A Conturbada Vida de Samantha
1 CAPÍTULO I
EM MEU PESADELO, eu corro sobre um solo cheio de pedregulhos afiados que furam meus pés, deixando-os em carne viva. Quanto mais eu corro, mais a estrada pedrosa fica extensa, mais minhas pernas doem e meus pulmões ficam mais perto de explodir. Os pedregulhos começam, então, a se juntar, a se fundir, e a tomar formas estranhas. Transformam-se em monstros. E os tais monstros correm atrás de mim.
– Samantha! – eles cospem e sibilam. – Samantha!
Os monstros sabem meu nome. Os monstros gritam meu nome de tal forma que faz com que os pelos da minha nuca se ericem.
Se é que posso chamá-los de monstros. Porque, na minha concepção, monstros são apenas os medos de uma criança assustada, os medos embolados e misturados. Dessa mistura forma-se uma massa, que mais tarde formará o monstro. Cada criança tem seu próprio medo e, consequentemente, seu próprio monstro aterrorizante que a persegue em seus sonhos. Eu não sou mais criança, então não posso chamar as formas que me perseguem nos meus pesadelos de monstros. Acho que a palavra certa é criatura. Porque eles não têm uma forma exata. Eles se transformam a cada ação minha. Se eu corro mais, tentando escapar do domo mortal que eles me impõem, eles criam pernas extras, que fazem com que eles corram mais rápido que eu. Se eu consigo escalar uma parede, lá estão eles esticando o corpo sem esforço algum e parando logo na minha frente. Se eu dou um empurrão neles, eles revidam com mais força ainda, me jogando no chão, fazendo com que eu rale os cotovelos. E se eu grito por ajuda, eles me cercam e gritam mais alto que eu, com uma voz estridente, fazendo com que minha própria voz desapareça em meio à gritaria e fazendo com que minha cabeça exploda de dor. Começo a sentir os arranhões tomando forma em meu rosto e descubro que, além de tudo, os seres que me perseguem possuem garras. Garras que arranham e furam a minha face. E mesmo que tudo seja um sonho, eu sinto a tal dor. A tal dor alucinante e atordoante.
E então tudo para e fica silencioso. A escuridão permanece, mas sozinha. Ela se torna minha amiga. E com ela vem o alívio. O alívio que dura pouco. Porque alguns instantes depois o pesadelo recomeça. Meu desespero e minha correria recomeçam. A dor volta a me moer.
E as criaturas voltam a me perseguir.
* * *
ACORDO DE SOBRESSALTO QUANDO o relógio-despertador toca. Minha mão avança até o criado-mudo, à procura do botão de desligar, para desativar o barulho ensurdecedor que o relógio emite. Depois de desliga-lo, permaneço deitada na cama por um bom tempo antes de tomar coragem para me levantar.
Ainda deitada, eu agradeço, a quem quer que esteja me ouvindo, pelo pesadelo ainda continuar sendo um pesadelo. Já estou tão acostumada com ele que já não me assusta mais. Pelo menos, não como me assustava antes.
Sento-me na cama e observo o travesseiro ensopado de suor. O suor do meu rosto já secou, porém ainda posso sentir minhas costas molhadas debaixo da camisa. Essa foi uma das piores noites no mês inteiro. Os sonhos estão ficando mais frequentes a cada dia que passa. A cada dia que meu décimo sétimo aniversário fica mais perto de acontecer.
Afasto os pensamentos que, com toda certeza, me levarão aos pesadelos novamente. Tenho medo de que tudo aquilo se torne real e as criaturas dos meus pesadelos comecem a me perseguir verdadeiramente. Sei que isso é impossível, mas mesmo assim é bom evitar tais pensamentos. Eu tenho os bloqueado por um bom tempo. Não tenho compartilhado essas experiências noturnas com ninguém, exceto uma pessoa, na qual eu confio muito. Nem para meu pai eu me abri. E pretendo não me abrir. Mesmo que isso signifique continuar tendo os pesadelos toda noite. Mas, mesmo que eu me abrisse para meu pai, ele não poderia fazer nada para me ajudar, poderia? O que um químico maluco faria numa situação dessas? Usar os tubos de ensaio e criar um remédio que faça com que os meus pesadelos desapareçam? Não, meu pai pode ser inteligente e dedicado, mas não tem tanta capacidade para fazer essa proeza. No máximo, o que ele faria seria me levar a um psicólogo. E isso eu sei fazer sozinha, por conta própria, então não preciso contar nada a ele. Meu pai já tem seus próprios problemas, os quais ele passa a maioria do tempo tentando resolver. Não preciso encher mais a cabeça dele com meus probleminhas de sono.
