A Contadora de Histórias
5 Capítulo Quatro – Leatrice
Notas iniciais
Caminhei novamente por campos de um verde claro, agora gelado, unido a gota de orvalho. Era muito cedo, o sol apenas havia aparecido no horizonte. Como numa visão de um sonho prevendo meu futuro, me vi no embalar de um balanço ao lado dela. A Contadora de Histórias.
Nossas feições eram tristes, como quem se arrasta, pela fina cortante chuva, para o velório de um parente. Ela esboçou um breve sorriso acolhedor, o campo plano encheu-se de flores e os pássaros voltaram a cantar. Como num pulo do tempo, me vi sentada sozinha no balanço, alguns anos mais velha, expressando a mesma emoção abatida e vazia.
Me acordo com o barulho do liquidificador da cozinha, mamãe está cozinhando, deduzo.
Antes de tentar me levantar da cama, penso no sonho outra vez. O mesmo, desde que não me encontrei com ela. A senhora da biblioteca teve de viajar para um outro estado repentinamente e fiquei sem ver minha amiga por uma semana. Desde então, tenho tido esse sonho, várias vezes durante a noite.
Nesse meio tempo, minha rotina não mudou em praticamente nada. Exceto que não fui a biblioteca, na verdade, meu desempenho escolar até melhorou mas meu humor abaixou. Reflito na última conversa que tive com ela. Sobre o livro Invencíveis, sobre como me despedi rápido pelo horário já avançado, sobre como, alegremente, prometi encontra-la no dia seguinte.
Sobre como que, no dia após aquele, cheguei na porta da biblioteca que guardava o bilhete de “fechado”. Para mim, era como um adeus à ela.
Mas agora, sorrindo, eu começo meu dia aproveitando o fato de não ter aula. Já que ontem ouvi falar que a senhora da biblioteca voltara, então logo cedo, ela abriria as portas para os apaixonados por livros.
Pulo da cama, visto meu vestido lilás, e me preparo para iniciar meu final de semana. A fivela laranja prende meus cachos louros e combina com minha sapatilha que compartilha de sua cor. Vou até a cozinha, me delicio do café da manhã, e saio de casa.
Contei que ganhei uma bicicleta? Ela é bem simples, meio sem graça, mas sei lá, é um presente, não é? Já que meus pais tentam agora me conquistar com objetos.
Minha relação com meus pais diminuiu drasticamente, o que me preocupa se vou virar aqueles adolescentes rebeldes e rejeitados. Papai e mamãe jantam no sofá da sala vendo TV enquanto eu como na cozinha, coisa que nunca faziam, afinal, prezavam as refeições em família.
Agora eles só falam de trabalho, tecnologia, política, e... trabalho! Eles se ligaram tão facilmente a vida urbana, que me enoja. A maneira como eles mudaram, poxa, não são mais meus pais. Meu pai costumava passear e brincar comigo, me levar na fazenda para tratar os animais e me divertir com eles. Minha mãe, me ensinava a cozinhar, contava histórias para mim e me instruía na limpeza da casa.
Em todos os fim de semanas à noite, jogávamos jogos de tabuleiro. Mamãe e papai eram tão presentes, que comigo, construíram um parquinho, com um balanço de dois lugares, casa na árvore e um escorregador. Além de eu ter perdido tudo isso, perdi meus laços com eles.
Eles são meros conhecidos a quem cumprimento todas as manhãs. Como cruzar com alguém na rua. Só que moram comigo.
Sinto me cada vez mais longe deles, mais longe do que me ensinaram, mais longe do que me fazia feliz. Se não fosse pela Contadora de Histórias, a quem atribui o título de mãe – já que ela me acolhera – eu não teria pensado duas vezes de encontrar a calçada pela janela.
Num pedalar sem pressa, chego ao meu destino. Radiante de ansiedade, giro a maçaneta enferrujada e sinto novamente aquele cheiro velho. A senhora da biblioteca acorda assustada de seu breve cochilo, e me analisa com ternura.
– Você por aqui pequena?
– Bom dia pra você também – a encaro brincalhona.
– Entendo, – ela suspira – senti sua falta. Por incrível que pareça, já que não possuímos contato – ela retorna a escrever algo no computador. – Sabe, você me lembra muito minha filha quando menor, – sinto uma tristeza em seu olhar – isso me alegra muito saber que ao menos uma criança hoje em dia ainda possue um brilho único no seu olhar inocente.
– Eu que o diga – me sento no banco em frente ao balcão – sua filha... ela tem que idade agora?
– Ela teria 34 – ela nota meu pequeno espanto.
– Ah... – baixo a cabeça – ela morreu não é? – ela confirma e eu sorrio. É a primeira vez que converso com a senhora... Hanh, de acordo com seu crachá. Ela parece ser uma boa mulher.
– Sim, há um mês – ela olha pela janela como se a imagem de sua filha retornasse – ela amava histórias, ainda mais contá-las... Você parece muito à vontade falando desse assunto.
– Me diga você, Sra. Hanh. Que falou com tanta naturalidade do falecimento da própria filha.
