A Coroa e o Coração
6 O Sangue no Trigo
O dia amanheceu sob um céu de chumbo, carregado pelo cheiro metálico de sangue e o odor acre da pólvora negra. O campo de batalha era um mar de lama e caos. O Rei Robert, montado em seu corcel branco agora manchado de cinza, liderava a carga final contra as linhas francesas. O som era ensurdecedor: o trotar de milhares de cavalos, o grito de guerra dos soldados e o estrondo dos canhões que faziam a terra tremer sob seus pés.
— Pelos Países Baixos! — rugiu Robert, erguendo sua espada quebrada, mas ainda letal.
A vitória estava próxima. As fileiras inimigas começavam a recuar, batendo em retirada diante da fúria implacável do exército Brooke. Robert sentia a adrenalina da conquista, o triunfo de um rei que protegera seu povo. Mas, no calor da perseguição, seus olhos buscaram freneticamente a capa vermelha e o estandarte de seu filho.
Drake estava na vanguarda, um borrão de azul e aço, lutando com a bravura de dez homens. Ele abria caminho entre os últimos focos de resistência francesa, sua espada brilhando sob a luz pálida do sol que tentava romper as nuvens.
— Drake! — gritou o rei, tentando alcançar o filho em meio ao tumulto.
Foi então que o tempo pareceu congelar.
Um oficial francês, caído entre os corpos mas ainda com uma pistola carregada na mão, mirou nas costas do príncipe distraído pela luta à frente. Robert viu o brilho do gatilho sendo puxado. Ele tentou gritar, tentou intervir, mas a distância era cruel.
O estalo do disparo foi seco, cortando o barulho da batalha.
Drake estancou. Sua espada caiu da mão, atingindo o solo com um som surdo. Ele levou a mão ao peito, onde o lenço de seda de Analis começou a se tingir rapidamente de um vermelho profundo e cruel. O príncipe caiu de joelhos, seus olhos buscando o horizonte, talvez tentando ver o palácio ou o rosto da mulher que amava uma última vez.
— Não! — o grito de Robert rasgou sua própria garganta enquanto ele saltava do cavalo antes mesmo que o animal parasse.
O rei correu, atropelando os restos da guerra, até cair ao lado do filho. Ele o amparou nos braços, sujando suas vestes reais com o sangue do herdeiro.
— Drake... olhe para mim, meu filho! Fique comigo! — implorava Robert, sua voz antes poderosa agora quebrada pelo desespero. — Nós vencemos! A guerra acabou, Drake!
Drake tossiu, um rastro de sangue escapando por seus lábios. Ele tentou sorrir, um esforço hercúleo, e sua mão trêmula buscou a mão do pai.
— Diga... diga a Analis... — ele sussurrou, a voz falhando, o brilho nos olhos azuis se apagando como uma vela ao vento. — Diga que eu... cumpri a promessa... eu... estou voltando... para casa...
A mão de Drake perdeu a força e caiu inerte sobre o barro. O último suspiro deixou seu corpo, e o silêncio se instalou sobre o campo de batalha, embora os canhões ainda disparassem ao longe.
O Rei Robert Brooke, o vencedor da grande guerra contra a França, apertou o corpo do filho contra o peito e soltou um grito de agonia que nenhum tratado de paz ou vitória militar poderia silenciar. Ele ganhara o reino, mas perdera seu mundo.
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