A Conversa

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura.

Ela estava caminhado por entre os diversos corredores lenta e vagarosamente, ela tinha em mente que não deveria fazer isso que deveria no mínimo correr, mas ela era fraca, ridícula no mínimo. Mas pense, ela só no ato de estar se movendo para tal localidade estava indo contra suas crenças, contra seus ideias, basicamente ela estava indo contra tudo o que lhe era certo, tudo que a ajudou a ser que era, ela estava indo contra si mesma.

Difícil não? Era de fato uma batalha que poderia não levar a nada se sua covardia gritasse mais alto, poderia ter um fim trágico se seu objetivo ao caminhar até lá não se concluísse, mas também poderia ter um ótimo final, com tudo resolvido se ela com a coragem, com os seus vinte segundos de coragem insana, revelasse tudo que a muito guardava, que lhe atormentava desde aquele dia...

Oh sim... ele com toda a certeza as marcou como nunca antes. Foi um dia de ira, de remorso e vergonha, de orgulho e preconceito, de insanidades e desrespeitos. Tudo misturado em uma massa homogênea de decepções provenientes de ambas as partes que de deveras nunca esperavam as reações que tiveram.

Em pensar que fora um dia bom, que acabou com uma conversa com mensagens que de inicio possuíam a maior inocência, tão pura quanto a água mais cristalina, tão simples quanto uma flor, tão belo quanto o afeto que ambas possuíam e que a morena esperava fielmente não ter morrido juntamente aos acontecimentos daquele fatídico dia.

Ainda temerosa a mulher andava vagarosamente, se fosse por ela isso nunca estaria acontecendo. De fato o auxilio de sua melhor amiga dera a ela forças para continua, fora tempo de mais com isso tudo e ela não permitiria que algo assim acontecesse novamente. Não, nunca mais...

Um pé na frente do outro, direita e esquerda sendo repetidas conforme o trocar de passos, e isso só a aproximava mais de seu destino, sim ela era fraca. Temia o que viria a acontecer, oh sim... quem nunca ficou na dúvida quanto a algo? Este ou o outro, aquele ou aquilo, vermelho ou azul, branco ou preto. Somos feitos de escolhas, mesmo que as mais covardes, mas somos feitos de nossas escolhas sendo as melhores ou as piores, as consequências sempre vem. Sempre...

Finalmente, ou talvez não para ela, se encontrava em frente a porta de mogno muito bonita. Travando a batalha que durante todo o caminho veio sendo travada, sem nunca entrar em um consenso. Uma batalha interna, com certeza as piores batalhas são as que criamos, entre o "certo" e o "errado" entre o arrumar e o largar, entre bater ou simplesmente se virar e nunca mais tocar no assunto como uma covarde, o que não era muito longe do que a mulher realmente era...

'Bata!' seu subconsciente ordenava.

'Não! Vá embora!' respondia a razão.

'Não seja por toda a vida uma covarde! Bata!' gritava

'Não está sendo, vá embora é o certo! Você está certa, se quiser ela que venha atrás de você!' gritava agora o orgulho.

Essa guerra a fez ficar parada, lufadas fortes de ar quente saiam de sua boca devido a respiração irregular. Paralisada, essa seria a melhor palavra para definir a atual situação da mulher. A guerra sendo travada, seu inconsciente berrando a plenos pulmões que deveria lutar por ela, que deveria pelo menos uma vez tentar e não deixar que mais um se vá de sua vida por uma bobagem. Enquanto o orgulho e a razão lhe retrucavam coisas absurdas, que ela estava certa e que deveria regressar e que se realmente fossem para ambas se acertarem que fosse então por parte dela o primeiro passo.

Ela reconsiderou, realmente reconsiderou o que a levou até ali, se não foi uma tosca viagem sem necessidade e sem motivos. Virou-se para ir embora, estava voltando para casa quando a ultima coisa que sua amiga lhe disse veio-lhe a mente "Tenho certeza que quando chegar vai querer voltar, mas em vez disso reúna a coragem que a levou até aquele local e então bata na porta. Eu sei que você consegue, eu acredito" sorrindo a loira lhe deu um beijo na testa e de leve a empurrou estimulando-a a começar sua caminhada.

