A Contenda Divina
26 Uma floresta de perigos
Shura acorda sobressaltado na floresta.
O silêncio o salda e seu coração aperta, estava feliz pelo simples motivo de acordar, mas as duas companheiras poderiam estar precisando de ajuda. Shura se esforça para se levantar, mas mesmo sem o peso do seu adversário a essa altura transformado em memória junto a suas armas, seu corpo não o obedece de imediato. Prestando um pouco mais de atenção, ele sente o pequeno emanar de poderes vindo de onde Mariah e Eyria estavam, o sentimento denso em seu peito que já se acostumara a sentir perto da semideusa continuara, ele não estava morto, então Mariah também deveria estar ao menos viva e mais importante, a sensação de tensão que Huo transmitia assim que apareceu desaparecera por completo.
— Elas venceram... – balbucia o homem virando o rosto para onde ele tinha vindo havia pouco.
Com um esforço um pouco maior e o auxílio de um tronco ainda arranhado pela batalha, Shura consegue se levantar com alguma dificuldade, caminhando a passos vacilantes na direção de suas amigas, desviando de galhos e arbustos que obstruíam seu caminho.
Como se estivesse em uma caverna, a claridade da clareira faz os olhos de Shura se semicerrarem enquanto ele se aproxima e só então ele percebera o quão densa a floresta ficava apenas a alguns metros de distância. Com uma mão sobre os olhos e a outra apoiada em um caule grosso e de cascas eriçadas, Shura observa a clareira ainda em tempo de ver as duas mulheres. Mariah estava sentada meio de lado com uma das pernas sobre a outra e apoiada nas mãos, seus cabelos jogados sobre o rosto balançavam enquanto ela respirava fundo e seu tronco subia e descia, suas roupas também estavam mais puídas do que se lembrava.
Logo a frente dela, a alguns metros, Eyria se inclinava para frente sobre um dos joelhos, apoiando o antebraço no outro. O gato tremulava em uma cor escura que Shura nunca vira em sua máscara e suas roupas estavam, da mesma maneira que Mariah, sujas e puídas. Ele não sabia pelo que elas tinham passado, mas tinha sido difícil.
— Vocês duas estão bem? – Fala o homem, dando um passo para frente e tentando disfarçar um desequilíbrio quando seus músculos quase falham.
— Shura! – Chama Mariah, olhando em sua direção com um meio sorriso cansado no rosto, ele só agora percebera que seu nariz estava roxo e sujo e seu braço tinha uma atadura. Mas a alegria no olhar da garota esmaece quando ela vê o estado do semideus – você está bem?
— Eu estou, o que houve com o seu...
— Mas o que diabos aconteceu com você? – Atalha Eyria, se levantando – A última vez que eu vi você estava apagado.
— É bom ver que você está bem também. – Ele responde, olhando para a semideusa com desdém – E para sua informação, alguém tinha que cuidar das duas enquanto estavam naquela ilusão.
Eyria parece empalidecer por debaixo da máscara, enquanto Mariah se coloca de pé com alguma dificuldade.
— Outro? – Ela pergunta. Shura, sério, assente devagar, enquanto percebe que a lança de Ah-Kum Huo ainda estava no chão.
— E ela?
— Eu... – Eyria repensa, olhando para Mariah – Nós, conseguimos derrubar ela.
— Nós? – Rebate o homem, enquanto seus olhos viajam da arma no chão, ao caco da adaga, para Mariah e depois para em Eyria.
— Sim, ela me ajudou, na verdade, foi ela que matou Huo, eu só dei um empurrãozinho.
Os olhos do homem pareciam querer sair da máscara de espanto.
— Ela, matou uma semideusa? – Shura agora olhava para Mariah, entre incrédulo e raivoso.
— Foi o que eu disse, não foi?
— Eu ouvi o que disse – responde o homem, agora olhando para ela – mas isso é...
— Impossível? – Diz Mariah, com uma voz mais firme do que imaginara – Acho que a gente já ouviu muito essa palavra ultimamente pra tirar conclusões, né?
Shura pareceu ficar um pouco menos tenso aos olhos de Mariah, ao suspirar profundamente em alívio.
— Fico feliz que... as duas estejam bem, comecei a sentir medo do silêncio.
Eyria deu um grande passo para frente e encarou o homem a centímetros, trazendo a tensão novamente a seus ombros.
— Que porra é essa? – Ele exclama, dando um passo doloroso e envergonhado para trás.
— Nada – a semideusa responde, dando de ombros – só checando, achei que fosse algum resquício da minha ilusão.