Levanto-me da cama e caminho até o banheiro, descalça. Entro e fecho a porta do banheiro atrás de mim e a tranco. Enquanto me dispo, fito o pequeno espelho que fica preso na parede, um pouco acima da pia. Tudo o que vejo é o rosto de uma garota cansada. Seus olhos verde-oliva, grandes e redondos, são rodeados de olheiras por causa das noites mal dormidas. Os cabelos cor-de-mel da garota que vejo no espelho estão bagunçados e embaraçados, e algumas mechas estão grudadas no rosto devido ao suor da correria dessa noite. Infelizmente caio na real e me lembro de que essa tal garota do espelho sou eu.
Entro debaixo do chuveiro e o ligo. A água quente molhando minha cabeça e escorrendo até meu rosto, o que me conforta e me deixa relaxada.
Mesmo com os bloqueios que eu fiz à minha própria mente, não deixo de pensar em meus pesadelos. Quando foi mesmo que eles começaram? Na verdade, não sei. Acho que eles sempre estiveram lá. Mas eles não vinham com a frequência com que estão vindo nesses dias. Nesses meses, na verdade.
Deixo a água quente molhar meu corpo por inteiro e isso dura um bom tempo. Só depois me ensaboo e lavo os cabelos. Ainda pensando nos pesadelos. Forçando as barreiras psíquicas, que demoraram dias para serem erguidas, a serem demolidas.
“Por que comigo?”, eu me pergunto em minha mente, às vezes. “Por que meus pesadelos são sempre iguais? As pessoas não devem ter sonhos diferentes? E o que significam os meus? Será que eles carregam uma carga de significado? E será que eles têm algo a ver com meu décimo sétimo aniversário? Se tiverem o que será? Por que, por que, por quê?...”.
Depois do banho demorado, vou até meu quarto e seco meu corpo e meus cabelos por completo. Receio que aquelas perguntas que fiz a mim mesma no chuveiro ou nunca serão respondidas ou serão respondidas somente por um profissional que trabalhe na área psíquica.
Visto o sutiã e a calcinha, abro a porta do meu guarda-roupa e paro na frente dele, procurando que roupa vestir. Sinceramente, eu não me preocupo muito nessa parte. Eu não me importo muito com que roupa vestir no dia-a-dia. Nunca fui muito ligada à moda em geral. Então, simplesmente pego a primeira peça de roupa que vejo na frente e visto – uma blusinha branca de mangas compridas e um jeans preto. Afinal, a escola não é um desfile de moda e os corredores de lá não são uma passarela. E quem repararia em mim lá? O que eu mais quero é permanecer invisível nos locais por onde passo e isso tem sido um sucesso. Apenas duas pessoas naquela escola – tirando os professores e a diretora maluca – reparam verdadeiramente em mim e isso já está ótimo. Porque eu acho que a escola é um local bastante passageiro. Um lugar onde você passa muito pouco tempo da vida. Então, não é um lugar onde você deve criar raízes. Essa é minha opinião sobre escola.
Depois de vestir a roupa e calçar os sapatos, pego minha mochila no canto do quarto, ao lado da minha cama, onde eu sempre a deixo guardada. Jogada, na verdade. A organização dos meus itens é mesmo uma questão bem questionável, eu confesso. Mas é assim que eu me sinto em casa de verdade. Esse é meu jeito, não há como mudar.
Arrumo os itens dentro da mochila. Livros, cadernos, bolsinha-de-lápis etc. Coloco a mochila nas costas. Pego o telefone celular em cima da cabeceira da cama e coloco no bolso do meu jeans, junto com os fones de ouvido. Por mais incrível que pareça, eu odeio telefones celulares. Enquanto os jovens da minha idade não largam os seus, eu abomino não só o meu, mas todos os outros existentes na face da terra. Eu só o carrego comigo porque eu descobri uma – e única – coisa boa existente nessa maquininha projetada para o mau. Eu posso usar os fones de ouvido para fugir um pouco do mundo normal. Porque se existe algo que eu aprecio e amo no mundo, esse algo é a boa música. Então, basta eu colocar os fones nos ouvidos e pronto. Tudo em volta desaparece num passe de mágica. Mas nada de telefones celulares. Para eles, somente isso e atender ligações, nada mais.
