O Sr. Holmes não está com os senhores? – perguntou o Sr. Hyde, procurando ao redor por meu colega.

— A qualquer minu... – antes que eu pudesse terminar a frase, Holmes irrompeu pela porta, levemente ofegante.

— Ah! Vejo que já estão todos reunidos! – disse meu colega, animadamente, ao nos ver. – Desculpem-me pelo atraso, mas é que eu precisava me certificar de uma última coisa antes vir aqui.

— E o que era? – perguntei, curioso.

— Tudo ao seu tempo, Watson. – respondeu, sem querer adiantar o assunto.

O clima estava um pouco tenso, pois Ethan Hyde e Gilbert Renard não paravam de se encarar desde o segundo em que colocaram os olhos um no outro. Talvez não pelo mesmo motivo.

— Não sei se todos já foram devidamente apresentados, – continuou Holmes enquanto se aproximava de nós. – mas caso vocês não saibam, este é o Detetive Inspetor Gregson da Scotland Yard e este é o Monsieur Gilbert Renard, irmão da Mademoiselle Juliette Renard.

— Eu imaginei. Eles são bastante parecidos. – disse o dono da casa.

— Bem, nós voltamos, como prometido, porque temos coisas importantes a falar e todos os presentes aqui precisam ouvir. Essa história já ficou em segredo por tempo demais e o que de fato aconteceu com Juliette será esclarecido agora.

Mãe e filho se entreolharam e se sentaram no sofá.

— Então conte-nos, Sr. Holmes. – disse Violet Hyde, sem demonstrar muita expressão. Foi impossível imaginar o que aquela mulher estava pensando. Com certeza estava muito tranquila, enquanto seu filho deu uma leve estremecida ao ouvir aquilo.

— Bem, sem mais delongas, aqui vai um relato do que eu acredito que aconteceu na fatídica noite de ano novo de 1878.