A Cortesã

13 A Última Vez


Notas iniciais
Posso demorar sim, mas já disse que não abandono e prometo cumprir. :) Também estamos perto do fim. Espero que gostem.

Tocaram os sinos da igreja, os olhos da criada procuravam os York sentados na primeira fila da paróquia, tão longe dos pobres e de cor, mas tão perto quanto os corações lhe permitiam estar. Seria naquele dia, com a chegada de Richard York, o novo casal iria expor o desejo de contrair matrimónio, pois era o dever do jovem herdeiro, o de honrá-la.

Ana segurou o braço do filho assim que o padre terminou a missa, saindo para fora a fim de conversar com os vizinhos burgueses, outros senhores de títulos e terras, que em muito insistiam para convidá-los a jantares, convívios e principalmente em apresentar as filhas solteiras. O único problema era a bela empregada que os acompanhava sempre com um sorriso matreiro nos lábios.

Desde o natal que o recém casal dormia juntos, ignorando as más bocas e o olhar desaprovador da senhora de York, esta que por sua vez pouco se dirigia a sua única amiga e companheira de antes, se confinando com outras mulheres da nobreza a fim de se distanciar de tamanho pecado, principalmente agora que gozava de boa saúde.

Quando chegaram a vivenda puderam avistar os cavalos de porte e a carruagem luxuosa, afirmando que o pai de família estava em casa.

— Vai correr tudo bem. — James segurou nas mãos pequenas, beijando-a as escondidas por trás da casa e sentindo toda a ansiedade em resolver aquela situação. Tomando-a como sua mulher, ignorando toda uma sociedade que certamente os crucificaria.

Charlotte apenas assentiu na sua timidez, tinha o coração aos saltos, ainda assim rezara várias noites à Santa, para que lhes iluminasse. Não aguentava mais ouvir variados desaforos dos outros empregados sem que as lágrimas lhe viessem aos olhos. Retribuiu o beijo ávido como se fosse a primeira vez, hesitando em deixar o amado partir.

Naquela altura, o futuro Duque de Mountbatten aguardou as refeições do dia em paz, conversando sobre a corte e ficando a par sobre tudo o que acontecia na cidade. De vez em quando cruzava o olhar da sua mãe que em silêncio o rogava para tirar a ideia absurda da cabeça. Sem sucesso.

Richard chamou o filho para falarem sobre os negócios conseguidos agora que o nome da família estava associado aos Price e a realeza. Era preciso começar a tirar proveito e ter uma mão de ferro nas fábricas tabagistas que começavam a se espalhar pelo país, e aumentava a fortuna dos York.

— Terás que viajar pelo país, sendo sempre o responsável por toda a faturação e produção, tanto quanto a exportação meu filho. Consegui contratos exclusivos, será a nossa era de glória. — O patriarca estava satisfeito como nunca, parecia não conseguir segurar o próprio orgulho ao revelar os novos cachimbos com o Y gravado à mão.

— Posso concordar, mas pretendo-me casar e levar minha esposa comigo. Pelo menos até a nossa corte — Foi direto ao assunto que o tinha martirizado sem parar durante todo o dia.

— Pelo que me lembro terás desfeito o compromisso com a vossa antiga noiva há alguns meses. — O homem astuto estreitou os olhos com sabedoria. — Alguma senhorita destas terras terá chamado sua atenção?

— É a dama de companhia de nossa mãe. Charlotte.

Quando o pai começou a rir sem parar, uma mágoa assombrou os olhos azuis de James, se sentindo desconfortável pelas gargalhadas roucas e maldosas do mais velho.

— Meu filho, eu entendo como as negrinhas podem ser quentes e doces, mas não são para casar. Essa criada sequer tem um sobrenome, percebe? Nem conhece o próprio pai. Imagina a vergonha que passaríamos todos por conta da vossa tesão? — Continuou a rir sem parar, balançando a cabeça negativamente no processo, e sem se preocupar com a palavra de baixo calão proferida. — Farás dessa rapariga sua amante e nada mais. Leve-a como concubina e case-se com uma fidalga. Mais tarde irás agradecer-me por isso.

— Não percebe, pai. Não vim pedir sua bênção e sim avisá-lo de minha vontade. — Esclareceu sem pestanejar, engolindo os desaforos todos pronunciados contra àquela que amava.

— Esse tipo de rapariga apenas tem interesse no dinheiro, meu filho. Eu vou mandar chamá-la aqui e fazer uma oferta melhor, verás como os sentimentos que diz nutrir por sua pessoa, serão transformados — Garantiu com certeza, passeando os dedos grandes e gordos pelos bigodes grisalhos.

Via na cara do seu herdeiro o brilho dos olhos de uma paixão sem fim, e isso não poderia permitir. Logo que o ingénuo – ao seu ver, saiu atordoado pelas afirmações, mandou chamar a criada negra, cujo olhar amedrontado foi o suficiente para colocar o plano em prática.

