Notas iniciais
Curtiu? Deixa um comentário e feedback! Esta é a minha primeira fic de "A Corrida Alucinante", mas segue canônica com o resto das minhas fics. Os acontecimentos passados são mencionados.

A Corrida Alucinante: Drama sem Fronteiras

Capítulo 1

O céu estava de um azul perfeito, sem nuvens. Uma brisa suave trazia o cheiro de combustível de avião e ansiedade. O Aeroporto Internacional de Toronto fervilhava de famílias desesperadas e viajantes frenéticos, uma cacofonia de malas rolando e chamadas de embarque.

Mas em uma área isolada da pista, um tipo diferente de caos se desenrolava. Uma faixa de carpete vermelho berrante serpenteava entre montanhas de bagagem e bandeiras de uma dúzia de nações, enquanto uma remixagem orquestral estrondosa ecoava por alto-falantes gigantes.

E no centro de tudo, estava Lucina Skye.

Ela trajava um vestido verde metálico, com um blazer violeta por cima, segurando uma taça de espumante com um ar de profundo desinteresse. Seu sorriso era afiado, contido e cruel, recém-feito por um cirurgião habilidoso. Seu cabelo era preto como a noite, com mechas brancas. Por estilo, obviamente. Não por idade.

LUCINA: Bonjour, Olá, e sejam bem-vindos a uma nova temporada do reality show de viagens mais icônico da televisão: ‘A CORRIDA ALUCINANTE: DRAMA SEM FRONTEIRAS!’ — Ela abriu os braços em uma pose dramática e ensaiada.

O sorriso desapareceu instantaneamente.

LUCINA: Pelo menos, éramos o programa mais icônico da televisão… até sermos cancelados. Há mais de uma década. — Ela pigarreou, o som tenso no microfone. — Mas isso é passado, queridos telespectadores! Estamos de volta. E melhores do que nunca!

A voz de um produtor soou em seu ponto eletrônico. Lucina franziu a testa.

LUCINA: Me apresentar? Hmpf. — Ela cruzou os braços. — Sério mesmo? Mas tudo bem. O contrato manda…

O sorriso afiado voltou.

LUCINA: Eu sou Lucina Skye e serei a apresentadora desta temporada! Isso mesmo, vocês me terão por doze episódios eletrizantes. Que privilégio!

Ela começou a caminhar pelo tapete vermelho.

LUCINA: Ah, vocês me conhecem. Ex-apresentadora de moda e etiqueta. Uma breve, mas inesquecível, fase espiritual na TV a cabo. Namastê! — Ela juntou as palmas das mãos em uma oração irônica. — E agora, depois de um merecido período sabático imposto pela emissora, estou de volta. Melhor. E mais bem paga. Provavelmente.

Uma pausa para criar suspense.

LUCINA: E o programa? O conceito é maravilhosamente simples. Dez duplas completamente instáveis. Uma viagem ao redor do mundo, repleta de voos turbulentos, decisões terríveis e crises de choro em alta definição. — Desta vez, ela quase conseguiu fazer um sorriso genuíno. — Nas próximas semanas, essas equipes cruzarão continentes, enfrentarão desafios humilhantes, gritarão umas com as outras e, ocasionalmente, se apaixonarão. E depois se odiarão novamente! Mas eu não julgo. Eu apenas apresento. — Ela sorriu.

Lucina se virou e apontou um dedo com unhas impecáveis ​​para a pista.

LUCINA: A corrida começa agora. E se você acha que está pronto para ela… é porque claramente nunca assistiu à televisão de verdade.

A câmera deu um close. Ela ergueu a taça.

LUCINA: Que o espetáculo comece!

*Abertura*

A cena retornou com um zoom-out, e um ônibus surrado cantando pneu aparece, abre suas portas.

LUCINA: Bem, chega de enrolação! É hora de conhecer nossas duplas. E essa primeira equipe, bem, precisa ter muita paciência para lidar com elas! Talvez vocês já conheçam essas figuras…

Do ônibus saltam Mikayla e Mackenzie, 20 anos, bronzeadas, cabelo escuro e gêmeas idênticas. Mackenzie usa um cropped rosa neon. Mikayla, um azul bebê. Saia jeans combinando. Já chegam pulando e girando no asfalto como se estivessem num festival de música.

LUCINA: Vocês conhecem, vocês amam... ou só toleram mesmo. Direto de ‘Drama Total: Acampamento Mahquulin:’ Mikayla e Mackenzie!

As duas começam a correr em círculos pela pista do aeroporto, gritando, rindo e tropeçando em bagagens.

MACKENZIE: OMGGGG a gente tá na TV DE NOVO! Kayla, surta comigo!

MIKAYLA: Tô surtando real! Tipo, não literalmente. Mas tipo SIM! Eu adoro essas vibes! Vibes de aeroporto. Vibes de reality show. — Ela pausa repentinamente.. — Meu Deus, o asfalto é tão quente.

MACKENZIE: Ai, me lembra daquela vez horrível no voo para... pra... sei lá, Cabo? Aspen?

MIKAYLA: Aspen foi a do escândalo do fondue, né?

MACKENZIE: Não, burra, isso foi em Whistler. Tô falando de CABO. Que você deixou meu AirPod cair no vaso!

MIKAYLA: Primeiramente: você que levou AirPod pro banheiro, a culpa é sua. E segundo: não me chame de burra, eu tenho TDAH!

MACKENZIE: Eu também tenho, e nem por isso esqueço das viagens. Inclusive, Cabo foi logo depois da treta com a tia Nancy e a questão do suco detox.

MIKAYLA: Ai, VERDADE. O suco verde com gosto de lápis de cor!

Os olhos de Lucina vidraram por um segundo, mirando um ponto distante no horizonte como se questionando suas escolhas de vida. As gêmeas finalmente notam a apresentadora.

MACKENZIE: OMG!!! LU-CI-NA SKYE!!! Eu te amo. Tipo, seu programa de meditação? No canal Revelation Health + Home? Me curou o estômago depois do suco detox da tia Nancy.

MIKAYLA: Nuh-uh! Eu via seu programa. A Mackenzie ficava no celular mandando DM pro boy que gostava dela, lembra?

MACKENZIE: OMG, o BRAD P. ou o... REED??? Eu não lembro.

MIKAYLA: Reed! Mas ele só apareceu no ensino médio, dã!

MACKENZIE: Que ensino médio, mana, ele chegou na primavera do 9º. Tava chovendo, a gente foi no parque, daí—

Lucina tossiu forçadamente, interrompendo a fala.

