A Convocação
6 Querer não é poder
Notas iniciais
POV JACOB
O cheiro de perfume francês invadiu minhas narinas, confundindo meus pensamentos. Lentamente abri os olhos, e procurei entender onde eu estava. Roupas íntimas femininas estavam espalhadas pelo chão, as cortinas marfim voavam quarto adentro com a brisa da tarde ensolarada. Botei uma das mãos na frente do olhos, aquela claridade estava irritando meus olhos. Por sorte a dormência de meu rosto já havia passado, assim não iria sofrer com as torrenciais perguntas de meu pai sobre porque eu estava agindo estranho.
Logo todo a memória da noite passada voltou quando Cécile saiu do quarto enrolada numa toalha roxa. A bela mulher de toalha a minha frente, havia cortado os longos cabelos na altura dos ombros, parecendo cada vez mais com uma típica moça francesa. Antes, se não fosse pelo seu sotaque estrangeiro, ela passaria fácil por uma americana. E claro, se não fosse também pelo perfume. Agora eu entendia porque Emily não gostava do cheiro de Cécile. O aroma cítrico de seu perfume estava por todo lado, desde a entrada de seu dormitório que ficava na universidade, até dentro de seu quarto. O vapor quente saiu de dentro do banheiro junto com Cécile, que agora sorria maliciosamente para mim.
– Por favor Cé, não comece. Minha cabeça parece que vai explodir. – cocei o nariz e ficou em meus dedos um pequeno rastro de pó branco – Quanto eu cheirei?
– O bastante para adormecer e perder as duas primeiras aula. – ela soltou a toalha no chão e começou a catar algumas roupas para vestir. Esfreguei minhas têmporas, estava realmente difícil lembrar de alguma coisa sobre a noite passada – O que aconteceu? – ela perguntou.
– Como assim o que aconteceu? – indaguei não entendendo o viés da pergunta.
– Você chegou noite passada em meu quarto, tentou transar com moi*, e no meio do caminho me largou. Cheirou tanto que não aguentou e caiu em minha cama. – Cécile tinhas as duas mãos cruzadas sobre os peitos, ao mesmo tempo que me olhava como se eu fosse um estranho.
Voltei a me recostar na cabeceira da cama, fechando os olhos no intuito de lembrar porque eu havia recusado a francesa. Logo a imagem daquela garota de rosto angelical adentrou minha mente, queimando minhas entranhas de raiva e desejo, e me arrependi amargamente por ter feito aquilo. Devia ter deixado aquela memória enterrada em minha problemática cabeça e seguido em frente. Agora meu dia seria atormentado pela lembrança do toque de seus lábios.
– Não aconteceu nada. Apenas problemas. – coloquei rapidamente minhas roupas, peguei as chaves de meu carro e andei em direção a porta de seu quarto – Na próxima eu compenso.
– Au Revoir. – Cécile abanou sedutoramente em minha direção, mandando-me um beijo e voltou a arrumar a bagunça de seu quarto.
Desci as escadas do seu dormitório pulando alguns degraus, eu não poderia me dar o luxo de faltar as aulas. Marcaria o máximo possível de presença no início do semestre, para no final faltar e não correr o risco de ficar pendurado em alguma cadeira. Cheirei minha camiseta, e dei uma rápida checada no resto de minhas roupas. Tudo parecia estar nos conformes, apenas meu rosto deveria estar um caos. Todo inchado de tanto dormir e cheirar. Dentro de um dos banheiros do campus, passei água no meu rosto para afastar aquele olhar vermelho de chapado. Não dava, eu teria que ir para a aula daquele jeito. Coloquei meu óculos de sol, e adentrei a sala de aula.
Algumas dezenas de cabeças, incluindo a do professor voltaram-se para mim. Vasculhei ligeiramente com o olhar onde o resto da gangue estava sentada. Avistei Quil no fundo da sala e com passos largos atravessei o local e sentei-me ao seu lado. Aos poucos os olhares curiosos aquietavam-se e voltavam a prestar atenção no quadro. Relaxei na cadeira, sentindo todos os meus músculos rígidos de uma noite mal dormida, baixei os óculos e esfreguei os olhos, ouvindo Quil rir ao meu lado.
– Droga cara, você está um lixo. – ele cutucou meu braço.
– É, eu sei. – sorri de volta – Mas já estive pior.
– Parece que você cheirou toda a Ína do Estado da Califórnia. – ele continuou falando como se fosse algo errado, e aquilo me irritou.
– Quil, vai se foder.
