A Colheita do Espantalho
2 Segunda Parte
Dentro da casa, os adolescentes ouviram pedidos de socorro abafados, saíram para ver o que estava acontecendo. Giovanna deu um grito ao ver aquela figura monstruosa com um chapéu de palha, uns trapos pretos onde o vermelho do sangue de JP se destacava, segurando uma tesoura que pingava sangue e corria atrás de Felipe. Não dava para ver a cara do espantalho.
Felipe conseguiu alcançar a casa e se trancou junto com o grupo. O espantalho desapareceu. Pedro, Raphael e Julia andaram pela casa trancando tudo o que podiam.
– E agora? Henrique e JP mortos, Otávio e Luana desaparecidos, o que iremos fazer. – Julia perguntou.
– Cadê a Samantha?- Felipe perguntou ofegante, Julia então contou que ela foi nadar no lago e não voltou mais.
Todos deduziram que ela tenha sido morta. Felipe então falou sobre a morte de JP.
Giovanna começou a chorar, Pedro tentou consolá-la. Todos dentro da casa decidiram arrumar as coisas para irem embora do acampamento.
– Iremos como com aquele psicopata rondando a casa? – perguntou Raphael.
– O espantalho estava com aquela tesoura, à mesma que eu usei no Henrique... – começou Pedro
–... e a mesma que Otávio estava segurando – completou Giovanna
– Então Otávio é o espantalho, ou o Henrique está vivo e está se vingando. – disse Julia
– Mas Henrique nunca veio nesse acampamento antes para saber reproduzir tão bem o espantalho, foi tão convincente que o JP acreditou que era uma brincadeira de antigamente. E o Otávio trabalhou aqui durante muitos anos e deve ter pego essa época. – explicou Felipe. – E a Luana também foi assassinada, por isso não voltou.
– Eu sempre disse que aquele zelador me dava medo. – disse Giovanna se segurando no irmão.
Giovanna analisou o mapa, descobriu que o casebre de Otávio foi construído em cima de uma passagem, que era usada em uma gincana no antigo acampamento. A passagem levava para o outro lado do acampamento, e de lá eles poderiam se livrar do espantalho voltando para a cidade. Pegaram apenas o necessário, Giovanna pegou sua bússola, sua pequena mochila e ficou encarregada de olhar o mapa, pois era a única que conseguia entendê-lo. Pedro ficou surpreso com a repentina melhora da irmã e a admirou mais ainda por isso.
Saíram da casa, todos atentos olhando para ver se conseguiam localizar o espantalho. Julia agarrada ao namorado, Giovanna de mão dada com Pedro, Felipe com sua mochila não quis se livrar de nada. Passaram perto da margem do lago, Julia gritou ao ver um corpo com cabelos vermelho boiando. Pedro e Raphael retiraram o corpo nu de Samantha do lago, Felipe ficou paralisado e lembrou de seu sonho. E começou a entender.
– Eu vi isso. – ninguém entendeu nada. – Quando eu desmaiei ontem, eu sonhei que Samantha estava no lago e o JP ficava preso em uma árvore, exatamente como aconteceu. – ele explicou então sobre seus problemas de insônia, e falou sobre seu outro pesadelo, onde ele estava sozinho na escuridão com gosto de sangue na boca e caiu. É claro que ele escondeu o fato de Julia tê-lo beijado.
– Fantástico! – exclamou Pedro- Você tem visões do que vai acontecer.
Já havia acontecido, na primeira vez foi quando ele quebrou o braço após cair da árvore onde fumava, tinha sonhado que seu osso estava a mostra enquanto fumava. — Olha, é o Otávio. – disse Giovanna espantada ao avistar o espantalho.
– Tudo bem, gente, mas acho bom a gente sair daqui, olhem lá. – Apontou Pedro.
O espantalho tinha sido atraído pelo grito de Julia. O grupo saiu correndo em direção ao casebre, o espantalho atrás deles. Conseguiram alcançar a tempo, os três garotos empurraram a mesa em frente à porta para impedir que o espantalho entrasse no casebre. Era muito apertado lá dentro, não tinha muitos lugares para procurar e não encontraram passagem alguma, começaram a desconfiar se aquele mapa estava correto. Então Pedro se lembrou do armário, foi até o quarto e o abriu, começou a tirar as roupas de lá de dentro, então empurrou o armário e viu um alçapão.
– Pessoal, acho que encontrei a passagem. — avisou Pedro. Giovanna, ele e Raphael desceram por ela.
Quando Julia começou a descer, o espantalho quebrou a janela e conseguiu entrar pela cozinha.
Felipe pegou na mão da garota e disse:
– Nunca me esqueci de você.
– E nem eu de você. – Então se beijaram. Raphael vendo aquilo, puxou sua namorada para baixo e Felipe jogou sua mochila, o espantalho entrou no quarto, segurou o garoto e enfiou a tesoura nos olhos dele, começou a sair sangue da boca de Felipe, ele sentiu seu corpo pesar e foi jogado para dentro da passagem. O restante do grupo viu o amigo jogado com aquela tesoura nos olhos, Julia começou a gritar e Raphael deu um sorriso triunfante ao ver o rival morto, mas seu sorriso logo se perdeu quando Julia passou correndo ao ver o espantalho descendo pela passagem e arrancando a tesoura dos olhos de Felipe.