Novamente de frente a porta, punho cerrado e expressão indecifrável a morena levou sua mão esquerda até a porta de mogno e bateu três vezes.

Toc, Toc, Toc...

Então ela aguardou... Esperou bons minutos e nem mesmo sequer uma voz ou movimentação foi ouvida, com as esperanças jogadas ao vento a morena desolada pela perca de seu tempo e logo em seguida coragem se vira para ir, passos desanimados, lentamente sendo arrastados pelo corpo que agora pesa mil vezes mais. Como se a desilusão sentasse em seus ombros e lhe fizesse de escrava.

Quase ao fim do corredor a porta se abre... um ranger característico desta porta, a mulher então para. Seria ela? Ou outro alguém? Ainda parada sem nem mesmo se virar a voz melodiosa é escutada.

—Quem está ai? — sim, com toda a certeza é ela.

A morena então se vira e decidida volta dando pesados passos corredor a dentro. A mulher se assusta, levando em conta o que aconteceu nunca esperaria a sua presença novamente em naquele lugar se não por pedido dela, assim como acontecera nas demais vezes. Assim como ela sempre esperaria acontecer.

—O-o que você faz aqui? — perguntou ainda um pouco perplexa com a pessoa a sua frente. De olhos arregalados e mão na boca deu um passo para trás.

Passo este que foi acompanhado pela morena dando um a frente, e depois outro e outro e mais um... Enfim, elas agora se encontravam dentro do lugar que as marcou tanto e que a morena jurou nunca mais por os pés durante seu período de vida.

—Sabe que devemos conversar não? — Perguntou a morena para mulher ainda perplexa.

—Luh... deixe, isso é passado. Esqueça.

—Eu tentei, acredite eu tentei, e como tentei, mas não posso – responde a mulher passando as mão diversas vezes pelos cabelos longos, claro sinal de nervosismo.

—Eu consegui Luna, ao menos tente!

—Juh não consigo... eu... — suspirou a mulher passando a mão pelos cabelos.

—Eu estava tentando lhe proteger! Entenda isso! Por favor... — suplica.

—Júlia... é muito mais difícil do que imagina. De tudo o que eu esperei vindo de você com toda a certeza essa seria a última coisa na minha lista. Isso se entrasse realmente na lista.

—Luna eu não fiz por mal! — Falou agora desesperada a mulher.

—Sim eu sei, tenho isso em mente, por isso que vim até aqui – responde ponderando – poderia se sentar? Tenho muito o que lhe falar, e por favor, não me interrompa – Júlia se sentou e aguardou a mulher a sua frente pronunciar-se.

Passando novamente as mãos pelos cabelos e suspirando a procura de forças, não poderia simplesmente correr, mesmo que isso seja exatamente o que a mulher deseja neste momento.

—Juh, eu não lhe pedi para me contar tudo sobre a sua vida, até por que eu sei que de algumas coisas não tenho nada a ver. Mas o mínimo que lhe pedi foi ser sincera, das milhares de conversas que tivemos eu só lhe pedia isso. Que não me privasse de seus sentimentos mais profundos, mesmo que isso me machucasse, mas estando com você eu poderia vencer qualquer coisa.

—Eu sei! Perdão Luh! Perdão — responde a mulher já chorando.

—Mas você o fez, escondeu de mim o fato mais crucial para a minha pessoa. Escondeu que o homem que a criou, seu pai! Sente repulsa por mim, nojo eu diria, mesmo sem nunca ter trocado sequer uma única palavra comigo. Tudo pelas palavras de afeto que partiam de mim para você. Escondeu que esse homem julgou a simples possibilidade de que eu goste de mulheres e que poderia a "influenciar" para esse meio. E você de quem eu esperei uma misera palavra para minha proteção, de nada veio. Você Julia só concordou com as hipóteses preconceituosas de seu progenitor – continuou ignorando o fato de que fora interrompida – isso me magoou, mesmo que seu objetivo seria apenas me privar deste sentimento.

