A Contenda Divina
24 Neve vermelha
Mariah reúne toda a coragem que ainda lhe resta e começa a caminhar. Eyria a advertiu das falhas que haviam na lembrança e que qualquer coisa muito discrepante que Huo percebesse era o bastante para a ilusão se quebrar e ambas sabiam que fazer outra dessa magnitude logo em seguida seria impossível.
Enquanto caminhava até a outra esquina do chalé, onde pegaria o que parecia uma rua pelas fendas na neve acumulada, a garota repassou novamente o plano mentalmente. Ela iria se fingir de camponesa o suficiente para andar desapercebidamente para trás da semideusa que brincava com as crianças no centro da vila e se manter em uma distância segura e inclinada o suficiente para ver Eyria e cobrir a parte em que a mulher não tinha visão, a procura de algo que pudesse indicar o motivo da morte de Huo, para que então a mulher pudesse a encarnar e desferir o ataque final.
Era um plano sem nada de rebuscado, feito às pressas e sem a ilusão com certeza fadado ao fracasso, mas era o melhor que tinham e sua simplicidade era inquietantemente inteligente. Por outro lado, Mariah se sentia minimamente feliz por finalmente ter um papel relevante em algo ali, sem servir de adulto para dois seres milenares ou sem viver na cola de um homem o tempo todo, desde que chegara esperara que momentos como esse chegariam, mas não chegaram... até agora.
Pensando nisso, ela dá a volta e chega até a parte da frente da cabana. Ela era ainda mais simples pela frente, com apenas uma abertura coberta por um pesado lençol de couro preso ao chão e amarrado em vários lugares para se manter inteiro. O pelo cinza balançava com a brisa gelada e Mariah agradeceu mentalmente por Eyria ter feito com seus poderes a ilusão de uma roupa quente com capuz. A poucos metros da entrada, as crianças agora brincavam de tentar correr na neve espessa, emitindo um chiado enquanto a esmagavam com os pés na corrida desengonçada. A pequena garota sorridente de bochechas protuberantes fazia seus olhos sumirem ao gargalhar e falar algo animadamente para seus amigos, que gargalhavam também, Mariah as observava enquanto passava com elas em um misto de atenção e pena. A voz da curiosidade dentro dela agora parecia mais forte, querendo descobrir o motivo da mudança de Huo.
Afastando esse pensamento, Mariah se volta para frente e puxa as abas peludas de seu capuz, ocultando um pouco mais seu rosto novo. Em sua cabeça, uma citação de uma série figura em sua mente assim que ela pensa em ter agora um rosto diferente, mesmo sem uma espada. Enquanto ela caminha, escutando seus passos na neve, ela observa seus arredores. As pessoas, muito bem feitas pela ilusão, ainda estavam absortas por seus trabalhos, que a garota julgava serem de suma importância para sobreviver àquelas condições. Mais a frente, uma cabana parecida com a que Eyria se escondia estava um pouco mais projetada para o centro da vila, deixando a garota oculta para Huo ao mesmo tempo em que era visível para Eyria, que ela percebeu mudar para a cabana ao lado assim que olhou sobre o ombro. Era o local perfeito.
Se esforçando para não correr para lá, Mariah calmamente muda sua trajetória da maneira mais casual possível e ruma para o local, ainda escutando as risadas das crianças. Eyria a observava atentamente de longe, entendendo para onde estava indo e sorrindo de leve com a esperteza da garota em uma situação daquelas. Eyria então olha ao redor, procurando qualquer sinal de perigo, mas apenas a claridade da neve e a brisa gelada a saldava de volta. Mesmo sabendo ser apenas uma ilusão e o frio tão falso quanto, ela se permitiu sentir saudade do contato caloroso das costas de Mariah a pouco.
Ainda observando o nada que cercava as cabanas, um grito chama a atenção de Eyria e ela vira a cabeça a tempo de ver Mariah tombar para frente, com as mãos no peito. Mais a baixo, Ah-Kum Huo dispara para ela.
***
Shura, ainda tonto com a velocidade que tudo aconteceu, segura a espada que agora estava cravada em seu peito logo acima da empunhadura, no espaço entre o cabo ornamentado e seu peito que agora sangrava, sua mão queima vagarosamente pelo contato com uma arma divina que não lhe pertence. Ivanov sorria um sorriso presunçoso e preguiçoso, se demorando para caminhar na direção do semideus empalado em uma árvore.