Meu parça de balada calou-se. Olhei ao redor, e encontrei o olhar brincalhão e sarcástico de Paul, que logo fez um sinal de positivo com a mão. Fiquei um pouco confuso, porque aquele era um tipo de comentário silencioso que Paul fazia quando sabia que eu havia me dado bem, ou conseguido o que queria. E nenhuma dessas duas coisas haviam acontecido. Não que eu me lembrasse pelo menos.
Sr.Sherman não parava de falar um minuto, “porque o empreendedorismo isso, e aquilo, e blábláblá”. Mais uma matéria que era encheção de linguiça na faculdade. Eu não precisava saber do empreendedorismo, de seus riscos e como lidar com ele. Eu iria herdar toda a empresa de meu pai, e assim que estivesse com uma boa grana nas mãos, nomearia um acionista velho que não tem mais nada para fazer da vida, a não ser comandar um império de advocacia. Ou simplesmente venderia tudo. Certamente seria deserdado pelo meu pai, mas como eu seria o novo dono daquela encheção de saco, alguns pequenos milhões já estariam nas minhas contas e não teria que me importar se seria realmente deserdado ou não.
Claire estava inquieta sentada na classe a frente de Quil. As vezes lançava olhares furtivos de desapontamento para ele, e olhares de raiva para mim. Aquilo estava me deixando intrigado.
– Qual o problema da Claire? – falei baixinho, próximo a Quil – Não está comparecendo seu cachorro? – ri ironicamente.
– Como se você não soubesse. Ela está furiosa com você. – falou fingindo prestar atenção na aula.
– Não sei porque. – dei de ombros, minha cabeça já estava cheia e eu não precisava de nenhum drama familiar naquele dia — Foda-se a Claire, sempre com essa cara de mal comida. Está me enchendo o saco.
Quil limitou-se a dar de ombros, e fez algumas meras anotações em seu caderno. Claire levantou da classe assim que o sinal bateu e pegou sua bolsa na mesa ao lado que estava vazia. Sequer esperou Quil acompanhá-la até o lado de fora. Uma pesada mão repousou em meu ombro quando Paul apareceu sorridente ao meu lado.
– Então, quer dizer que a leitura na biblioteca ontem rendeu! – ele insinuou.
Mas era claro, como eu podia ter me esquecido. Olhei rapidamente ao meu redor, procurando aquela cabeleira avermelhada, ou seus olhos esmeraldas, mas não encontrei nada. Ela não havia ido na aula. Será que havia acontecido alguma coisa? Mandaram embora? Ficou doente? Retirei a mão de Paul de meu ombro, e sai porta a fora. Eu precisava achar Claire.
Encontrei-a sentada em um dos bancos do campus mexendo no celular. Assim que viu-me chegando perto, jogou o iphone dentro da bolsa e levantou-se, fulminando com o olhar.
– O que você quer Jacob?
– Quero saber porque está toda arisca comigo. – dei uma zombadinha.
– Porque será? – ela pendeu o peso do corpo numa das pernas e cruzou os braços no peito – Talvez seja porque você não deixa ninguém em paz. Porque você não consegue ver ninguém feliz. Porque precisa ser sempre o centro das atenções.
– Não te fiz nada garota. Se Quil não está comparecendo, isso é problema de vocês.
– Você acha que eu não sei o que você fez com a pobre da garota nova? – Claire olhava-me furiosa.
– Eu não fiz nada.
– Eu vi o estado que ela estava ontem quando peguei-a na porta da Universidade. Estava atônica, em choque. Não falou uma única palavra.
– Eu sabia que essa garota era problemática. Mas não vejo culpa minha nisso aí. – cruzei os braços para dar enfase nos meus argumentos.
– Me poupe Jacob. Escutei a sua ganguezinha, – ela ironizou – comentando hoje cedo que você iria dar um trato nela.
– Eu sequer encostei naquela frígida.- e em minha cabeça, as lembranças do nosso momento nos corredores escuros da biblioteca ficaram se repetindo. Maldição.
– Agora não importa mais se você encostou nela ou não. Apenas deixe-a em paz, a garota está tentando recomeçar a vida.
– Ah, mas eu quero que ela recomece a vida dela. – coloquei meu sorriso mais amigável nos lábios – Só que em outro lugar.
Por um momento dizer aquelas palavras pareciam corretas. Eu não queria ela longe da minha vida, e não sabia porque, mas tê-la por perto me incomodava profundamente. Entretanto, ao mesmo tempo que aquelas palavras pareciam corretas, elas também soavam erroneamente. Uma pequena parte dentro de mim não gostou da ideia de tê-la longe. E eu agradeci mentalmente por ser uma minúscula parte.
– Querer não é poder. – ela pegou a bolsa e colocou no ombro – Acostume-se com isso.