—Eu não queria lhe ver sofrer! Eu juro! — afirma a mulher ainda em prantos.

—Só que mesmo me conhecendo esqueceu do simples fato de que a opinião de um qualquer de nada vale a mim, nada! Porém não vim aqui para iniciar uma nova briga.

—Não?

—Não. De fato acreditei que seria recebida com um tapa em minha face, este qual não seria errado e eu não ficaria brava. Eu mereço, sim mereço, muito mais que um tapa, mereço seu ódio, sua amargura, seus ataques de fúria, tudo o que lhe possa fazer extravasar a tensão que seu pequeno corpo armazena desde que cheguei aqui.

A mulher sentada não se moveu, não reconhecia a mulher a sua frente, não era a amiga que perdera por uma futilidade que poderia ter sido evitada oh sim, se ela tivesse contado nada disso estaria acontecendo.

—Não vou revidar se quiser me bater por que eu quebrei a única promessa que lhe fiz, eu me afastei como uma covarde, corri como o diabo corre da cruz e fui grossa e mal educada com você. Então se quiser me agredir vá em frente. Tens caminho livre – Luna finalizou abrindo os braços e pernas se oferecendo como alvo.

A mulher se levantou, limpou as mãos nas calças e ergueu a direita para lhe deferir um forte tapa no rosto. Luna prevendo isso fechou os olhos, e aguardou o tapa, mas este nunca veio. Então vagarosamente ela abriu os olhos e encontrou Júlia com a mão ainda no ar, quando seus olhos se encontraram e a conexão foi feita a mulher de cabelos ruivos abaixou o punho e se jogou por cima do corpo de Luna. A maior segurou-a pelas coxas e lhe deu o apoio para que esta entrelaçasse as pernas em sua cintura.

Júlia chorava, tão forte que chegava a soluçar. Luna sem chão, inconscientemente começou uma suave caricia em seus cabelos longos e sedosos, os mais belos que vira em anos. A mulher então pulou do colo de Luna e com os olhos ainda úmidos pelos frequente choro começou uma sequência de socos que não causavam dano algum.

—VOCÊ PROMETEU! PROMETEU QUE NÃO SE AFASTARIA! JUROU QUE ESTARIA COMIGO SEMPRE! VOCÊ JUROU! — Julia gritava e socava os ombros e peito de Luna que com o que ouviu começou a chorar.

—Perdão meu amor! Perdão, me perdoe! Eu não queria! Foi... foi difícil para mim! Os dias não tinham mais cor e a razão para que eu fosse feliz me odiava!

—Eu nunca te odiei sua idiota! Eu te amo! Muito! Eu me culpava por tudo e imaginava que você me odiasse!

—Ódio eu nunca senti, desapontamento sim. Este que com apenas alguns dias foi substituído por saudade, eu te amo Julia! Você sua chata – falou apertando levemente o nariz da menor que o enrugou rindo por entre as lágrimas — é a minha razão de acordar e a ultima em quem eu penso ao dormir. EU TE AMO!!

As duas riram, era um amor lindo. Não romântico ou sexual, contudo também não tratava de um amor fraterno. Não sabiam o que era na época, mas não é isso que importa

Temos que lembrar que ninguém é perfeito e nisso se agarra o amor, ele não vê perfeição, mas ele ama as imperfeições uma a uma e sabe lidar com elas como se fossem suas.

As mulheres esbanjavam felicidade, a maior beijou carinhosamente a testa da menor que sorriu cansada. Foi um dia difícil e essas últimas horas foram as mais tensas de suas vidas, aos poucos o cansaço as vencia e ambas dormiram sorrindo uma nos braços da outra, finalmente estavam juntas e só então felizes e a quem diga completas...

DEFINIÇÕES
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.


Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta
um capítulo.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente mas, geralmente, não podia.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.
Não... Amor é um exagero... também não.
Um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tenha explicação,
Esse negócio de amor, não sei explicar.

Adriana Falcão

Notas finais
Yeah, é isso...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!