A Cortesã
2 Queen and Kings
Notas iniciais
James estava na varanda da grande casa da família Harris. Seus olhos azuis observavam a floresta de pinheiros que gradualmente engolia o sol que se escondia por detrás desta. Alguns pássaros cruzaram os céus, trazendo até si certas lembranças que há muito teriam sido esquecidas.
O que teria acontecido com Charlotte? “E os cabelos cheios de caracóis que tão bem a conferiam aquele ar de inocência? Quando teria aquele corpo esguio sido engolido por curvas voluptuosas e seios fartos?” Não era daquela mulher que ele se lembrava. “Pois. Esta é uma mulher!”
— Não tens frio? — perguntou uma voz feminina que o cobriu com uma capa curta e fez o nó em seu pescoço másculo.
— Obrigado, Irina. — agradeceu com um meio sorriso, e inclinou-se para sentir o beijo dos lábios finos e rosados. Quando se afastaram ela voltou a olhar para o anel de ouro com uma grande pedra de diamante que brilhava em seu dedo anelar.
— Estou tão feliz, meu amado. Sou a mulher mais sortuda de SouthinGale. — disse, seus lábios esticavam-se quase junto a orelha e exibiam os dentes brancos e certos. Irina era uma mulher muito bela, com os cabelos dourados ondulados e uns olhos verdes claros atrevidos. Sua face um pouco angulosa muito fazia lembrar a do próprio James, que parecia ter sido esculpida como uma escultura.
Ele retribuiu o riso e segurou as pequenas e delicadas mãos de sua noiva. Dali a três meses se casariam e iriam viver na sua propriedade em Mountbatten, longe da Corte e de seus males.
— Podeis trazer um licor, Irina? — William entrou de rompante pela balaustrada a dentro, intimidando a sua irmã mais nova que fez uma educada reverência e retirou-se do lugar o mais rápido que conseguiu.
James olhou para ele de lado, estava sempre com um ar soturno e trajado de roupas militares. William em nada se comparava a sua irmã, tinha a cabeça raspada, uns pequenos olhos verdes escuros e uma cicatriz na face.
— Em que lhe poderia ser útil? — questionou, desviando o olhar novamente para o horizonte. Não poderia negar que William por vezes lhe era necessário mas desejava que Irina não fosse sua irmã.
— Algum dinheiro. — respondeu de forma breve e rude, como só ele o saberia fazer. Virou-se para olhar para James cuja expressão se mantinha a mesma – um príncipe encantado dos contos.
— Acredito que já me deve muito dinheiro, senhor Harris. — lembrou-lhe vagarosamente, e por fim encarou o olhar frívolo que lhe era transmitido. Estava cansado de ser extorquido sempre que se aproximava dele.
— Eu lhe disse que se encantaria com a minha bela irmã, e ainda o devo lembrar que ela trará consigo um dote notável. — William correu os olhos para o jovem bem vestido a sua frente. Sabia que era um dos homens mais ricos do país, com o qual já teria feito alguns trabalhos obscuros. — Não sois um santo, Senhor York.
— Quanto? — A voz do Duque de Mountbatten saiu levemente irritada. Detestava aqueles jogos de caça ao rato, quando ele sabia que o rato é quem estava a tentar caçar o gato, naquele caso.
— Cento e Cinquenta libras. O que não é muito para si, afinal tem fortunas em todo lado. E eu preciso de ir ao Queen and Kings hoje, pois irá haver um leilão para Charlie Dumont!
James York ergueu o olhar azul brilhante, suas pupilas tremelicaram dentro de suas órbitas, e sua face empalideceu. Irina entrou alegre com uma bandeja de prata que passara por gerações de toda sua família, e um licor cor de âmbar.
— Preciso ir. — disse o seu noivo sem muito justificar, apenas deu um beijo na testa da bela jovem, e sem sequer olhar para William, retirou-se do recinto apressadamente.
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Charlie se olhava ao espelho enquanto Madame Norma fazia os seus cabelos. Estavam num grande quarto, com cortinas longas até ao chão de madeira reluzente e uma ampla cama de dossel. Ela estava pronta para ir receber os convidados que tão ansiosamente aguardavam a sua presença no salão do Queen and Kings. Seus lábios carnudos estavam pintados de vermelho, seus olhos estavam bem marcados e delineados.
— O que vos incomoda, Chérie? Não gosta da forma de seu cabelo? — Perguntou Madame Norma, outrora uma grande Cortesã, e agora a dona do Queen and Kings. Apesar da idade, a sua beleza ainda se notava nos grandes olhos castanhos e nos longos cabelos sedosos e brilhantes.
— Gosto sim. Estou bela. — murmurou, tentava disfarçar o seu ar entristecido. Passou as mãos enluvadas pelo pescoço onde repousava um belíssimo colar de pérolas.
— É uma alegria para esta casa tê-la aqui. Acredito que não ficará por muito tempo pois algum homem irá levá-la como companhia, mas deverei confessar que há muito não via o Q&K tão cheio. Desde os meus tempos! — comentou e em seguida soltou uma gargalhada estridente, não conseguia esconder a alegria que seria facturar incrivelmente bem naquela noite.
Charlie virou-se de rompante e fez com que Madame Norma deixasse parte de seus cabelos caírem ainda com os rolos.
— Madame Norma, ao acaso conhece James York? — perguntou, sua mão ainda apertava o colar como se o fosse rebentar a qualquer momento. Viu a velha Cortesã arregalar os olhos a pergunta e tossicar em seguida.
— O Duque de Mountbatten? — inquiriu como se esperasse não se tratar da mesma pessoa.
— Duque? — Repetiu Charlie, e voltou seu corpo de frente para o espelho mais uma vez. Pestanejou várias vezes sem acreditar no que via. Teria James ligação com um principado ou ducado?
Sua pergunta sequer foi respondida pois a porta abriu-se e Edith entrou assustada. Usava um vestido folhado cor de laranja exuberante e que deixava a parte de cima do corpete a mostra, e uma peruca ruiva que contrastava com sua pele muito branca.
— Vistes um fantasma, energúmena? — Silvou Madame Norma, sem segurar a irritação pela interrupção abrupta. Fuzilou a concubina com o olhar ameaçando-a para que a sua chegada repentina valesse a pena.
— Vi dois Ma-Madame! Dois Fantasmas. — Gaguejou Edith que parou para respirar forçadamente. — Fitzadam Price e James York ocupam a primeira fila para ver a digníssima Charlie Dumont!
— Oh! Que noite de sorte, um Infante e um Duque no Queen and Kings. Bem-haja Charlie, bem-haja. — Gritou Madame Norma e soltou mais uma de suas gargalhadas estridentes, sem sequer reparar na Cortesã cujo coração parara de bater ao ouvir o nome daquele por quem mais guardava rancor.
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