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Cheguei em casa após uma rodada de rodada de bebidas com Seth, Embry e Paul. O pau mandado do Quil, seguiu a cadela da Claire até o shopping. Esse sim era um grande idiota. Claire e Quil treparam algumas vezes, viviam brigando, nunca assumiam que estavam juntos, ao mesmo tempo que pegavam outras pessoas e ainda assim conseguiam ficar magoados um com o outro. Uma vida que eu desejava nunca conhecer.
Quando passei pela sala de jantar, pelo canto de olho vi meu pai sentado na ponta de longa mesa de jantar mexendo em seu notebook, e falando ao celular. Mais um idiota que vivia apenas para trabalhar. Me surpreendi que ele e Susan continuaram juntos depois de tantos anos, ao que tudo indicava, ela trairia meu pai pela falta de atenção dele. Ou ela estava fazendo tudo muito bem escondido, ou a trouxa era realmente fiel ao velho.
– Jacob. – a voz grossa de meu pai ecoou da sala até os primeiros degraus da escada, que era onde eu estava. Ele não precisava dizer mais nada, eu sabia que quando ele usava aquele tom de voz era porque queria falar comigo. Desci os degraus e me dirigi até o batente da porta da sala de jantar.
– O que é? – perguntei, sentindo minhas pálpebras pedirem por um descanso.
– Você não dormiu em casa essa noite. – ele limitou-se a dizer, enquanto mantinha os olhos em alguns papeis .
– Você percebeu isso sozinho, ou precisou da ajuda da sua prostituta?
– Percebo muitas coisas que você sequer imagina. – eu sabia como meu pai simplesmente detestava o modo que eu tratava Susan. Mas eu não podia evitar, aquele ódio era maior que eu – Como por exemplo o cheiro de álcool, seus olhos vermelhos e inchados e a mesma roupa que saiu ontem para ir á aula.
– Quer algum prêmio por causa disso? Quem sabe o Oscar de Melhor pai?
– Não quero nada. Apenas que você suba, durma, tome um banho, se arruma e desça para jantar. Seus tios estão vindo jantar aqui.
– E se eu não quiser comparecer e ter que fingir sermos uma família perfeita?
– Não estou te dando uma opção. – finalmente ele me olhava – É uma ordem.
Dei as costas para o velho ranzinza e antes de sair da sala ele me chamou mais uma vez.
– O que foi agora? – novamente ele estava com a atenção voltada para o notebook.
– Se for dormir fora e não avisar ninguém da casa, e se chegar mais uma vez desse jeito em casa, irei cortar seus cartões de crédito, tirar seus carros. E você terá que procurar outro lugar para morar.
– VOCÊ SÓ PODE ESTAR DE SACANAGEM COMIGO. SERÁ QUE NÃO ESTÁ NA HORA DE IR CONSULTAR ESSA SUA CABEÇA, VELHO?
– Jacob? – meu pai fingiu não ter ouvido nada do meu protesto.
– O QUE VOCÊ QUER?
– Já pode subir. Te esperamos aqui em duas horas.
Arrebentei a porta de meu quarto quando entrei nele. A batida da maçanete na parede, fez um barulho de migalha na parede, piorado um buraco que conforme os anos passavam, ia aumentando de tamanho. Me joguei na cama, e o cansaço logo me pegou.
Acordei com Emily entrando em meu quarto, jogando algumas roupas em cima da cama e sacudindo meu corpo. Meus olhos estavam pesados, e parecia ser preciso um esforço enorme para abri-los.
– Vai embora sua biscate! – murmurei, com olhos fechados ainda. De jeito nenhum eu iria levantar daquela cama.
– Levanta Jacob. – ela cravou as unhas na minha panturrilha – Ou você quer ficar sem dinheiro,carro e onde morar?
– Eu juro que ainda vou contratar alguém pra te matar. – falei levantando-me a contragosto.
– Claro, claro. Mas faça isso depois do jantar.
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Escutei as risadas, e as conversas do alto da escada. Minhas pernas estava pesadas, assim como meus olhos. Desci o mas devagar que pude, deliciando cada degrau, apenas para prolongar meu momento sem aquela gente irritante.
Quando entrei na sala de jantar, meu pai já estava sentado no seu lugar, na ponta da mesa. Susan estava sentada ao seu lado direito, segurando sua mão sobre a mesa. Aquela cena me revirou o estômago, enquanto os dois riam alegremente e conversavam de forma entusiasmada com Mily, sentada na frente de sua mãe. E com uma garota que estava sentada ao lado da minha meia-irmã. Emily passou as mãos nos cabelos cacheados da garota ao seu lado, pegando uma mexa, levando ao nariz e cheirando-a. Típico dela, analisar as pessoas através do seu cheiro. Meus tios cumprimentaram-me com a cabeça. Emily, a garota ruiva e Claire estavam de costas para mim, então não notaram minha presença. Entretanto, meu pai notou.