LUCINA: Ok! Meninas! Que bom ter vocês aqui. Que tal esperarem… ali naquele cantinho, bem longe do microfone?

MIKAYLA: Siiiim, claro, total. — Ela pausa de supetão, notando uma ave ciscando no asfalto. — Tá vendo aquele passarinho ali? Parece o Travis.

MACKENZIE: Você sonhou com o Travis ontem?

MIKAYLA: NÃO, mas talvez agora eu sonhe.

As duas se afastam na direção indicada, ainda absorvidas no papo.

*ENTREVISTA ON*

Mikayla ajeita o cabelo, Mackenzie tenta sentar, esbarra na parede e ri baixo. A câmera está centralizada, elas olham direto para ela.

MACKENZIE: Oi! Eu sou a Mackenzie.

MIKAYLA: E eu sou a Mikayla. Sim, a gente é gêmea. Sim, ainda confundem a gente. Não, não é tão engraçado quanto as pessoas acham.

MACKENZIE: Tipo, a gente se inscreveu porque… sei lá, sentimos falta disso?

MIKAYLA: É. O reality anterior foi caótico, mas meio viciante. E agora a gente tem vinte, então já dá pra competir sem cair tanto no choro. E também estamos medicadas!

MACKENZIE: Quer dizer… quando a gente não esquece o remédio. — Ela riu. — Mas ainda vou reclamar se a gente tiver que comer, sei lá, olho de cabra ou algo assim.

MIKAYLA: E dessa vez a gente combinou de tentar levar a sério. Tipo, jogar de verdade.

MACKENZIE: É. Vamos trabalhar duro!

Breve silêncio. Elas se encaram e seguram o riso.

MACKENZIE: Mas enfim, estamos animadas. Prontas pra correr, competir, talvez chorar um pouco. E ganhar. Se possível.

MIKAYLA: Se não ganharmos, pelo menos que a edição seja boa.

MACKENZIE: E que nossa pele fique bonita na câmera. Isso é o mais importante.

MIKAYLA: Fatos, mana!

*ENTREVISTA OFF*

A câmera voltou para Lucina, agora com os braços cruzados e o olhar no horizonte, claramente arrependida de suas escolhas de carreira.

LUCINA: Ugh. Sou eu quem vai lidar com essas pentelhas por doze episódios? — Suspirou. — Enfim, mais uma dupla tá chegando!

Um estagiário ofegante aparece pedalando uma bicicleta tandem, visivelmente suando com o peso das duas figuras no banco traseiro. Eles desceram no asfalto com uma sincronia levemente forçada.

LUCINA: Diretamente de Drama Total em Dose Dupla, e, para quem lembra bem, também de Drama Total: A Revanche, eis que surgem… Danny e Becky!

DANNY: Finalmente! A Corrida Alucinante! É como se nossos sonhos de infância tivessem se tornado realidade… — Ele abriu os braços teatralmente.

BECKY: Só que com um treino mais intenso do que quando éramos crianças. — Ela destacou. — Lembra da nossa “fase de preparação extrema”? Subir morro, nadar em correnteza, correr em cascalho... E, claro, a ultramaratona de séries no sofá. — Riu seca.

DANNY: Essa foi sua tentativa de piada? Trágico.

BECKY: Não, minha tentativa de piada foi aguentar namorar você por anos.

Becky deu um meio sorriso tenso. Danny ajeitou a regata minúscula, destacando ainda mais os músculos como se alguém tivesse pedido.

Lucina levantou uma sobrancelha.

LUCINA: Bom saber que o clima tá leve. Que tal se posicionarem ali e tentarem não arrancar a cara um do outro antes da largada?

Danny deu uma joinha. Becky já estava andando.

*ENTREVISTA ON*

Becky e Danny estão sentados lado a lado no banco de entrevistas. Ela bebe água sem pressa, como se ignorasse a presença dele. Ele cruza os braços, tentando parecer descontraído.

DANNY: Então… oi. Eu sou o Danny. Já competi duas vezes no Drama Total. Fiquei em quinto lugar na primeira temporada de Dose Dupla e em segundo na Revanche. Segundo. Existe posição pior que segundo lugar?

BECKY: E eu fui eliminada cedo na nossa primeira vez. Tipo, episódio três? Ou quatro?

DANNY: Foi o seis. A gente contou. Quer dizer… eu contei.

BECKY: Claro que contou. Você conta até as calorias de um copo d’água.

Ele força um sorriso, tentando mudar de assunto.

DANNY: Mas agora estamos aqui, na Corrida Alucinante. Nosso sonho desde sempre. E dessa vez, a Becky vai até o fim. E eu vou atrás do que sempre me escapou: o ouro.

BECKY: É, só que agora como ex-namorados.

Silêncio constrangedor. Danny olha para a câmera com um meio sorriso.

DANNY: A gente decidiu que seria melhor assim. — Se ajeitou no banco, desconfortável. — Mesmo após o término, achamos que competir juntos ainda fazia sentido. Sabe, focar no desempenho. Cortar distrações. Tipo... emoções. Ahn… manter o foco na corrida. No desempenho. Menos… distrações emocionais.

BECKY: É. Menos emoção. Mais corrida. Como sempre, com você. Zero emoção.

Ela cruza os braços. Ele finge não ouvir.

BECKY: Ou melhor… só uma emoção. Raiva descontrolada.

A voz de um produtor soou atrás das câmeras.

PRODUTOR: Só por curiosidade... como foi o término?

BECKY: Complicado. — Ela suspirou.

DANNY: Foi maduro. Civilizado. — Ele respondeu ao mesmo tempo.

Eles se encaram por um segundo. Becky solta uma risadinha irônica.

BECKY: Depende da sua definição de “maduro”.

DANNY: Bem, não fui eu quem riscou o capô do carro depois do término. — Ele tossiu, tentando parecer inocente.

Becky revira os olhos e volta a beber da garrafa.

*ENTREVISTA OFF*

Um carro compacto para de forma desajeitada na pista do aeroporto. A porta do passageiro se abriu e Peter quase caiu, sendo empurrado para fora por uma mochila grande e pesada. Atrás dele, surgiu Maria, vestindo um chapéu de aba longa e um sorriso que desafiava o sol.

LUCINA: Vamos a próxima dupla! — Anunciou secamente. — E direto da Ilha McHatchet… temos Peter! E sua mãe, Maria. Uma dupla… inesperada.

Peter sorri sem graça. Maria ergue os braços como se tivesse vencido a maratona de Boston.

MARIA: Chegamos! Prontos pra correr, pra lutar, pra vencer!