Saio do meu quarto e ando pelo corredor da casa. Antes de descer a escadaria, passo pelo quarto do meu pai. Acendo a luz do seu quarto e vejo que ele já saiu da cama e, provavelmente, já saiu de casa à uma hora dessas. Sua cama está impecavelmente arrumada. Apago as luzes e desço as escadas. Já estou acostumada com o jeito de meu pai sair de casa sem falar nada. Tem dias em que ele prefere ficar no pequeno porão da nossa casa – que ele transformou em um laboratório como o de um cientista maluco e apelidou-o de “Caverna” – e ficar mexendo em seus tubos de ensaio, fazendo soluções e realizando experimentos químicos. E tem dias – dias como hoje – em que ele prefere sair de casa sem rumo. Andar para não sei aonde. Meu pai é assim mesmo. Louco. Muito louco. Mas eu o amo. Amo-o muito, pois sei o que ele sente. Sinto o que ele sente. Sei que por dentro ele é muito infeliz. Infeliz por causa do que aconteceu quando eu nasci. Infeliz porque minha mãe não suportou a dor do parto. E se foi. E por isso ele é assim. Um homem que, nos dias em que a tristeza aperta vaga sem rumo, à procura de respostas. Respostas que nunca serão achadas.
Antes mesmo de entrar na cozinha, consigo sentir o aroma doce que exala das panquecas e vem brincar com meu olfato. As panquecas de meu pai. Só ele consegue acertar meu paladar. E ele cozinha tão bem para um homem. Pena que não tem tempo para mim...
Entro na cozinha e ando até o forno micro-ondas. Retiro as panquecas de lá e dá para ver que elas ainda estão quentes. Pego um prato no armário e me sirvo fartamente. Abro a geladeira à procura de leite e de um cubo de manteiga, para acompanhar as panquecas. Encho um copo de leite e despejo a manteiga em cima delas. Guardo a caixa de leite na geladeira e fecho a porta. E então, vejo um post-it amarelo grudado na porta da geladeira. É um bilhete escrito pelo meu pai. O reconheci pela letra tosca e pelo termo “Beijocas, papai” no fim do bilhete, que diz:
Sammy,
Espero que goste das panquecas que estão no forno micro-ondas. As fiz especialmente para você. Desculpe por não ficar para o café-da-manhã, mas precisei muito sair. Prometo que nos vemos no almoço.
Beijocas, papai.
Leio o bilhete quase como se lê uma reza. Como eu disse, já estou acostumada com a forma que meu pai sai de casa. E já estou acostumada também com o bilhete. É como se meu pai tivesse simplesmente copiado os outros que ele deixa no mesmo lugar. Eu poderia fazer uma coleção deles, porque são todos exatamente iguais. Mesmas palavras. Mesma letra tosca e uniforme. A única pista que me convence de que ele não usa sempre o mesmo bilhete para me informar é a cor do post-it. Um dia amarelo, outro dia azul, outro dia verde, e assim ele vai alternando as cores dos post-its, num completo arco-íris de papel.
Arranco o bilhete da porta da geladeira e o amasso. Sento-me à mesinha de madeira da cozinha e devoro as panquecas, usando o leite para empurrá-las para dentro. Enquanto como, tiro o celular do bolso do jeans, aperto uma tecla dele e vejo as horas pelo visor. Ainda estou com tempo. Vejo também que alguém me enviou uma mensagem enquanto eu tomava banho. A mensagem é de Henry, meu estranho, mas fiel amigo. Ela diz o seguinte:
Sam, bom dia. Ontem à noite eu conversei com a Mary Ann por telefone e ela disse que está de pé nossa ida ao cinema hoje à noite, para comemorarmos a chegada das férias de verão. Mas, como você sabe, ela quer que a gente assista a um filme romântico. Eu não ligo muito pra isso, o que importa é que vamos estar todos juntos. Nós vamos combinar o local e o horário na escola mesmo, então não falte à aula hoje, pelo amor de Deus!
