Os Hydes moravam em Hampstead Heath, um bairro nobre de Londres onde todos os milionários da cidade pareciam estar reunidos. A classe alta londrina vivia bem distante dos cidadãos “financeiramente desprivilegiados” ou de qualquer estação de trem; o que nos deixou como única opção de transporte, a boa e velha carruagem de aluguel.

Após uma pequena viagem de quase uma hora e meia começamos a ver uma transformação gradual do ambiente ao nosso redor. O centro de Londres era sujo, barulhento, movimentado e em constante evolução, enquanto que Hampstead se assemelhava mais ao interior. Havia mansões e grandes áreas verdes por todos os lados, onde crianças brincavam despreocupadamente sob os olhares atentos de suas babás trajadas com seus uniformes impecáveis.

Depois de rodar por alguns minutos no bairro, o cocheiro nos deixou em frente a um enorme portão de ferro fundido cheio de adornos (incluindo uma grande letra “H” em seu centro), e ladeado por grades igualmente grandes, cobertas por trepadeiras que impediam uma visão de dentro da propriedade. O portão era vigiado por um empregado uniformizado e, definitivamente, não havia uma campainha a ser tocada, como sugeria o plano inicial de Holmes, então, tivemos que improvisar e fomos falar com o homem.

— Bom dia, senhor. – disse eu, da forma mais cortês que pude. – Meu nome é John Watson e este é Sherlock Holmes. Nós gostaríamos de falar com o Sr. Hyde.

— Os senhores marcaram horário? – perguntou o homem, secamente.

— Bem... não. Não sabíamos que era necessário... – respondi, já me atinando da estupidez que havíamos cometido, pois era óbvio que alguém tão importante quanto Ethan Hyde não atenderia qualquer maluco que aparecesse em seu portão sem avisar.

— O Sr. Hyde é um homem muito ocupado e no momento não está em casa. Sugiro que verifiquem com a secretária dele quando ele estará disponível para atendê-los.

— Infelizmente, o assunto que temos para tratar com o Sr. Hyde é muito importante e já foi postergado demasiadamente. – disse Holmes, não gostando da ideia de ter que voltar outro dia. – É sobre o desaparecimento de uma das criadas da mansão, Juliette Renard. O senhor a conheceu?

— Não, senhor. Já trabalho aqui há quatro anos e nunca ouvi falar de tal pessoa. – respondeu o empregado no mesmo tom impassível.

— Entendo... – continuou Holmes. – Então acho que não temos opção a não ser esperar pelo retorno do Sr. Hyde.

— Não posso permitir que os senhores entrem, nem garantir que conseguirão falar com ele... – disse o homem, sem se esforçar muito para nos ajudar, nem nos dando muitas esperanças de que conseguiríamos alguma coisa, mas ele não sabia o quanto nós éramos persistentes.

— Nós entendemos, mas não custa nada arriscarmos. Tenha um bom dia. – respondi, enquanto nos despedíamos do criado e nos dirigíamos até a praça do outro lado da rua. A manhã estava agradável e nos sentamos em um banco, de onde tínhamos uma visão perfeita da entrada da casa, e também abrigo do sol, graças às sombras proporcionadas pelas copas das árvores. Embora tivéssemos toda a intenção de esperar pacientemente pelo retorno do dono da casa, Holmes começou a cochilar poucos minutos depois de nos sentarmos e permaneceu assim até ser acordado por mim, cerca de uma hora depois.

— Acorde, Holmes. – chamei-o com a ajuda de um chacoalhão. – Acho que ele chegou.

Holmes abriu os olhos de sobressalto e também viu uma carruagem toda fechada parada em frente ao portão. Quase que imediatamente o empregado foi ao encontro do veículo e teve uma conversa rápida com seu ocupante. Em seguida a porta da carruagem se abriu, mas para o nosso desapontamento, quem saiu de lá não foi Ethan Hyde, e sim uma senhora bastante elegante, trajando um vestido azul marinho. Ela colocou um chapéu de abas longas da mesma cor sobre a cabeça e começou a caminhar em nossa direção. Sem saber muito bem o que fazer, nos levantamos, ajeitamos nossas roupas, e seguimos ao seu encontro.