PETER: …e pra passar vergonha em rede internacional. — Ele murmurou.

*ENTREVISTA ON*

Peter está sentado, meio torto, braços cruzados e ajeitando os óculos. Maria ajeita o cabelo meio preto e grisalho, animada.

PETER: Eu sou o Peter. Joguei a Ilha McHatchet… Fui eliminado perto da fusão. Tive um bom momento por lá. Especialmente com o James.

MARIA: O James! — Ela interrompeu, dando uma palmadinha no braço do filho. — Um amigo maravilhoso! Muito… próximo do Peter, né?

PETER: A gente namora, mãe. Há cinco anos. — Encarou a câmera. — Ele passa o Natal lá em casa.

MARIA: São tão unidos. É uma amizade para a vida toda, não é, querido? — Ela sorriu, mas o humor não chegou aos olhos.

Peter suspirou longamente.

PETER: Enfim. Embora eu tenha me desapontado com meu desempenho em Drama Total, A Corrida Alucinante sempre foi meu reality favorito.

Repentinamente o rosto dele se alegrou.

PETER: Eu sei bastante sobre o mundo e viagens! Pelo menos, teoricamente. Eu nunca saí da nossa província por muito tempo. Mas eu li todos os atlas e textos históricos que existem sobre os maiores pontos turísticos do mundo! E... bom, é um sonho, né? Quem não quer viajar o planeta?

MARIA: E um sonho de mãe também! Mal posso esperar pra mostrar o que eu sei fazer. Costura, escalada, sobrevivência, sudoku nível mestre. Só não me peçam pra usar Tik Tok.

PETER: Acho que o pior pesadelo da minha mãe seria um desafio tecnológico.

MARIA: Já você é ótimo nisso! Um talento escondido. Igual seu pai. — Ela riu. — No que eu falto, você completa, né meu bebezinho?

Maria pega a bochecha de Peter e aperta. O rapaz balança a cabeça devagar, como quem sabe que aquilo é só o começo.

*ENTREVISTA OFF*

Lucina bufou e tomou mais um gole do seu espumante, já perdendo a paciência.

LUCINA: Pois bem, lá vem a próxima dupla! Vocês em casa devem reconhecer pelo menos um deles…

Uma caminhonete velha, quase desmontando, estacionou com um rangido longo e ameaçador. A carroçaria estava abarrotada de lenha, ferramentas, e pedaços de madeira empilhados de forma questionável. De dentro, desceram duas figuras ruivas, sardentas e com a mesma expressão de aborrecimento.

LUCINA: Isso mesmo, direto de Drama Total: Floresta dos Mistérios, é Willow… e seu pai, Larry!

Willow ajeitou seu ushanka felpudo sobre o cabelo ruivo liso, ainda surpreendentemente intacto desde sua última participação. Vestia uma camiseta verde com estampa xadrez, calças jeans desbotadas e botas surradas.

Larry usava uma camisa xadrez vermelha de flanela, uma touca grossa que escondia boa parte do cabelo ruivo, e tinha o tipo de porte físico que fazia qualquer um pensar duas vezes antes de encarar. Mesmo sem falar, intimidava mais que metade dos competidores ali.

DANNY: Que isso? Esse homem é gigantesco… — Comentou baixinho, desconcertado.

Larry claramente passava dos dois metros de altura. Seus ombros eram largos demais pro enquadramento da câmera, e suas mãos enormes e calejadas estavam protegidas por luvas de couro. Um machadinho afiado balançava preso ao cinto. Ao ouvir o comentário, ele nem reagiu. Simplesmente marchou até a fila de competidores com passos pesados, Willow logo atrás.

*ENTREVISTA ON*

Willow e Larry estavam sentados lado a lado. Ela mantinha uma expressão entediada, como quem já conhecia bem o circo da televisão. Larry, braços cruzados, parecia desconfiar profundamente de tudo e todos atrás das câmeras.

WILLOW: Vai logo, pai. Se apresenta antes que os produtores tenham um aneurisma.

Larry bufou. Falou devagar.

LARRY: Sou Larry. Lenhador. Pai da minha menina perfeita, Willow. — Sua voz grave ressoava como uma serra elétrica.

Willow soltou um sorrisinho, já acostumada com o tipo silencioso do pai.

WILLOW: É, meu pai é do tipo “poucas palavras”.

LARRY: Pra quê palavras, se ações resolvem mais? — Ele levantou a machadinha e a apontou casualmente na direção da câmera. — Essa belezinha aqui tá afiada. E não tenho medo de usá-la para impedir distrações!

WILLOW: Traduzindo… ele está ameaçando usar a machadinha em qualquer cara que tentar falar comigo durante a corrida.

LARRY: E vou usar se for preciso! — Rosnou, com os olhos semicerrados. — Na última vez, minha menina foi arrastada pra um drama adolescente por moleques cheios de hormônio. Isso não vai acontecer de novo. Ninguém se aproxima da minha garotinha.

WILLOW: É, meu pai é meio intenso, mas vai ver assim eu finalmente ganho esse programa.

Ela soltou uma risada seca, antes de se virar para a câmera com mais foco.

WILLOW: Eu sou a Willow. Fiquei em terceiro lugar na última temporada do Drama Total. Foi uma experiência horrível, honestamente. Mas dessa vez, voltei com meu pai de guarda-costas. Sem romance, sem distrações. Só jogo.

LARRY: É isso aí. Estamos focados. Viemos pra ganhar.

Willow assentiu, séria.

*ENTREVISTA OFF*

Lucina passou os olhos nas fichas e quase sorriu.

LUCINA: Nossa próxima dupla… Bom, se você já se perguntou o que acontece quando dois gênios da robótica saem do porão, a resposta está chegando agora. E não, não é uma nova série de ficção científica ruim da ABC.

Um carro elétrico pequeno e meio sujo parou com um solavanco na área de desembarque. O capô estava amarrado com fita adesiva, e uma antena parabólica improvisada estava presa no teto. A porta do motorista travou por um segundo, até que Logan deu um chute por dentro e ela se abriu.

Nick saiu primeiro, franzino, de pele quase transparente e cabelo castanho enrolado preso sob um boné velho escrito “There’s no religion like science”. Usava uma camiseta preta com o logo da NASA, calça cargo e uma mochila entupida de bugigangas. Logan o seguiu: um pouco mais alto, tão pálido quanto, com cabelo castanho bagunçado, camiseta azul do Mick & Rorty e óculos de aro grosso que escorregavam o tempo todo.

LUCINA: Direto do laboratório… Nick e Logan, os melhores amigos e Céticos da Robótica!

