Notas iniciais
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A Corrida Alucinante — Drama Sem Fronteiras

Capítulo 4

A cena abre numa plaza aleatória de Barcelona. As ruas estão cheias e as pessoas estão se divertindo numa noite de fim de semana. Corte para Lucina Skye, com uma taça de vinho em mãos e o sorriso quase-permanente no rosto.

LUCINA: No episódio anterior de ‘A Corrida Alucinante — Drama sem fronteiras’, nós visitamos a cidade condal, Barcelona, na Espanha. Os competidores puderam se jogar no esporte preferido, o futebol, com uma ajudinha andróide. Outros decidiram dançar flamenco noite afora. Mas foi a dupla de amigas silenciosas, Hikari e Yumi que zarparam na liderança e ganharam um novo poder na competição: A Chave Mestra! Detendo o poder de designar a dificuldade do desafio individual, elas deixaram Danny e Becky no final da fila. E após Danny fazer um acordo com o diabo, nesse caso, a Chantelle, a dupla de ex-namorados estava prestes a explodir. No final, eles não conseguiram se recuperar e foram a segunda equipe a perder a corrida. Tão cedo! Algo me diz que eles estão rancorosos. Se ao menos eles pudessem ter uma segunda chance…

A apresentadora fingiu empatia e bebericou um gole.

LUCINA: Pois bem! Eles são passado. Vamos pensar no futuro! Nossos competidores vão visitar uma locação nova e enfrentar ainda mais reviravoltas. Curiosos? Deveriam estar! Bem-vindos a mais um episódio de A Corrida Alucinante: Drama sem fronteiras!

*Abertura*

A cena retorna com Lucina. Ela toma um gole e encara a câmera.

LUCINA: Boa noite. Depois da segunda etapa, nossos competidores estão hospedados num hotel com vista para a Família Sagrada, ponto turístico icônico da cidade. E foi o melhor hotel que o orçamento do programa conseguiu pagar. Ou seja: um hotel meia estrela, meio longe da catedral, mas tudo bem. Vamos ver como eles estão passando o tempo?

***

O hotel surge no meio da noite, sujismundo, letreiro torto piscando. A câmera avança até uma sacada. Peter observa o horizonte urbano. A Sagrada Família brilhando ao fundo, gente rindo nas ruas. Ele suspira. O vento bate forte, e o barulho da porta o pega de surpresa.

Willow aparece.

WILLOW: Oop. Foi mal. Não sabia que tinha gente aqui.

Ela começa a se afastar, mas Peter ergue a mão.

PETER: Não… fica. Se quiser. — Ele ofereceu, rápido demais.

Willow percebe o nervosismo dele e decide ficar. Os dois se apoiam na grade. Silêncio longo.

PETER: Também não conseguiu dormir? — Sua voz falha depois de tanto tempo quieto.

WILLOW: Tão óbvio assim?

Era evidente. Cabelo bagunçado, olhar cansado, postura curva.

PETER: É só um palpite. São quase três da manhã.

WILLOW: Touché. — Ela suspira. — É impossível dormir com meu pai. Ele já me irrita normalmente, hoje tá pior. O ronco dele é insuportável. E essa competição achou uma boa ideia botar cada dupla num único quarto. Eu pensei que a emissora fosse rica.

Peter solta uma risada seca.

PETER: Ah, Willow… nós dois já competimos nesses programas. Sabemos que as acomodações são amostras grátis do inferno. E olha que eu nem acredito no inferno.

Willow solta um riso leve.

WILLOW: Pelo menos a Lucina é menos irritante que o Chris McLean. E menos psicótica.

PETER: Concordo. Mas ela podia parar de beber tanto. Ela vive com uma taça grudada na mão.

Willow dá de ombros, vira-se, apoia a lombar na grade.

WILLOW: Cada um lida como consegue.

Ela soprou um suspiro pesado. Peter percebeu o subtexto.

PETER: Problemas com seu pai? Entendo. Aqui também tá tenso com minha mãe.

Willow ergue a sobrancelha.

WILLOW: Sério? Nunca vi vocês discutindo.

PETER: Acho que… muita coisa vem de antes da competição. Ela não aceita que eu sou adulto, que namoro outro homem, que vivo do jeito que ela não aprova. Ela conhece o James há anos e ainda insiste que somos “amigos”. Claro, eu dependo tanto dela, mas ainda assim, só queria que… — Ele solta o ar. — Foi mal. Falei demais. Você nem perguntou.

WILLOW: Relaxa. Meu pai não me deixa ficar a cinco metros de distância de um garoto. E ele nem sabe que eu sou bisexual. Se soubesse, desmaiava na hora.

PETER: Mas você não é assumida? Você falou na sua temporada.

WILLOW: Ele ficou tão irritado com o Cyrus e o Tommy que parou de assistir. Melhor assim.

O silêncio volta. Um tenta falar e para quando o outro se mexe. Um tipo estranho de conforto.

Até o silêncio ser destruído por passos desesperados.

Larry surge, arfando.

LARRY: Graças aos céus! Aí está você! Por que saiu sem avisar?

WILLOW: Argh. O que você tá fazendo aqui, pai?

LARRY: Acordei e você não tava no quarto. Procurei por toda a parte. E agora te encontro… conversando com um garoto. — A voz começa suave e termina grossa.

Peter dá um pulo e levanta as mãos.

PETER: Eu sou gay. E tenho namorado. Juro.

Larry o encara, desconfiado. Aceita.

LARRY: Muito bem. Ele tá liberado. Mas sem gracinha.

Ele aponta o dedo para Peter, gira nos calcanhares e sai. Willow revira os olhos, solta um suspiro e vai atrás do pai.

*ENTREVISTA ON*

Desta vez, Peter se encontrava sozinho na frente das câmeras.

PETER: Competir com um dos pais é… estranho. Todo mundo aqui tem dupla que faz sentido. Casais, amigos, irmãos. Mas com os pais é diferente. Eu e a minha mãe vivemos numa fase meio turbulenta. Ela acha que ainda tem que decidir tudo por mim, e eu tento lembrar ela, todo dia, que eu já cresci. — Ele suspirou. — Aí encontro a Willow no meio da madrugada, passando pela mesma coisa. Pai superprotetor, pressão, expectativa. Foi… reconfortante perceber que alguém entende. — Ele passou as mãos nas coxas, nervoso. — E, no fim, isso aqui é uma chance única. Viajar, ver o mundo, quebrar um pouco dessa bolha entre eu e a minha mãe. A convivência é difícil, claro, mas… vale o esforço. Se tudo der certo, a gente volta pra casa mais próximo do que chegou. E milionários. — Sorriu para pontuar.

