A Cortesã
6 A Proposta.
Notas iniciais
“Com quem os Reis da terra se prostituíram; os habitantes da terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição”.
Apocalipse 17:2
Charlie só se dera conta de que estivera a dormir quando as batidas da porta interromperam os seus sonhos. Ela remexeu-se na cama de proporções largas, e sentiu o vazio que era acordar sem um corpo quente ao seu lado. Naquela profissão já tinha aquecido vários corpos masculinos que lhe permitiram juntar uma pequena fortuna. Esperara encantar o Infante o suficiente para que ele não só acordasse consigo como para relações mais demoradas.
— Entre. — Bocejou enquanto respondia as batidas. Edith surgiu destrambelhada como sempre. Charlie sempre se perguntava como é que ela tinha conseguido clientes durante a vida de prostituta que levava mas depois lembrava-se que os homens por natureza apreciavam uma boa dose de naturalidade. A rapariga vestia sempre cores exuberantes, e naquele momento não fugia a regra. Trajava um longo vestido verde brilhante com mais folhas que uma árvore conseguiria carregar.
— Perdoe-me perturbá-la Mademoiselle. O tempo urge! Chegou uma carta para si, enviada pelo Infante. — Afirmou enquanto mostrava um envelope selado com o timbre da realeza. Os olhos da pequena Edith não escondiam a curiosidade e mesmo depois de lhe entregar a carta, permaneceu no quarto.
— Muito obrigada querida. — disse Charlie sem pestanejar, deixando claro que pretendia ficar sozinha.
— Ah! Sim, pois. Qualquer que seja a vossa questão não hesite em chamar-me. Estarei a disposição. — disse, e saiu tão apressadamente como entrou.
Charlie desceu da cama, seu corpo apenas coberto por um leve vestido de dormir que ressaltava as suas curvas, e o envelope em suas delicadas mãos, o qual abriu sem hesitar:
“ Prezada Charlie Dumont,
Espero que esta mensagem lhe encontre em afortunada disposição. Rogo-vos então que aceite o meu convite para um sarau em minha propriedade, dedicado especialmente a si. Pois se aceitar a minha proposta, pretendo oficializa-la de imediato.
Fitzadam Price, Infante.
O coração de Charlie começou a bater sem parar, ao mesmo tempo em que se lembrava do terrível pedido que James York a tinha feito na noite anterior. Ela fora até ali para tentar o Tutelado de um homem poderoso, não esperava reencontrar aquele que um dia a teria feito saborear as amarguras do amor. Um misto de alegria e tristeza invadiram-na, o que a fez permanecer quieta por alguns segundos, enquanto organizava as suas ideias. Fitzadam ainda não tinha caído de amores por ela, o que não a levava diretamente a vitória ou aos desejos do Duque.
— Edith! — Chamou alto, e no segundo seguinte a cocote apareceu do outro lado da porta com um sorriso envergonhado e curioso.
— Preciso que me faça um favor, chame pela Marquesa minha amiga, e leve o meu bilhete de resposta para o Infante. — Ordenou. Seu tom firme e decidido colocou a jovem exuberante atrás de papel e pronta para atender as ordens da Cortesã.
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Uma das salas tinha sido livremente ocupada por músicos e poetas famosos que tinham largado tudo para atender o pedido de última hora do Infante Price. Famílias nobres, com títulos e linhagens antigas também teriam sido chamadas para o sarau. Estava tudo muito bem decorado, com comida de luxo e bebidas das melhores safras que havia. Ninguém ainda sabia de que se tratava o convite, mas conhecendo o homem obstinado que era Fitzadam, não se atreviam a recusar presença. Muitos comentários sugeriam que apesar de filho mais novo, era ele quem deveria herdar o trono, uma vez que o Príncipe Adam Price II, seu irmão, era um homem mais fechado e que não se misturava com o povo. Outros discordavam, pois o Infante era impulsivo e virado aos prazeres da vida.
— [...] E o que se deve esperar de um bom Rei, senão aquele que aproveita a vida da mesma forma que rege o seu reino? Com alegria! — Comentou Adrian Gilleston, indignado. — Muitos de nossos Reis foram conhecidos pelas suas loucuras.