LOGAN: Uau. É aqui mesmo. Aeroporto de Toronto. O ar tá… estatisticamente mais úmido do que o ideal, mas nada intolerável.

NICK: Vento vindo de nordeste, 14 km/h. Sinto umidade acumulando na lente dos meus óculos. Isso é um péssimo sinal pra minha rinite.

Eles deram alguns passos e quase colidiram com um poste. Fingiram normalidade.

LOGAN: Foi intencional. Testando percepção espacial em novos ambientes.

NICK: Deveria ter considerado esse poste nos meus cálculos, no entanto.

Lucina revirou os olhos, claramente irritando-se.

*ENTREVISTA ON*

Nick e Logan estavam lado a lado. Nick parecia desconfortável com a altura do assento.

NICK: Tá. Eu sou o Nick, tenho 18 anos. Sou desenvolvedor de códigos autodidata, três medalhas em olimpíadas científicas e co-presidente do Clube de Robótica Interestadual.

LOGAN: E eu sou o Logan. 19 anos. Especialização em automação, lógica aplicada e… snacks de máquinas de vender. Também sou o cara que conserta a torradeira do Nick quando ela entra em curto por “motivos experimentais”.

Nick o ignorou, olhando para a câmera como se estivesse em um documentário.

NICK: Nosso objetivo aqui é vencer. E coletar dados. Dados sobre comportamento humano em ambientes de estresse competitivo.

LOGAN: E talvez dar um reboot na nossa habilidade de… lidar com pessoas.

Silêncio constrangedor. Logan continuou como se fosse normal.

LOGAN: Nós somos amigos desde os 12, quando fomos os únicos dois a não vomitar no ônibus da excursão pra feira de tecnologia. Não foi difícil. Evitar vômito é fácil. É pura…

NICK: Lógica centrífuga aplicada! — Ele completou. — A gente passa a maior parte do tempo programando, montando robôs e quebrando regras de convivência sem querer.

LOGAN: Tipo esquecer que as pessoas não gostam de ouvir 40 minutos sobre painéis solares no jantar. — Levantou o dedo indicador, como se estivesse fazendo uma apresentação.

NICK: Como eu estava dizendo, a gente veio aqui porque... bom, eu quero testar como a lógica sobrevive em um ambiente onde tudo parece um pesadelo logístico.

LOGAN: E eu vim porque ele me convenceu dizendo que seria “uma simulação de sobrevivência social”. E eu gosto de anotar falhas humanas.

Nick ergueu uma sobrancelha pra ele.

LOGAN: Quer dizer... pra fins educacionais, claro.

NICK: Naturalmente. — Ele tossiu. — A gente não tem físico de atleta, nem traquejo social, mas temos estratégia, conhecimento técnico e um plano de contingência pra quase tudo.

LOGAN: É. Eu tenho… 92,7% de certeza que tudo vai correr bem!

*ENTREVISTA OFF*

Chegou a vez da dupla seguinte. Dois garanhões adentraram em cena. Literalmente, dois cavalos. Um de pelagem marrom, o outro, branca como neve. As patas pisavam firme na trilha de asfalto, levantando poeira no ar enquanto os animais marchavam lado a lado, sob o sol da manhã.

Montados nas selas estavam os dois participantes seguintes: Hank e Clint.

LUCINA: E lá vêm eles! Direto das pradarias de Manitoba, apresento a vocês… os cowboys da corrida! Hank e Clint!

Ambos usavam camisas de botão de manga longa, já suadas. Hank, o mais velho, tinha barba cerrada, maxilar quadrado, e um olhar calmo. O chapéu de cowboy escondia parte do cabelo castanho escuro, e a bandana vermelha no pescoço completava o visual clássico. A pele era clara, mas castigada pelo sol e vento. Era difícil saber se ele estava sorrindo ou só acostumado a apertar os olhos por causa da luz.

Clint, o irmão mais novo, exibia um mullet cuidadosamente bagunçado. Ele usava uma camisa jeans de botões arregaçados até os cotovelos e um colete marrom por cima. Seu chapéu estava amarrado nas costas, balançando com o trotar do cavalo branco. A bandana azul no pescoço tremulava.

CLINT: Yeehaw! Olha só, Hank, tem gente aqui que nunca viu um cavalo de perto! — Comentou ao ver o desconforto de Nick e Logan.

HANK: Bom... hoje vão ver dois ganhando uma corrida.

Eles desmontaram com facilidade, dando tapinhas leves nos cavalos antes de entregá-los a um dos estagiários nervosos da produção. Clint acenou para Nick e Logan, que olhavam tudo com certo espanto. Nick sussurrou alguma coisa sobre "tráfego não regulamentado de equinos".

LUCINA: Hank, Clint… eu nem vou perguntar como vocês trouxeram dois cavalos pra cá. — Ela apertou a ponte do nariz. — Eu sabia que deixar os competidores decidirem o transporte de entrada seria uma má ideia!

CLINT: Que nada, sô! Nós assinou um papel aí dizendo que não ia discutir transporte rural com a produção.

HANK: Pelo menos os produtores se comprometeram a cuidar dos nossos cavalos enquanto estivermos viajando!

Lucina apenas bufou e apontou para a área de espera. Os dois irmãos caminharam lado a lado, postura relaxada, mas o olhar atento.

*ENTREVISTA ON*

Hank e Clint estavam sentados. Clint roía um palito de madeira e balançava o pé, enquanto Hank ajeitava o chapéu com calma.

CLINT: Clint aqui, vinte anos, nascido e criado em rancho. Sei montar, laçar, correr, derrubar bezerro e também fritar um ovo com uma mão só.

HANK: Sou Hank. Vinte e três. Faço tudo o que ele faz… só que direito. E sem entrar em pânico.

CLINT: Ei!

HANK: Só tô dizendo a verdade.

Clint deu uma risadinha e cutucou o irmão com o cotovelo.

CLINT: Nós crescemos em Manitoba, cercado de vaca, bosta de cavalo e mosca. Mas sempre tivemos espírito de competição.

HANK: Nós já competimos em tudo que dá: rodeio, rali de caminhonete, arremesso de ferradura, quem come mais panqueca…

CLINT: Eu ganhei no da panqueca.

HANK: Porque eu deixei.

Ambos riram baixo, sem exagero.

CLINT: Nós veio aqui pra ganhar. E se der pra se divertir um pouco no caminho… beleza. Mas a gente joga pra vencer.

HANK: Não importa se tem duna, lama, neve ou bicho doido. A gente dá um jeito.

CLINT: E nós num vai se perder. Pelo menos eu sei me localizar!