*ENTREVISTA OFF*

Na manhã seguinte, o elenco se instalou nas mesas do pátio do hotel para tomar o café da manhã que o local oferecia. Bem, quase todo o elenco. O serviço matutino quase findava quando Chantelle apareceu. Atrasada, arrastando os pés, cercada por uma aura de mau-humor tão densa que parecia ter vida própria. Os óculos escuros só reforçavam a atitude de quem claramente não queria estar ali. A influencer se aproximou de um funcionário.

CHANTELLE: É você que vai me trazer o café da manhã? — Perguntou com a voz arrastada.

FUNCIONÁRIO: Na verdade, senhorita, nosso hotel oferece o café da manhã num estilo de bufê, então a senhora pode ficar à vontade para se servir.

Ela bufou, tirou os óculos devagar e lançou um olhar capaz de matar.

CHANTELLE: Você acha mesmo que eu tenho tempo para fazer isso? Ugh. Vou mandar a Mona fazer.

O funcionário engoliu em seco enquanto Chantelle se largou numa das mesas, sem cumprimentar ninguém. Em tempo, o resto do elenco foi empesteado pela rudez da influenciadora e todos ficaram de cara fechada, trocando olhares incomodados.

Hank cuspiu no chão.

HANK: Vamos sair daqui, mano. O clima tá azedo.

Quase todos se retiraram, exceto Betty, que crocheteava no canto como se nada pudesse atrapalhar seu humor. Quando Mona finalmente chegou com o prato de Chantelle, foi prontamente expulsa.

CHANTELLE: Sai daqui. Eu vou perder o apetite se tiver que comer olhando pra sua cara. Quando eu precisar de você, eu te chamo.

MONA: Bem, para onde eu devo ir, senhorita?

CHANTELLE: Eu sei lá. Vá para qualquer lugar. Você não pode tomar uma mísera decisão sozinha?

Cabisbaixa, Mona se afastou, pegando uma maçã, provavelmente a única coisa que ela teria tempo de comer naquela manhã. Enquanto tentava juntar os restos de autoestima que ainda sobravam, foi surpreendida por uma presença ao seu lado.

BETTY: Bom dia, flor do dia! — Sorriu, ainda segurando as agulhas de crochê. — Posso me sentar aqui?

Mona inclinou o pescoço, confusa.

MONA: A senhora… está me perguntando?

BETTY: Bem, sim. Tem outra pessoa aqui pra eu perguntar? — Gargalhou, leve e familiar.

MONA: Uh, claro que sim, a senhora pode se sentar. — Tossiu para esconder o constrangimento. — É só que… ninguém nunca pede a minha permissão. Ou a minha opinião.

BETTY: Ô, minha coitada… — Ela se sentou e colocou a mão no centro da mesa. — Isso não é certo. Você merece ser ouvida tanto quanto qualquer outra pessoa.

A senhora estendeu a mão para que Mona pegasse.

BETTY: É óbvio que seu trabalho praquela garotinha rude tá acabando com seu senso de dignidade e autoestima.

Mona puxou a mão para perto do corpo, assustada.

MONA: Como você sabe disso?! A senhora é algum tipo… de bruxa?

Betty gargalhou.

BETTY: Não, minha querida. Eu só sou uma avó. Eu conheço pessoas. Você tem idade de ser minha netinha, mas eu jamais deixaria alguém da minha família chegar no estado que você tá.

MONA: Uh… e que estado é esse? — Soou ofendida.

BETTY: Sua luz está totalmente apagada. Você deixa aquela influenciadora te pisotear.

MONA: Ela é a chefe. E eu sou a assistente. A senhora já deve ter ouvido o ditado: “Manda quem pode e obedece quem tem juízo.”

BETTY: Não seja boba, garota. Você é uma flor, tão jovem ainda. Quantos anos você tem, minha querida?

MONA: Eu tenho… vinte e quatro. — Suspira.

BETTY: Ha! Quem me dera ter essa idade. Você precisa se impor.

MONA: Como eu posso fazer isso? Eu já não disse? A senhorita Chantelle manda em mim e eu tenho que obedecer. É assim que nosso relacionamento funciona.

BETTY: Se isso é um relacionamento, é um relacionamento bem do tóxico, mocinha! — Firme, mas gentil. — Você tem que tentar por respeito. Você é funcionária, não escrava.

MONA: Com todo respeito, minha senhora, mas acho que a senhora não está no mercado de trabalho desde 1985. A Chantelle é minha chefe, que é quase o mesmo que ser minha mestre ou dona.

BETTY: Bem, isso não é justo! Da próxima vez que a Chantelle passar do ponto, você precisa enfrentar ela. De cabeça erguida.

Betty sorriu para Mona. A assistente tentou responder algo, mas apenas assentiu, um sorriso tímido no canto da boca. Estava longe de se sentir confiante, mas a semente estava lá.

Então, um berro cortou o pátio.

CHANTELLE: Mona! Me traz um cappuccino! E com pressa!

Mona respirou fundo, levantou-se e foi fazer o pedido. Antes de se afastar totalmente, olhou para Betty de soslaio.

MONA: Obrigada pela atenção, senhora. Mas eu não posso me dar ao luxo de não ser apenas a assistente da senhorita Chantelle Pirelli. Com licença.

Quando Mona se foi, Betty suspirou fundo, quase maternal.

*ENTREVISTA ON*

A idosa suspirou, sozinha na frente da câmera.

BETTY: Tem coisas que só a experiência ensina. E eu tenho idade o bastante pra saber que o jeito que essa Mona tá… não é vida. Essa garota é tão bonita, jovem e esforçada. Se eu fosse a mãe dela, já teria tirado ela dessa situação. Aquela outra jovenzinha, a Chantelle, só maltrata e humilha. Que coisa! — Ela faz um muxoxo. — Eu tentei o meu melhor, mas sou só uma senhorinha desconhecida. Ela precisa achar forças pra mudar por conta própria. E se Deus quiser, vai conseguir.