— Quanto quer para ir embora para sempre e esquecer as loucuras que colocaste na cabeça de James? — Sequer se dignou a cumprimenta-la, ameaçando com o olhar de desprezo e se aproximando mais de Charlotte. Pode perceber que era de uma beleza desconcertante com um corpo cheio de curvas perigosas.

— Eu amo o seu filho, senhor — respondeu de olhos baixos e as mãos junto ao colo. Tremia sem parar tal como varras verdes.

— Venha cá.

— Me solte!

O senhor York a forçou contra a mesa, procurando subjuga-la à sua força. Por sua vez a criada era forte e debatia-se, gritando e chamando a atenção. Cobriu a boca feminina com sua mão grande e com um só movimento, bateu com a cabeça cheia de cachos curtos contra a mesa de madeira, levando-a a um desmaio temporário. Baixou as calças e levantando as saias do vestido, penetrou-a sem cuidado, forçando o caminho despreparado e começando a fazer investidas duras e fortes. Charlotte despertou confusa e contrariada, sentia dor na cabeça e na intimidade, sem forças suficientes para revidar, ainda estava atordoada pela pancada e sentia o sangue correr pelos olhos.

O barulho chamou a atenção dos demais na casa, tendo James voltado a sala e sentido como se uma faca tivesse-lhe trespassado as costas e atingido o coração. Sua alma se quebrou aos mil pedaços, vendo a cena completa por trás, o seu pai tendo relações com aquela que pretendia casar, sem que a mesma se dignasse a contrariar. Pelo ângulo do jovem herdeiro, o sexo era completamente consensual, e abandonou o lugar sem sequer ouvir o lamento da amada.

— James… — Ela teria chamado.

Houve uma grande comoção na Vivenda York naquela noite. O futuro Duque de Mountbatten teria partido a cavalo, e Ana se trancado no quarto aos prantos. O patriarca mandara escorraçar a criada, chamando-a nomes e humilhando-a perante os demais. Edmond fora quem socorrera a amiga, censurando com o olhar mas sem se dignar a materializar os pensamentos.

Charlotte ficou na casa da avó do amigo, afastada de tudo e de todos, sendo que o seu nome estava na má boca do povo. Aos poucos foi percebendo o que tinha acontecido, quando o inicial choque passou, e a verdadeira cortina se abrira em seus olhos. Chorou dias e noites, sem se dignar a comer ou sair do pequeno colchão o qual lhe servira de cama. Acreditava que James iria voltar mas isso não aconteceu nos meses em que se seguiram e a barriga cresceu como nunca.

Ana York morreu algumas semanas depois, muitos afirmavam ser a doença mas a criada sabia o desgosto que causara na mulher. A sua senhora tinha avisado várias vezes e não quisera ouvir. Por sorte a barriga tinha mais dias do que a violação de Richard, e isso confirmava a paternidade da mesma.

Edmond trouxera algum dinheiro que a antiga matriarca deixara para a criada, entre elas algumas joias e uma carta. O amigo aconselhou a viajar para a cidade atrás do amado caso a sua versão dos factos fosse verdadeira e confrontasse James.

Depois de alguma relutância a futura cortesã se fez a estrada, entre o frio e a barriga saliente, chamando a atenção dos demais viajantes e com o medo pelo desconhecido que iria enfrentar. Nunca tinha saído do campo, e não acreditou ao ver os edifícios altos e estradas com carruagens de grande porte.

Também levou dias a encontrar James, tendo se perdido pelas ruas, comido e dormido em lugares duvidosos e roubada. A criada não sabia mais o que fazer, e passara a dormir na praça enquanto aceitava esmola de quem se dignasse a dar.

Mesmo depois de tanto tempo, o reconheceu. Tinha um novo aspeto taciturno e era acompanhado de um grupo de homens que o seguiam como se fosse ouro. Alguns anotavam suas ordens enquanto se dirigiam para um edifício próximo. A alegria tomou conta da futura mãe, e sorriu agradecendo aos céus a sorte de finalmente o ter encontrado.

— James! James! — Acenou completamente suja como uma mendiga no meio da praça pública.

Não foi a situação que se encontrava que chamou o desprezo para os olhos do jovem York, e sim ao ver a mulher que traíra seus sentimentos como quem estilhaça um copo de vidro. A dor jamais iria ser superada, mas não se daria ao luxo de voltar a encarar aquele rosto. Ignorou-a, seguindo em direção ao destino pretendido.

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— Quantas blasfémias continuarás a proferir, senhora Dumont? Por que tentas destruir a lembrança de minha família com mentiras. Se existe uma criança, onde ela está? E como podes provar que as tuas palavras não passam de calúnias contra mortos que não se podem defender? — Ajoelhado no chão, o rosto do Duque estava tingido de um vermelho.

— Se veio aqui em busca da verdade, como te atreves a duvidar de minhas palavras?— Charlie limpou o rosto e deu meia volta, recomeçando a caminhar para dentro de sua casa. — Pretendes a verdade, pois siga-me.

Demorou algum tempo até ele se recompor e seguir a Cortesã. Os olhos azuis pareciam um mar inundado pronto a transbordar a qualquer altura. Lá dentro o calor foi acolhedor, e subiram para os aposentos principais.