HANK: Num sabe bosta nenhuma! O Clint usa o mapa de papel de cabeça pra baixo até hoje.

CLINT: Ô, foi uma vez!

HANK: Sim, uma vez. E sua navegação nesta “uma vez” foi tão ruim que formos parar num casamento de uma família aleatória no Yukon!

CLINT: Pelo menos comi bolo de graça.

HANK: De todo o modo, eu vou lidar com o mapa desta vez. Eu sou o mais velho. E eu serei o líder. Já foi decidido!

Clint parecia desgostoso, mas os dois assentiram em silêncio para a câmera.

*ENTREVISTA OFF*

LUCINA: E vem chegando aí, a próxima dupla!

Uma limousine branca parou na passarela. Era grande, barulhenta e completamente deslocada do cenário poeirento onde todos esperavam.

A porta se abriu devagar.

Primeiro, um salto rosa brilhante tocou o chão. Depois, pernas exageradamente bronzeadas. E então ela apareceu: Chantelle. Platinada até a raiz, maquiada até a alma, vestindo um conjunto que parecia custar o salário de alguém. Óculos escuros enormes cobriam metade do rosto.

Segurava o celular com delicadeza e falava direto para a câmera, ou melhor, para os seguidores.

CHANTELLE: Bom dia, meus diamantes! Sou eu, sua querida Chantelle, chegando no aeroporto e pronta pra zarpar. É, tô fazendo uma caridade participando de outro reality, mas fiquem tranquilos: vou registrar cada segundo!

LUCINA: Chantelle, você sabe que esse programa já está registrado. É um reality show. Têm câmeras!

Chantelle não ligou, continuando a tirar selfies. Lucina deu um par de palmas e um assistente de produção chegou rapidamente, tirando o celular da mão da influenciadora, que protestou em vão.

Lucina observou com desdém. Atrás dela, quase despercebida, surgiu Mona. Cabelos escuros num coque apertado, roupas sóbrias, expressão de quem não dormia há dias. Puxava duas malas gigantes sem dizer uma palavra.

LUCINA: Bem, temos a influenciadora digital Chantelle e sua dupla, sua assistente... — Ela franziu o cenho, folheando algumas fichas. — Sua assistente chamada... hã... não tem o nome dela aqui.

A assistente continuava puxando as malas.

CHANTELLE: Mona! Tá maluca?! Cuidado com essa mala, meus biquínis tão aí dentro! — Ela berrou. — Ugh, imprestável.

A assistente respondeu com um “sim, senhorita”, e o foco voltou para Lucina.

LUCINA: Bem, parece que o nome dela é Mona!

Chantelle seguiu até o ponto indicado, com a pobre Mona atrás. Enquanto isso, Hank e Clint cochichavam.

HANK: ‘Ocê acha que essa garota já trabalhou um dia na vida?

CLINT: Hmpf. Claro que não. — Cruzou os braços.

Do outro lado, Peter e sua mãe também trocavam sussurros.

MARIA: Não entendo. Essa moça claramente é rica. O que veio fazer aqui? Ela não precisa de um milhão de dólares.

PETER: Não é óbvio? Todo reality precisa de uma influenciadora fútil para os gays fazerem fanbase e defenderem online!

Maria assentiu, compreendendo.

MARIA: Você é tão esperto, filho! — E apertou a cabeça dele num abraço.

*ENTREVISTA ON*

Chantelle tomava a frente da câmera, enquanto Mona tentava se esconder no cantinho.

CHANTELLE: Já estamos gravando? Ótimo! — Ela tossiu levemente. — Oi, meus diamantes! Isso mesmo, Chantelle Pirelli na sua TV mais uma vez! A minha marca de beleza ‘Silky Rose’ é uma das patrocinadoras da emissora, então minha equipe achou uma ótima ideia eu competir nesse programa. Hm... qual é esse programa mesmo? — Virou-se para a assistente.

MONA: ‘A Corrida Alucinante’, senhorita.

CHANTELLE: Cala a boca, Mona! Eu consigo lembrar sozinha!

Mona se encolheu ainda mais enquanto Chantelle fazia força para lembrar.

CHANTELLE: Já sei! É A Corrida Alucinante! Tô super animada de participar d’A Corrida Alucinante! — Riu, convencida de que lembrou sozinha. — Como a competição é em duplas, fui obrigada a trazer alguém. Essa é a Mona...

Apontou para a assistente, visivelmente contrariada. Mona apenas acenou.

CHANTELLE: Minha mãe contratou ela. Ugh, nem sei pra quê, eu me viro sozinha! Mas tudo bem. Não quero incomodar minha mãe. Vocês sabem quem ela é, né? Cassandra Pirelli-Jameson.

MONA: Ela também é sua agente, senhorita. — Informou, sem emoção.

CHANTELLE: Ela prefere o termo momager, Mona! Ugh, fica quieta! Como eu dizia antes de ser interrompida... — Ela lançou um olhar fulminante para a assistente. — Eu adoro estar aqui! Amo reality shows! Vocês com certeza me viram em “As Mulheres Reais do Condomínio Fechado em Nova Iorque”. Ou em “O Castelo da Traição”?

MONA: Onde você foi eliminada no segundo episódio, não foi, senhorita? — Completou, monótona.

CHANTELLE: Ugh, Mona! Eles não precisam saber disso! Enfim, embora eu seja fabulosa, perfeita e tipo… super humilde, ainda quero ganhar. Não que eu precise de um milhão de dólares. Mas a Mona definitivamente precisa, então vou dar um mimo.

MONA: Felizmente, assinei um contrato que me garante 500 mil dos ganhos.

CHANTELLE: Ninguém liga pra isso, Mona! Affz, você tá me tirando do sério.

A influenciadora levantou, bateu o pé e saiu do enquadramento.

*ENTREVISTA OFF*

Lucina abriu seu sorriso ensaiado mais uma vez.

LUCINA: Bem, e já vai chegando a próxima dupla!

NICK: Uh… com licença, senhorita Skye, mas acho que elas já chegaram.

Lucina olhou para os lados e se deu conta, com um leve sobressalto, de que duas meninas estavam bem ao lado dela. Do nada.

A mais alta era Hikari. Tinha o cabelo preto preso num coque impecável e os olhos afiados, atentos a tudo. Vestia um kimono preto tradicional, estampado com discretos ramos de flor de cerejeira.

Ao lado dela, Yumi. Mais baixa, pele muito clara, cabelos azul meia-noite caindo soltos pelos ombros. Seu kimono longo ondulava com o vento, e uma katana presa às costas destacava-se pelos padrões florais entalhados na lâmina.