*ENTREVISTA OFF*

Mais tarde naquele dia, o elenco adentrou um avião rumo ao sul. Quando perceberam, estavam pousando e sendo levados para o meio de um deserto. A câmera cortou para Lucina, montada no topo de um camelo, um véu branco cobrindo o cabelo.

LUCINA: Bem-vindos aos arredores da grande cidade de Marraquexe, a cidade vermelha! Centro cultural do Marrocos, nossos campistas vão conhecer parte da cultura milenar deste lugar, onde o sol escaldante te arrasa durante o dia e os ventos do deserto te incomodam à noite. Para o primeiro desafio, nossos corredores chegaram de trem a uma vila Amazigue onde os nativos estão precisando de uma ajudinha na organização. Vamos dar uma olhadinha em como eles vão lidar com isso!

A apresentadora riu. O camelo parou e Lucina foi escoltada por um adestrador local. Ela aterrissou fofamente na areia e fez um carinho na fuça do bicho.

LUCINA: Esse sim é um camelo bem treinado. Que sorte! Uma pena que os competidores não terão a mesma sorte… — Gargalhou debochadamente, satisfeita com o caos que se iniciaria.

***

O grupo de duplas competitivas chegou em debandada na frente da Caixa de Pistas. Peter, mesmo cansado de correr, não pode deixar de notar que um cercado cheio de camelos ranzinzas estava posto ao lado do standee de papelão.

PETER: Uh-oh… eu tenho um mal pressentimento.

Na frente, Martin e Antoine se afastaram e começaram a ler a pista.

MARTIN: “Sejam bem-vindos aos arredores de Marraquexe, Marrocos. Para este desafio individual…” — Ele pausou. — Desafio individual? Logo no início da etapa?

ANTOINE: Hmm. Parece que a produçón non tem medo de mudar as coisas. Bien, parece que é sua vez de competir, non, mon ami?

O chefe sorriu para seu colega. Martin aceitou calmamente.

A câmera corta para as gêmeas, que seguem lendo o conteúdo do envelope.

MACKENZIE: “Uma pessoa da dupla deve vestir um camelo com roupas cerimoniais e afivelar a focinheira. Então, devem liderar seu camelo por um percurso de obstáculos difícil. Ao chegar do outro lado, vocês receberam a próxima pista. Lembrete: Nenhum competidor pode participar de dois desafios individuais seguidos. Quem competiu individualmente nas Ilhas Galápagos, deve competir hoje.” — Ela finalizou a leitura. — Bem, parece ser a minha vez.

Mikayla abraçou a irmã com força.

MIKAYLA: Boa sorte, maninha! Mostra para esse bicho quem é que manda!

Mackenzie sorriu.

Corte seco. Mackenzie chorou.

Enquanto ela tentava colocar uma manta sobre a corcunda do camelo, o animal se recusava, balançando o corpo e fazendo a roupagem escorregar para o chão.

MACKENZIE: Ugh! Eu pensei que camelos eram fofos. Mas este daqui deve estar com defeito! — Ela reclamou e como resposta, o animal cuspiu forte na cara dela. Tão forte que a garota caiu dura no chão.

Em outra parte do cerco, Maria sorria, tentando colocar a focinheira em seu camelo.

PETER: Cuidado, mãe! Esse bicho parece meio agressivo.

Maria abriu as fivelas e se aproximou do bicho.

MARIA: Não se preocupe, filhote! Eu sei lidar com animais! — Ela sorriu radiante, mas o camelo aproveitou a deixa para morder sua mão com força. — Oh! Não precisa disso, bichinho…

Peter se desesperou, mas sua mãe parecia manter a calma. Outro alguém completamente em pânico, era Martin.

MARTIN: Ahhh!!! Que c’est isso?

O cozinheiro jogou o tecido sobre a corcova do camelo, mas o animal mugiu irritado e simplesmente se afastou, pisando com força na areia. Frustrado, Martin pôs uma mão na cintura e limpou o suor com a outra.

*ENTREVISTA ON*

Os dois chefes de cozinha se encontravam nos assentos de entrevista.

MARTIN: Sacre bleu! Aquele desafio foi difícil! — Ele fez um som reprovador. — Mas podem me culpar? Eu sou um chefe culinário! Eu non lido com animais vivos. Eu lido com eles mortôs, fatiando e fazendo bife.

ANTOINE: Talvez você só non seja tão bon quanto pensava. — Alfinetou com uma risadinha.

MARTIN: E talvez eu aprenda a fatiar e fazer bife de um humano chato sentado do meu lado. — Ele cruzou os braços e Antoine se calou, engolindo em seco.

*ENTREVISTA OFF*

Vemos um corte de Larry saltando e prendendo o bicho com um mata-leão. Não aguentando todo o peso do lenhador, o camelo se rende e aceita as roupas cerimoniais e a focinheira.

Com outra abordagem, Raymond guiava a criatura com firmeza gentil.

***

Com o passar do tempo, todos os competidores conseguiram vestir seus camelos, uns bem mais facilmente que outros. Enquanto eles se posicionavam no início da pista de obstáculos, Mackenzie tentava limpar a saliva camelídea.

Um produtor do programa apertou uma buzina e os bichos dispararam. O primeiro obstáculo era cercas altas, em que os camelos tinham que saltar com força. Raymond, tadinho, quase foi lançado para fora nesse momento, se segurando com toda voracidade do mundo nos arreios do animal.

RAYMOND: Woah! Calma, rapaz! Upa, upa!

Irritado, o camelo de Raymond não cumpriu o segundo obstáculo. Um pequeno riacho que corria. O bicho simplesmente empacou.

O senhor deu um chute nas laterais do camelo como incentivo, mas o tiro saiu pela culatra. O animal rosnou e se balançou até o velho cair na areia.

RAYMOND: Que camelo rude! — Ele tentou limpar a areia que estava em todo seu corpo.

Do outro lado, Maria tentava convencer seu bicho a cooperar. Demorou, mas finalmente o camelo parecia disposto a saltar o riacho. Longe, seu filho reclamou.

PETER: Isso nem faz sentido. Como um camelo vai atravessar um riacho? E por quê tem um riacho no deserto?!

O garoto calou a boca quando o camelo saltou sobre o riozinho e sua mãe comemorou, feliz.

PETER: Mas o que eu sei? Nada.

