A Contadora de Histórias
7 Capítulo Seis – Lar Doce Lar
Notas iniciais
— Não acredito que estamos fazendo isso! – grita minha mãe afundada no banco do carro, os largos campos carregando ares gelados começam a aparecer.
– Querida, se acalme! Será apenas um final de semana! – meu pai tenta tranquiliza-la. De fato, consegui dois dias em casa, na minha verdadeira casa.
– Como me acalmar?! Já nem pega mais sinal de celular nessa droga de interior!
É o que sempre digo. São essas tecnologias de hoje em dia, e você pensou que elas só estragassem os jovens?
Mal acredito na paisagem que enfim posso vislumbrar. O verde do qual tanto sentia falta. Abro a janela do carro para que sinta o vento, mesmo que seja o vento frio de inverno. Ele não me incomoda, nunca incomodou, ele sempre esteve aí para levar meus cabelos enquanto corria pelo quintal.
Sempre me acompanhou nas cavalgadas, nos piqueniques ao final da tarde no parque e nas incansáveis horas brincando no balanço. Não posso rejeitar esse vento, o vento do lugar de onde vim, o vento que sempre me trouxe boas notícias.
Lembro como se fosse ontem do dia da mudança. As árvores não dançavam, as folhas não caíam e a grama permanecia imóvel. Não havia vento.
– Chegamos! – berra minha mãe – Quanto mais cedo chegarmos, mais cedo sairemos! – ela pega a mochila com seu notebook e sai correndo em busca de sinal.
– Ei, Cristal – meu pai me cutuca com sua mochila – estarei na sala de estar trabalhando em algumas coisas... espero que aproveite – ele me dá um tapinha nas costas e me entrega um sorriso triste.
Sinto meus olhos encherem de água, ver meu pai se afastando daquele jeito melancólico acertou meu coração. Ignoro e saio correndo para minha casa. Meu lar doce lar.
Subo as escadas atropelando os degraus. Então, já no segundo andar, eu vejo. Vejo aquela portinha simples, fechada e tranquila. Como se estivesse num sono profundo, me esperando para poder acordar. Tocar naquela maçaneta de novo foi como tocar o céu e sentir sua paz.
O som dela girando conforta meu coração abatido, aquela tristeza passageira fora levada pelo meu amigo vento. Está tudo no mesmo lugar, a cama, as pequenas prateleiras, a janela fechada e empoeirada. Abro as janelas, e como costumava todas as manhãs passadas, me delicio com o sabor do vento mais uma vez, o cheiro da grama e o som dos passarinhos.
Sinto toda uma história sendo contada, parágrafo por parágrafo. Abro meus braços e me entrego a liberdade. Sento na janela e deixo meus chinelos caírem no quintal. Balanço meus pés e permito que o mais belo sorriso se forme em meu rosto.
As lágrimas se misturaram com inúmeros sentimentos. A saudade, a alegria, a emoção, a liberdade, o desejo. As amarras que me prendiam antes, dançaram ao som do meu amigo vento e a música dos passarinhos tornou-se a trilha sonora da minha vida.
Quando paro para me concentrar, noto alguém acenando para mim lá adiante. Apoiada no balanço, seus olhos apreciam minha felicidade. Seu sorriso sincero a revela. Leatrice esperava tão ansiosa quanto eu nosso reencontro.
Correndo lá para baixo, lembro me de nossa despedida. Ela me desejou uma ótima viagem mas não garantiu sua presença nela. Algo na sua expressão me deixou curiosa. Isso foi há uma semana. E agora ela está aqui, com os cabelos soltos, uma coroa de flores e um vestido manga longa simples. Aquela beleza natural espelhada à minha.
Visualizo seus braços abertos prontos para me receber. Me jogo neles e enterro meu rosto em seu corpo.
– Senti sua falta! – grito empolgada.
– Calma, minha pequena! – caímos na grama – Só se passou uma semana! Acalma esse coraçãozinho!
– Você não faz ideia da falta que você me faz!
– Ei – sentamos cada uma em um balanço – até parece que não sabe se virar sem mim! – ela começa a rir. A risada da qual sempre invejei na cidade. Aquela felicidade sem motivo, o dom de sempre ver o lado bom da vida.
– Claro que sei me virar! E você sabe muito bem disso!