Beijos de esquimó, Henry.
Lembro-me de que eles estavam falando nisso há um bom tempo. Eles estavam bem ansiosos por esse dia. Eu realmente havia me esquecido disso, como um exemplo de amiga que sou. Agradeço silenciosamente a Henry por ter me lembrado disso, assim posso pelo menos fingir que estava atenta ao dia em que o nosso tal encontro iria acontecer.
Não respondo a mensagem de Henry, porque não acho isso necessário. E porque também estou sem créditos e seria um completo vexame ter de passar mensagens a cobrar a meu amigo. Mas acho que mesmo se eu mandasse uma mensagem a cobrar para Henry, tenho certeza de que ele a aceitaria sem nem fazer uma cara feia. Henry age de uma forma estranha quando o assunto sou eu. Quando é para fazer algo para mim, ele age de uma forma quase que mandado, forçado, obrigado. E às vezes eu me sinto mal por isso. Por ele ser assim, tão atencioso e cabeça-oca. Como uma pessoa que faria tudo por mim, inclusive pular na frente de uma bala se me atirassem uma.
Depois que termino de comer, levo o prato e o copo até a pia e os lavo rapidamente. Subo as escadas correndo, escovo os dentes e desço novamente. Pego a mochila e saio pela porta da frente, a porta da sala de estar. Não me esqueço de trancá-la, para nossa segurança, como meu pai diz. Então me ponho a andar pelo meio-fio. Sim, eu vou a pé à escola. E me sinto muito bem assim. A escola na qual eu estudo nem é tão longe assim e, além do mais, andando eu posso pensar melhor. Andando eu coloco os pensamentos, cada qual, em seu devido lugar. É andando que crio as barreiras.
Em poucos minutos já estou no centro da cidade onde moro. Eu moro, na verdade, na divisa da cidade com o outro estado. Minha casa fica situada no meio de um verdadeiro matagal, falando pelo grosso modo. Mas, mesmo sendo assim, não é tão difícil chegar ao centro da cidade. Só alguns minutos caminhando – partindo da minha casa – e lá está o centro de conveniência da cidade de Campshire, a menor cidade do mundo. E menos visitada também. Porque, cá entre nós, ninguém iria querer visitar uma cidadela que nem no mapa aparece direito e que não é nem um pouco atraente também. Acho que os únicos visitantes que nossa cidadezinha recebe são os familiares de pessoas que moram aqui. Na verdade, esses tais familiares aparecem uma única vez ao ano, que é o Natal. Só que eu não posso dizer como é receber familiares em casa, porque eu não tenho nenhum. Nem avôs e avós, nem tios e tias, nem primos e primas. Ninguém. Somente meu pai, que é a única pessoa que tenho no mundo. E ele disse o mesmo a mim uma vez, quando eu era menor, com uns onze ou doze anos de idade. Disse que eu sou a única pessoa que ele tem. E então eu perguntei onde estava o resto da nossa família.
– Pai, por que ninguém da nossa família não vem nos visitar na Páscoa ou no Natal, como nas casas dos meus colegas de classe?
Ele respirou fundo. Fixou o olhar no chão, como se estivesse visualizando a cena mais marcante de sua vida e a mais triste também. Os olhos tristes e cheios de lágrimas, e por um momento pensei que ele fosse desabar em um pranto profundo. Mas ele limpou os olhos com força – quase que com raiva. Sua expressão ficou sombria e com o olhar ainda fixado no além, ele simplesmente disse ríspido:
– Sammy, nós não temos controle sobre o que vai ou não acontecer conosco. Nós não sabemos quais serão as consequências por nossos atos e, uma vez que fazemos o errado, ele permanece, anos-luz depois, pesando sua consciência. – Ele respira fundo mais uma vez e hesita antes de continuar. Como se ele quisesse contar algo a mim, mas pensou melhor. Então ele simplesmente solta: – Sammy, minha filhinha, prometa ao papai que nós nunca mais iremos tocar nesse assunto, ok? – ele disse, dando o assunto como encerrado.