Com a sorte reversa, Hikari estava completamente imóvel em cima do bicho. Com um movimento rápido e preciso do pulso, ela acionou os arreios, e o camelo imediatamente saltou sobre o riacho e continuou galopando em alta velocidade até o próximo obstáculo.

Outro igualmente bem sucedido, foi Clint. Ele assobiava com felicidade ao zarpar pelo percurso.

*ENTREVISTA ON*

Os irmãos sorriam, confiantes e contentes.

CLINT: Eu num vô dizer lorota, foi dificil no início. Esses bichos num são tão cooperativos como os cavalos lá da roça, mas eu sei muito bem montar nessas coisas. Cavalo, camelo, tanto faz. Eu sou bom com todos!

HANK: E ‘ocê também é muito humilde, né? — Ele sorriu irônico.

*ENTREVISTA OFF*

Clint entregou o camelo para o adestrador e reencontrou com seu irmão, e aproveitou para ler a próxima pista.

CLINT: “Para o próximo desafio, vocês devem correr até o centro da vila, entre a tabacaria e da loja de tapetes.” Ótimo! Mais corrida. — Ele cuspiu no chão.

HANK: Pois se vamo! Num temos tempo a perder!

Concordando, os dois saíram com pressa para a vila Amazigue. Larry foi o próximo a terminar o desafio e pegar sua pista. Quando Willow e seu pai passaram na frente da influenciadora, sua paciência já estava se esgotando.

CHANTELLE: Ughhh!!! Mona, porquê a demora?!

A câmera corre até Mona, com a cabeça inteiramente dentro da boca do camelo, que a sugava como se fosse um pirulito. A assistente girava os braços com desespero.

PETER: Mas… como? E a focinheira?!

Seu questionamento foi ignorado, e Betty se aproximou, pondo as mãos em concha em volta para boca para propagar sua voz.

BETTY: Se acalme, minha filha! Pare de se mexer tanto e o camelo vai te largar! — Ela aconselhou em berros.

Por algum motivo, Mona conseguia ouvir as palavras de dentro da boca do bicho. E por outro motivo, ela resolveu acatá-las. Ela pendeu o corpo, ficando molenga. O bicho cuspiu a assistente para fora.

MONA: Ugh! Que nojo!

A garota estava coberta de saliva gosmenta e grossa de camelo. Mas este não era o único problema. Ela nem havia passado do primeiro obstáculo.

BETTY: Parabéns, querida! Agora, é sua vez!

Confusa, Mona continuou tentando limpar a saliva.

MONA: Minha vez de quê?

BETTY: De se impôr! Você consegue. Mostra a essa besta que você é quem manda e que tem dignidade para tomar suas próprias decisões! — Ela falou incisivamente, olhando de esgueira para a influenciadora.

Motivada, Mona se levantou e saltou em cima da corcunda do camelo. Quando o animal ameaçou lançá-la para fora, ela deu um piso forte nas ancas do bicho, que urrou, mas pausou.

MONA: Você vai me obedecer agora, seu camelo! — Falou firme, puxando os arreios.

E assim, Mona rapidamente ultrapassou os obstáculos. Betty sorriu, orgulhosa, até que seu marido chegou com a pista e ela se concentrou nisso. Os dois velhinhos saíram trotando no tempo que demorou para Chantelle se aproximar de sua assistente, nervosa como sempre.

CHANTELLE: O que você está esperando, Mona?! Ugh! — Ela puxou o envelope da mão do produtor, antes mesmo deste conseguir dá-lo a Mona. — Vamos ler esse negócio logo. Temos que dar graças aos céus que não estamos em último lugar.

A influenciadora espiou por cima do ombro para se certificar de que Mackenzie e Maria ainda estavam com dificuldades com seus camelos. Martin estava desmontando de seu bicho, acabando o desafio.

Ainda recuperando o fôlego, Mona esperou que sua chefe lesse o conteúdo do envelope. Quando ficou claro que ela não começaria, Chantelle passou o papel irritada para sua assistente, alegando simplesmente que "não queria cansar os olhos".

MONA: “...Na esquina entre a tabacaria e a loja de tapetes”...

CHANTELLE: Naquela vila? — Apontou para o local na distância. — Aquela vila sujismunda cheia de… árabes?!

A cena cortou para trás das câmeras, onde os ajudantes berberes locais olhavam com desaprovação para a influenciadora rica. Chantelle esboçou um sorriso tímido e sem jeito e saiu dali o mais rápido possível.

***

Hank e Clint chegaram no local indicado com um sorriso confiante. Que rapidamente se desmanchou. Aos seus lados, duas lojas abarrotadas até o topo. Uma, cheia de tapetes extravagantemente ornamentados, uns enrolados em prateleiras e alguns estendidos em exibição nas paredes. Outra, com prateleiras e estantes e armários recheados de hookahs, o apetrecho de fumo tradicional.

HANK: Eu num vô mentir procê… mas eu tô cum mal pressentimento.

Clint, não deixando se levar, pegou o envelope e começou a ler.

CLINT: “Para este desafio, vocês têm uma escolha. Cada dupla foi designada um narguilé e um tapete, com estampas e ornamentações específicas. O seu desafio é encontrar uma réplica do seu objeto, no meio de dezenas de milhares de outros muito parecidos. A escolha é sua: Procurar narguilés ou procurar tapetes?” — Ele terminou de ler. — É isso? Um desafio de agulha no palheiro? Isso vai levar horas, sô! — Ele xingou.

HANK: Ainda bem que nós somos roceiros. — Tentou se manter otimista.

Os dois trocaram olhares e correram para a tabacaria.

***

Com o tempo, as duas lojas foram ficando cada vez mais cheias de participantes. Larry e Willow foram os próximos a chegar, optando por também procurar na tabacaria, principalmente porque Larry achava que era "a opção mais máscula". Willow riu, sabendo que seu pai desmaiaria se a visse fumando.

Em uma reviravolta surpreendente, Chantelle e Mona completaram o grupo das três primeiras equipes a chegar ao local do desafio, conseguindo ultrapassar o casal de idosos que precisou de várias pausas para atravessar a vila, devido a idade. Mais surpreendente ainda, Chantelle pareceu realmente animada para participar do desafio.

CHANTELLE: Incrível! Um desafio que eu sei que vou arrasar!

