A Concubina De Dorian Gray
12 Como Uma Mariposa
Notas iniciais
Dorian parecia ignorar o que aconteceu naquela noite, como se fosse uma coisa natural, ou rotineira. Sempre que presentes na mesma sala, trocávamos apenas palavras de empregada e patrão, geralmente diante dos demais empregados assim sendo. Quando estávamos sozinhos nada era muito diferente, ele me olhava como se esperasse que eu me manifestasse sobre algo, e eu apenas esperava que ele o fizesse, mas em nenhuma das ocasiões houve resposta de ambas as partes, e assim três dias seguiram em absoluto silencio.
Certa noite após todos meus afazeres terminados, eu penteava meus cabelos diante da penteadeira e ouvi um som agradável ecoar nos corredores. Sabia que vinha do piano no primeiro andar, e já imaginava saber quem o tocava aquela hora da noite. Vesti um robbie branco de seda que pertencera um dia a minha mãe, e cujo qual eu jamais me desfaria, e andei até a porta do quarto abrindo-a e olhando cautelosamente ao redor vendo estar vazio por completo. Fechei a porta atrás de mim e me dirigi pelo longo corredor, logo descendo pelas escadas que ficavam na ultima dobra. Já no segundo andar, me dirigi a sala de onde vinha o som musical e me parei diante da porta que estava entre aberta. Dentro da sala diante do instrumento refinado, como já era de se esperar estava Dorian, tocando delicadamente e atento as teclas do piano.
Fiquei a observá-lo por um tempo indeterminado que não pude contar, até me perdendo na melodia suave e recostando minhas costas contra a parede, ficando assim sem a visão do interior da sala. Mal me dei conta quando a musica cessou, meus olhos estavam fechados e creio que eu quase adormeci em pé recostada naquela parede. O silencio na sala me fez por pura curiosidade andar até o feixe da porta e olhar para dentro dela, assim não tendo mais a visão de Dorian apenas a do piano solitário. Procurei por sua presença com o olhar curioso e cuidadoso por toda a sala, através daquela fresta, e então subitamente a porta se abriu e Dorian se colocou diante de mim como um fantasma assombroso que se materializa diante de seus olhos.
– Céus! –levei minha mão ao peito e dei um passo atrás. – Você me assustou.
– O que faz acordada? –disse ele em tom baixo, embora firme e grave como sempre.
– E. Eu... Eu estava com sede. –inventei uma desculpa rápida. – Desci para beber água e... Ouvi o piano, apenas... Apenas quis ouvir um pouco.
– E por que não bateu? –dizia ele de maneira rude com os olhos cerrados.
– Não queria atrapalhar, eu já estava voltando ao meu quarto.
– Faça isso. É desagradável ficar andando pelos corredores como uma alma penada durante a noite. –ele seguiu no tom áspero.
– Eu sinto muito. –disse baixando os olhos.
– Tem algo mais a dizer?
– Não senhor Gray. –o encarei.
– Então boa noite Anna. –dito isso ele simplesmente bateu a porta na minha cara.
Fiquei pasma naquele corredor com meu nariz quase colado na porta, me sentindo um ratinho acuado, e ao mesmo tempo morrendo de raiva pelo comportamento deplorável de Dorian. Como ele conseguia ser tão frio? E por que diabos eu me importava com suas atitudes mesquinhas? Ele era isso, era disso que ele era feito, um homem vazio, aparentemente problemático e mimado, e eu ainda parecia me surpreender com aquilo.
– Grosso. –resmunguei olhando para a porta e então me dirigi pelo corredor.
Subi as escadas e voltei ao meu quarto, terminei de me arrumar, despi-me do robbie e me deitei, mas o sono havia me deixado e apenas rolei na cama sem conseguir fechar os olhos. Dorian era um tormento em minha cabeça, e quanto mais ele me castigava com suas grosserias, mais eu queria entendê-lo. Acabei por sentar-me aos pés da cama, e fiquei ali pensando, repassando a noite em que Dorian tentou meus desejos a um limite e depois me deixou aos devaneios. Me senti culpada pelas coisas que meu corpo pedia toda vez que pensava nisso, e tentei me livrar desses pensamentos, mas era quase impossível, como se minha mente teimosa e sádica quisesse ser castigada com eles. Fechava meus olhos e tocava meu corpo como se fosse ele, tentando buscar o prazer que ele me dera naquela noite, e isso tambem me fazia sentir culpa. Se eu o queria, porque não podia dizer isso a ele? Por que me castigar daquele jeito? Céus! Por que eu o queria tanto? Era errado, impróprio, ele era meu patrão, o homem pra quem trabalho e não um homem que eu conheci ao acaso. Eu deveria me comportar de acordo com meu posto, meu cargo, eu estava abaixo dele, abaixo do seu patrão de vida, e provavelmente de mulheres, mas por que ele me queria? Se ele queria...
