A Cortesã

3 Rejeição e Lembranças


Notas iniciais
Boa leitura,

Maribelle despertou de seu sono leve quando ouviu Adrian vasculhar as gavetas em busca de roupas e começar a vestir-se apressadamente. Ela levantou-se da cama que ficava mesmo ao lado da dele, e acendeu a luz do abajur.

— Poderia saber o que lhe tira do aconchego a esta altura da noite? — perguntou e não conseguiu disfarçar a cara de sono e seus lábios abriram-se ligeiramente num pequeno bocejo.

Adrian estacou-se por alguns segundos, e logo em seguida voltou a vestir-se em silêncio. Poderia jurar que sua esposa já dormia. Enganara-se redondamente.

— Tenho assuntos sigilosos a tratar. — respondeu e saiu atrás dos sapatos sem se dar ao trabalho de olhá-la duas vezes. Maribelle trazia um belo vestido de dormir branco em seu corpo magro, e transparente. Revelava o bico rosado de seus mamilos e a sombra dourada em seu epicentro.

— Por que não me fazes companhia esta noite, senhor meu marido? — questionou enquanto se levantava sem nenhum pudor. Há muito que sentia um calor arder dentro de si, o qual não conseguia explicar, e algo lhe dizia que a solução para aquele fogo estava em seu companheiro.

— Descansa, mulher! — Adrian ignorou-a, penteou o cabelo castanho com os dedos e caminhou para a porta, apressado. Ouviu quando ela chamou por si mas desceu os degraus em forma de serpente sem hesitar.

Maribelle parou no alto das escadas, seu peito subia e descia sem parar. Lágrimas rolaram no escuro em forma de gotas grossas, seu corpo perdeu forças e deixou-se cair para o assoalho.

— Como te atreves rapariga? Não foi essa a educação que lhe dei! — A velha Powell surgiu no escuro do corredor. Obrigou-a a levantar-se e sacudiu-lhe. — És mulher, deves comportar-te como uma.

Maribelle queria gritar que há um ano Adrian não se aproximava de seu corpo, e o quanto aquilo a magoava e consumia por dentro, mas limitou-se a ficar calada, perdida entre seus soluços de dor causados pela rejeição.

— Queres ser comparada a uma prostituta? — gritou Mrs. Loretta, e finalmente puxou a filha pelo braço até aos aposentos. Não se preocupava o quão triste esta poderia estar desde que mantivesse o casamento com Adrian Gilleston. — Deita-te e comporta-te! Pois se ele vos abandonar, o teu destino pode ser tão cruel como a da cortesã.

A jovem parou de chorar assim que a mãe fechou a porta por trás dela, andou descalça até a janela e conseguiu ver o brilho das luzes do único lugar aberto da cidade. Uma esperança invadiu o seu coração em conforto. “Charlie Dumont é minha única salvação!”

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Charlie Dumont observava o movimento do grande salão do Queen and Kings, através do primeiro andar do recinto. Usava um longo vestido dourado que muito bem combinava com a sua pele negra, seu cabelo tinha sido muito bem elaborado pelas mãos de Madame Norma, e o seu leque era preto com detalhes de ouro, o qual abanava devagar em frente ao rosto.

A casa estava cheia de homens de todos os tipos, desde o mais nobre até ao plebeu mais pobre, todos cercados por prostitutas igualmente de vários níveis. Bebiam, jogavam, fumavam e conversavam entre carícias e ansiedade para ver a mais famosa Cortesã. Madame Norma tinha explicado que a casa deixara de faturar nos últimos tempos, e por isso tiveram de aceitar clientes menos afortunados. Charlie na verdade não se importava, tinha passado de prostituta barata a uma das mulheres mais bem pagas para se ter ao lado, e sabia que no dia seguinte já não estaria mais naquele lugar.

Ela ergueu o queixo elegantemente, e devagar desceu os degraus de madeira que levavam diretamente ao salão. Um silêncio ocupou a sala, nem sequer o pianista se deu ao trabalho de continuar a melodia que tão satisfatoriamente tocava. Todos olhos viraram-se para Charlie que descia elegante, duas rachas laterais em seu vestido, mostravam as belas pernas grossas e torneadas cobertas por meia calça de renda preta. Os seios balouçavam soltos dentro do decote exagerado. Assim que seus sapatos tocaram o chão de madeira, Madame Norma aproximou-se com orgulho e satisfação.

— Muito bem, muito bem. Primeiro o Infante. — sussurrou a segurar o sorriso falso em seu rosto velho.

Charlie olhou de lado para a senhora, talvez ela não soubesse como tinha conseguido a sua fama. Ignorou-a, e recebeu uma taça de vinho doce que uma das mulheres ali serviam, bebericou enquanto andava com estilo e graça até um sofá longo de almofadas vermelhas veludo, onde se sentou quase de lado apreciando o cenário a sua frente. Escutaram-se risos, “atrevida!” e mais palavras que se perderam no ar.

— O que estais a fazer? — Perguntou Madame Norma cujos olhos pareciam inquietos, sua vontade era carregar a Cortesã com força em direção aos homens que a esperavam.

— Eles estão aqui para me ver, senhora. Se desejarem algo mais irão se aproximar de mim, afinal não mordo! Não estou aqui para me oferecer como uma puta barata senão terminarei como vós. — respondeu sem esconder a malícia no tom de voz. Sua arrogância foi assustadora naquele momento, e a velha cortesã retirou-se de perto de orgulho ferido.

A jovem sabia melhor que ninguém que naquela vida não adiantava ser dócil e amiga das pessoas, pois no final tudo o que devolviam era ingratidão. Esboçou um sorriso ao encontrar os olhos azuis acinzentados do homem bem notável que se encontrava na maior mesa do salão. Estava bem protegido por dois militares, e acompanhado por homens influentes da nobreza. Fitzadam vestia uma roupa escura, botas e uma longa capa com um emblema real. Seus cabelos eram grisalhos nas têmporas, e sua cara possuía fortes traços masculinos, exceto quando sorria e revelava a sua simplicidade.

Madame Norma aproximou-se dele, cochichou algo a seu ouvido e ele voltou a olhar fixamente para a Cortesã, desta vez com um ar mais intrigado. Entregou a longa bengala com um punho de platina ao seu subordinado mais próximo, e levantou-se com opulência, caminhando em direção a bela dama que estava recostada no sofá, pacientemente.

A distância que os separava não era longa, e Charlie pôde observar os ombros largos, a cintura estreita e as pernas torneadas do esbelto homem. Ele era o Infante, se não fosse pelo príncipe Adam Price II, seria ele o futuro Rei. E estava ali para vê-la! Charlie sabia que se conseguisse adentrar na vida daquele homem, então sua própria vida estaria resolvida. Sorriu ao vê-lo chegar mais perto, quando algo ofuscou a sua visão: Uma outra figura masculina.

— Espero poder falar consigo, Cortesã! — Era James York, o Duque de Mountbatten! Seus lábios finos estavam cerrados tanto quanto seu maxilar forte, o sobrolho grosso estava unido no centro da testa e os punhos fechados afirmavam que falaria com ela nem que fosse a força.

O coração de Charlie bateu com força, como ela jamais pensara que fosse bater novamente. Engoliu em seco, e sentiu que as lembranças a invadiam como uma chuva torrencial.

Notas finais
Agradecer pelos comentários, apesar de poucos são valiosos. E esperar que os fantasmas apareçam.