– Tudo bem, papai. Eu prometo – respondi com uma voz vaga. Então ele veio, acariciou meus cabelos e saiu não me lembro para onde. E lá estava eu, uma menininha de doze anos, sem entender o porquê daquilo tudo, daquela cena toda. E ele agiu dali em diante como se aquele assunto nunca houvesse sido tocado. E eu mesma nunca toquei nele depois daquele dia, mesmo ficando instigada a saber o que meu pai escondia de mim. Pois sei que ele esconde algo de mim até hoje. Um segredo que não tive coragem o suficiente para perguntar qual é. Mas às vezes eu penso bem e digo a mim mesma que não vale a pena tentar descobrir o que ele esconde. Porque, se os tais assuntos trazem más lembranças a ele, eu não quero mencioná-los para não fazer com que meu pai fique mais infeliz do que já é, se é que tem como isso acontecer.
Avisto a grande edificação que eu chamo de escola ao longe. Pelo jeito, fiquei perdida em minhas lembranças e não percebi que já estava tão perto dela. Ando mais um pouco e já posso avistar também alguns alunos e professores entrando pelo grande portão enferrujado. Dou mais alguns passos e eu mesma já estou entrando pelo grande portão. E antes mesmo de eu dar mais um passo para dentro da escola, eles já se materializaram a minha frente. Com um sorriso amarelo, Henry me abraça, dizendo bom-dia. E Mary Ann... Bom, ela diz bom-dia também, só que de outra forma:
– Por que você não se maquiou, criatura? Hoje é o último dia de aula e você nem se arrumou para a ocasião? – implica ela, com sua voz delicadamente aguda. Olho para a roupa que ela veste: um vestidinho rosa rendado. Seu rosto está impecavelmente maquiado, e não posso deixar de dizer que tenho uma amiga linda.
– Bom-dia para você também, Mary Ann – respondo irônica.
– Nada de bom-dia! – ela dá um gritinho agudo. – Ainda bem que eu trouxe maquiagem reserva na bolsa. Anda logo, venha comigo, ainda dá tempo de te maquiar para este grande dia!
– E quem foi que disse que essa é uma ocasião especial, Mary Ann? – pergunto com indiferença. – É só o fim das aulas, não a entrega do Oscar! E, além do mais, você sabe que eu odeio pintar meu rosto!
Ela arfa e eu simplesmente reviro os olhos. Às vezes, Mary Ann pega um pouco pesado com essas coisas de maquiagem e moda, e ela quer que eu também entre nessa onda. Só que eu acho que isso tudo é uma grande perda de tempo. Já ela não. E eu ainda me pergunto, rindo mentalmente, como foi que eu virei amiga dessa garota...
Subimos a escadaria da escola e caminhamos para a sala de aula. A manhã, então, ocorre normalmente. Professores entram, dão a matéria final, se despedem da turma e saem. Recreio. Mais aulas. E então, no finalzinho do horário letivo, a diretora Cressida Kane – a velha maluca de cabelos vermelhos que parecem estar em chamas – reúne todos os alunos no auditório da escola para dar a palavra final que todos esperam: “Boas férias de verão a todos e até o próximo ano”. Mary Ann, Henry e eu nos sentamos no fundo do auditório. E então, depois de todos os outros alunos se acomodarem, a diretora começa seu discurso. Agradece-nos pelo ano maravilhoso, diz que o próximo ano será igualmente maravilhoso ou até melhor e assim por diante. Um blábláblá sem fim. Ela continua seu típico discurso, que parece nunca acabar fazendo com que hora de ela dizer sua típica frase final que encerra com tudo isso se arraste para longe de nós. Quando estou quase perdendo as esperanças, quase dormindo na minha cadeira, ouço alguém sussurrar meu nome.
– Samantha.
Olho para trás, procurando a pessoa que fala meu nome, mas não vejo ninguém que demonstre estar me chamando. Ouço o sussurro gutural novamente. – Samantha. Os pelos da minha nuca se eriçam. É como se alguém estivesse bem do meu lado, sibilando debaixo da minha orelha. Procuro nos cantos do auditório. Não vejo ninguém. Mary Ann se vira e olha para mim e pergunta:
– O que foi? O que está procurando?
– Eu ouvi alguém falar meu nome e pensei que estavam me chamando... – eu digo, dando uma última olhada em volta. – Mas acho que é coisa da minha cabeça, deixa pra lá – eu digo, tentando tirar aquela voz medonha da cabeça.