*ENTREVISTA ON*

CHANTELLE: Quando eu vi o desafio, eu fiquei genuinamente contente. Vocês sabem, como uma boa influencer, todos os meus materiais e mimos são bem organizados. Em ordem cromática E alfabética. — Ela enfatizou. — Eu consigo encontrar uma agulha num palheiro em alguns minutos. — Sorriu, confiante.

*ENTREVISTA OFF*

MONA: Bem, qual das lojas devemos procurar, senhorita?

CHANTELLE: Não faça perguntas estúpidas, Mona! Eu tenho contrato com tantos suplementos vitamínicos que se eu ousasse pisar numa tabacaria, eu seria cancelada até o próximo semestre. Duh!

MONA: É claro, senhorita. Me perdoe pelo lapso em pensamento.

Grunhindo desdenhosamente, as duas adentraram a loja de tapetes.

Finalmente, o casal mais velho chegou ao ponto de encontro. Quando chegaram, Hikari e Yumi estavam absortas na busca pelas tapetes na loja. Ninguém notou a chegada das japonesas, o que já era esperado. Ofegantes, Raymond e Betty decidiram entrar também na loja de tapetes.

A senhora idosa fez uma careta ao perceber que Chantelle apontava e designava sua assistente para procurar em todos os tipos de prateleiras e caixas, com seu tom de voz frio e irritado de sempre. Raymond colocou a mão no ombro da esposa.

RAYMOND: Não se preocupe, Betinha. Ela não é nossa filha, precisamos nos concentrar na nossa própria corrida. Depende dela querer ouvir seus conselhos.

BETTY: Eu sei disso, RayRay. Nem mesmo nossos filhos querem ouvir meus conselhos, quanto mais estranhos.

RAYMOND: Bem, eu te ouço, não é, querida?

A avó olhou para a câmera, com uma expressão impassível, e decidiu simplesmente começar a busca sem responder à pergunta.

Antoine e Martin também chegaram ofegantes, resolvendo dar uma olhada nos narguilés.

Antoine: Faz anos que non vejo um. Non gosto muito dessas coisas.

Martin o encarou com uma expressão séria.

MARTIN: Antoine, você fuma o tempo todo.

ANTOINE: Bien, oui, mas eu fumo cigarros, como um verdadeiro quebecois! Não confio nessas máquinas de fumaça.

Ignorando o parceiro, Martin decidiu examinar atentamente a foto de referência. O narguilé que precisavam era de ouro maciço, com listras brancas e azuis. Parecia bem diferente, se não houvesse uns mil narguilés com o mesmo padrão. O homem suspirou, praguejando baixinho em francês.

Quando Maria e Peter entraram na loja de tapetes, o menino ficou surpreso ao ver tanta gente. Ele espiou a loja ao lado e percebeu que eles eram quase os últimos, o que o deixou triste.

MARIA: Não se preocupe, filhinho. As gêmeas ainda não chegaram.

PETER: Espero que elas se distraiam no caminho. Ouvi uma delas dizer para a outra que esqueceu de tomar o remédio para TDAH hoje.

MARIA: Menino! Não desejamos o mal a ninguém!

PETER: Mãe, você vive desejando o mal aos outros. Lembra do nosso antigo vizinho que…

MARIA: Bem, quando eu faço isso, é por bons motivos. Agora, esqueça isso, vamos dar uma olhada na foto e ver qual tapete estamos procurando.

O filho olhou atentamente enquanto a mãe espiava por cima do ombro dele.

MARIA: Olha só! É um tapete dourado e roxo. Igualzinho à bandeira de Peterlândia!

O menino fez sinal de silêncio para a mãe, envergonhado.

*ENTREVISTA ON*

Radiante, Maria começou a falar enquanto Peter escondia o rosto vermelho nas mãos.

MARIA: Quando era pequeno, meu filho sonhava em ser o rei do próprio país, não é? Ele chamava de "Peterlândia" e vivia fantasiando sobre isso. Ele seria um governante feroz e a bandeira do país seria roxa e amarela, suas cores favoritas.

PETER: Mããããe! Por favor, pare! O país inteiro não precisa saber das minhas fantasias bobas de infância.

Um produtor atrás da câmera deu uma risadinha.

PRODUTOR: Na verdade, este programa é transmitido no mundo todo, você sabe disso, né?

Peter gemeu ainda mais alto, enquanto sua mãe continuava sorrindo, confusa.

*ENTREVISTA OFF*

Um tempo depois, as irmãs gêmeas finalmente chegaram ao local do desafio, curvadas enquanto tentavam recuperar o fôlego.

MIKAYLA: Ah, graças a Deus, finalmente chegamos.

MACKENZIE: Bom, poderíamos ter chegado mais rápido se você não tivesse parado para conversar com aquele garoto marroquino aleatório no caminho!

MIKAYLA: O quê?! Não é minha culpa que ele tenha começado a flertar comigo. Eu não podia ignorar o coitado. Além disso, ele era até bonitinho. — Ela girou uma mecha de cabelo.

MACKENZIE: Kayla, ele não estava flertando com você. Você nem sabe falar árabe para entender o que ele estava dizendo.

MIKAYLA: Eu não preciso entender as palavras para sentir a emoção, Kenzie! Poxa, tenha um pouco de compaixão!

As irmãs decidiram parar de discutir e correram para a loja de narguilé, sem nenhum motivo específico além de parecer a mais vazia e próxima.

Com todas as equipes competindo no desafio, a câmera voltou para a loja de tapetes, onde Mona estava até a cintura dentro de uma caixa. Peter e Maria procuravam freneticamente em diferentes prateleiras, enquanto as japonesas examinavam cada canto e recanto com calma e sistematicamente. Hikari acidentalmente se deparou com Betty e Raymond, que estavam olhando para baixo.

BETTY: Desculpe incomodá-la, querida, mas meu marido e eu não conseguimos procurar nos armários altos. Sabe, todos nós encolhemos com a idade. — Ela apontou para as costas arqueadas. — E eu nem consigo enxergar os padrões pequenos direito. Preciso de uma nova receita para meus óculos.

RAYMOND: Você poderia nos ajudar por alguns minutos, querida?

Hikari pareceu genuinamente comovida e quase interrompeu sua busca, mas Yumi tossiu baixinho e firmemente. A garota olhou para trás e viu sua parceira apontando para o relógio de pulso. Hikari assentiu, entendendo o recado.

Com uma expressão muito triste, ela recusou-se a ajudar o casal mais velho. Raymond suspirou.