— Eu disse – começa ele, em tom descontraído – você “ainda” não estava morto.
O semideus tenta rosnar, mas desiste, a dor lhe percorria o corpo e ele não tinha mais uma ideia concreta do quão machucado estava. Mas sua mente continuava maquinando algum plano, alguma maneira de fugir dali, enquanto observava o semideus se aproximar. É quando uma ideia desesperada lhe surge.
Assim que o homem se coloca a frente dele, Shura usa toda sua força para se desgrudar da árvore que estala e no mesmo movimento, ele arranca a espada que o atravessava em um puxão, rápido demais para Ivanov desviar. A lâmina ainda manchada de sangue do próprio Shura gira entre os dois e atinge o antebraço em riste do russo, que ruge enquanto o fio afiado da arma rompe osso e carne, decepando a mão do homem logo abaixo da prótese o fazendo cambalear de dor, ira e surpresa. Shura, aproveitando a brecha, usa sua magia para começar a se curar enquanto ataca, mas o esforço múltiplo, como esperava, o faz ficar lento o bastante para apenas fazer um corte no outro braço de Ivanov, que xinga em algum dialeto estranho e chuta Shura para trás, o fazendo se desvencilhar da espada, e por consequência parando a queimadura que já se alastrava pela palma da mão do semideus.
Ele agora precisava pensar rápido, precisava segurar o semideus que agora o olhava com sangue nos olhos e pingando do braço coto. Precisava desestruturar o homem, o induzir ao erro, para ter brecha o suficiente para um ataque letal antes de suas forças se esvaírem por completo. Antes de ter de usar seu trunfo.
— Ah – exclama o semideus ainda no chão, se apoiando em um cotovelo enquanto cobre o ferimento com a outra mão – agora eu me lembrei de seu deus regente.
Uma chama assassina brilha nos olhos do homem e ele avança, Shura rola e impulsiona o corpo com as mãos, tirando os pés do chão por uma fração de segundos armando uma levantada, o suficiente para sem intenção desviar de outro golpe rasteiro que o homem tentara atacar. Chutando com os dois pés para frente assim que ele vê a máscara de animal marinho aparecer por entre suas panturrilhas tensionadas, Shura acerta o homem, que é projetado contra uma árvore, tempo o suficiente para o semideus se recuperar e se manter de pé, ainda fechando o ferimento de dentro para fora.
— Precisa de uma mãozinha, camarada? – Provoca Shura.
Novamente, o russo xinga entre os dentes e avança, dessa vez para encontrar os discos de Shura muito bem colocados em suas mãos.
***
A dor repentina começa a passar e ser substituída pelo frescor da neve no rosto de Mariah, a náusea ainda a deixava incomodada, mas ela não mais se sentia como se tivesse tido um ataque cardíaco. Olhando para baixo ainda temerosa, ela percebe que seu pesado casaco estava intacto e a neve permanecia branca. Nada de flecha, nada de adaga, nada de foice, apenas o volume de seus seios sob a roupa e alguma neve que encrustava na pesada pelagem do couro.
— Que... porra...? – Indaga a garota, como que para si mesma.
Se colocando de joelhos, Mariah olha para frente e não vê nada, seja lá o que for, nada a tinha atingido, era como se a dor viesse de dentro dela e explodisse para fora. Um lampejo de memória percorre sua mente e um nome lhe surge: Shura. Ele estava com problemas fora da ilusão.
Um estalo de gelo pisado traz a garota novamente para realidade, bem no momento em que uma mão pesada envolve todo seu ombro. Olhando de canto de olho, ela vê a mão ali, mas era estranhamente pequena e infantil, nada comparado com o peso que sentia e ao levantar a visão, lá estavam eles. Olhos completamente negros, como se fossem sugar a alma de Mariah ali mesmo, mas estavam estranhamente arregalados, estranhamente vivos, com sobrancelhas arqueadas e uma expressão não de tédio frio, mas preocupação e até bondade.
Mas como em um lampejo de uma televisão com interferência, lá estava ela novamente, em uma fração de segundo, a imponente semideusa com manoplas douradas, faixas pelo corpo e a máscara de coelho muito orelhuda apareceu, dividindo o mesmo espaço com uma inocente garotinha que não aparentava ter mais que alguns anos de idade. Naquele momento Mariah entendera o que a mulher representava, a máscara não estava mal colocada ou ela não era rejeitada como se pensavam, o corpo da mulher era a máscara, uma máscara para uma criança que aprendera desde muito cedo a maldade humana.