Ela fecha os olhos por uns segundos e depois os abre. Ela olha para Henry em seguida, e eles se entreolham assustados, como se estivessem compartilhando os mesmos pensamentos. Por um momento penso que Henry sussurra um “Você acha mesmo?” a ela, mas não sei se ele sussurrou verdadeiramente ou se foi só uma impressão, porque a voz da diretora Cressida no microfone está ficando cada vez mais alta e os alunos conversam muito, cada vez mais impacientes. Então os dois se levantam e me pegam pelo braço, carregando-me para a saída do auditório.
– O que foi? Onde estamos indo? – eu pergunto, tentando puxar meu braço que está agarrado nas mãos deles. – A diretora não terminou o seu discurso!
– Acho que você não vai querer ouvir o que ela tem a dizer, Sam – diz Henry ainda agarrado ao meu braço.
Antes de eles conseguirem me arrastar para porta de saída, o vice-diretor, Sr. Reptile, se materializa e para na nossa frente, com um sorriso monstruosamente medonho exposto na face. Henry e Mary Ann ficam parados como estátuas na frente dele, com os olhos arregalados, como se tivessem visto um fantasma. Ele põe medo, mas não tanto ao ponto de você congelar de desespero ao vê-lo. Mas era assim que Henry e Mary Ann estavam.
– Aonde é que as crianças estão pensando em ir, hã? – ele indaga, com uma voz mais rouca e gutural do que o normal, barrando a saída. Mas antes que Mary Ann e Henry pudessem inventar uma mentira bem convincente, ele dispara: – A saída não é permitida enquanto a diretora Cressida – ele tremeu e fez uma careta ao pronunciar o nome dela – não terminar o discurso. A não ser que seja um caso de morte. – Ele deu um risinho rouco e maléfico. – Algum de vocês está morrendo?
E, enquanto Henry e Mary Ann se preparavam para falar, o Sr. Reptile olhou para mim, encarando-me, como se só naquele momento ele tivesse se dado conta de que eu estava ali também. Então ele cortou a fala de Henry e Mary Ann antes mesmo de eles conseguirem pronunciar a primeira palavra.
– Olhe quem está aqui! Veja se não é a senhorita... Samantha – ele diz, com sua voz sibilante. E no momento em que ele pronuncia meu nome é como se no chão tivesse sido aberta uma enorme cratera e ela estivesse me sugando para dentro dela mesma. É como se milhões de espíritos estivessem me dançando em cima de mim, entrando e saindo – atravessando – meu corpo e me abraçando, porque me arrepio por completo, todos os pelos do meu corpo ficam em pé, do alto da minha cabeça até a ponta dos dedos dos pés.
Aquela é a voz. A voz que aterroriza os meus sonhos. A voz dos meus pesadelos. A voz que me chama para a morte. A voz que me chamou no auditório. Então a voz é dele, afinal...
– Sim? – eu digo, com a voz embargada. E acho que ele nota que empalideci de repente, porque ele sorri. Sim, ele dá um sorriso quase que mortífero. E ele continua falando, sem tirar os olhos insanos de mim, como o predador faz com a presa.
– Ah, sim. É você mesmo. – Sua voz fica cada vez mais grave e rouca, como se ele estivesse fazendo gargarejo com pregos. – Samantha Jones, filha de Brunner Jones, o famoso cientista de Campshire! Eu reconheceria estes olhos em qualquer lugar. Você tem os olhos da sua mãe, sabia? – ele diz, como um tom estranho. Como se o predador estivesse brincando com sua presa. Brincando não, atiçando.
– O quê? Você conhecia minha mãe? – eu quis saber. – O que você sabe sobre ela? – eu estava levantando a voz cada vez mais. Henry, então, coloca uma mão em meu ombro e diz calmo, intervindo:
– Sam, pare! É melhor nós sentarmos...