A câmera voltou para Mona, enquanto ela procurava com determinação.

CHANTELLE: Vamos lá, Mona, não é tão difícil. É um tapete dourado e rosa com bolinhas brancas. Até uma criança cega e desastrada conseguiria encontrá-la, dormindo.

Mona murmurou "então por que você não faz isso?" baixinho. Felizmente, Chantelle não pareceu ouvir, e a equipe teve sorte. A assistente conseguiu encontrar o tapete.

CHANTELLE: Ah, finalmente! Parece que você não é tão inútil quanto eu pensava.

Mona ignorou o comentário, puxando com toda a força para retirar o tapete da caixa, mas ele mal se mexeu.

MONA: Desculpe incomodar, senhorita Chantelle, mas talvez eu precise da sua ajuda.

Normalmente, a chefe resmungaria e recusaria, mas como finalmente estavam na frente, Chantelle se apressou em ajudar.

Elas puxaram e puxaram, bufaram, resfolegaram, gemeram e suspiraram.

CHANTELLE: Vamos lá, Mona! Puxe! Ugh, você precisa se exercitar mais!

MONA: Se eu tiver tempo depois de atender a todas as suas necessidades 24 horas por dia, talvez eu vá à academia, senhorita. — Ela respondeu, seca e com evidente animosidade.

Chantelle pareceu se mover para responder, mas, naquele instante, o tapete finalmente cedeu e caiu bem em cima da influenciadora. Ela tentou reclamar, mas Mona rapidamente agarrou o tapete, satisfeita.

MONA: Vamos lá, senhorita. Não podemos perder essa chance!

Uma ajudante local entregou a pista para Mona. Ela leu rapidamente e sorriu.

MONA: Vamos, senhorita! A Zona de Relaxamento está logo ali!

Sem perder tempo, as duas saíram disparadas da loja de tapetes. Na loja de narguilés, Hank ficou boquiaberto.

CLINT: Como isso é possível? Como aquela quenga e sua assistente conseguiram nos passar?!

HANK: Elas só deram sorte, mano. Não importa, nós ‘tem que continuar a procurar essa joça!

Ele tentou ignorar o fato de que já tinham revistado uns quinhentos narguilés e ainda tinham mais de mil para investigar.

Do outro lado, outra equipe feminina também parecia ter tido sorte. Mikayla gritou de alegria.

MIKAYLA: Não acredito! Nós realmente encontramos!

Sua irmã abraçou alegremente um narguilé fúcsia cravejado de joias, pulando de felicidade.

MACKENZIE: Vamos lá, mana. Podemos até ganhar o primeiro lugar!

As irmãs saíram enquanto a câmera dava um close no rosto irritado de Antoine.

MARTIN: Sacre bleu! Se até aquelas bêtes conseguiram encontrar, isso significa que nossa situação é desesperadora, mon ami!

ANTOINE: Não diga isso, seu imbecile! Mantenha a esperança!

Enquanto Martin continuava procurando, ele conseguiu encontrar o narguilé certo, apenas alguns minutos depois das irmãs.

ANTOINE: Viu? Não precisa ficar pessimista o tempo todo. Às vezes o sol sorri em Quebec, non?

Ainda não tão entusiasmado quanto provavelmente deveria, Antoine apressou Martin para fora da loja, na direção do tapete dourado.

***

Lucina Skye esperou pacientemente enquanto bebia um gole de vinho direto da garrafa. Ela ouviu os passos apressados ​​de uma equipe.

LUCINA: E a equipe que conquista o primeiro lugar hoje é...

A influenciadora e a assistente estavam todas contorcidas, tentando recuperar o fôlego. Mas estava tudo feito.

LUCINA: Chantelle e Mona! Vocês foram as primeiras a chegar. Devo dizer que estou surpresa, mas, ei, uma vitória é uma vitória.

Normalmente, uma equipe vencedora se abraçaria e pularia de alegria, mas Chantelle e Mona apenas ficaram paradas, sem jeito, tentando acalmar os batimentos cardíacos.

LUCINA: Bem... e com a vitória, vem o prêmio!

Rufem os tambores. Um domador local apareceu segurando um camelo pela coleira. As duas garotas recuaram.

LUCINA: Vocês ganham um curso de um ano de doma com um tratador de camelos profissional! Claro, vocês precisam pagar a taxa dele, mas os primeiros seis meses vêm com 50% de desconto e a primeira aula é grátis! Então, o que vocês acham, gostaram do prêmio?

As duas vencedoras deixaram o tapete dourado, cabisbaixas com o prêmio. Lucina suspirou para o tratador de camelos.

LUCINA: Sinto muito, Hamza, mas a mentalidade ocidental simplesmente não consegue apreciar este prêmio. — Ela deu um tapinha gentil no focinho do camelo.

***

A cena voltou para os irmãos caubóis, ficando cada vez mais agitados a cada segundo. Hank olhou para a outra loja e percebeu que estava mais vazia do que antes, com apenas o casal mais velho e a dupla mãe-filho ainda bisbilhotando os tapetes. Seu irmão mais novo estalou a língua, irritado.

CLINT: Dá para parar com isso? Achei que você tinha me dito para me acalmar e parar de ser tão pessimista. — Ele cuspiu as palavras com um tom impaciente.

HANK: Eu sei, eu sei. ‘Ocê tem razão. Preciso seguir meu próprio conselho e me acalmar.

Ele virou o pescoço bruscamente ao ouvir um barulho alto. Do outro lado da loja de narguilés, Larry segurava seu narguilé como um troféu.

WILLOW: Isso! Vamos, pai, vamos embora!

Sem esperar mais, pai e filha saíram correndo. A câmera deu um close no rosto horrorizado de Hank.

HANK: Ok, posso entrar em pânico agora?!

Clint suspirou, mal conseguindo conter a própria ansiedade.

CLINT: O que o pânico vai adiantar agora, hein, seu tonho? Não é como se o pânico fosse ajudar nós a encontrar esse maldito narguilé!

HANK: Acho que chegou a hora de usar a nossa arma secreta, mano.

CLINT: ‘Ocê só pode estar brincando. Foi ‘ocê que me disse que precisávamos guardar isso para o momento certo.

HANK: E este parece ser o momento certo.

CLINT: Parece mesmo?!