Ela afastou a cómoda principal revelando um cofre de tamanho médio ali escondido, o abriu com rapidez e tirou de lás as joias e a carta destinada a si há dez anos atrás. Atirou tudo para as mãos do Duque.

— As joias de minha mãe… — Reconheceu. Por algum tempo se tinha perguntado onde estariam, uma vez que o pai não tinha entregado à irmã.

— Nem na fome nunca as vendi, sempre as levei bem presas a mim para que não fossem roubadas como todo o resto. Duas peças muito valiosas.

James tinha as mãos trémulas quando abriu o papel manchado, onde reconheceu a letra redonda e estreita de sua mãe, com a data já passada.

Querida Charlotte,

Creio que seja tarde para recobrar os erros, por isso não vou pregar sermões sobre como eu várias vezes a avisei. Isso agora não vem ao caso. Me preocupo com a sua solidão e tudo o que lhe aconteceu. Não pude fazer mais pois estou de mão atadas, mas repudio qualquer ato feito pelo senhor desta casa. Ter-me-ia contado sobre a injustiça cometida contra seu inocente corpo em completo júbilo. Não viverei para suportar tamanha vergonha. Envio com Edmond duas joias pois reconheço o fruto de vosso ventre como sangue de meu sangue. Algum dinheiro pela nossa antiga amizade, serias minha filha de bom grado se estivéssemos noutros tempos. E sem mais me despeço, carregando uma tristeza infinita no coração, amada Charlotte. Se for um rapaz, chamarás o meu neto de Dumont. Nome de meu personagem literário favorito.

De sua eterna amiga,

Ana de York

James não era inocente o suficiente para perceber que sua mãe se suicidara, e aquela carta fora uma despedida. Tanto ele como Elizabeth teriam recebido cartas, todas muito vagas e nada tão profundo. A questão era por que não o contara sobre o filho de Charlotte? Pensaria a senhora estar a poupar mais sofrimento aos dois? Nunca teria a resposta.

— E a criança, senhorita Dumont? — As mãos tremiam e pestanejava para segurar as lágrimas persistentes em cair.

— Nasceu menina. Tomei o nome como nosso sobrenome, nenhuma teve um pai para regista-la. — A Cortesã parecia calma como nunca, mas dentro de si um turbilhão de sentimentos acontecia. Sequer conseguia distinguir o que estava a sentir.

— Onde ela está? — Quis saber, esquivando-se das vozes invisíveis que insistiam em chama-lo de idiota e infantil, de cada vez que se lembrava dela naquela maldita praça, na última vez em que se viram. — Como terás sobrevivido?

— Madame Norma era a Cortesã do momento naquela altura, me deu abrigo e trabalho até parir. Depois disso tive que usar o meu corpo para outras funções…

— Não diga isso!

— Mas é a verdade. Esse conde francês caiu nos meus encantos e me levou para a frança, onde me tornei no que sou hoje.

Os dois se enfrentaram, sem saber discernir o que ia na cabeça tanto de um como do outro. Os corações pareciam discutir qual deles batia mais alto.

— Eu odeio você, James. — Foi franca e sentiu os olhos arderem. Não se lembrava a última vez que fora tão suscetível ao sentimento. — Mas vou precisar de sua ajuda para encontrar nossa filha. É só por isso que estou contando tudo isso, se não, poderia morrer pensando que sempre fui uma prostituta, isso não importaria!

— Não sabe onde ela está? — O medo pela possível filha desaparecida o assombrou como se já a conhecesse há muitos anos. Viu a resposta negativa de Charlie. — E como ela é? Como se chama?

— Tem cabelos cacheados e olhos azuis. — A fraqueza estava vista quando o lábio inferior estremeceu na lembrança. — Seu nome é Ana.

O coração do Duque de Mountbatten falhou uma batida ao se aproximar da bela mulher. Tinha os olhos tão vermelhos quanto o sangue que lhe corria pelo corpo. A respiração estava descompassada.

— Eu disse que nunca neguei o meu amor pela senhora — repetiu apertando os ombros delicados. — Nunca consegui seguir adiante com nenhuma mulher. Nunca. Também a odiei, mas fomos vítimas de um mal-entendido.

— Mal-entendido? Minha vida acabou. O senhor a destruiu e só poderei perdoa-lo se me ajudar a encontrar Ana. Não sei mais em quem confiar desde que esta casa sempre é assaltada assim que o Infante parte.

— O que quer que eu faça?

— Estou a escrever um livro com todas as histórias da classe média e alta, tanto inglesa e francesa. Relatos meus e de outras cortesãs, com segredos pervertidos desde o mais alto-comissário até ao simples latifundiário. Todos que frequentaram esse hábito, aparecem lá descritos. — Estava séria como nunca. — A verdade é que querem o livro em troca de Ana, e por isso eu vim para cá em busca de proteção real. Só nãos sei se não estarei dentro do próprio ninho de cobras.

O jovem York desta vez pestanejou.

Notas finais
Críticas e elogios? Na caixa abaixo. Façam uma pequena autora feliz.