A Cosmos Laranja Sempre Nasce Por Aqui
4 País Vizinho
Notas iniciais
— Você não pode sair assim, certo? — Luiz me perguntou.
— Assim como?
— Com esse cabelo — apontou a mão livre para minhas mechas ruivas.
Peguei em uma mecha a olhando.
— O que tem de errado com meu cabelo?
— Nada, ele é lindo — sorriu, me fazendo erguer os lábios em um sorriso agradecido — mas são muito chamativos.
Luiz franziu as sobrancelhas e comprimiu os lábios, pensativo.
— Ele chama muito a atenção — falou calmo — seria mais uma coisa para se preocupar, caso o governo de Éfron notasse que uma ruiva "morreu" — fez aspas com uma mão — e de repente uma ruiva aparecesse no país vizinho, é algo a se desconfiar, não?
Pensei. Ele tinha razão. Chegava até a ser cômico.
— Temos que tingir meu cabelo — falei convicta.
Assim que terminei de falar, Luiz mudou o rumo que o carro seguia, me fazendo ficar em alerta.
— Aonde está indo? — questionei, aflita.
— Calma ruivinha — ouvir ele me chamar do modo que Victor me chamava fez meus olhos lacrimejarem — tudo bem? — me olhou preocupado.
— Nunca mais me chame de ruivinha, por favor — uma lágrima desceu, me fazendo enxugá-la com as costas da minha mão direita.
— Relaxa, ok? Nem vai ter como, seu cabelo vai ser de outra cor — me lançou uma piscadela que me fez sorrir minimamente.
— Qual cor acha que combina?
— Acho que combinaria com você até se fosse verde néon — riu da própria piada — que cor você quer?
— Nunca parei pra pensar sobre — parei um momento para refletir.
Luiz estacionou o carro.
— Chegamos.
— Onde você mora?
Ele riu.
— Não, aqui é uma farmácia, vamos comprar uma tinta. Acha que precisa descolorir seu cabelo?
Fiquei atônita por alguns segundos, digerindo as informações.
— Descolorir? — franzi o cenho.
— Deixar ele mais claro — explicou — mas isso depende de que cor quer pintar, por exemplo, se for loiro, aí precisa descolorir, se for cor escura, como um castanho, ou preto, principalmente, não vai precisar.
— Isso machuca?
— A descoloração? Não dói, geralmente, se doer tem que parar, mas pode machucar os fios do seu cabelo, deixar eles secos e quebradiços. Mas com algumas hidratações deve melhorar rapidinho, acho. Minha irmã vive pintando o cabelo, sei de algumas coisas — ele falava sem parar.
— Acho que quero preto então.
Estávamos entre as prateleiras da farmácia, eu usava uma roupa preta maior que meu corpo e sentia uma enorme necessidade de tomar banho.
— Acho uma boa escolha — ele pegou uma caixinha onde tinha a imagem de uma mulher de cabelo preto, a colocando em uma mini cesta de compras — mais alguma coisa?
Roupas? Banho?
— Não acho que vamos encontrar o que eu preciso aqui.
— Certo, então vamos pagar.
Luiz caminhou até o caixa, onde ficava uma mulher de cabelos curtíssimos e castanhos. Fiquei deslumbrada com o comprimento de seu cabelo, há anos não corto os meus.
Quando voltamos para o carro, um silêncio reconfortante se instalara, por poucos minutos, logo sendo quebrado por um Luiz tagarela.
— O que mais precisa que não encontramos na farmácia?
— No momento, eu só quero um banho e roupas limpas — comentei vendo-o sorrir, concordando.
— Está mesmo precisando de um banho — fez careta e um gesto indicando que eu estava fedida.
Cheirei discretamente minha minhas roupas, vendo Luiz cair na gargalhada.
— Desculpa se eu passei horas enfiada numa caixa horrorosa e debaixo da terra — devolvi a careta, eu precisava mesmo de um banho, urgente.
— Tá bem, entendo, não tem graça — falou, voltando a rir.
Apesar de querer estar brava, eu ria discretamente. Luiz ligou o rádio do carro, cantarolando uma música qualquer que eu não conhecia, mas acompanhei o ritmo com um leve balançar de cabeça.
— Como você está? — Luiz mudou seu tom de voz para preocupado.