— Bom dia, senhores. Eu sou Violet Hyde, muito prazer. – cumprimentou-nos educadamente a mulher de 50 e poucos anos, enquanto estendia sua mão enluvada.

— Muito prazer, senhora. – cumprimentou-a Holmes, pegando sua mão estendida e fazendo uma mesura. — Eu sou Sherlock Holmes e este é o meu colega, o Dr. John Watson.

— Muito prazer. – cumprimentei-a da mesma forma.

— Meu empregado disse que os senhores desejam falar com Ethan sobre uma ex-criada. – disse ela. – Meu filho não está no momento e não sei ao certo se ainda vai demorar, mas talvez eu possa ajudá-los, já que sou a responsável pelos funcionários da casa.

— Nesse caso, acho que, sem querer, acabamos encontrando a pessoa certa. – respondeu Holmes, exibindo seu sorriso mais simpático, mas não necessariamente genuíno.

— Pois então venham, cavalheiros. Subam na carruagem, por favor. A casa fica há alguns minutos daqui. – disse a Sra. Hyde, enquanto nos dirigíamos ao veículo.

Assim que subimos, a carruagem começou a se movimentar e ultrapassamos os enormes portões de ferro, que rangeram ao serem fechados atrás de nós. Parecia que, mesmo já estando dentro da propriedade, ainda teríamos vários metros a percorrer. A carruagem seguiu por um caminho pavimentado com pedras lisas e cercado por árvores altas. Quando ultrapassamos as árvores, chegamos ao jardim propriamente dito. Havia um enorme gramado e uma quantidade quase inimaginável de plantas e flores. Tinha até mesmo um coreto e um pequeno lago com alguns patos, que nadavam tranquilamente. Era um lugar verdadeiramente lindo.

— Eu preciso parabenizá-la, Sra. Hyde. Eu acho que este é o jardim mais bonito onde já estive em toda a minha vida. – disse-lhe, sem medo de estar exagerando.

— Muito obrigada, Dr. Watson. – agradeceu ela com um sorriso no rosto. – Eu adoro a natureza e foi exatamente esse amor pelas plantas que me uniu ao meu marido e também fez com que a Flora Cosmetics se transformasse na empresa que é hoje.

— A família Hyde realmente deve muito à natureza. – disse Holmes, enquanto examinava atentamente o jardim pela janela da carruagem, conforme seguíamos por ele.

— Tem razão, Sr. Holmes. – concordou imediatamente, nossa anfitriã. – Meu falecido sogro era um homem visionário. Ele era botânico e estudava as plantas e suas propriedades medicinais e cosméticas, e isso fez com que ele investisse em um ramo de negócios que ninguém acreditava que algum dia fosse crescer. Meu marido foi criado desde pequeno nesse ambiente e desenvolveu o mesmo amor pelas plantas. Agora o meu filho, embora não tenha o mesmo carinho por elas, também as respeita porque sabe que é delas que vem a fortuna da família.

— A senhora também é uma estudiosa da flora ou é apenas uma apreciadora? – perguntei.

— Eu já fui uma estudiosa. Sou farmacobotânica, e em minha juventude fui funcionária da Flora Cosmetics, onde conheci meu marido, mas hoje apenas cuido do meu jardim. – respondeu ela com uma expressão saudosista, enquanto finalmente a carruagem parava à entrada da grandiosa mansão.

Nós desembarcamos e fomos recepcionados por mais dois criados, um rapaz e uma moça. A Sra. Hyde foi em direção aos dois, que abriram as pesadas portas de madeira, enquanto a acompanhávamos há uns dois metros de distância.

Pouco antes de cruzarmos as portas, Holmes discretamente se aproximou de mim e, para minha surpresa, cochichou com uma expressão séria e sem maiores explicações: “Por via das dúvidas, não coma, nem beba nada que te oferecerem.”

Ao dizer isso, se afastou novamente com um sorriso simpático, mas totalmente falso em seu rosto, e continuou acompanhando a dona da casa como se nada tivesse acontecido. Se ele tinha dito aquilo, certamente tinha um bom motivo e eu já imaginava qual era, então decidi acatar sua ordem.