– Vou te dizer sim, menina – ela sorri marota enquanto fecha o caderno que tinha nas mãos. – Há um mês senti que minha vida tinha acabado, voltei uma última vez na biblioteca com a sensação de missão falhada. Deixei minha filha desprotegida enquanto trabalhava para pagar seu tratamento...
“Então, ao direcionar um olhar frio para a biblioteca que não me rendera o suficiente para salvá-la, o ódio e a dor me invadiram. Sentei me com raiva e remorso na cadeira e bufei. Tinha a intenção de fechar essa porcaria e me livrar de tudo... até de mim mesma.”
“Já sem esperanças, apoiei minha cabeça na mão e fiquei esperando o tempo em que algo, um anjo quem sabe, aparecesse para me tirar daquela solidão. Todos os dias, pessoas passam olhando feio para cá. Se é um lugar velho não muito moderno, as pessoas rejeitam, e a multidão de olhares repulsos se aglomerou em frente ao que sempre me deu sustento.”
Ouvia atentamente seu desabafo, esperando minha presença poder confortá-la – “Então, você entrou por aquela porta. Seu sorriso iluminou minha mente com memórias de minha doce filha. Sua alegria no momento em que preencheu a folha de visitante, me deu esperanças no futuro. Todos os dias, comecei a ignorar os olhares de rejeição daqueles que desaprenderam a viver e comecei a focar em você.”
“Em você lendo, estudando, fazendo tarefas aqui, sempre solitária mas feliz. Sempre excluída da sociedade, assim como tudo aqui dentro. Você era, ou melhor, é uma menina única. Traz consigo aquele ar inocente de criança que agrada a todos, aquele sorriso humilde e aquela voz fina e delicada. Você trouxe luz à um lugar apagado e sem vida. Você deu uma oportunidade aos livros e à mim. Você me deu uma chance para viver, não, você me mostrou essa chance que já estava muito tempo ali. E acredito, que não somente à mim, mas você levou vida ao seu próprio caminho, estou certa?”
– Completamente correta – sinto as lágrimas quererem saltar de meus olhos mas as prendo – eu perdi tudo que amava por um emprego imbecil, talvez, eu ainda não entenda o que é sustentar uma família... – desabo no choro – Mas não é abandona-la! Não é mudar seu ser para viver um porre de vida! Disso eu tenho certeza!
Ela passa a mão delicadamente em minha cabeça e desce para meu rosto, limpa minhas lágrimas que não cessam, ela começa a rir.
– Você é normal... – digo meu nome a ela em meio de soluços e ela prossegue – Cristal. É como qualquer criança, que precisa de carinho, amor, atenção... acha que não é diferente com as outras crianças? Elas não recebem dos pais o amor que deveriam e acham prazer rebaixando e humilhando as outras crianças. Elas vão buscar alegria da infelicidade dos outros...
– Isso é errado! – grito afastando suas mãos de mim.
– Sabemos que é errado, Cristal! Mas é assim que elas encontraram um jeito de viver, você encontrou aqui! Não peço que entenda, só peço que aceite – ela se levanta e abraça meu rosto contra seu peito – se não pode encontrar a felicidade nesse mundo – ela vira minha cabeça aos livros – encontre naqueles.
Me levanto lentamente do banco e me dirijo aos livros, preciso encontrar ela! Antes, direciono a palavra novamente a Sra. Hanh – Você é muito sábia! Quero que saiba, que eu a admiro muito! – ambas nos envergonhamos com a confissão, e segurando minhas lágrimas novamente, lhe faço uma última pergunta – A sua filha... como ela se chamava?!
– Le-Leatrice – ela responde um pouco confusa.
– Sua filha... Leatrice! – cerro meus punhos até as juntas se esbranquiçarem e berro para a senhora em minha frente – Ela tem muito orgulho de você!
Ela chora, sem soluçar, sem fazer barulho algum, deixando apenas que as lágrimas de saudade desabassem aos montes por suas bochechas. Ela leva as duas mãos a boca e me observa em silêncio afastar me em direção a montanha de livros no fim do corredor.
Já fora de sua vista, encontro ela. Sem deixar que notasse, me lanço a seus braços dilacerando minha saudade.
– Cristal! – ela se espanta e retribui meu abraço me apertando mais e mais – Minha pequena! Senti sua falta!
– Também senti a sua...! – deixo que o choro mais alegre de minha vida me transborde as órbitas. Lembro que não sei seu nome e que não poderei chama-la de moça ou Contadora de Histórias pelo resto da vida, então me separo de seu colo, e num movimento um pouco estranho, balanço seu corpo pelos ombros – Você! Seu nome! Qual é seu nome?!
Ela inicia uma onda de risos e se contorce nas gargalhadas – Quem diria, Cristal – ela se recompõe e me fita com um olhar diferente abaixando os óculos. – Meu nome é uma curiosidade tão importante para você? – confirmo completamente corada – Então guarde esse nome muito bem... – ela se aproxima de meu ouvido e une as mãos para cochichar o nome que reconheço por ser...
Leatrice.
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