— Não sei se eu assimilei tudo ainda, parece mais um sonho — fui sincera.
— Um sonho bom ou ruim?
— Acho que é um daqueles que começam como pesadelo e depois se transformam em sonho — dei de ombros — vai demorar para chegarmos?
— Na verdade, senhorita, acabamos de chegar — ele estacionou o carro e puxou o freio de mão, repousando a mesma sobre sua perna logo depois.
Estávamos em frente à uma casa pequena e bem pintada, era de um amarelo claro, daqueles que é bonito de ver, e não chama tanto a atenção.
— O quintal fica nos fundos, moro nessa casa desde sempre — suspirou nostálgico.
— Mora sozinho?
— Não mais — me olhou com as íris brilhando, quase apaixonado.
Me perguntei que tipo de garota Luiz seria apaixonado, devaneei sobre a cor de seus cabelos, de seus olhos. Se seria alta ou baixa, magra ou gorda, se ela seria uma pessoa carismática como ele, ou mais séria.
Enquanto ele me guiava até a entrada da porta e girava a chave na fechadura, me permiti apenas aproveitar o momento em que eu seria apresentada à pessoa que fazia os olhos de Luiz brilharem.
Será que ela ia gostar de mim? Eu me perguntava.
Luiz entrou, sendo seguido por uma versão muito tímida de mim, com os braços entrelaçados em minha frente, tentando controlar meu nervosismo. O maior colocou as chaves que estavam em sua mão e em seu bolso em uma mini tigela onde continha mais chaves, enquanto gritava:
— Meu bem, chegamos! — ele me olhou e me lançou uma piscadela.
De todas as possibilidades que passaram pela minha cabeça, eu não podia estar mais errada. Me senti estranha quando, enquanto esperava uma voz doce e feminina, ouvi uma voz grave, mas igualmente doce, responder:
— Que ótimo! Estou fazendo o almoço, entrem! — era uma voz animada.
E entramos. Eu estava totalmente surpresa pelos meus devaneios, que foram muitos, não ter a possibilidade de que Luiz estava apaixonado por outro homem.
Ele era alguns centímetros mais baixo que Luiz. Pele negra, não tanto quanto a de Victor. Cabelos crespos e incríveis olhos azuis.
— Eu me chamo Christian, mas me chame de Chris — suas mãos grandes estavam estendidas em minha direção, esperando o meu aperto.
Cumprimentei-o.
— Milleni — tentei devolver o largo sorriso que me direcionava.
— É um prazer te conhecer, Milleni — sua voz grave chegava a arrepiar os pelos da minha nuca. Me lembrou de Sebastian.
— O prazer é meu — seus olhos azuis me fitavam com intensidade, pigarreei, um pouco constrangida — como conheceram Sebastian?
— Seu querido amigo não era um santo — Chris falou — ele dava suas escapadas — piscou igual Luiz fizera mais cedo.
— Como se conheceram? — alternei meu olhar em cada um.
— Época do colégio, na verdade — Luiz começou — mas nessa época éramos apenas bons colegas de turma.
— Depois ficamos amigos demais — Chris completou, sorrindo malicioso para o companheiro.
Senti o sangue subir para o meu rosto e tinha certeza que eles conseguiram perceber o rubor que eu, inutilmente, tentava disfarçar.
A verdade é que eu sentira uma pontada de inveja de toda a paixão que pairava sobre o local.
— Bom, acho que já chega de te deixar constrangida — Luiz se divertia com isso — temos que dar um trato em você. Me ajuda com isso, Chris? — um selinho foi trocado entre eles.
— Depois que comerem, sim.
Quando me lembrei da comida, minha barriga roncou alto em desagrado, enquanto eu sentia o cheiro apetitoso do que quer que tivesse sido preparado.
— Acho que já adiamos muito o almoço, huh? Vamos comer — Chris ordenou.
Não esperei muito para me sentar e me servir, eu estava faminta! Comi uma vez e repeti outra. Fora a primeira vez que comi uma comida caseira tão boa assim.
— Está bom? — Chris perguntou, com um leve tom de receio em sua voz.
— É a melhor comida que já comi em anos! — falei sem pestanejar — é um excelente cozinheiro.