Ela não morrera ali no sentido literal, ela morrera como a criança boa que era e se transformara em outra coisa a partir daquele dia, a coisa que agora ameaçava matar os três e sabe-se lá qual era o objetivo com a vitória no torneio.
Ainda com a expressão preocupada, a garota balbucia alguma coisa em sua língua nativa, pela situação e pelo tom de preocupação, Mariah deduz que ela perguntava se estava bem. A bondade e a leveza da voz da menina fazem o coração de Mariah apertar, ela não podia ser a mesma pessoa que quase a matara por diversão há alguns minutos. Resistindo à vontade de abraçar a menina, Mariah sacode a cabeça em afirmação e com a ajuda dela se levanta, fazendo uma leve reverência e torcendo para isso ser a coisa certa a se fazer.
Huo repete o movimento um pouco mais lentamente, fazendo sua sombra tremular entre pequena e infantil para larga e forte, voltando para a primeira em meio segundo. Por sorte, ela estava de olhos fechados. Mariah volta a caminhar, sentindo os olhos da garota e da semideusa em si, se forçando a andar o mais calmamente possível enquanto suas pernas tremiam tanto que ela tinha medo que os ossos se partissem. Mas a jovem consegue andar os passos que faltam para a cabana e ela faz menção de entrar, olhando casualmente para trás, forçando um sorriso que ela torcia para ser suavizado pela ilusão, na direção da menina, mas ela já não a olhava.
De fato, ela olhava para o pequeno círculo de crianças que brincavam. Mariah demora alguns segundos para perceber o motivo de a criança não ter corrido de volta para a brincadeira. A verdade é que a brincadeira continuava, as crianças realmente brincavam, mas agiam como se ela ainda estivesse entre elas, jogando neve no vazio e chamando seu nome. Um fio de raciocínio percorre Mariah e as palavras de Eyria fazem sentido em sua cabeça. Estavam em uma memória, memórias não podem ser mudadas por nada externo, tudo que acontecia, acontecia exatamente como ela se lembrava, no tempo em que ela se lembrava, por isso ninguém mais reagiu ao grito de Mariah a pouco a não ser a própria Huo, esse tipo de ilusão não permitia uma saída de script.
Ela tinha estragado tudo.
***
A duras penas, Shura conseguia se manter desviando dos ataques de Ivanov, que podia atacar por apenas uma das mãos, mas mesmo assim era uma parede de golpes sucessivos impressionante. Os ataques alternavam entre avanços rápidos, estocadas precisas e cortes poderosos, um seguido do outro, haviam muito poucas brechas, mas Shura usava cada uma delas, golpeando o braço e o corpo do homem, mesmo que isso significasse receber alguns dos golpes.
Em um giro com as pernas, Shura conseguiu trocar de base a tempo de um chute percorrer o espaço entre os dois, abrindo a guarda do russo o suficiente para que o semideus separasse um dos arabescos nas costas do homem com um corte profundo.
— Maldito! – Berra Ivanov, que gira a perna de onde estava rápido demais para Shura processar e acerta a lateral da cabeça do semideus, que pende para o lado, grogue.
Com um impulso e usando o braço direito incompleto que começava a cicatrizar, o russo prende a garganta de Shura contra uma árvore e levanta o semideus do chão, em uma tentativa de sufocá-lo.
— Ultimas palavras, cão desgraçado? – Berra o homem diante de Shura.
— Vai... bater palmas no meu enterro? – Dispara o semideus, tirando a concentração de Ivanov de um de seus discos que vinha girando na direção do pescoço do homem.
Como se escutasse o chiado da arma divina de Shura, Ivanov se vira e usa a espada para se defender, mudando a trajetória do disco. No mesmo momento, Shura conjura outro e enterra fundo no ferimento da base do antebraço de Ivanov, o separando em dois. A dor é tamanha que o semideus solta seu oponente e sua arma e agarra o antebraço que agora vertia sangue e cambaleia alguns metros até se encontrar de costas contra uma árvore, enquanto Shura cai de joelhos recuperando o fôlego.
Antes que Ivanov pudesse se recuperar, Shura avança sobre ele com o disco em sua mão. A espada que o russo deixara cair dispara para o semideus e este se defende com o disco, perdendo-o no processo, mas sem diminuir seu ritmo. Com as mãos nuas, Shura salta sobre o homem e eles rolam para o chão, trocando socos. Com um movimento rápido e com a falta de um dos membros do oponente, Shura consegue se apoiar sentado sobre o tronco de Ivanov segurando seu pescoço com uma das mãos e o socando com a outra com toda sua força.
