A Cortesã

5 Obrigações Indelicadas


Notas iniciais
"Tem sido difícil conciliar o dia a dia com a Fic. Peço perdão pelo atraso." N.B- Palavra de baixo calão no capítulo.

“Fujam da imoralidade sexual.

Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os cometem;

mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo.” 1 Coríntios 6:18

Charlie pestanejou, sentiu seu corpo se retesar automaticamente e suas mãos ficarem frias. Foi preciso algum esforço para levar a taça aos lábios e molhar de vinho a garganta agora seca.

O salão foi inundado por um burburinho, risos frenéticos e gritos histéricos das prostitutas. Os homens encostaram-se para apostar e falar mal dos dois homens que se cruzaram em direção a Charlie Dumont.

— Não seriam maus modos colocar-se a meio do caminho de outrem, Duque de Mountbatten? — Perguntou a Cortesã, após passar breves segundos a pensar no que dizer.

— Charlotte […]

— Senhorita Dumont, para si. — Retificou com um tom de voz alto e frio. Seus olhos não o encaravam, mantinham-se fixos em algum lugar no meio de sua testa.

— James. — O Infante aproximou-se dele e acenou com a cabeça educadamente.

— Fitzadam. — James retribuiu o gesto friamente. Não lhe prestou vassalagem e muito menos se dirigiu a ele pelo título nobre. Desceu a mão instintivamente até ao coldre.

— Permita-me avisar que seguia ao encontro da senhorita Charlie Dumont. — disse Fitzadam, cujos lábios mal se moviam ao falar. Ele era dois palmos mais alto e maior que o Duque, e mesmo assim exalava uma calma avassaladora.

— Parece-me óbvio que terei chegado primeiro. — retorquiu. James olhava-o com aversão e seus olhos azuis saltavam alternadamente entre a Cortesã e o homem a sua frente.

Madame Norma aproximou-se com um sorriso que mal camuflava a sua preocupação. Meteu-se entre os dois homens, esquecendo-se severamente das regras de etiqueta.

— Perdoem-me senhores — Ela sorriu. Sua voz tremia. — Charlie poderá conversar com todos. Senhor York se me pudesse acompanhar, eu o serviria um uísque maravilhoso enquanto aguarda.

— Fitzadam me parece um melhor apreciador de uísques. Neste momento pretendo falar com a Senhorita Dumont. — respondeu, seu sobrolho unido demonstrava que não ia arredar o pé dali por nada.

Charlie cerrou os maxilares, por muita curiosidade que a conversa com James lhe pudesse trazer, a última coisa que queria naquele mundo era enfrentá-lo. Tinha apagado a existência dele de sua vida de vez. Ela abriu a boca preparada para manda-lo embora, mas foi interrompida pelo Infante.

— Tenha o seu tempo, James. — disse Fitzadam que acenou mais uma vez e olhou para a Cortesã enraivecida. — Foi um breve prazer, senhorita Dumont.

Ela quis saltar do sofá e ir atrás do Price, mas as regras de etiquetas entre as Cortesãs eram muito rígidas, e naquele momento se odiou por isso. Viu Madame Norma se retirar com um sorriso aliviado embora que de desagrado, e pela primeira vez na noite olhou para James atentamente. Teve impressão de o ver empalidecer e abrir ligeiramente os lábios.

— Em que lhe poderei ser útil, Senhor York? — perguntou. Seu peito subia e descia lentamente, embora que por dentro estivesse a entrar em erupção.

— Preciso trocar algumas palavras consigo, em um local menos barulhento. — Pediu. Seus olhos gélidos não demonstravam nenhuma emoção.

— O meu tempo custa ouro. — advertiu, sem receios ou vergonha e continuou a encara-lo sem pestanejar.

— Esse é o menor dos meus problemas, Senhorita Dumont. — afirmou James, e ela teve vontade de o lembrar que nunca fora. Levantou-se de forma sensual, o que arrancou suspiros da maioria dos homens e subiu as escadas novamente. O Duque de Mountbatten acompanhou-a, procurava a Charlotte que um dia conhecera, sem sucesso.

Entraram nos aposentos que ela ocupava, e ele olhou ao redor a tentar imaginar quantos ainda entrariam ali. Uma raiva acometeu seu coração. Charlie serviu vinho em duas taças que se encontravam sobre o criado-mudo e bebeu da sua, sem entregar a outra para ele.

— Obrigado. — agradeceu ao perceber que a outra taça era para ele, mas preferiu não beber. Colocou as mãos nos bolsos das calças.

— Sei que não vamos foder. Diga-me o que o traz até aqui.— O palavrão que saiu dos lábios da Cortesã, não deixou o Duque indiferente, pois meneou a cabeça em forma de reprovação. Charlie sorriu por dentro divertida.

— Preciso de vossa ajuda. — disse seriamente. — Pagarei o que for.

— A vida e as suas ironias. — redarguiu ela que terminou a sua taça de vinho, e apossou-se da outra. — Não o ajudarei, como bem sabe.

— Não me humilharia ao vir até aqui se não fosse sério. — Insistiu, e viu os olhos escuros da mulher a sua frente, arregalaram-se.