Shura rosna, jogando a cabeça para o lado e cruzando os braços. Vendo a cena, Mariah ri, sentindo um peso sair de suas costas.
— E eu fico feliz de os dois estarem bem – fala, por fim, enquanto se agacha para pegar a lâmina da adaga — infelizmente não posso dizer o mesmo dela... desculpa.
Shura e Eyria param de se se encarar e olham para a garota, que agora tinha sobre as mãos estendidas os dois pedaços da adaga quebrada.
— Foi com ela que você... matou Ah-Kum Huo? – O homem pergunta, pegando a pequena arma das mãos de Mariah e examinando o estrago.
— Sim... – Mariah responde, a hesitação na resposta do homem atiçando sua curiosidade.
— E a lança, não se esqueça da lança, garota – fala a mulher, de braços cruzados e olhando para a arma caída no chão.
— Você usou a adaga e a lança, ao mesmo tempo? – Pergunta Shura, com as sobrancelhas tão levantadas que quase saíram sobre a máscara.
— Não, — explica Mariah, concentrada na adaga dividida que Shura girava nas mãos — na verdade eu usei a adaga pra acertar a nuca dela, depois a Eyria a empurrou pra cima da lança que eu segurava.
De maneira discreta, Shura olha as mãos cheias de queimaduras da garota e lembra do sentimento que a espada causara nas suas. Depois ele se vira pra Eyria.
— Isso explica o “empurrãozinho” – brinca ele. Ela novamente dá de ombros.
— Shura – chama Mariah – posso perguntar algo?
Sua curiosidade sobre a reação do homem à palavra “morte” a intrigava e talvez não teriam um momento como aquele até o final para perguntas. Shura apenas assente, enquanto tentava encaixar a fratura irregular da adaga entre o cabo e a lâmina.
— Por que você...
Um barulho de passos ecoou atrás deles, Shura, Eyria e até Mariah ficaram automaticamente tensos e por mais que seus corpos doessem se viraram de forma sincronizada para onde ele vinha.
— Não... – Eyria deixa escapar.
***
O garoto sorria em um tom rouco de histeria, suas mãos estavam inquietas e ele parecia tremer por dentro enquanto os olhava de pé sem se mover. Por detrás da máscara, seus olhos brilhavam como ouro, mas vertiam pura maldade. Seu ombro ainda ferido parecia quase partido em dois e se fundia à manga de seu terno branco que agora tinha uma coloração avermelhada. Sem sair do lugar, uma névoa azulada começou a se formar ao seu redor, sua máscara antes lisa agora se deformava e formava lentamente as feições de uma mulher de olhos fechados, ocultando suas írises de um dourado nauseante. As plantas ao seu redor começavam a morrer sob seus pés e o ar se tornava pesado e morto, como se ele sugasse toda a vida ao seu redor.
Mariah, como que por instinto, viu uma árvore grossa por sua visão periférica e antes de se dar conta, já se empoleirava por detrás dela. Shura, percebendo o movimento, se afastava para desviar a atenção dela, quanto do outro lado, Eyria parecia flutuar com uma aura roxa que a cercava. Sua máscara brilhava em tons de verde e roxo, o gato estampado em sua face se movia como se fosse líquido e parecia falar e sorrir em silêncio. Mas aos olhos de Mariah, que já vira os dois em suas plenas e poderosas formas, era evidente o cansaço, a falta de fluidez nos movimentos e o quanto as magias dos dois pareciam opacas agora.
— Enfim, – diz o garoto quebrando o silêncio do lugar com uma voz quase sibilante, variando entre vários tons – enfim nos encontramos de novo. – As pausas entre as respirações eram quase dramáticas — Não sabem quanto eu demorei para encontrar vocês, mas valeu a pena, como valeu...
O jovem antes calmo e frio agora parecia a beira de um ataque de nervos. Mariah o observava pelo lado do tronco com apenas um lado da face à mostra, ele parecia muito diferente de antes: seu cabelo estava desarrumado, sua máscara estava suja e o estado de seu traje não parecia muito melhor, mas seu olhar era o mesmo do sonho, um olhar que transmitia morte. Evitando seus olhos, ela corre sua atenção para o ferimento de seu ombro, que parecia impossível de cicatrizar até com magia e extremamente doloroso.
