A Contadora de Histórias
2 Capítulo Um – Uma história para contar
Notas iniciais
Tantas perguntas no mundo, sem respostas. Tantos mistérios sem soluções. Dentre tamanha quantidade de pessoas no mundo, por que justo havia de ser eu?
A mala simples me encara melancólica, estou sentada em minha cama, deixando que os raios solares atinjam minhas costas pela janela. A sombra ocupa boa parte de meu rosto, ofuscando qualquer feição que eu faça para esconder minha infelicidade.
O ambiente tenso é desconfortável, desço da cama num pequeno pulo. O impacto dos pés com o chão me traz formigamentos. Suspiro cansada, acabei de acordar mas sei que o dia será longo.
Ouço meus pais conversando na sala do andar de baixo, eles aumentam o tom de voz. Falam sobre mim, eles imaginam que eu não aceitei a decisão que fora tomada. Mal sabe eles que eu já me entreguei a sorte e desisti de interferir no meu destino. Deixarei por conta deles, afinal, que poder eu tenho sobre mim com apenas nove anos?
Essa injustiça, faz parte do mundo que nos cerca. Pelo menos, na cidade eu terei mais oportunidades do que aqui, isolada do mundo. Talvez a isolação me traga felicidade, droga. Já estou pensando como suicidas depressivos. Começarei a fazer uma lista mental das coisas boas que pode acontecer comigo na cidade grande que não aconteceria aqui.
Até agora, já tenho uma. Quem sabe, durante a viajem para a capital há possibilidades da lista se expandir. Dou uma última olhada no meu quarto, o meu quarto. O lugar de tantas tardes de chuva, lendo livros incansavelmente. O lugar de tantos castigos pagados, tantas noites tranquilas junto à minha fiel cama. Toco de leve a parede, tão bem pintada, um dia decorada, agora não mais habitada. Nenhum resquício sequer de decoração. Aperto minha mão com força na alça da mala, arrasto ela para fora do quarto, fecho a porta já com saudades, e sigo rumo à minha nova vida. Ou, ao andar de baixo. Interprete como quiser.
Meus pais cessam a discussão quando notam minha presença, sei que eles me entendem e eu os entendo também. Me aconchego no abraço em família, naquele centro da sala de estar. O lugar de tantas tardes de chá, tantos abraços, um início de uma nova família. Sim, meus pais se conheceram naquela sala, e se apaixonaram ali. A pior parte da mudança, é abandonar esse passado.
Como se lesse meus pensamentos, minha mãe me confortou.
– Não esqueceremos este lugar minha filha, aqui é, e sempre será nossa casa. Além disso, nós voltaremos aqui para passar as férias na casa de seus tios – eles não haviam me contado isso. Meu olhar fica radiante em combinação com meu sorriso imenso, que ocupa minha face inteira.
A abraço com tanta força, e o mesmo com papai. Eles vão na frente e eu os sigo logo em seguida. Meio hesitante de meus passos, toco na última escadinha que levava à porta da frente, meu pai fixa a placa “Aluga-se” no quintal principal. Eles já estão quase dentro do carro, quando olho a casa pela última vez em muito tempo.
– Isso não é um adeus.
Entro no carro rapidamente, coloco o cinto e encosto a cabeça contra a janela. “Até logo” digo mentalmente.
A viajem dura bastante tempo, vejo várias coisas que jamais poderia ter visto se não tivesse me mudado. Adicionando mais um aspecto positivo a lista. Enquanto não saíamos da área rural, várias terras com criação do gado se estendiam ao longo da estrada. Não havia percebido como era sem graça. Quando começamos a entrar na área asfaltada, que era como uma ligação para a capital, inúmeras vegetações de cores e tamanhos diversos se misturavam na encosta da estrada. E finalmente, depois de quase duas horas de viajem, adentramos a tão glorificada capital do estado.
Prédios, prédios, de novo prédios, uma casa e... prédios. O campo pode ser sem graça, mas pelo menos tem diversidade de construções. A prefeitura da cidade? Prédio. Hospital? Prédio. Escola? Pavilhão e o que? Prédio. Biblioteca pública?
Espera! Biblioteca?
– Mãe! – grito do banco de trás.
– Pensei que havia dormido filha – meu pai comenta admirando a paisagem cinza.
– Tem uma biblioteca?! – não acredito no que eu vi.
– Sim querida, — mamãe confirma inclinando a cabeça para trás – ela não me parece atraente, mas se você se interessou, ficará feliz que moramos no prédio ao lado.
Que ótimo, prédio. Ao menos a biblioteca não é um, é uma construção antiga, de dois andares, mas não era um prédio. Mas quem se importa?! Moramos perto da biblioteca! Aspecto positivo número três: Moramos perto de uma biblioteca.