— Obrigado, na verdade — sorriu — eu sou chefe de cozinha, temos um restaurante.
Arregalei os olhos totalmente surpresa.
— Uau! Isso é incrível, acho que vou precisar de dicas de como cozinhar.
— Vou ficar mais do que feliz em dá-las.
Naquele dia eu havia comido tanto que sentia meu estômago doer. Lembro-me de ter ficado envergonhada quando percebi que havia mastigado como uma desesperada. Por sorte, o casal não pareceu se importar, e se importaram, decidiram não falar nada a respeito.
— Acho que está na hora – exclamou Luiz.
Franzi o cenho, preocupada.
— Eu sei que tem razão em deixar meu cabelo de outra cor, mas ele é a minha identidade – suspirei tristemente.
Chris riu levemente.
— Não importa como está seu cabelo, você ainda é você, a essência é o que importa.
— E o essencial é invisível aos olhos * – completou Luiz acariciando meus cabelos.
— Vocês estão certos – sorri – vamos logo com isso antes que eu me arrependa.
Ambos riram nasalado e me conduziram para um banheiro de tamanho mediano. Sentei em uma cadeira macia enquanto ouvia eles cochicharem algo um para o outro.
— Então, além de tingir, vai querer cortar? – Chris perguntou.
— Sim, igual a mulher da farmácia – acho que o Luiz se lembra de como era.
— Lembrar eu lembro, mas não sei se consigo fazer igual – sorriu maroto – pode ficar uma porcaria.
— Não vou nunca te perdoar se estragar o meu cabelo – fingi irritação.
— Não prometo nada.
Após dizer isso, um frio na barriga se instalou enquanto ele penteava e prendia meu cabelo, por mais gentil que tentasse ser, não conseguiu impedir os resmungos e protestos de dor que eu soltava sempre que a escova enganchava em alguma madeixa mais embaraçada que as outras, arrancando risinho entre os dois. Quando Luiz prendeu meu cabelo, fechei os olhos com força esperando que ele o corta-se. Ouvir o som da tesoura foi horripilante, era quase como se doesse uma parte de mim fisicamente, parecia que a ficha finalmente tinha caído e eu estava mesmo em Gadena, não mais em Éfron.
Aos poucos os sons do ambiente foram se distanciando cada vez mais de mim, tudo que passava pela minha cabeça naquele momento eram os flashs de todos os meus vinte anos recém completos. Abri os olhos e não consegui focar em nada do que via. Senti a garganta trancar e os olhos se inundarem de lágrimas. Senti minhas mãos começarem a tremer e ficou cada vez mais difícil de respirar.
— Milli? Você está bem? – ouvi ao fundo alguém perguntar. Balancei a cabeça de forma positiva mecanicamente – ai meu deus, é claro que não está. Chris ela está tendo um ataque de ansiedade.
— Milli, foca na minha voz – senti duas mãos gentis tocarem meu rosto – olha pra mim.
— Milli, olha pra mim – Victor me olhava sério.
Olhei em seus olhos.
— O que foi? – disse entredentes.
— Eu sinto muito pela Kate – eu sabia que ele estava sendo sincero – mas não faça nada estúpido que possa por a sua vida em risco também.
— ESTÚPIDO? – berrei – Você acha estúpido eu odiar esse sistema de merda, que nos amordaça e nos machuca, esperando que sorríamos como se fosse o sonho de nossas vidas? Você quer que eu sorria Victor? – Abri o sorriso mais falso e irônico que consegui.
— Não quero que sorria Milleni, não fale como se fosse só você a sofrer com isso, só não quero que tenha o mesmo fim que ela.
— Estevan não merece toda aquela caridade que está recebendo, por culpa dele ela está morta.
— Não posso negar, mas a culpa não é inteiramente dele, a maioria de nós se quer percebe que as coisas estão erradas, agimos como robôs e aceitamos as coisas como se fossem normais. Mas eu te peço, não, eu te imploro, não faça nada que coloque a sua vida em risco também.
— Porque isso colocaria você em risco, é por isso? – eu falava baixo, com a respiração entrecortada, estava fazendo o máximo de esforço para não chorar.
