A Coroa e o Coração
17 O Segredo sob o Manto de Lã
A vida na cabana tornara-se uma rotina de silêncio e sobrevivência. Analis não contava mais os dias, mas sim o crescimento da curva em seu ventre. A descoberta da gravidez fora um choque que a paralisou por semanas; era o fruto de uma noite de desespero e paixão proibida, um laço eterno com o homem que a mandara embora e com a dinastia que ela acreditava ter deixado para trás. Ela decidiu, no entanto, que aquele filho seria apenas seu. Não procuraria Robert. Não permitiria que o peso da coroa ou a sombra da culpa dele tocassem a criança.
Quatro meses haviam se passado. Analis usava capas largas de lã e vivia de forma simples. Em uma manhã de sol pálido, ela precisou descer até o povoado vizinho, na orla da floresta, para trocar algumas peles por mantimentos e ervas medicinais. Ela caminhava entre as barracas do mercado, com o capuz erguido, tentando ser apenas mais uma camponesa entre tantas.
Contudo, o destino não aceitava o seu exílio.
Lorde Vallon, o conselheiro mais antigo e astuto de Robert, estava no povoado supervisionando a coleta de impostos reais. Seus olhos de águia, treinados para notar o que ninguém mais via, pousaram em uma figura que se movia com uma graça que não pertencia ao campo. Quando Analis se inclinou para pegar uma cesta de maçãs, o vento soprou sua capa, revelando por um breve instante a silhueta inconfundível.
Vallon estancou. Ele conhecia aquele rosto. Ele conhecia aquele porte.
Analis percebeu o olhar e, em um sobressalto, puxou o capuz e desapareceu apressadamente entre as vielas. Mas era tarde demais. O conselheiro não precisava de mais provas.
— Preparem os cavalos! — gritou Vallon para seus guardas. — Voltamos para o palácio agora!
A cavalgada foi frenética. Vallon entrou no palácio como um vendaval, ignorando os protestos dos guardas de honra. Ele encontrou o Rei Robert em seu gabinete, sentado na penumbra, cercado por garrafas de vinho e mapas que ele não lia mais. O rei parecia um fantasma de si mesmo.
— Majestade! — Vallon exclamou, recuperando o fôlego.
— O que é tão urgente, Vallon? — perguntou Robert, a voz arrastada e sem vida. — O mundo pode esperar até amanhã.
— O mundo talvez, senhor, mas a sua linhagem não! — O conselheiro aproximou-se da mesa, os olhos brilhando. — Eu a vi. Eu vi a Princesa Analis no povoado de Ooster.
O nome dela fez Robert levantar a cabeça instantaneamente, um lampejo de dor e atenção cruzando seu rosto envelhecido.
— O que me importa onde ela está? — mentiu o rei, embora suas mãos tivessem começado a tremer. — Ela escolheu a floresta. Que fique com as árvores.
— Majestade, escute-me bem — Vallon baixou a voz, soltando a notícia como um impacto de canhão. — Eu a vi de perto. Ela tentou se esconder, mas não há capa de lã no mundo que esconda o que ela carrega. Analis Brooke está grávida, senhor. Ela carrega um bebê em seu ventre. Um herdeiro para os Países Baixos.
O silêncio que caiu sobre o gabinete foi absoluto. Robert sentiu o ar sumir de seus pulmões. A náusea que o consumia há meses foi substituída por um choque elétrico de esperança e terror. Ele levantou-se tão bruscamente que a cadeira tombou para trás.
— Um filho... — sussurrou Robert, a voz falhando. — Meu filho?
— Pelas minhas contas e pelo tempo de sua ausência, Majestade... — Vallon assentiu seriamente — não há dúvida alguma. Ela carrega o seu sangue.
Robert caminhou até a janela, olhando para a direção da floresta. O coração que ele achava que estava morto começou a bater com uma força que o assustou. Ele a mandara embora. Ele a chamara de lixo. E agora, ela estava lá fora, sozinha, protegendo a única coisa que poderia redimir o futuro daquele reino.
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