HANK: O Passe Livre vai expirar no fim da quinta rodada, não tem hora melhor que agora! Se não usarmos hoje, não chegaremos lá!

CLINT: Mas se nós usarmos hoje, não vamos tê-lo para nos garantir na próxima rodada.

HANK: Se não usarmos hoje, podemos nem chegar na próxima rodada! — Ele berrou com raiva. — Dane-se! Vou fazer isso. Eu sou o líder e eu decido. Vou usar o meu trunfo.

Hank sugeriu que se afastassem da loja de narguilés, mas Clint se colocou fisicamente na frente dele, como uma parede. E lhe deu um tapa forte no rosto.

HANK: Que diacho?!

CLINT: Se recomponha, homi! — Disse ele firmemente, suspirando em seguida. — Ainda tem outras duas equipes lá fora! Um time é velho pra caramba e o outro é formado por um maricas que nunca trabalhou duro na vida e sua mãe de meia-idade. Se não conseguirmos sobreviver hoje, vou passar muita vergonha!

O tapa pareceu realmente acalmar os nervos de Hank e, com renovada determinação, os irmãos continuaram procurando.

***

De volta à Zona de Relaxamento, Lucina sorriu ao ouvir a segunda equipe se aproximando. Antoine e Martin sorriram amplamente ao conquistarem o segundo lugar. Hiperativos, eles até bateram as mãos para selar a vitória.

*ENTREVISTA ON*

MARTIN: Bom, essa foi mais uma boa etapa da corrida, non? Eu diria que nos saímos muito bem.

ANTOINE: Com certeza, mon ami. E não precisamos de nenhum passe livre. Triunfamos por nossos próprios mérits.

Atrás das câmeras, o produtor deu uma risadinha.

ANTOINE: O que é tán engraçado, hein?

PRODUTOR: Nada, só notei que vocês estão se chamando de "mon ami" com mais frequência. Pensei que fossem ‘frenemies’? O que mudou?

Os dois chefs pareceram ser pegos de surpresa com a pergunta.

ANTOINE: Hum... quer dizer...

MARTIN: Nos demos bem juntos, sim. Não há como negar.

ANTOINE: Claro. Mas isso non significa que somos amigos. Significa apenas que somos... bons parceiros de corrida. — Ele argumentou, depois suavizou a voz. — Embora, eu admita que "frenemies" talvez non seja o termo correto para nós.

MARTIN: Talvez non. Mas non somos amigos. Eu jamais seria amigo de alguém tán volúvel quanto o Antoine!

ANTOINE: Concordo. — Ele cruzou os braços.

*ENTREVISTA OFF*

Ao chegarem ao tapete dourado, as gêmeas pareciam mais chateadas e exasperadas do que o normal.

MIKAYLA: Terceiro lugar?! Mas não saímos em segundo?

MACKENZIE: Talvez, mas ainda assim passamos vinte minutos perambulando pela vila, por sua causa!

MIKAYLA: Por minha causa?! Não é minha culpa que aquele garoto bonito tenha falado comigo de novo.

MACKENZIE: É sim!

MIKAYLA: Enfim, não importa. Não podemos comemorar que chegamos ao top 3?

A apresentadora tossiu com força.

LUCINA: Desculpe, mas talvez vocês precisem consultar um oftalmologista. De novo. Vocês não estão em terceiro lugar.

Ela se afastou, revelando as garotas japonesas paradas atrás dela.

LUCINA: Hikari e Yumi estão em terceiro lugar. Parabéns, meninas.

As irmãs gêmeas bateram palmas educadamente e confusas.

MIKAYLA: Eu sempre me esqueço delas. Como elas são tão boas?

MACKENZIE: Talvez elas sejam boas porque não param para conversar com garotos marroquinos aleatórios.

MIKAYLA: Kenzie... elas não param pra conversar com ninguém. Elas nunca falam. — Ela rebateu.

***

Enquanto procuravam incansavelmente o tapete dourado e roxo, Peter ficava cada vez mais frustrado.

PETER: Quando é que vamos ter um descanso nessa maldita corrida?

MARIA: Olhe o linguajar, filho! Não fale essas palavras…

PETER: Eu disse quando é que vamos ter um descanso nessa porra de corrida de merda?! Estou furioso!

Sua mãe interrompeu tudo para começar um sermão.

MARIA: Meu jovem, não foi isso que eu te ensinei. Não use essas palavras sujas.

PETER: Foda-se o linguajar, mãe! Estou com raiva, frustrado, com fome, irritado, com sede e suado. E eu tenho o direito de estar cansado!

MARIA: Eu não disse que você não pode estar cansado, é só que...

PETER: Eu sou adulto, mãe! Eu posso sentir o que eu quiser. Me deixe ficar com raiva em paz!

Num acesso de raiva, ele socou a parede. Por coincidência, era exatamente o que eles precisavam, pois o tapete dourado e roxo saltou da prateleira com o impacto. Eles ficaram tão atônitos que não conseguiram falar nem discutir. Maria rapidamente agarrou o tapete e os dois saíram correndo dali.

A visão da dupla mãe-filho saindo fez o coração de Hank disparar.

HANK: ‘Ocê viu isso? Eles foram embora! O maricas e a mãe dele foram embora!

CLINT: Claro que vi, seu tchongo. Não sou cego. Isso não significa nada. Ainda podemos superar aqueles velhos.

HANK: Não sei não...

CLINT: ‘Ocê pode parar de ser neurótico por um segundo e procurar o nosso narguilé?! Se perdermos, é porque ‘ocê passou tanto tempo reclamando em vez de fazer o desafio.

HANK: ‘Ocê tá pondo a culpa ni mim?!

CLINT: Ajudando ‘cê num tá!

A discussão parou quando ouviram um som vindo da loja ao lado. Era o que mais temiam. Betty e Raymond tinham encontrado o tapete certo.

Felizmente para os cowboys, ele estava na prateleira mais alta e o casal de idosos não conseguia alcançá-lo. Infelizmente, Raymond já estava movendo algumas caixas para ajudar a esposa a alcançá-lo.

Foi a gota d'água. O ponto de ruptura. Hank encarou o irmão com ferocidade. Clint cedeu.

A cena seguinte mostrava os rapazes entregando seu bilhete dourado a um produtor, com expressões de emoções conflitantes. Os irmãos saíram dali o mais rápido possível, enquanto Raymond e Betty corriam para fora da loja.