A força ampliada e a resistência superior dos semideuses causavam rachaduras no solo a cada golpe que Shura desferia sobre a face mascarada de Ivanov enquanto o enforcava com a outra mão. Desesperado, Ivanov tenta perfurar o ferimento no peito de Shura, que urra quando o dedo do semideus encontra o orifício quase cicatrizado e força sua entrada, mas ele usa a dor como um estimulante e aumenta a força dos golpes. Fumaça começa a irradiar dos punhos e da máscara do semideus nórdico, seu corpo forte se contorce tentando fugir daquela posição, mas era impossível.
O frenesi de Shura era muito poderoso e ele sabia que logo perderia a consciência. Percebendo que o adversário estava absorto em uma onda alternada de socos, Ivanov força sua magia a sair de seu corpo e as duas espadas respondem ao seu comando, flutuando de onde estavam. Com um comando mental, elas disparam para seu encontro, ele sabia que da maneira que estavam, ele seria atingido também, mas ele não se ajoelhava a ninguém. Poderia cair, mas cairia como o orgulhoso homem que era.
Em um sibilo baixo, as espadas cortaram o ar, apontadas para as costas de Shura, muito ocupado socando para perceber o que acontecia. Em um ultimo esforço, Ivanov desvia de um dos socos de Shura, que rompe o chão abaixo dos dois em rachaduras radiais e segura o braço do homem sob o bíceps e o tronco, enquanto o outro também prendia o outro. Shura não conseguiria se desvencilhar.
O sibilo das armas aumentava, Shura percebe o que acontecia, mas era tarde demais, ele estava preso e não havia como escapar daquele aperto desesperado. Em sua mente, tudo aconteceu em câmera lenta: a imagem de Mariah percorreu sua mente, a imagem dos seus companheiros caídos veio logo atrás, a imaginação de Eyria sozinha no campo de batalha e exausta, se é que não tinha morrido, o corpo inerte da garota no chão da floresta, se desfazendo junto com o dele e do russo que o segurava. Morrer quando estava tão prestes a vencer, uma ironia do destino. Como toda sua vida tinha sido até ali.
Não havia tempo nem forças para conjurar os discos e arrancar os braços do homem, não havia tempo para ele se debater, a menos...
Ivanov ainda ria quando Shura empurrou seus punhos mais para dentro dos braços do homem, que sem esperar pelo movimento não conseguiu tencioná-los o bastante para impedir que inimigo o fizesse. Fazendo isso, Shura conseguiu não apenas enterrar os braços entre os do russo até os cotovelos, mas ter raio de ação o suficiente para levantar o tronco do homem levemente para cima.
O chiado metálico das espadas estava quase ensurdecedor quando o semideus cruzou os dedos de uma mão na outra pelas costas de Ivanov e usou as últimas forças de suas pernas para levantar todo o peso do corpo do homem, que o olhava de olhos arregalados. Com um giro do tronco e um urro animalesco que parecia irradiar do lobo em sua máscara, Shura coloca o homem entre ele e suas espadas, no exato momento em que elas chegavam. O som de ossos e pele sendo cortados ecoou dentro da cabeça dos dois, assim como as lâminas feriam os dois.
O impacto das duas armas nas costas de Ivanov fez as pernas de Shura cederem e ambos caíram. As espadas, empalando o seu próprio dono, também encontraram o corpo de Shura, uma perfurando seu ombro direito e outra cortando logo acima da clavícula esquerda. Já para o russo, os cortes atingiram artérias e o coração, tinham sido golpes mortais.
— Des... desgra... çado – balbucia o homem, com o sangue escorrendo de seu corpo e sujando Shura de um vermelho espesso e quente – po... demos chamar isso d-de uma punha... lada pelas co-costas.
Shura, sem saber se de alívio ou empatia, se permitiu sorrir da piada do homem, que agora escorregava pela lâmina até se apoiar sobre seu corpo.
— Na verdade, foram duas, camarada. – Respondeu o semideus, olhando para o céu além das copas.
Shura não sabia se homem ouvira a réplica a sua piada, mas logo o peso em seu corpo desapareceu e antes de desmaiar, Shura viu pequenos pontos coloridos dançando ao seu redor.
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