LUCINA: Ai! — Ela deu um passo para trás, assustada. — Como é que vocês chegaram aqui?

Nenhuma das duas respondeu. Apenas se entreolharam, cúmplices, e caminharam em silêncio até se juntar ao grupo, como se aquilo fosse o mais normal do mundo.

Lucina ficou estática por um segundo. Um calafrio subiu pela espinha.

LUCINA: Meninas esquisitas. — Comentou, mais para si.

*ENTREVISTA ON*

Hikari e Yumi estavam sentadas, eretas, mãos apoiadas no colo, encarando a câmera. E quietas. Muito quietas.

Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos.

Atrás das câmeras, um dos produtores coçou a cabeça, desconfortável.

PRODUTOR: Uh… meninas, vocês precisam se apresentar.

As duas se olharam brevemente. Acenaram com a cabeça. E então… silêncio outra vez.

PRODUTOR: Ah, esquece! Passa pra próxima cena!

*ENTREVISTA OFF*

Lucina refez o sorriso ao anunciar a próxima dupla. De um carro moderno, porém sem luxo, saíram dois homens vestidos com uniformes brancos de chef.

LUCINA: A próxima dupla é formada por dois chefs de um restaurante superfaturado, que cobra 500 dólares por um potinho de crème brûlée: Martin e Antoine!

Martin tinha cabelo loiro, visível sob o chapéu de chef, e uma expressão de tédio profissional. Antoine, mais baixo e com um bigode castanho bem aparado, ajeitou o avental na cintura enquanto saía do carro. Ambos usavam os tradicionais dólmãs com os nomes bordados no peito e se mantinham impecavelmente alinhados.

Martin inspirou fundo pelo nariz, já fazendo careta.

MARTIN: Ugh... Torrontô! Que cidadezinha desprezível! — O sotaque carregado soava quase performático.

ANTOINE: Veja pelo lado bon, Martin. Pelo menos non estamos en Mississauga!

Eles explodiram em gargalhadas exageradas. Lucina, no entanto, não esboçou reação.

LUCINA: Uh... Eu sou de Mississauga.

Antoine arregalou os olhos, escandalizado de brincadeira.

ANTOINE: Pobrezinha! Nunca comeu comida de verdade! Venha ao nosso restaurante em Québec! Lá tu vai, enfim, expandir seus ‘orrizontês!

LUCINA: Meus o quê?

ANTOINE: ‘Orrizontês!

LUCINA: Ah, você quer dizer ‘horizontes’. Desculpa, quase não dá pra entender seu sotaque francês. — Ela riu, mal escondendo a provocação.

MARTIN: Nós viemos de Québec City! Non nos desrespeite nos chamando de franceses!

Lucina apenas revirou os olhos e apontou para o lado.

LUCINA: Tanto faz. Fiquem ali esperando a corrida começar.

Cochichando em francês e resmungando baixinho, os dois caminharam para o local indicado.

*ENTREVISTA ON*

Ambos estavam com os braços cruzados, esperando o sinal dos produtores.

ANTOINE: Bonjour. Sou Antoine, e este é Martin.

MARTIN: E nós somos os melhores chefs de cozinha que o Canadá tem a ôferrecer!

Sorrisos orgulhosos se abriram nos dois rostos, mas um produtor tossiu atrás da câmera.

PRODUTOR: Uh... Ouvi dizer que vocês são, na verdade, subchefs do restaurante de vocês?

O sorriso quebrou de imediato.

MARTIN: Uh... isso é uma infelicidade! Clarramente Antoine e eu somos melhores que o nível de souz-chef.

ANTOINE: Melhores que qualquer outro funcionárrio naquela cozinha!

MARTIN: Mas o dono do restôrrante é italiano! Ugh. Jamais deixaria dois quebecóis no topo da hierarquia.

ANTOINE: Um desperdício escandaloso dos nossos talentos.

PRODUTOR: Por que vocês decidiram participar da corrida?

ANTOINE: Para explorar novas culturas, é claro! Aquelas que non são mainstream, que nosso paladar ainda non conhece. Un chance unique!

MARTIN: E quando voltarmos, estaremos tão bons que o restôrrante não vai ter escolha senão nos promover.

PRODUTOR: Os dois querem a promoção?

ANTOINE: É clarô!

PRODUTOR: E quem de vocês é o melhor chef?

MARTIN: Isso é fácil.

ANTOINE: Ou. Com certeza!

E os dois apontaram para si mesmos. Congelaram por um segundo, se entreolharam, e cruzaram os braços, ofendidos.

*ENTREVISTA OFF*

Em tempo, um fusca queimando pneu surgiu na passarela, deixando um rastro de fumaça. Lucina conferiu as fichas e sorriu.

LUCINA: Finalmente, lá vem a última dupla de competidores desta corrida!

De dentro do carro, saíram dois idosos. A mulher era ligeiramente corcunda, o rosto marcado por rugas, com cabelos grisalhos presos sob uma faixa esportiva. Usava uma tracksuit rosa bebê e tênis de corrida. O homem ao lado trajava um conjunto esportivo verde com listras brancas, ostentando uma careca reluzente com tufos de cabelo nas laterais e uma verruga proeminente no queixo. Seu look era completado por óculos redondos com lentes grossas.

LUCINA: São os vovôs da temporada: Betty e Raymond!

Com passos cuidadosos, o casal pegou suas malas e começou a arrastá-las pela passarela. A cena provocou comoção imediata entre os outros competidores.

MACKENZIE: Oh meu Deus! Deixa eu ajudar a senhora!

Betty sorriu com os olhos e entregou a alça da mala sem dizer nada.

HANK: Que diacho! Deixar duas pessoas de idade carregar bagagem. Que programa cruel.

Do canto, Lucina soltou uma risadinha.

LUCINA: Se você acha isso cruel, você nem sabe o que está por vir.

*ENTREVISTA ON*

Betty e Raymond estão sentados lado a lado, sorrindo para a câmera. Ela ajeita o zíper da tracksuit, ele dá uma leve tossida antes de começar.

BETTY: Oi, meus queridos! Um beijo pros nossos filhos, pros netinhos, e até pro Biscuit, se ele estiver assistindo.

RAYMOND: É, a gente tá com saudade, mas olha... agora que a casa tá vazia, a gente resolveu se jogar nessa aventura.

BETTY: A gente sempre disse que, quando os meninos crescessem, a gente ia fazer algo só pra gente.

RAYMOND: Pois é. E aí vimos essa corrida na televisão... e pensamos: "Por que não? Ainda temos lenha pra queimar."