Damos o retorno e paramos, exatamente, no prédio ao lado.
– Mamãe! Eu quero ver a biblioteca! – grito entusiasmada. É sábado. Tenho dois dias até começar o ano letivo e quero aproveita-los mergulhada em livros.
– Alto lá filha! – repreende meu pai – Vamos desfazer as malas, e você ajudará a desempacotar a mobília.
– Pai! – reclamo, estendendo a palavra.
– Quanto mais rápido começarmos mais rápido terminaremos – diz minha mãe beijando minha testa, com três caixas nos braços.
O apartamento é no quarto andar, ele é espaçoso, dois quartos, uma sala de jantar, cozinha, uma sala de estar, dois banheiros e um quarto de visita. Que pode ser transformado num quarto de lazer, segundo meu pai.
Terminamos ao final da tarde, papai reclama de dor nas costas e vai se lavar para descansar. Minha mãe começa a preparar as coisas para o jantar. Eu exploro meu novo quarto.
Nada comparado ao meu antigo mas, nossa. Uma cama de casal, um armário, dois criados mudos de cada lado da cama, uma tevê, uma estante para livros e um sofá! Mas, nenhuma janela.
Me jogo na cama, muito confortável por sinal, e me pergunto se todas aquelas regalias valiam a pena. Estou cansada, mas quero ver a biblioteca o mais rápido o possível, meus olhos pesados conferem as horas no relógio digital ao lado da cama. Os números se misturam e eu sou levada pelo deus do sono.
Acordo de repente. São nove e meia da manhã. Eu não costumo acordar tarde assim... o café da manhã! Claridade, preciso de luz, de ar, me sinto confinada. Começo a tatear a parede em desespero, estou tremendo. Encontro um interruptor de luz e o pressiono. Não é uma janela mas ilumina. Suspiro aliviada por poder enxergar novamente. Deslizo meu corpo pela parede e permaneço sentada no chão.
“Respira Cristal, esse foi o primeiro dia.” Obedeço minha consciência. Vou ao banheiro, realizo a minha higiene matinal, visto um vestido xadrez rosa claro, prendo meu cabelo loiro numa trança de lado e coloco minhas sapatilhas. Estou com uma terrível fome, pois não jantei ontem à noite. Mamãe e Papai estão vendo o jornal da manhã na tevê da sala, eu como o que restou do jantar, aviso que vou a biblioteca e assim faço.
Num domingo de manhã, as ruas estão mais movimentadas do que nunca. Eu pareço o único ser diferente em meio à multidão, que usa os tons escuros e melancólicos, que se assemelham ao ar poluído. Eu me imagino como um vaga-lume na escuridão da noite.
Entro na biblioteca quase aos pulos, tento conter minha emoção. Pareço uma criança entrando numa fábrica de doces, passo as mãos entre as paredes antigas e sinto aquele cheiro de poeira de livro velho.
Começo a tossir mas logo paro. O santuário dos livros. Infinitas estantes com milhares de livros cada um com sua indicação, gênero, autor...
Suspiro um tanto que alto, a bibliotecária repreende e manda fazer silêncio. Caminho devagar para absorver toda aquela história. Avisto uma moça sentada no canto da biblioteca, com algumas pilhas de livros no chão ao seu lado e um na mão.
Me aproximo dela, aproveitando de nossa solidão e cochicho.
– Oi – ela olha para mim por cima dos óculos que deslizam pelo nariz. Me observa uns instantes e retoma a leitura. – Estou atrapalhando? – ela balança a cabeça em negação – Qual o seu nome? – ela não responde, e ficamos empacadas no silêncio durante um bom tempo.
Me inclino para visualizar a capa do livro que diz “Faça mais do que Existir”.
– Esse livro, — puxo assunto – é legal? Fala sobre o que?
Ela fecha o livro impaciente e fuzila meus olhos com seu olhar penetrante e acusador.
– É um drama – ela enfim responde. – Conta sobre um rapaz que tenta achar significado na vida, ele passa por diversas experiências para tentar descobrir como não ser esquecido após a sua morte.
– Diga à ele que não adianta, morreremos, as pessoas choraram por nós um dia ou nem isso, e cairemos no esquecimento quer façamos algo importante ou não.
– Errado. Já ouviu falar de Lewis Carrol? – ela me pergunta sorrindo.
– Sim, ele escreveu Alice no País das Maravilhas – respondo, é quando percebo há quanto tempo ele já se foi e seu nome permanece na memória. – Não havia notado, sinto muito. Continue sua leitura – ela sorri feliz de que eu tenha entendido.
Acho que terei uma história para contar agora.
A história de como eu conheci a Contadora de Histórias.
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