A Comarca d' Ouro
1 Capítulo 1 - A volta do patrão do além mar
Uma figura muito peculiar adentrava nos corredores do Palácio Rio Branco, na então capital colonial de Salvador.
Causava espanto e atraia os olhares de todos os presentes; pudera, era medonho de se ver, não; intimidante. Com suas roupas em frangalhos, sobretudo igualmente encardido, e um velho chapéu que lhe cobria a face; se apresentava como um mendigo perante a esnobe sociedade soteropolitana.
Muito além de suas reles vestes, os seus modos era o que se destacava; andava ereto e a passos firmes, devolvendo os olhares de reprovação com uma arrogância e petulância desmedidas, provava ser pobre de bens, mas não pobre de confiança. Trazia consigo as armas todas e também o olhar profundo e afiado de seus negros olhos; que já bastavam pra desarmar qualquer um.
Continuaria com sua gloriosa demonstração de autoestima, não fosse a anfitriã ter surgido na sala, acabando com seu momento.
— Paulo! Finalmente! Já começava a ficar agoniada com vossa demora!
— Desprazê revê ocê tamém Bahia. – Respondia com a rabugice costumeira.
A mulher negra parada a sua frente com zanga, conseguia ser mais intimidante que ele; não fosse suficiente a pressão diária como capital da colônia portuguesa, aquele dia em específico a estava deixando ainda mais tensa.
— Como te ocorres apresentar-se assim a ele?
Olhava de cima para baixo, fixando a mirada nos pés descalços e imundos.
— Bom Deus! Terei que mandar limparem os corredores.
— Se muié uná muito se incomoda, vai mim prestá sapato.
— Não me chames disso!
— E muié uná é de que cor?
Bahia bufava; se empenhava muito para segurar a raiva e a agitação. Ia empurrando o brucutu até a sala do governo; deu uma última olhada na figura deplorável que teria que anunciar, antes de abrir a porta.
— Ei-lo aqui senhor; todo seu. — Dito isso se retirava da sala, aliviada por aquele “ser” não ser mais de seu encargo.
Sozinho agora, com as portas fechadas, olhou a imagem do homem de costas atrás da mesa, com as mãos cruzadas e admirando a cidade pelas janelas do edifício.
— Não achei que vortaria a Colônia, sinhor Porto.
O homem esperou um pouco, num silêncio incômodo, antes de voltar-se para si.
— Pois; também não achei que retornaria dada a situação que me encontrava. Mas eis-me aqui; de volta, quase um século depois.
— Incomoda mim preguntá o pruquê de ausência toda?
— Uma tragédia. Meu irmão tomou as rédeas de meus assuntos. De qualquer maneira, não sei como, consegui expulsar os espanhóis de minhas terras e agora estou pronto para retomar meu império.
Diacho! Portugal voltou? Como ficaria seu contrabando de indígenas? Os espanhóis ao menos, em sua negligência não se importavam com oque ele fazia para ganhar a vida; mas o “bacalhau” ali tinha uma lógica muito esquisita sobre quem escravizar. Aparentemente apenas a escravidão africana era permitida na colônia; ora essa! Porque um pode e o outro não?
Ao contrário do chefe lusitano, seu mau-caratismo não tinha contrassensos. Prevendo o assunto, procurava preparar o terreno.
— Ficamo feliz ca sua vorta patrão.
— Digo o mesmo... – O luso de olhos verdes certeiros se
aproximava gradativamente; o assunto tendia ser sério.
— Tu deves imaginar que, depois de todo o custo que tive para libertar-me de meu irmão bastardo, eu não queira novos confrontos com os espanhóis muito cedo.
Paulo não compreendia o propósito daquela conversa. Continuou quieto.
— Soube que andaste muito esse tempo... andaste demais; estou certo?
O “bacalhau” agora imitava piranha; rondava lentamente sua cadeira enquanto fazia seu interrogatório.
— Sim sinhor! Pode confiri! – Disse levantando e mostrando um dos pés para seu interpelador; como prova dos caminhos tortuosos que percorrera.