A tensão estava sobre todos ali presentes. Shura girava seus discos sob as mãos pronto para um ataque de Ganância, Eyria se movia lentamente, estudando o adversário e Mariah abraçava o tronco tentando pensar em algo que pudesse ajudar, isso era tudo que ela queria, ajudar quem tanto a ajudara, mas sua cota de heroísmo desmedido tinha acabado na luta anterior e o mesmo truque não iria funcionar, não contra ele.
— Esperava mesmo que não chegássemos a esse impasse, meus amigos. – diz o garoto – Mas, aparentemente, eu tenho que tomar medidas drásticas. Se sintam agraciados, não são todos que veem o poder da ganância de Athena em sua totalidade, agora quero a cabeça de vocês!
Dizendo isso a máscara do garoto abre os olhos em uma onda e revela írises amarelas cintilantes, ao seu redor, armas e cajados de diferentes tipos aparecem da névoa azul que se formara. No corpo do garoto, uma armadura leve toma lugar do terno que usava e o ombro se cura rapidamente, deixando para trás apenas uma violenta cicatriz branca em sua pele. Em suas mãos, um cetro dourado e uma pequena imagem de bronze aparecem, o deixando na clássica pose da estátua de sua deusa madrinha que ficava em Atenas, na Grécia.
Os dois semideuses assistem atônitos a essa transformação.
— São vinte e cinco armas, caso não tenham conseguido perceber. O que significa que vinte e cinco semideuses tombaram diante meu poder. – Ele faz uma pausa saboreando suas palavras — Alguns dos mais fortes estão aí, como Thor, Apolo, Nephthys e Poseidon, acha mesmo que dois semideuses como vocês podem me deter? — Se gaba o garoto – Quanto a isso tenho algo a dizer... Vinte e sete sempre foi um número que me agradou muito.
Em uma velocidade desproporcional ao seu tamanho o garoto joga o mesmo escudo de antes contra Shura, o obrigando a se defender e investe contra a mulher, que como se não estivesse ali, desaparece. Porém, girando o corpo de uma maneira estranha ele soca o ar para baixo e um martelo gigante de ferro adornado atinge uma árvore como se visse a mulher por detrás dela. Eyria, mesmo se desviando do ataque, é arremessada pelo bosque até cair ao solo com o peso do objeto caindo sobre si, a fazendo arquejar.
— Patético! – Exclama o garoto com sangue nos olhos enquanto a espreme com o martelo a distância.
— Tem certeza? – Pergunta Eyria com um sorriso no rosto.
O garoto fica confuso por um momento e assiste a semideusa desaparecer por debaixo do martelo, deixando no lugar uma pedra totalmente trincada. Por detrás dele, uma névoa roxa se forma e o rosto do gato sorridente aparece, seguido do corpo esguio da mulher carregando em suas mãos ambos os leques afiadíssimos. A trajetória silenciosa que seu corpo traçava iria tingir o garoto pelas costas e desta vez ela não pretendia apenas tira-lo de combate.
No momento em que o leque o cortaria em pedaços, o garoto se vira e uma lanterna aparece entre ele e a mulher. A luz projetada pela lanterna força Eyria a fechar os olhos e baixar sua guarda para não ficar cega, aproveitando-se disso ele lança o tridente de Poseidon quase que imediatamente em sua direção, por puro reflexo ela se defende com seus leques, sendo jogada para trás e pousando em uma árvore próxima.
Shura aproveita o momento e se desvencilha do objeto de metal pesado, também atacando o garoto lançando seus discos, mas um deles se choca contra o escudo estrategicamente reinvocado, enquanto o outro foi afastado por um cajado em forma de serpente. Shura reconheceu imediatamente o cajado como sendo de Uto, deusa venerada no baixo Egito e protetora do faraó. Outro deles girou em sua direção e cortou o ar em sua volta, por pouco o semideus consegui desviar do ataque.
— Vejo que desviou do ataque Shura, meus parabéns. – Diz o garoto o olhando pela fresta da máscara.
— Seu maldito! – Brada Shura em resposta.
O garoto sorri e arremessa o escudo na direção de seu adversário novamente, Shura desvia e se põe em posição de defesa ainda no ar esperando as flechas como da última vez, mas ao invés disso um soco o atinge na lateral do rosto quase arrancando sua máscara, junto a ele outro o atinge na barriga tirando seu fôlego enquanto ia de encontro a um robusto tronco. O impacto faz o homem grunhir e cair de joelhos. O garoto sorri. Em suas mãos dois socos ingleses brilhavam com um fogo azul substituindo as armas de Athena. Shura tenta se levantar, mas suas pernas falham.
Ele se sentia fraco, parecia que sua pulsação também falhava.