Finalmente esses malditos pensamentos vieram a cessar com o cansaço do meu corpo sonolento. Cai sobre os lençóis ainda queimando de desejo por Dorian, e então adormeci com aquela ideia fixa na cabeça. Na manhã seguinte, despertei no meio da cama, com o corpo descoberto pelos lençóis macios e com os pássaros batendo com o bico no vidro da janela. Me levantei e desci após cuidar da minha higiene. Era mais um dia longo de trabalho no qual eu rezava pra não me pegar olhando para Dorian como se ele fosse uma luz brilhante enquanto eu era uma mera mariposa envolvida por seu brilho. Ele era hipnotizante de fato, mas como eu poderia continuar com aquele sentimento? Aquilo me levaria a loucura logo e logo.
– Anna! –mais uma vez a voz de Madeleine me tirou de um transe. – Já conferiu se a menina levou as toalhas limpas para os quartos de hospede?
– Ah sim, já estão todas lá, eu mesma ajudei Monie com isso. –respondi desviando meu olhar da janela para ela.
– E quanto ao escritório do senhor Gray? Cuidou para que tudo estivesse em perfeita ordem?
– Está tudo feito Mad não se preocupe.
– Ótimo, o senhor Gray andou reclamando do desleixo de Monie e eu disse a ele que como encarregada você deveria cuidar do que Monie faz de agora em diante. –disse ela de maneira dura.
– Monie está com algum problema Madeleine? –digo curiosa. – Ela não costuma ser tão descuidada.
– Não importam quais sejam os problemas pessoais dos empregados Anna, o patrão não tem nada a ver com eles. –mais uma tirada áspera. – Nosso trabalho é manter a casa em ordem, e satisfazer as vontades do patrão mesmo que pra isso tenhamos que passar por cima dos nossos sentimentos. Agora não fique parada aí e me ajude com o chá da tarde, o senhor Gray receberá visitas esta tarde e deseja ser cortes.
– Dorian sendo cortes e recendo visitas? –eu apenas ri. – Tá ai algo inovador.
– Não deboche. –ela me repreendeu. – O SENHOR, Gray é seu patrão. Não caçoe ou faça piadas sobre.
– Madeleine existe algum problema entre você e eu que deveria ser resolvido? –digo curiosa e já cansada de ser tratada com indiferença. – Pois quando cheguei aqui você foi de imensa simpatia e cortesia comigo, agora vivo sob a ideia de que lhe fiz algo errado. Pode me dizer o que te fiz?
– Apenas cuide do seu trabalho, nós não somos pagas pra ficar tagarelando pelos corredores. –ela fugiu da minha questão e girou sobre seus calcanhares logo seguindo pelo corredor. – Não demore, estou esperando para preparar o chá.
Sua resposta me deixou mais do que insatisfeita, me deixou irritada, mas não importava mesmo o que eu sentia, eu era empregada da casa e não podia me dar ao luxo nem ao capricho de ficar de burros e não concluir minhas tarefas. Segui no mesmo rastro de Madeleine e ajudei-a com o chá, trocando apenas o necessário como dialogo. Quando os convidados do patrão chegaram, percebi que não se tratavam de amigos e sim advogados com quem Dorian havia marcado uma reunião. O clima estava tenso na sala quando Madeleine e eu entramos para servir o chá, e não vi um único olhar de Dorian dirigido a minha pessoa. Ele apenas se dirigiu a Madeleine em um obrigado e depois nos dispensou. Fui eu quem fechou a porta e antes de deixa-los totalmente trancados naquele escritório eu arrisquei um olhar para Dorian, e notei que algo o incomodava mais do que o normal, pois sua expressão era de quase ódio. Percebi naquele momento que eu não sabia nada sobre o homem pra quem trabalhava e isso me incomodou, e ao mesmo tempo me motivou a saber mais sobre. Meu desejo era despistar Mad e voltar ao corredor do escritório para ouvir a conversa, mas achei arriscado por demasiado então desisti.
Dorian era um mistério, e eu precisava desvendá-lo antes de entrar em uma encrenca maior do que já havia me colocado.
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