— Creio em sua palavra; não havia necessidade de mostrar-me teu pé. Porto mantinha-se tranquilo e firme; apesar da incredulidade perante ao comportamento tão chucro do outro. Paulo baixou o pé desgastado e olhou com desconfiança.
— Então, oque patrão quer tanto mim dizê?
— Vossos avanços nestes sertões misteriosos da colônia foram de caráter ousado; e por um lado, muito apreciados pela Coroa, devo dizer.
Estava elogiando-o muito para ser de graça, lembrava-se muito bem que com Portugal sempre havia algo em troca.
— Porém; isso acaba por ser uma afronta ao antigo tratado que tinha com Espanha das Tordesilhas...
Paulo olhava para o português com uma expressão de quem não fazia a menor ideia sobre do que o outro falava.
— A linha pá!
— Mim não ver linha nenhuma nas terra que andei.
— Era uma linha imaginária, ora!
— Si era imaginária como mim sabê donde ela tava?
— Pouco importa! Importa que agora terei de estabelecer os novos limites da Colônia com as terras espanholas; e espero não precisar fazer isso novamente.
— Mim chamou aqui pra dá sermão prucausa de linha invisíver? Mim já pode ir então.
— Ainda não...- Pôs as mãos nos ombros do que já se levantava, e forçou-o no lugar.
Porto sentou-se na mesa de frente para Paulo e o encarou nos olhos. Finalmente iria dizer a real intenção por trás de toda aquela falação lusitana.
— Creio ser possível que, em suas andanças tenha encontrado coisas deveras interessantes...
— Ahh... agora mim estar entendendo patrão... – Estava demorando para o “bacalhau” cobrar o que sempre quis de verdade.
— Meu caro Paulo, essa terra vasta há de ter muitas pedras...
— Sim sinhor! Itatiba. Muita pedra.
— Ah, muita? E pedra de qual cor?
— Pedra de muita cor. Mas pedra itajubá tamém; amarela.
— Amarela? – Os olhos verdes agora brilhavam na sua cor mais vivaz.
— E muita itajubá em mesmo lugar. Mim pensa sê o tar de óro.
— Ouro...E onde encontraste esse ouro?
— Mim diz... Se patrão der agrado. – Portugal não era o único que sabia ser esperto.
— Oh, sim! Eu as estava guardando especialmente para vós. – Nisso se levantou e retornou com um par de botas de couro novas.
— Pés cansados merecem ser recompensados...
Paulo encarava as botas; que lindas! Eram tentadoras de fato.
— Não vai prova-las? — Arrancou-
—as das mãos do português na ansiedade de calça-las.
— Bota caber direito! – Um pequeno sorriso genuíno surgiu de lado. Porto que até então só observava, interrompe sua felicidade rara com uma nova proposta.
— A meu ver um homem com vossa ambição não deves contentar-se somente com um par de botas.
— Si patrão quer pagar mais; mim aceita.
— Diga-me Paulo, o que acharias de uma comarca?
— Cumadi? Quero não sinhor. Vizinhança já sê muito abaité.
— Comarca. Um território de seu encargo, onde tu da as ordens e administra ao seu entender.
— Ibi minha? Terra pra mandá e dismandá como Porto com Colônia?
— Ah... bem; sim.
— Pagamento mió impossíver!
— Então temos um acordo. Diga-me a localização do ouro e tornarei a região propriedade sua; com a condição claro, de que a parte da Coroa seja garantida.
— Lugar de ouro não ser anomatí. Não muito longe; lá pras bandas do Rio Doce.
—Então tens minhas ordens para começar a explorar. Parto para Luanda pela manhã e de lá seguirei para as Índias Orientais rever os territórios que ainda me restam, devo retornar dentro de dez anos para oficializarmos a nova comarca.
Apertaram as mãos simbolizando o trato. Do lado de fora do luxuoso palácio baiano, Paulo se sentia um vitorioso.
Afinal, a conversa com o bacalhau havia rendido. Uma comarca! Uma comarca de ouro. E seria sua! Agora enfim, ficaria rico.
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