— Ficou maluca? – segurou fortemente seu cabelo, gesticulando exasperado – EU NÃO SEI O QUE EU FARIA SE EU TE PERDESSE – vi perfeitamente quando as lágrimas rolaram impiedosamente por sua face – eu.. não sei o que eu... faria – fungou – eu amo você!
Pela primeira vez ele havia dito que me amava, fiquei paralisada de choque por alguns segundos, antes de abraça-lo com toda a força que eu tinha.
— Eu também amo você – falei entre soluços – desculpe por surtar.
—Milleni?
Ouvi uma voz me chamando para a realidade. Eu estava tremendo nos braços de Luiz, chorando copiosamente, enquanto ele afagava minhas costas. Minha respiração já havia voltado ao normal e tudo que fiz foi continuara li. Eles não disseram uma só palavra, apenas sentia o carinho que agora também estava em meus cabelos.
Aquela fora a primeira vez que Victor dissera que me amava, e foi a primeira vez que eu o vi chorar. Aquele momento marcou uma intimidade diferente para a nossa amizade.
Quando me recuperei, limpei os olhos com a manga da camiseta que usava.
— Está melhor? – perguntou Luiz com o cenho franzido de preocupação, balancei a cabeça afirmativamente – que um copo de água? – concordei.
A parte de tingir o cabelo fora simples, mas fez uma bagunça enorme. Quando finalmente pude tomar banho já era noite.
Algumas semanas se passaram enquanto eu me adaptava no local onde morava. Gadena era um país um pouco menos frio que o meu, algumas plantas nasciam mais e o sol durava mais tempo. Passei a conhecer alguns lugares mais tranquilos. Eu caminhava todas as tardes e fui ao cinema duas vezes. Nos primeiros dias eu apenas ficava dentre de casa, morrendo de medo de ser descoberta. A primeira vez que saí para caminhar, foi porque Chris me pediu para comprar alguns ingredientes para fazer um bolo em comemoração ao aniversário do Luiz. Eu fui. Sentia que todos me encaravam e me julgavam, apontando seus dedos em minha face e me chamando de todos os nomes ofensivos possíveis, mas eu também sabia que era tudo na minha cabeça. As pessoas não estavam me julgando, elas nem me conheciam. Eram simpáticas e estavam sempre sorrindo.
Aos poucos fui perdendo o medo de sair, e passei a frequentar mais a praça pública. Até começar a me aventurar por uma mata um pouco mais fechada. O Parque Nacional era uma floresta belíssima. Podíamos passear por lá tranquilamente e nem precisávamos pagar por isso. Mas quando a mata começava a fechar, era onde não podia mais haver pessoas, era uma reserva natural que cuidava da preservação da fauna e da flora de Gadena. A floresta cortava o país todo em uma tira de muitos quilômetros de extensão.
Voltando de lá, uma vez, passei em frente a um estabelecimento onde tocava uma música agitada. Quando cheguei em casa, perguntei ao casal e me informaram que o estabelecimento se tratava de um clube. Eles tentaram me convencer por um tempo de irmos até lá. Mas eu sempre recusava.
— Posso saber por que não está arrumada ainda? – Chris chegou com os braços cheios de sacolas de mercado.
— É sexta-feira a noite – falei com a boca cheia de pipoca, vendo o mais velho colocar as sacolas em cima da mesa, me prontifiquei a guardar os alimentos – por que eu estaria arrumada?
— Porque é sexta-feira a noite! – sorriu – é o dia perfeito para sair, e nós vamos para um clube. Não aceito não como resposta – me cortou antes que eu recusasse.
— Estamos prontos? – Luiz chegou abotoando a camisa social que usava.
— A Milli disse que não vai, e se ela não vai eu também não vou – olhei para Chris indignada, ele sabia que aquilo era golpe baixo.
— Você não vai? – Luiz perguntou para mim, mas eu sabia que ele estava falando mais de seu companheiro.
O homem forte de pele morena pareceu ficar triste e soltou um “tudo bem” em um muxoxo. Eu imaginei que era por isso que ele estava tão animado mais cedo daquele dia, desde que tinha chegado pouco os vi saírem juntos ou terem tempo para namorar, estavam sempre muito preocupados comigo, como se eu fosse uma criança que precisava de toda a atenção e cuidado dos pais. Suspirei derrotada.
— Eu vou – sibilei, olhando para a cara falsamente inocente de Christian.
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