A Criada Francesa
17 É isso!
Algum tempo após a saída dos dois “informantes”, Holmes ficou pensativo e não parava de dar baforadas em seu cachimbo, criando uma nuvem de fumaça ao seu redor. Eu sabia que ele estava revisando mentalmente todas as informações que tínhamos a respeito do caso da criada francesa e não se daria por satisfeito enquanto não conseguisse encontrar o que quer que estivesse buscando naquele momento.
— Eu penso que podemos ter deixado passar algum detalhe. – comentei tentando puxar assunto, na esperança de que ele compartilhasse comigo o que o estava deixando naquele estado contemplativo. – Algo que possa relacionar de verdade o Sr. Vincent à família Hyde...
— Espere um minuto! – disse Holmes num estalo, se levantando da poltrona como se tivesse levado um choque. – É isso, Watson! Eu já sei quem é o Sr. Vincent!
— Então diga!
— Ele só pode ser um ex-empregado da família Hyde! – respondeu ele com uma expressão de alívio por ter encontrado o que procurava.
— E como você pode ter certeza disso? – perguntei, em tom de ceticismo.
— O rapazinho... o jardineiro da Mansão Hyde... aquele que nos acompanhou até a saída! – continuou ele, eufórico, mas sem muita conexão entre suas falas. – Ele nos disse!
— Disse? Quando? – perguntei confuso, tentando puxar pela memória a breve conversa que havíamos tido com o rapaz.
— Lembra-se da história para assustar os novatos? Aquela sobre o empregado que tinha desaparecido no jardim?
— Sim, eu me lembro, mas como ele mesmo disse, é só uma brincadeira inventada para zombar e assustar os novatos.
— Mas e se não for? – retrucou Holmes. – Sabemos que Juliette desapareceu e ela poderia ter sido a fonte de origem da história, mas e se esse episódio específico não for sobre ela? E se de fato houve algum outro criado antigo que também desapareceu da casa, mas não necessariamente no jardim? Esse funcionário poderia ser muito bem o Sr. Vincent, fugindo após o assassinato de Juliette. Para os Hydes, demitir os demais funcionários que pudessem saber algo sobre o assunto, seria a coisa mais fácil do mundo. Depois era só contratar novos e deixar que a história se perdesse ou se modificasse com o passar do tempo, até quase se tornar uma lenda urbana.
— Não seria impossível... – concordei, já entendendo onde ele queria chegar. – Para dizer a verdade, é bem plausível.
— É mais do que plausível, Watson, é quase certo. Tudo se encaixa perfeitamente. Ele trabalhava na casa e provavelmente já possuía algum tipo de deficiência, se tornando um alvo fácil para a família. Acredito que tenha se tornado um cúmplice involuntário em toda essa história macabra e, transtornado, fugiu do lugar. Sem ter para onde ir, passou a morar na rua, onde foi encontrado pelo Sr. Taylor. O Sr. Vincent é a peça final desse quebra-cabeça! Ele sabe de tudo o que aconteceu, e embora não esteja em condições de nos contar o que houve, é imperativo que voltemos ao Bedlam amanhã no primeiro horário. Acho que se conseguirmos fazer com que ele relembre o passado, talvez tenhamos sorte de aflorar um daqueles momentos de lucidez.
— Não custa nada tentar. – concordei, entusiasmado.
Fui me deitar ansioso pelo raiar do dia. Daquela vez, a noite não foi ruim como a anterior e pulei da cama cedo, animado para, quem sabe, conseguirmos provar a culpa dos Hydes, fazer justiça a Juliette e dar finalmente uma resposta ao Sr. Renard.
Quando me levantei, vi que Holmes havia madrugado e andava impacientemente de um lado para o outro, mas de nada adiantava aquilo, porque o horário de visitação de Bedlam se iniciava apenas às 8h30 e ainda eram 7h15 e precisávamos esperar mais um pouco. Contudo, isso não impediu que Holmes me arrastasse para a rua no momento em que me viu de pé.
Seguimos caminhando até o nosso destino e assim que os portões do infame hospital psiquiátrico se abriram, lá estávamos nós, entre os primeiros da fila dessa vez. Para nossa sorte, o mesmo enfermeiro que havia nos acompanhado no dia anterior estava disponível para realizar a tarefa novamente.
— Bom dia, senhores. – cumprimentou-nos alegremente ao nos rever. – Os senhores disseram que voltariam, mas não achei que seria tão rápido assim!
— Nós precisamos ver o Sr. Vincent. – disse Holmes, sem rodeios.
— Sr. Vincent? – perguntou o enfermeiro, confuso.
— Oh... o Sr. Teddy Bear. – corrigiu-se Holmes, percebendo seu engano.
— Ah, quer dizer que o nome dele é Vincent? Até que ele tem mesmo cara de Vincent...
— Sim, sim, o nome dele é Vincent e nós precisamos falar com ele. – disse Holmes, já cortando o rapaz.
— Infelizmente isso não vai ser possível... – disse o enfermeiro, desapontado.
— Nós sabemos que ele não costuma falar, mas precisamos fazer algumas perguntas. – insistiu Holmes.
— Não é por isso que os senhores não podem falar com ele. – disse o rapaz, nos deixando meio perdidos. – É que a benfeitora dele esteve aqui ontem à noite e o levou embora.
— Levou embora? – perguntei, surpreso.
— Sim, algumas horas depois de os senhores terem saído.
— Mas levou para onde? – inquiri.
— Bem, isso eu já não sei dizer, só sei que a mulher veio aqui e levou ele. – respondeu o rapaz sem entender o motivo de minha preocupação.
— Meu Deus, Holmes, será que Violet Hyde descobriu que o havíamos encontrado e o levou?
— Não sei, Watson, mas acho que não precisamos nos desesperar. – respondeu ele, numa reação bem mais contida do que eu esperava.
— E você não acha que isso é motivo para preocupação? – perguntei, perplexo com a tranquilidade de meu colega.
— Apesar de sua remoção repentina ter sido um tanto suspeita, não acredito que ele esteja correndo perigo, afinal, se não fizeram nada com ele em tantos anos, não acho que vão começar agora.
— Se você pensa assim... – falei, sem nem um pingo da convicção de Holmes.
— Holmes? Watson? Mas os nomes dos senhores não eram... – tentou dizer o rapaz, perdido na conversa, se dando conta de quem não éramos quem dizíamos ser.
— Oh... – disse Holmes percebendo que havíamos estragado nosso disfarce, mas naquele momento já não havia mais importância, pois parecia que as pessoas das quais queríamos esconder nossa presença, já sabiam de todos os nossos passos. – Desculpe pela pequena mentira. Eu sou Sherlock Holmes e este é o meu associado, o Dr. John Watson. Foi um prazer conhecê-lo, mas agora precisamos ir, com licença. E não se preocupe, daqui alguns dias você vai ficar sabendo de tudo pelos jornais, porque essa vai ser uma história e tanto, meu rapaz!
Sem dar maiores explicações ao jovem enfermeiro, que não tinha entendido nada do que estava acontecendo, retornamos à Baker Street para colocarmos as ideias em ordem e reencontrar um novo ponto de partida, justo quando estávamos tão perto de uma resposta. Se bem que Holmes me parecia um pouco tranquilo demais para alguém que tinha acabado de perder sua melhor pista. Algo me dizia que ele sabia de algo que eu não sabia.
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