BETTY: E muito mais do que pensam, viu?

Raymond dá uma risadinha cúmplice e ajeita os óculos.

RAYMOND: O pessoal vai olhar pra gente e pensar que somos só dois velhinhos simpáticos. Deixa pensarem.

BETTY: Eles vão se surpreender!

Ela puxa a manga da jaqueta e mostra discretamente o braço definido. Raymond levanta a perna da calça só o suficiente pra exibir a panturrilha.

BETTY: Sessão de musculação três vezes por semana. Caminhada no parque. E yoga toda terça e quinta.

RAYMOND: A gente se cuida. Corpo em movimento, mente viva.

BETTY: Agora vamos ver se os jovenzinhos conseguem nos acompanhar, certo?

Os dois trocam um sorriso confiante, mas tranquilo.

*ENTREVISTA OFF*

A câmera faz um take panorâmico das dez duplas posicionadas na passarela. Vinte corredores no total. Em seguida, foca em Lucina, agora lendo mais fichas.

LUCINA: Então é isso, temos nosso elenco! Dez duplas super empolgantes: as gêmeas desatentas; os ex-namorados do triatlo; mãe e filho; pai e filha lenhadores; irmãos caubóis; nerds da robótica; a influenciadora e sua assistente; as japonesas esquisitas; os amigos chefs de cozinha e… os vovôs!

Martin bufou, audível o suficiente para todos ouvirem.

MARTIN: Aham… Antoine e eu non somos amigos! — Ele disse, franzindo a testa.

Antoine assentiu devagar.

LUCINA: O quê? Então o que vocês são?

MARTIN: Somos colegas de trabalhô. Temos un respeito mútuo. Ele é o cozinheiro menos pior do nosso restôrrante.

LUCINA: Então vocês são tipo… rivais?

ANTOINE: Non! O Martin non está no meu nível para competir contra moi!

LUCINA: Que tal… “frenemies”?

MARTIN: “Frênemis?” Eu non conheço esse têrmo do inglês. Língua esquisita!

Peter se intrometeu, animado por ajudar.

PETER: Significa que vocês são amigos e inimigos ao mesmo tempo!

Antoine e Martin se entreolharam. Após alguns segundos de reflexão silenciosa, aceitaram a definição com um aceno resignado.

LUCINA: Tanto faz! Temos uma corrida para começar. — Ela bateu palmas com entusiasmo. — Essa competição é simples… mas cheia de regras específicas. Não vou explicar tudo agora, mas fiquem tranquilos: vocês saberão o que importa quando for a hora. Vamos começar com o básico.

Ela levantou o dedo indicador, como se desse uma aula.

LUCINA: A corrida tem dez etapas. Em cada uma, o objetivo é alcançar o Tapete de Conclusão, que marca o fim da etapa. Corram, porque as primeiras equipes a chegarem na Zona de Relaxamento e no Tapete Dourado garantem prêmios muito legais, cortesia dos nossos patrocinadores!

Alguns participantes se entreolharam, empolgados com a ideia de prêmios.

LUCINA: Por outro lado… a última equipe a pisar no tapete será eliminada!

A animação do grupo diminuiu consideravelmente.

LUCINA: Cada etapa vai levar vocês a uma nova cidade, num país diferente, em vários cantos do mundo! Eu estarei lá, com muita humildade, claro, apresentando tudo para vocês e para o público em casa. Mas não pensem que vai ser fácil. Em cada etapa, há desafios obrigatórios. Alguns relacionados à cultura local… outros inventados por nossos produtores insanos.

Nick e Logan trocaram um olhar de preocupação.

LUCINA: E no fim de tudo isso, as três últimas duplas remanescentes vão disputar a etapa final por um prêmio de UM MILHÃO DE DÓLARES!

Assobios e aplausos ecoaram entre os competidores.

LUCINA: A primeira etapa está prestes a começar! Se olharem lá no fim do terminal do aeroporto, vocês vão ver algo peculiar.

A câmera dá um zoom extremo, revelando um standee de papelão em tamanho real da própria Lucina, com uma caixa de correio ao lado.

LUCINA: Aquilo é a Caixa de Pistas. Quando virem meu lindo rosto de papelão, abram a caixa de correio ao lado e leiam a pista. Ela vai indicar o próximo desafio, destino ou reviravolta! E sim… vão haver reviravoltas.

Ela soltou uma risada claramente forçada.

LUCINA: Mas o que importa agora é que aquela primeira Caixa de Pistas já contém a localização da primeira etapa. E também uma passagem de avião! Temos dois voos: o primeiro saindo em breve, o segundo uma hora depois. As cinco primeiras duplas a chegarem lá garantem vaga no primeiro voo!

O grupo se agitou, olhando na direção da caixa.

LUCINA: Antes da largada, mais uma coisinha! — Ela tomou um gole do espumante, agora morno.

PETER: Mais uma? Já não tem informação o suficiente?

LUCINA: Não! — Respondeu seca, ignorando o protesto. — Como eu disse, cada etapa da corrida oferece prêmios, mas o dessa aqui é extra especial. A primeira dupla a chegar na Zona de Relaxamento vai levar essa belezura!

Ela ergueu um bilhete dourado, com os dizeres “Passe Livre” estampados no centro em letras garrafais.

LUCINA: Este aqui é o Passe Livre. Um baita trunfo. Quem tiver isso nas mãos pode pular qualquer desafio da corrida. Simples assim. Entrega o passe, e voilà! Nada de rastejar na lama, comer olho de cabra ou escalar montanha de sal grosso.

Alguns competidores pareceram mais interessados agora.

LUCINA: Mas prestem atenção: o Passe Livre só é válido até o fim da quinta etapa. Se não usar até lá, perde o poder. Então escolham bem quando e se quiserem usar.

Ela guardou o bilhete de volta com um sorriso enigmático.

LUCINA: É isso! Boa sorte e nos vemos no Tapete de Conclusão! O mundo é sua ostra! Estão prontos?

As dez duplas se posicionaram para a largada.

LUCINA: Valendo!

Ao sinal, todos dispararam em debandada.

Nick e Logan, no entanto, correram alguns metros e pararam. Nick puxou algo do bolso: uma bússola com compasso acoplado. Ele esticou o braço na direção do horizonte, alinhando o visor com a Caixa de Pistas.

NICK: A Caixa de Pistas está ligeiramente a sudoeste. Como o vento vem do nordeste, teremos alguma resistência. Mas hoje a ventania está relativamente fraca, ou seja...