— Até aqui? — repetiu de forma pensativa, e tentou disfarçar o frio que sentiu na barriga por ele achar humilhante estar ali. Bebeu outro gole e sentiu a mão de James segurar a taça, impedindo-a. Charlie empurrou a mão dele bruscamente. — Se não me contar nada que me pareça de modo interessante nos próximos dez segundos, terá que se retirar!

— Elizabeth é a mulher do Infante Fitzadam Price. — James quase cuspiu as palavras de sua boca, e a Cortesã sentiu seu coração bater com força.

— Desejais que não me torne na cortesã do Infante? — Questionou, curiosa.

Um silêncio encheu o quarto, as sombras das velas aromáticas dançavam pelas paredes de um amarelo gasto. Os dois encararam-se por muito tempo até James quebrar o momento.

— Pelo contrário. Desejo que se torne na cortesã de Fitzadam, e que entre em sua vida e sua cabeça de modo a que ele não possa respirar sem a vossa presença por perto.

Charlie disfarçou o golpe que sentiu entrar-lhe pelo estômago a dentro. Sempre soubera o quanto James possuía um coração gélido, mas não imaginaria que ele alguma vez fosse pedir-lhe que dormisse com outro homem mesmo ela sendo uma prostituta. A bela mulher estreitou os olhos, fingindo receber bem a proposta.

— E … poderia saber a razão de tal intensão, Senhor York? — inquiriu, mantendo o mesmo tom de voz que outrora. Não daria ao luxo do Duque perceber que ele ainda a afetava. “Não é amor, claro que não é.” Diria para si mesma. “As prostitutas não amam. É raiva! Tudo o que sinto por James York.”

— A minha irmã é enferma. Padece do mesmo problema de minha mãe. — James levantou-se para não mostrar a dor que se vinha alojar em sua face. Um dos poucos momentos em que demonstrava fraqueza. — Tudo o que lhe posso dizer é que ela é infeliz. O Infante não lhe dá o desquite talvez por não ter encontrado uma mulher que o enlouqueça a ponto de fazer isso.

— O que o faz pensar que o Infante faria isso por mim? — A pergunta de Charlie foi mais para o alto do que para o homem na sua frente. Mil coisas se passam na sua cabeça naquele momento.

— Ele se deslocou até aqui para vê-la. Isso me fez ter a certeza do poder de vossa beleza para esses homens que tanto a veneram. — Virou-se de frente para ela enquanto falava. — Tem a chance de libertar Lizza, se não por mim pelo menos por minha mãe.

— Não faria nada por si, mas por vossa mãe pensarei a respeito. Agora por favor, retire-se. — pediu Charlie, e procurou a sua cigarrilha. James olhou-a de nariz torcido.

— Rogo-lhe. Dar-lhe-ei o que quiser.

— Não tendes nada que me interesse. — respondeu de forma a magoa-lo, e viu uma sombra passar pelos olhos do Duque.

— Ficarei com uma dívida nesse caso. Poderá supri-la quando necessitar. — James limitou-se a sair sem olhar para trás, deixando o cheiro do seu perfume no lugar.

A Cortesã permaneceu no mesmo lugar, perdida em pensamentos. Acabou a garrafa de vinho sem se aperceber, imaginara tanto o dia em que conversaria novamente pela primeira vez com aquele homem. Bateram a porta.

­ — Charlie? — Marie de Rothandberg adentrou com um ar preocupado e com um xale sob os ombros cavos.

— Marquesa. O que a traz aqui? A festa? — Charlie pareceu despertar, sequer sentira o tempo passar em torno de si.

— A festa terminou faz tempo. Quase é dia. — A senhora sentou-se na cama confortável e olhou para ela. — Toda cidade fala de vosso encontro com o Duque de Mountbatten. Fiquei preocupada.

— Para ele não passo de uma mulher vulgar. E é o que eu sou. — Charlie levantou-se e caminhou até as cortinas pesadas, abrindo-as. O céu começava a clarear lentamente. Permitiu-se não sofrer. — Ele deseja que eu seduza o Infante Fitzadam Price.

Marie era a única que se tornara amiga da jovem Cortesã, em Hampshire. Tinha conhecido um pouco de sua história e como uma mulher mais velha, conseguia sentir o peso que Charlie carregava.

— Sinto muito. — murmurou.

— Não sinta, Marquesa. — Os olhos de Charlie fixavam atentamente a torre mais alta do palácio. — Ambas sabemos que é exatamente o que preciso fazer. James York veio apenas aumentar água no caldo.

— Mandei que procurassem saber sobre ele. Ainda não terá seguido o vosso rastro até aqui. — sussurrou Marie de Rothandberg.

— E quando chegar, eu terei a guarda real como proteção. — afirmou, e seus olhos encontraram os de sua amiga, confiantes. Não imaginavam que Madame Norma escutara tudo atentamente por trás da porta.

Notas finais
É provável que hajam cenas de sexo futuramente. Tratarei de avisar. Não tenho medo de Fantasmas, portanto Leitores que não se pronunciam, tem uma caixa aí em baixo: Aceito dúvidas, sugestões, críticas, e elogios. Obrigada.