– Fico feliz que tenha se juntado a nós filho. – ele sorriu para mim, e eu aos poucos entrei na sala – Renesmee, esse é meu filho, Jacob.
Meu pai falava diretamente com a ruiva e ao escutar aquele nome, meu sangue gelou. Renesmee virou a cabeça para me olhar, o sorriso que antes habitava seus lábios rosados, sumiu, dando lugar á duas linhas de expressão no meio das sobrancelhas, e nos olhos, espanto e dúvida. Ela rapidamente virou a cabeça, deixando de me olhar e ninguém pareceu perceber seu constrangimento.
Deia volta na mesa, e sentei no meio da megera Susan e de minha tira, e consequentemente á frente de Renesmee. Ela mantinha a cabeça baixa, e quando solicitada respondia, mas não olhou novamente para mim, ou voltou a estampar aquele sorriso de dentes alvos na boca. Só podia ser brincadeira, aquela estúpida me seguir até na minha própria casa. As empregadas trouxeram o jantar, com muita comida e bebida.
Meu pai dizia desde quando eu me lembro por gente, que ele havia sofrido quando criança. Passou fome e sede, quase não tinha casa, e batalhou muito para vencer na vida. Então ele esperava que ninguém sofresse o que ele sofreu, por isso a fartança. A conversa parecia interessante, apenas para eles, é claro. Eu estava entediado, e a atenção estava toda voltada para a ruiva de olhos verdes.
– Eu não sabia que vocês eram colegas, Jacob. – Susan comentou, olhando para mim.
– Vocês quem? – perguntei.
– Você e Renesmee. Claire eu já sabia, é claro. – ela sorriu. Falsa.
– Não somos. – dei de ombros – Ela é apenas alguém que assiste as aulas, porque algum idiota ficou com pena e mexeu os pauzinhos para ela entrar na Universidade.
Claire me olhou com nojo, enquanto minha tia virava o rosto e olhava para meu tio que apenas balançou a cabeça. Renesmee abaixou mais ainda a cabeça, e escondeu as mãos embaixo da mesa. Billy largou a mão de Susan, e juntou as duas diante o rosto como se fosse rezar.
– O idiota que mexeu os pauzinhos, por acaso fui eu Jacob. – aquilo era tudo que eu NÃO precisava. Meu pai ficar do lado da esquisita. – E não se esqueça que você também só está nessa faculdade, porque o idiota aqui mexer alguns milhões de pauzinhos.
– Que se foda isso tudo. – peguei os talhares e já os apontava para meu prato quando meu pai interviu.
– Não antes de rezarmos, Jacob.
– Qual é, vocês nunca fizeram isso!
– Talvez seja, porque você nunca almoça e janta conosco. – Susan olhou-me sugestivamente e estendeu a mãe esquerda para eu pegar. Larguei os talheres que tintilaram no prato e agarrei sua mão. – Querida, você se importa de fazer os agradecimentos? – ela perguntou para Renesmee, que respondeu com um largo sorriso.
Renesmee fechou os olhos e abaixou de leve a cabeça, segurou firma a mão de Claire e Emily, e começou a falar.
– Querido Deus, agradeço-te pelo esplendoroso jantar que proporcionaste na noite de hoje. Agradeço-te também por ter posto estas maravilhosas pessoas no meu caminho. Sei que com a ajuda deles, minha missão será cumprida com sucesso. Que a felicidade esteja presente no destino de todos eles, — ela fez uma pausa, respirou fundo e soltou o ar — e que Jacob Black encontre o caminho certo. Obrigada meu Senhor.
– Amém. – todos responderam em uníssono. Meu pai olhou com admiração para ela, e aquilo só ajudou a minha raiva aumentar.
Pior do que ser humilhado pelo meu próprio pai, é ter que escutar de uma garota qualquer que eu preciso encontrar o caminho certo. Mas como a fome era maior que a raiva, fingi ter esquecido por alguns momentos as palavras ditas e aproveitei a comida. O jantar transcorreu normalmente, sem mais nenhum interrupções desagradáveis da parte de Susan, e de meu pai.
Se Renesmee estava achando que eu precisava encontrar o caminho certo, ela mal sabia que eu não conhecia nenhum caminho, a não ser o errado. E eu estava disposto a fazê-la ver isso.
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