A Coroa e o Coração
16 O Retorno às Cinzas
A cabana na floresta, antes um refúgio de sonhos, tornara-se o santuário do isolamento de Analis. O silêncio dos pinheiros era o único consolo para uma mulher que se sentia traída pelo próprio coração e pela fúria do homem que jurara protegê-la. Contudo, o inverno se aproximava e as poucas vestes que levara não eram suficientes. Com o peito blindado por uma frieza defensiva, ela montou seu cavalo e cavalgou de volta ao palácio, não como princesa, mas como uma estrangeira buscando o que era seu.
Ela entrou pelas portas laterais, evitando os salões principais. O palácio parecia mais escuro, o ar mais pesado. Ao chegar aos seus antigos aposentos, começou a abrir os baús com movimentos bruscos, jogando tecidos e joias sobre a cama sem qualquer cuidado.
No gabinete, Robert Brooke estava debruçado sobre mapas, mas sua mente era um deserto. Quando o camareiro entrou e sussurrou que a Princesa estava nos aposentos superiores, o sangue do rei ferveu e gelou no mesmo instante. Sem dizer uma palavra, ele cruzou os corredores, a capa balançando com a violência de seus passos.
Ele escancarou a porta sem bater. Analis parou com um vestido de seda nas mãos, os olhos faiscando ao encontrar os dele.
— O que pensa que está fazendo aqui? — rugiu Robert, a voz carregada de uma mágoa que ele tentava disfarçar de autoridade.
— Buscando o resto da minha vida, Majestade — rebateu Analis, a voz cortante. — Já que sou "uma distração perigosa", achei melhor levar minhas coisas para que o senhor possa governar em paz, sem o "caos" que eu provoco.
— Você fugiu como uma ladra na calada da noite! — ele aproximou-se, o espaço entre eles diminuindo perigosamente. — Deixou este palácio desprotegido, deixou o Conselho... me deixou sem uma palavra!
— Eu não fugi! Eu fui expulsa pelas suas palavras cruéis! — Analis largou o vestido e caminhou até ele, batendo com o dedo no peito da armadura dele. — Você me chamou de fraqueza. Você me humilhou diante de um estranho. O que queria? Que eu ficasse aqui implorando por migalhas do seu afeto instável?
— Eu fiz o que fiz para nos salvar! — gritou Robert, segurando os pulsos dela com força, a respiração pesada contra o rosto dela. — Porque cada vez que olho para você, eu sinto que estou morrendo por dentro! Eu odeio o modo como você me faz esquecer de Drake! Eu odeio o modo como você se tornou o centro do meu mundo!
— Pois então me odeie em silêncio! — gritou ela de volta, tentando se soltar, mas o contato físico apenas inflamou a tensão que meses de distância haviam acumulado.
A discussão era um turbilhão de mágoas e verdades não ditas. Entre um insulto e outro, os olhares se cruzaram com uma urgência devastadora. A raiva transmutou-se em uma paixão faminta e desesperada. Robert a puxou para um beijo que não tinha nada de carinho; era uma colisão de almas feridas. Analis, em vez de recuar, agarrou-se aos ombros dele, devolvendo a intensidade.
Eles caíram sobre a cama, entre os baús abertos e as sedas espalhadas. Foi um ato de posse e entrega, uma tentativa vã de calar a dor com o prazer físico. No calor daquele momento, o luto e a culpa foram abafados pelo som da respiração ofegante e pelo toque da pele.
Contudo, assim que o fogo se extinguiu, o gelo da realidade retornou com uma força brutal.
Robert sentou-se na borda da cama, as costas nuas curvadas sob o peso de um crime invisível. Ele enterrou o rosto nas mãos, sentindo o suor esfriar em seu corpo. O silêncio do quarto era agora um carrasco. Ele olhou para o lado e viu o lenço de Drake, que Analis deixara cair, caído no chão.
— Meu Deus... — sussurrou ele, a voz carregada de uma náusea moral. — O que nós fizemos?
Analis cobriu-se com os lençóis, encarando o teto com olhos vazios. O prazer fora um alívio momentâneo, mas o que restara era um vazio ainda mais profundo.
— Robert... — ela começou, a voz trêmula.
— Saia — disse ele, sem olhar para trás, a voz soando como se estivesse sufocando. — Pegue suas coisas e vá embora, Analis. Por favor. Eu me sinto um lixo. Eu sinto como se tivesse matado meu filho pela segunda vez.
Ele se levantou, vestindo-se às pressas com as mãos trêmulas, incapaz de suportar a própria imagem no espelho ou o olhar da mulher que ele amava e, ao mesmo tempo, representava sua ruína moral. Robert saiu do quarto sem olhar para trás, deixando para trás um rastro de destruição que nenhum tratado ou vitória militar poderia consertar.
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