– Sou eu quem dá as ordens aqui, garoto! – cacareja Sr. Reptile. – Agora venha comigo, senhorita Jones. Conversaremos melhor na minha sala. – Ele se volta para Henry e Mary Ann, que ainda estão agarrados a meus braços, só que agora como se estivessem me protegendo. – E, agora, vocês dois, já para seus assentos. A diretora ainda não terminou, lembram-se disso? – ele diz, arqueando uma sobrancelha. Henry e Mary Ann olham para mim atônitos, e depois um para o outro, com os olhos cheios de desespero. Mas não fazem nada. Não podem fazer nada. Se fizessem algo, seriam expulsos por não acatar as ordens vindas do vice-diretor. Eles, então, apenas caminham para seus assentos. E, antes mesmo que eu pudesse protestar o vice-diretor, Sr. Reptile, agarra meu braço com tanta força que pensei que iria arrancá-lo de meu corpo a qualquer momento. E então, ele sai do auditório, me arrastando pelo corredor da escola, levando-me em direção a sua saleta, que se localiza bem no fim do tal corredor. A voz da diretora e dos alunos fica cada vez mais distante e eu me pergunto o quê o Sr. Reptile quer tanto falar a mim. O que eu fiz de errado, afinal?
Chegamos ao fim do corredor e ele abre a porta de sua saleta com um soco. Ele me empurra para dentro dela.
– Ssss... Ss... Sente-se aqui – diz ele com dificuldade, batendo a porta bem forte atrás de si e apontando para uma cadeira em frente à sua mesa. Mas uma coisa inusitada eu noto. Sua voz está estranha. Não me lembro do vice-diretor ser gago. Sua voz está como uma voz soprada, sibilante... Como a voz de um...
– Ss... Senhorita Jones, não quer um copo d’água? – ele pergunta, sua a voz ainda estranha.
– Não, obrigada – digo, apenas. – Por que foi que o senhor me chamou aqui, Sr. Reptile? – pergunto, para acabar com aquilo de uma vez. Ouço vozes e passos vindos pelo corredor e percebo que a diretora já disse sua típica frase final. Os alunos já foram liberados. E eu estou aqui.
O vice-diretor Reptile permanece de pé e fica andando de um lado para o outro da sala, como se estivesse impaciente. Ele então para de andar, se vira para mim e fixa seu olhar no meu. Suas pupilas estão extremamente dilatadas.
– Sssenhorita Jones, irei direto ao assssunto. – Ele diz, com a dificuldade de falar eminente. A voz rouca dele começa a desaparecer e a dar lugar a um ruído grave. Minhas mãos se prendem no encosto da cadeira. Sei que algo vai acontecer.
– Dê-me logo o Colar do Poder de sssua família! – ele berra com os dentes cerrados. – Sei que ele essstá com você, então me dê ele agora e nada de ruim vai acontecer a você!
De todas as coisas que já ouvi no mundo, essa é uma das mais esquisitas e desconhecidas. Colar do Poder? Do que esse homem está falando? E o que ele quis dizer com “da sua família”, se nem família eu tenho?
– Eu não sei do que você está falando – digo, arredando minha cadeira para trás. Ele, então, arregala os olhos.
– Ah, então você não sabe? Ha-ha – ele ri, emitindo o som gutural e horrendo dos meus pesadelos. E então algo mais estranho ainda acontece. Nunca vi algo assim em toda minha vida. Arredo tanto minha cadeira para trás que ela chega a encostar-se à parede. Tapo a boca para não gritar enquanto o vice-diretor Reptile começa a tremer e a babar, a ficar esquizofrênico. A emitir sons, ruídos e gemidos demoníacos, como se estivesse sendo possuído por algo – talvez por ele mesmo. Ele se deita no chão e em seguida se levando, contorcendo-se. Deita-se em sua mesa, jogando toda a papelada, os lápis e as canetas aos ares. Ele começa a falar algo que não entendo a princípio. O que ele diz – ou geme, na verdade – está em outra língua, tenho certeza. E não é uma língua comum, não uma língua em que fale nos dias atuais. Parece ser uma língua antiga. E entrar em contato com ela faz com que eu ganhe anos de idade em segundos. Levanto-me devagar para abrir a porta, para tentar fugir daquela cena medonha, mas o Sr. Reptile agarra meus braços. Unhas enormes começam a crescer no lugar das suas unhas normais.
Garras de monstro.
Suas garras começam a furar minha blusa e a arranhar a minha pele, fazendo o meu sangue escorrer e manchar minha blusa branca. Ele começa, então, a se transformar. Depois de as garras crescerem, a pele de seu corpo começa a se descolar. Como se ele estivesse trocando de pele.
Como um réptil.
Só então eu caio na real. Réptil... Reptile... Tudo faz sentido. Não, nada faz sentido. Como um homem pode ser transformar em réptil? Isso não é normal!
