A Cosmonauta
1 Contagem regressiva
Monique flutuava, desconcertantemente, em direção ao vazio. Em seu traje, fora, acidentalmente, arremessada para longe de sua estação espacial, durante uma checagem de rotina. Já não havia mais nada a ser feito.
Seu traje apitava, funéreo, e sua respiração acompanhava a melodia, enquanto um pequeno led acendia, ocasionalmente, em seu campo de visão, lembrando-a de que seu oxigênio estava para acabar. Um pequeno temporizador ditava quando a música teria fim; após três horas, vagando pelo espaço, restava um pouco menos que dois minutos.
Monique fitava o contador, em decrescente, sem desviar o olhar, já não havia coisas restantes para se fazer. Desde que seu destino foi selado, diversos pensamentos percorreram sua mente, mas, enquanto ela aguardava, pacientemente, pela sua morte, nenhum pensamento em particular lhe ocorreu. Sua mente estava vazia como tudo a sua volta… Branca.
Branco, pensou ela, e sua atenção foi completamente roubada pela vastidão ao seu redor. Sim, quase como era antes, mas, dessa vez, branca.
Monique não mais flutuava, seus pés estavam firmados em algo sólido, como o chão, mas não era nada em particular; e, arriscando pequenos passos sobre o vazio, girou em torno de si mesma contemplando o nada.
Com exceção de seu próprio corpo, não havia mais nenhuma referência de espaço ou profundidade, e, por um momento, ela achou que poderia despencar e se desequilibrou. Caiu de bunda, no que acreditava ser o chão, mesmo que não pudesse distingui-lo de qualquer outra coisa. Apreensiva, Monique apalpou ao seu redor.
— Olá — disse uma voz suave, serena e, igualmente, temerosa.
Monique, amedrontada, voltou-se imediatamente em direção a voz; não havia nada ou ninguém, mas, estranhamente, ela sentia uma presença, e essa presença emanava calor.
— Eu te trouxe aqui — continuou a Voz.
Ainda no "chão", ela apenas encarava a direção de onde vinha a voz, em silêncio. Bip, tornou a perceber a melodia de seu traje e, nesse momento, seus pensamentos ficaram rápidos demais para que ela mesma os entendesse.
— E-eu…
— Não morreu — completou a Voz.
Monique olhou ao seu redor, novamente, e, pela primeira vez, desde que atravessava o espaço, sem rumo, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela estendeu a mão para enxugá-las, mas esta se chocou contra o vidro de seu capacete. Ainda ouvindo os apitos de seu traje, não encontrou ânimo para se pôr de pé, mas, renovando o ar de seus pulmões, recompôs-se.
— Onde… Onde nós estamos?
— Em nenhum lugar em particular.
— E por que eu estou aqui…?
Após uma breve pausa, a Voz encheu os pulmões de ar, como se houvesse um corpo, e disse:
— Eu, simplesmente, tive a impressão de ter ouvido você me chamar; e quando a vi, tão só... te trouxe até mim.
Nenhuma palavra era capaz de expressar a confusão que Monique sentia.
— Então… — ela prolongou a fala, sem saber ao certo como continuar; Sem saber ao certo se queria saber a resposta — você... veio me salvar?
E após, a pergunta, os sons de seu traje cessaram e uma sensação de alívio tomou todo seu corpo. Monique fechou seus olhos e sorriu, se sentiu leve, como nunca antes.
Contemplando-a por alguns instantes, a Voz lhe disse:
— Ponha-se de pé, venha até mim.
Ainda sorrindo, Monique levantou com cuidado e, só então, lhe ocorreu:
— Você é Deus?
A Voz riu, desarranjado, e após uma pequena pausa, encheu os pulmões de ar, novamente…
O corpo de Monique flutuava, desconcertantemente, em direção ao vazio. Frio e imóvel, solitário… Nem mesmo os sons de seu traje lhe faziam companhia.
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