LOGAN: O impacto do vento é desprezível! Podemos calcular a trajetória considerando “Velocidade do Vento = 0”. — Completou com entusiasmo.

NICK: Certo, mas ainda precisamos decidir o trajeto ideal: diagonal, linha reta ou zigue-zague.

LOGAN: Você sabe que o trajeto diagonal é estatisticamente o mais eficiente!

NICK: Eu sei, mas ainda assim quero fazer os cálculos. Vale uma vaga no primeiro voo!

Enquanto discutiam, seguiram em trote leve, tão concentrados que nem perceberam o que vinha pela frente, até Logan colidir direto com a dupla de lenhadores.

LOGAN: Aaagh! Ugh! — Ele caiu no chão, massageando o ombro. — Foi mal!

Willow não hesitou em estender a mão para ajudá-lo. Larry, por outro lado, reagiu.

LARRY: O que pensa que está fazendo, moleque? Larga a mão da minha filha! — Sua voz ecoou como trovão.

Com passos largos e pesados, Larry se aproximou, puxou a filha e fez Logan despencar no chão de novo.

LOGAN: Ai! Foi ela quem me ofereceu a mão!

LARRY: Não importa!

Willow revirou os olhos com desgosto.

WILLOW: Ugh, pai, você vai me matar de vergonha.

LARRY: Willow, eu... eu só quero ter certeza de que você está focada na corrida...

Willow levantou a mão, interrompendo.

WILLOW: Tanto faz. Vamos continuar correndo.

Pai e filha voltaram a trotar, sem trocar mais uma palavra.

Atrás deles, em igual silêncio, Nick ajudou Logan a se levantar, dando um tapinha solidário nas costas dele.

NICK: Você tá bem?

LOGAN: Não. Aquele grandalhão interrompeu toda minha linha de raciocínio. Eu tenho que recomeçar os cálculos! — Reclamou.

Enquanto isso, mais à frente, Becky e Danny corriam lado a lado, ambos ofegantes, mas sem ceder espaço um ao outro.

Becky acelerou. Danny também. Becky saltou por cima de uma lombada. Danny a imitou. Becky se abaixou e passou por baixo de uma cancela automática. Danny bateu a cabeça.

DANNY: Agh! — Ele coçou a cabeça, mas continuou correndo.

BECKY: Hah! Isso que dá tentar ultrapassar a melhor corredora desse time!

Danny apenas grunhiu. Logo em seguida, Becky chegou à Caixa de Pistas e começou a saltitar, comemorando.

BECKY: Yes! Eu sou a primeira a chegar!

Ela abriu um sorrisão... só para Danny chegar logo depois, ofegante, e cortar o clima.

DANNY: Uh, acho melhor você marcar um oftalmologista, dona Becky.

BECKY: O quê?

Ela fechou a cara enquanto Danny apontava. Um pouco mais adiante, calmas e respirando tranquilamente, estavam Hikari e Yumi. Elas já seguravam o envelope da pista e liam com serenidade.

BECKY: Como… como?! Elas nem estão suando!

Danny soltou uma risada gostosa, satisfeito por ver Becky ser vencida, mesmo que não por ele.

Enquanto isso, a câmera focou nas amigas silenciosas. Um produtor tossiu.

PRODUTOR: Uh... meninas, precisamos que vocês leiam a pista em voz alta, pra o público de casa também saber.

Hikari e Yumi trocaram olhares e encararam a câmera. Permaneceram em silêncio.

Felizmente para os produtores, Hank e Clint chegaram em seguida à caixa e começaram a ler a pista.

CLINT: “Parabéns, dupla! Vocês garantiram uma vaga no primeiro voo rumo ao primeiro destino da corrida… Ilhas Galápagos, Equador!”

Hank sorriu, surpreso com a escolha do local.

CLINT: Bem, estamos prontos! Ilhas Galápagos, nos esperem!

Logo depois, as outras duplas começaram a chegar. Betty e Raymond, os avós, foram os quartos. Antoine e Martin completaram o grupo do primeiro voo.

Ou seja, as duplas restantes — Willow & Larry; Mackenzie & Mikayla; Peter & Maria; Chantelle & Mona; e Nick & Logan — teriam que esperar pela segunda viagem até o destino.

***

O tempo passa e as duplas são gradualmente chamadas para embarcar. Um avião decola, seguido por um segundo voo cerca de uma hora depois.

A câmera corta para o interior da cabine premium de uma das aeronaves. Lucina está confortavelmente instalada em uma poltrona larga, segurando uma taça de espumante com a elegância típica.

LUCINA: Bem... essa foi uma estreia, no mínimo, intrigante, não? Dez duplas. Todas completamente disfuncionais à sua maneira, é claro. E todas desesperadas por tempo de tela e um milhão de dólares. Que reviravoltas esperam por elas nas exóticas Ilhas Galápagos? Posso garantir que pelo menos uma dessas duplas vai sair de lá aos prantos. Mas se você quer saber qual, vai ter que assistir ao próximo episódio de A Corrida Alucinante: Drama sem Fronteiras!

Ela solta uma risada forçada, sem esconder o tédio, e logo em seguida sua expressão azeda retorna.

LUCINA: Tá bom, né? Já fiz minha parte. Posso sair agora? Sério, por que diabos eu achei que voltar a apresentar era uma boa ideia? Alguém me traz outra taça de champanhe!

Sem esperar resposta, ela se levanta e desaparece para fora da câmera. A imagem congela brevemente e a trilha de encerramento começa. Os créditos sobem na tela.


Notas finais
Obrigado por ler! Estou escrevendo essa fic há exatamente um ano, e este capítulo ficou parado nos meus arquivos acumulando poeira por quase todo esse tempo. Por isso, confesso que não sei ao certo o quanto ele ficou bom,, já que passou por um milhão de versões. Foi um capítulo introdutório e, como sempre, o segundo já estará disponível junto com este. Vou aproveitar as notas para comentar um pouco sobre a equipe eliminada de cada capítulo. Desta vez, ninguém saiu, então que tal falarmos da nossa apresentadora, minha personagem original? O nome dela tem várias camadas de easter eggs. "Lucina" está dentro da palavra "alucinante". Já "Lucina Skye" é uma referência à música "Lucy in the Sky with Diamonds", dos Beatles. Além disso, "Sky" significa céu, e essa temporada é recheada de viagens aéreas. Sua personalidade foi levemente inspirada em Emily Campbell e Krystal McLane (de Disventure Camp) e em Julie Chen-Moonves (do Big Brother US). Não deixem de comentar o que acharam dos capítulos e dos personagens, adoro saber a opinião de vocês!