– É eu sei... – ela fica me analisando – nós sabemos. Você amadureceu bastante, Cristal. Não é mais aquela menina assustada com o movimento da cidade, você cresceu bastante. Você aprendeu muito nesse meio ano que se passou.
– E eu devo muito disso a você! Você me ensinou muito do que sei hoje, eu não saberia lidar com muita coisa se não fosse por você – noto uma clara satisfação em seu rosto – Eu preciso te agradecer, Leatrice.
– Pelo o quê? – pergunta ela, enquanto dá um impulso no balanço.
– Eu não teria aguentado sem sua ajuda. Geralmente as crianças recebem apoio dos pais para se adaptarem a mudanças assim... mas meus pais me abandonaram... mas esse não é o caso. Acontece, que você me ajudou demais, me mostrou como ver a felicidade nos momentos difíceis, me ensinou a agir com as pessoas... e o que mais me motivou a suportar tudo que aconteceu, foram suas histórias!
– Sério? Encontrou motivação nas minhas palavras? – ela parece pasma.
– Sim! Eu adquiri conhecimentos nos livros que você me leu! Nas histórias que me contou! Eu aprendi tantas lições na sua companhia! Leatrice, muito obrigada!
Seus olhos brilham tão intensamente quanto seu sorriso, a risada seguinte abre o início de uma conversa que se estende pela tarde toda. Ela me conta mais e mais histórias, honrando seu título de Contadora de Histórias. Aventuras, dramas e romances! Tantas viagens, tantas batalhas, tantos aprendizados!
Nunca canso de me encantar com a beleza das palavras de Leatrice, palavras de som tão familiar, como se já conhecesse todas aquelas histórias e estivesse me reencontrando novamente. Olhando para ela, sinto como se olhasse meu próprio reflexo, mas uns quinze anos mais velha.
Não importe quanto tempo passe, nunca irei me esquecer do quanto ela significou para mim.
– Já vai começar a escurecer, hein? – Leatrice olha para o céu – Parece que vai chover...
– Uma chuva seria boa agora... – fecho meus olhos e penso no tempo – Mal acredito que já se passaram mais de seis meses...
– Foi um tempo proveitoso para você, Cristal?
– Claro que foi! Eu conheci a pessoa mais importante! De longe a melhor amiga que já tive! – ela compartilha de minha alegria em longas risadas.
– Vejo que está muito feliz e sabendo lidar com sua nova vida...
– Com certeza! Sou uma nova pessoa agora, sinto que posso enfrentar o mundo como os piratas no Novo Mundo!
– O tempo, Cristal – fico atenta a sua nova lição – ele corre tão rápido que não conseguimos acompanhar, e ele pode nos levar muita coisa, menos as lembranças. As lembranças ficam na memória de quem as viveram, e com isso só posso concluir uma coisa. Eu jamais esquecerei esse tempo que passamos juntas – ela põe a mão no meu rosto e com lágrimas nos olhos me diz – não importa quantas vezes o tempo tente me tirar nossos momentos.
– Leatrice... por que isso, tão de repente?
– Me alegra saber que pode se virar a partir de agora, meu trabalho está feito. Te ajudei a crescer e me orgulho disto.
– Ei, Leatrice, espere – seguro na manga de seu vestido impedindo-a de ir.
– Você já não precisa mais de mim – ela me responde sorrindo, daquele mesmo jeito como quando nos despedimos. Triste e feliz.
Antes que tivesse a chance de prolongar a conversa, escuto alguém me chamando, um chamado longo e arrastado.
– Cristal! – ouço a voz de meu pai – Cristal! Achei você filha! – ele se aproxima – Que bom! Precisamos conversar, eu, você e sua mãe! – ele me segura pelo braço – Vamos! Estava esperando aflito por este momento, quero te dizer tantas coisas! – ele parece muito animado e ansioso.
– Papai! Só um minuto! – não posso perder esta oportunidade – Quero te apresentar à uma pessoa!
– Seja rápida filha, quem é? – ele pergunta completamente atencioso. Do jeito que ele sempre foi.
– Ela se chama Leatrice, papai! – aponto para Leatrice que está de pé ao meu lado.
– E... – meu pai olha confuso para Leatrice – onde ela está, querida?
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