***

Enquanto Larry e Willow deixavam o tapete dourado em quinto lugar, Peter e Maria, ofegantes, conquistavam o sexto lugar.

LUCINA: Parabéns, vocês ainda estão na corrida!

O filho se afastou silenciosamente da Zona de Descanso, sentindo-se envergonhado. Sua mãe tocou delicadamente seu ombro.

PETER: Por favor, mãe... me deixa no meu canto.

Maria pareceu tentar falar, mas saiu em silêncio. O menino caiu em prantos.

*ENTREVISTA ON*

PETER: Estou com tanta vergonha. Muita vergonha. Eu... eu não sei, eu explodi com a mamãe e ela não precisava me ver surtar daquele jeito. Foi desnecessário e totalmente inadequado. Preciso me controlar melhor. Minha mãe é minha única companheira de equipe nesta corrida, não posso arriscar me afastar dela. Não quando preciso tanto dela. — Ele fungou. — Eu me pergunto… se eu sou um filho ruim?

*ENTREVISTA OFF*

Lucina tentou disfarçar a empolgação ao ouvir os passos desesperados das equipes finalistas. Ela conseguia vê-los ao longe. Raymond, Betty, Hank e Clint. Todos correndo com todas as suas forças. Mas, uma equipe levou a melhor.

Mais jovens e em melhor forma, os cowboys ultrapassaram a outra equipe com relativa facilidade. Os irmãos pularam no tapete dourado, com o peito doendo, o coração quase explodindo e os pulmões implorando por descanso.

HANK: Conseguimos! Chegamos! Não fomos eliminados! — Ele mal conseguiu pronunciar as palavras, de tão cansado.

LUCINA: Não, vocês não foram! Mas ficaram em sétimo lugar. É o penúltimo, mas, ei, não é o suficiente para serem eliminados. Uma pena o Passe Livre ter ido embora tão rápido. — Ela alfinetou propositalmente.

Se Hank e Clint tivessem energia para retrucar, eles teriam feito. Mas na realidade, apenas continuaram arfando.

Enquanto os rumores de que Betty e Raymond eram a última dupla a chegar se espalhavam rapidamente pelos bastidores, Mona sentiu-se compelida. Ela abandonou Chantelle e correu o mais rápido que pôde de volta para a Zona de Descanso. Juntou as mãos em frente ao peito em oração quando o casal de idosos finalmente tocou o tapete dourado.

BETTY: Oh, minha querida, por favor, não diga o que está prestes a dizer...

Seu marido massageou seus ombros suavemente.

LUCINA: Sinto muito, Betty e Raymond. Mas receio que seja verdade. Vocês são a última dupla a chegar.

O casal suspirou de decepção. Mona abriu caminho entre as câmeras e os produtores, mas parou abruptamente. Lucina ainda não havia terminado de falar.

LUCINA: Mas hoje, isso não importa. Porque esta é uma etapa sem eliminação! -- Ela fez uma pose de showman.

Mona engasgou. Raymond baixou a cabeça em alívio. A mulher quase caiu de joelhos.

BETTY: Oh, obrigada, senhor!

A anfitriã arqueou uma sobrancelha.

LUCINA: Eu não sou "senhor", eu sou a Lucina.

Um pouco confusos, mas principalmente felizes, o casal mais velho saiu da Zona de Relaxamento. Nos bastidores, Mona sorriu e logo voltou para o lado de sua chefe.

*ENTREVISTA ON*

Betty e Raymond sorriam.

BETTY: Bem, esse foi um dia bem agitado! Os velhinhos aqui quase foram embora!

RAYMOND: Mas felizmente, não fomos. É tão bom sentir que as coisas também podem ser boas para nós. Nós estamos por baixo, mas não eliminados.

BETTY: E é isso que importa! Vamos continuar tentando, tentando e tentando ainda mais, até garantir nosso lugar no topo!

Os dois balançaram as cabeças contentes.

— — —

A imagem mudou para Hank e Clint.

CLINT: Então, foi uma rodada sem eliminação. — Ele cruzou os braços, enojado. — Òtimo, nós gastamos nossa arma letal numa rodada sem eliminação.

HANK: Agora, eu ‘to meio arrependido de ter usado o Passe Livre.

CLINT: Eu não quero ouvir ‘ocê soltar nem um pio, tá bom? Eu deixei, eu confiei que ‘ocê estava certo por quê é o irmão mais velho. Mas idade num significa nada. ‘Ocê falhou.

HANK: Eu falhei? Nós continuamos na corrida, num é?

CLINT: Continuamos, sem nosso ás na manga. ‘Ocê não merece ser o líder dessa equipe. A partir de agora, eu vou liderar.

Hank ameaçou retrucar, mas só encarou o chão, furioso.

*ENTREVISTA OFF*

A câmera retornou com Lucina, tomando outro gole feliz.

LUCINA: Ui, parece que mesmo sem uma eliminação, essa rodada desestabilizou todos os participantes. Exceto por Hikari e Yumi, mas elas não contam. — Riu debochadamente. — Dessa vez, pegamos leve, mas posso garantir que na próxima rodada, cabeças vão rodar. E talvez mais cabeças do que o esperado. — Ela atiçou com levadez. — Até o próximo episódio!

A câmera dá um zoom out dramático.



Notas finais
Neste capítulo, não houve nenhuma eliminação. Estão surpresos? Como mencionei antes, cada fase da corrida está cheia de surpresas. Qual será o efeito de uma rodada sem eliminações? Continue lendo para descobrir. Geralmente, utilizo as Notas Finais para fazer comentários sobre as equipes eliminadas; no entanto, como neste capítulo não houve eliminações, vou abordar meu sistema de escrita. Costumo publicar com vários capítulos já prontos. Apesar de estar publicando o capítulo 4, já escrevi o capítulo 10. Acredito que esta fic terá 12 capítulos, então já estou na fase final da escrita. É interessante observar como os personagens estavam nesse ponto da corrida e como estarão seis capítulos adiante. Por fim, estou começando os capítulos finais da corrida (que, spoiler, retornam à América do Norte e são mais dramáticos do que qualquer outra coisa) e espero que o desfecho seja gratificante, caso haja alguém lendo isso. Não tenho ideia se alguém lê ou aprecia minhas fics, pois não recebo comentários. No entanto, gosto de escrevê-las, então continuarei fazendo isso.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.