Observo sua pele humana antiga cair no chão aos montes, dando lugar a uma pele esverdeada escamosa. Seus cabelos caem, dando lugar a uma cabeça igualmente escamosa, mas com uma crista reptiliana no meio. Suas roupas, então, começam a entrar em combustão, e então desaparecem em cinzas, revelando uma cauda enorme, também escamosa e verde.
Enquanto ele me segura, tento me debater, mas ele me agarra com mais força. Tento gritar, mas ele tampa minha boca. Ele me encosta – sem nenhum carinho ou cuidado – na parede e chega seu rosto bem perto do meu, quase se encostando a mim. Ele mostra sua língua bifurcada para mim, lambe os lábios e avança com ela. Em seguida ele lambe minhas bochechas, deixando sua saliva no local, o que faz com que meu rosto fique completamente dormente. Ele dá sua risada gutural e posso ver os seus dentes pontudos e grotescos como os de um tubarão. Então ele diz algo na sua língua estranha, soltando seu hálito pútrido em minha cara, fazendo com que minhas narinas queimem por causa do fedor que sai de sua boca. Fazendo com que eu não consiga mais respirar.
– Ralloc Rewop eht em evig, wicca! – rosna ele, cuspindo mais em meu rosto, fazendo-o ficar mais dormente do que já está.
Por um segundo, as palavras que ele emite não fazem nenhum sentido para mim. Mas depois de mais dois segundos, meu cérebro faz uma rápida tradução da frase. Não entendo como meu cérebro conseguiu, mas o fez. Era como se eu tivesse convivido com esse idioma dentro de mim por toda a minha vida, e só precisava de um ser sedento de “Colares do Poder” para despertá-lo.
E o que o vice-diretor/demônio diz é: “Dê-me o Colar do Poder, wicca!”
Eu minto, fazendo uma cara de que não estou entendo o que ele diz. E isso parece irritá-lo, porque ele rosna, levanta a mão e arranha meu rosto. O corte arde, como se nas garras dele tivesse algum tipo de veneno. Fico tonta por causa da dor. Então ele levanta a mão novamente. Acho que dessa vez ele irá completar o serviço, já que eu não servi para nada. Mas ele para, como se estivesse ouvindo algo. Eu também ouço. São passos vindos do corredor. A pessoa não caminha, ela corre, na verdade. O monstro/vice-diretor, então, pigarreia e cospe um catarro verde em meu rosto. O catarro escorre. Minha visão começa a ficar turva. Minhas pernas começam a ficar moles. O maldito catarro verde está me fazendo a, aos poucos, perder a força, levando-me a desmaiar.
E então eu desabo no chão, a visão ainda captando o mundo em volta, mas os membros adormecidos.
E as coisas que se seguem depois de meu não completo desmaio me deixam mais confusa do que já estou. Primeiro, o monstro/vice-diretor me ergue e coloca sobre seus ombros. Em seguida, a porta se abre de supetão, mas não vejo quem está entrando por ela. A pessoa que entrou pronuncia uma palavra, que não está nem em um idioma que eu conheça, nem no idioma novo que descobri que conheço.
– Nezorf! – a pessoa grita dirigindo a voz feminina e levemente estridente a Reptile, que dá uma leve tremida e para de repente, como se fosse uma estátua de pedra. Em seguida a voz feminina pronuncia novamente:
– Reverof edih! – E então, ouço o barulho de algo se quebrando debaixo de mim. Na verdade, o próprio Reptile estava “se quebrando” debaixo de mim. Depois disso, me sinto como se estivesse no ar, como se a um segundo atrás Reptile estivesse ali e agora não estivesse mais. E ele não está, porque nada mais me segura, não sinto mais o atrito da minha pele com sua pele reptiliana.
Despenco, batendo a cabeça no chão com tanta força que parece que todos os miolos do meu cérebro foram esmagados com a queda. E a última cena que vejo antes de cair num sono profundo é a que me faz ficar mais aturdida e desentendida do que já estou. Enquanto meus olhos se fecham, vejo a mulher de cabelos tão vermelhos que parecem estar em chamas olhando em volta da sala do Sr. Reptile, a sala destruída por causa do que houve. A diretora se abaixa, chega perto de mim e pronuncia uma última palavra em meus ouvidos:
– Tser.
E então tudo se apaga.
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