— Estranho, não é? — Diz o garoto dando as costas para Eyria e estendendo os punhos em riste, admirando suas armas – Esses socos ingleses são banhados com minha vontade de ter tudo a minha volta e graças a isso eu posso tomar a força de cada deus que eu enfrento e usá-la conta ele.
Shura tentava se levantar, mas era como se seu corpo se recusasse a obedecer a sua vontade. Suas pernas arqueadas assim permaneciam, seu corpo tremia como se sentisse frio e seus sentidos estavam confusos, ele apenas conseguia ouvir Ganância falando enquanto se mantinha prostrado.
Eyria, se recompondo, reinicia sua sequência de ataques em meio às suas ilusões, desaparecendo e reaparecendo em outro lugar, enquanto sentia suas energias já minguadas se esgotarem. Os ataques da mulher foram o suficiente para mudar o foco de Ganância, que ignora Shura e vai atrás dela tentando a acertar com suas múltiplas armas.
Ao lado de Shura, aparece por detrás de um arbusto um vulto com olhos grandes e brilhantes. Era Mariah.
— Shura! Shura! – Chama ela se esforçando para não chamar a atenção também de Ganância – Tudo bem?
— Não muito – responde o rapaz no mesmo tom, a olhando com o canto do olho.
— Eu tive uma ideia – diz ela com os olhos brilhando de expectativa.
O semideus se sente contagiado pela animação da garota e se força a abrir um sorriso por detrás da máscara.
— Sou todo ouvidos – reponde ele se sentando e encostando as costas na árvore atrás de si.
Eyria se esforçava para não ser atingida pela chuva de flechas atiradas pelo arco invocado. Os projéteis passavam zunindo por ela enquanto ela mudava de lugar rapidamente, junto com elas cajados e espadas cortavam seus pontos de apoio imediatamente depois de ela os deixar. No meio das acrobacias ela também tentava atacar arremessando seus leques, mas sempre algo impedia que as lâminas alcançassem o garoto.
Se sentindo cada vez mais cansada, a semideusa se apoia em uma árvore e arremessa um de seus leques, mas uma das flechas o atinge e muda sua trajetória, fazendo com que ele atinja o solo longe do alvo enquanto a flecha acerta de raspão sua perna.
— Droga! – Pragueja ela.
— Já está cansada? – Pergunta o garoto de braços cruzados e expressão de deboche como de costume.
— Nem comecei! – Responde ela aparecendo ao lado do leque e o pegando de volta.
Assim que ela desce ao solo sente seu corpo pesar. Seria o cansaço?
Seus olhos percorrem o ambiente em busca de opções rápidas, até encontrarem os de Shura, que a olhava esperançoso. Com uma rápida troca de olhares ela entende o plano maluco, mas genial. Eyria iria cobrir Shura com suas ilusões enquanto Mariah arremessa a lança da semideusa que acabaram de derrotar contra o garoto. Como ele vai prever isso irá defender-se, abrindo sua guarda para o ataque do semideus e da semideusa simultaneamente. Era impossível ele prever isso tudo.
A mulher se concentra o máximo possível e cria novamente imagens ao redor do adversário, sentindo seu corpo tremer de exaustão. Sua miragem parece estática enquanto ela arremessa o leque como um bumerangue para trás do garoto que observa tudo parado. Assim que o leque adentra a ilusão ele se transforma, aos olhos do garoto, no próprio Shura, forçando-o a se defender. Com a guarda baixa pela frente, Mariah corre e agarra a lança, sentindo novamente a dor de pegar uma arma divina, ignorando isso, ela arremessa a lança em direção ao Ganância que é forçado a se defender novamente com o movimento do braço livre, ficando sem outras opções de defesa. Nesse momento o Shura verdadeiro salta da ilusão e o ataca pela esquerda, enquanto Eyria também o ataca pelas costas com o leque restante.
Em uma fração de segundos, Ganância gira o corpo ignorando as ilusões e defende ambos os golpes com as armas de Athena. Com um movimento para baixo dos braços lança os semideuses para o solo com dois martelos vindos do nada antes que esses pudessem voltar a atacar ou fugir.
Shura se levanta com dificuldade após o golpe, mas com um movimento ascendente do braço direito e fechando o punho, Ganância faz as correntes de Izanami emergirem do chão e prenderem Shura como um sushi, o semideus apenas pôde cair pesadamente no chão e rolar incapacitado.
— Boa tentativa. – Diz Ganância rindo – Mas eu já esperava isso também, vocês são semideuses muito limitados.
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