— Talvez por isso seja hora de mudar. — Rebateu James, seu ar soturno não escondia a inquietação. Olhava para Maribelle que muito bem conversava com sua bela noiva Irina. As duas cochichavam e riam sob a supervisão da senhora Loretta Powell que muito vigiava o comportamento de sua filha.
— A não ser que o Príncipe caía do cavalo e quebre o pescoço, é quase impossível que Fitzadam suba o trono. O povo o adora, mas a realeza não. Sequer teve um filho e já beira a idade de Cristo. — Comentou William, cujo olhar recaia pela Marquesa de Rothandberg, esta que andava de um lado para o outro inquieta, quase denunciando o que James ansiava por saber.
Numa porta que ficava ao fundo da sala luxuosa, Charlie Dumont encarava os olhos azuis acinzentados do homem a sua frente. Sentia-se intimidada, mas tentava não revelar por nenhum de seus movimentos. Conhecia a regra principal: “Para que um homem caía rendido a seus encantos, jamais demonstre o seu interesse. Seja enigmática, e o prenderá.”
— Ainda temo em perceber qual seria o vosso interesse na minha pessoa, antes sequer de me conhecer. — disse devagar, os olhos escuros brilhavam e levou a mão enluvada para a taça onde repousava o vinho. Fitzadam esboçou um sorriso lateral, entrelaçou os seus dedos e inclinou-se mais para perto dela.
— Não diria que a amo, madame. Isso seria ridículo de minha parte, digo antes que desperta em mim o que jamais mulher alguma teria até então despertado. Um fogo que provavelmente se irá transformar com o tempo. — respondeu, seu hálito era fresco, e seus traços masculinos revelavam o homem maduro que ali habitava. — A minha mulher é enferma, e as outras mulheres da sociedade não poderão corresponder ao que procuro numa relação.
— E o que isso seria? — questionou. — Atrever-me-ia dizer que tamanho fogo poderá virar cinza.
— Desejo. Todas as outras erguem o meu pau porque sou homem. Não alcanço a satisfação após tê-las. São frias. — afirmou, olhava para ela sem pestanejar e Charlie sentiu um arrepio na espinha. — Pretendo fazê-la minha, Charlie. Dar-lhe-ei um título, uma propriedade. Caminhará ao meu lado, e reconhecerei seus filhos.
Ela engoliu em seco, não deixava de questionar tal interesse. Acreditava que o matrimónio com Elizabeth York fosse por questões hierárquicas, mas por outro lado não compreendia a razão. Fitzadam poderia ter qualquer mulher decente que quisesse.
— Quero-a do meu lado. Apresso-me antes que caia na cama de outrem. Pretendo ser o último, e dou-lhe a palavra que não irá se arrepender. — O tom de voz mudou, como se a sua paciência tivesse chegado ao limite. Levantou-se e estendeu a grande mão para ela que respirou fundo e finalmente recebeu.
— De acordo. — Não só precisava estar protegida, como queria a todo custo sair da vida que levava. Ser de um homem apenas com direito a regalias e respeito, era tudo o que uma Cortesã ambicionava para o fim de sua jornada.
Ele segurou a face da majestosa mulher com as duas mãos, e inclinou-se para depositar um beijo rápido nos lábios carnudos. Soltou um gemido irreprimível, e sorriu desconcertado.
Charlie afastou-se rapidamente. Não estava acostumada a beijar, e essa era uma de suas principais exigências. O beijo era como uma adaga que dilacerava o peito e arrancava o coração, e a última coisa que precisava era de se apaixonar.
— Perdão. A Marquesa irá tratar consigo sobre os meus direitos pela manhã. Por agora devemos aproveitar a festa. — Apressou-se a jovem, que por alguns segundos teria perdido a sua postura feroz. Ele por sua vez segurou o seu braço, e passou o dedo lentamente pela sua pele negra aveludada.
— Que sorte me roga vossa beleza, madame. Imploro-lhe que passe o resto da noite comigo. Mandei preparar o seu futuro aposento. — pediu, sem larga-la.
A Cortesã não respondeu, mas Fitzadam desceu o braço até a sua mão e conduziu-a para a sala de festas, onde todo mundo exclamou assim que encararam pela primeira vez, a nova acompanhante oficial do Infante, filho do Rei.
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