A passagem subterrânea era grande, pois como servia para as gincanas era larga o suficiente para caber mais de cinco pessoas. Havia vários lampiões durante o percurso, mas nenhum estava aceso. Julia retirou a lanterna de Felipe de sua mochila e Giovanna ficou com a luz do celular, o caminho era longo, não tinha muitas escolhas e então continuaram correndo e o espantalho logo atrás.
A mochila de Felipe, que Julia carregava, a atrasou, fazendo com que ela ficasse presa, Raphael que estava logo atrás de Julia, ultrapassou-a sem ao menos olhar para trás.
– Continua, Gi. – disse Pedro, mandando sua irmã avançar, enquanto voltava para tentar libertar Julia.
– Pedro, não! – Giovanna falou em protesto, mas em resposta Pedro disse: “Ficarei bem, agora continua”.
Raphael passou por Giovanna.
– Que garoto idiota. – Falou sobre Raphael e continuou correndo preocupada com o irmão.
Pedro tentava salvar Julia, mas a mochila que estava presa na passagem tinha enroscado na jaqueta dela. O espantalho se aproximava cada vez mais, Pedro tirou o estilete que guardava na meia e conseguiu rasgar a jaqueta, soltando Julia. Os dois saíram dali deixando a mochila. O espantalho chegou até a passagem e pegou algo dentro dela, o que Pedro e nem Julia conseguiram identificar, mas era algo pequeno.
Giovanna olhou no mapa, e viu que tinha dois caminhos, um levava para um lugar sem saída, ela tentou avisar ao Raphael, mas ele não a escutou e continuou correndo. Como ele era grande, e o caminho que fazia ia se estreitando, ele batia nos lampiões derrubando o óleo pelo caminho e pelo corpo.
Giovanna, não sabia se Pedro e Julia estavam vivos, mas ela confiava na palavra de seu irmão, como estava longe deles e não tinha como avisar sobre o caminho, ela espirrou um pouco do seu perfume na direção certa, e seguiu por ela. Pedro era o único que conhecia seu perfume, afinal, ele que deu a ela de aniversário.
Pedro e Julia avançavam, até que ele a puxou e disse que havia sentido o cheiro de Giovanna. Julia não tinha sentido nada, mas quando se aproximou da passagem escondida, percebeu a fraca flagrância de canela com flores silvestres, que no meio daquele caminho subterrâneo era quase imperceptível.
– Giovanna, você é demais. – disse Pedro com orgulho da irmã – O mapa não teria ficado melhor em outras mãos.
O espantalho sem ao menos perceber o cheiro do perfume, foi em direção ao caminho que Raphael fez. O garoto a essa altura já havia percebido que errara o caminho e estava voltando, levou vários escorregões devido o óleo. Deu de cara com o espantalho, que já tinha percebido todo o óleo que tinha sido derrubado, o espantalho pegou então uma pequena caixa, uma caixa que tinha pegado da mochila de Felipe. Fósforos. A caixa que Felipe tinha guardado, aquela que ele acendia seus cigarros. Raphael ficou desesperado quando o palito foi riscado e jogado naquele óleo usado em lampiões. O espantalho saiu de perto, e viu todo o seu trabalho feito, Raphael pegava fogo, e grandes linhas de chamas seguiam pelo túnel queimando o óleo derrubado.
No caminho, Julia e Pedro ouviram gritos de desespero e sentiram um calor e cheiro de algo queimando. Logo alcançaram a saída, onde Giovanna os esperava.
– Sabia que iam conseguir sair. – disse ela abraçando o irmão e Julia.- Bom, dei uma olhada por aqui, e acho que estamos na gruta interditada.
Os três saíram da gruta e foram em direção a floresta. Já estava de noite e a floresta estava assustadoramente escura. Julia deu a lanterna a Pedro, que assumiu o comando do grupo, mas sempre consultando Giovanna com o mapa. Ela avisou que a área da floresta em que estavam tinha várias armadilhas que impediam ursos e lobos de alcançarem a gruta, por isso que ela foi interditada. Conseguiram entrar bem na floresta, mas o cansaço era inevitável, passaram o dia todo fugindo do espantalho.
– Não era Otávio. – começou Giovanna- Pensa, ele mora há anos, a passagem da gruta está escondida em sua casa, se ele fosse mesmo o espantalho, acho que ele saberia a passagem oculta. – explicou ela. Julia achou a explicação válida.
– Talvez Otávio esteja mesmo na cidade. – disse Pedro.
– Tem alguma coisa para comer? – perguntou Julia
Giovanna abriu a mochila e tirou uma pequena bolsa, onde havia uma lata de refrigerante, dois pacotes de salgadinho. Na de Pedro havia uma caixinha de chicletes, uma lata de refrigerante e uma pêra enrolada no papel. Eram tudo o que tinham, não era o suficiente para os três, então eles racionaram bem. Pedro deixou que Giovanna comesse a pêra, mas generosa, ela cortou com o estilete em três partes, dividindo com o irmão e Julia.
Giovanna e Pedro eram os mais preparados para esse acampamento. Tiraram dois sacos de dormir, o pequeno e rosa era de Giovanna, o maior e azul era de Pedro, ele deu para Julia dormir. Ela não quis aceitar e ele a convenceu falando que precisava ficar acordado de guarda. Pedro deu o seu beijo de boa noite em sua irmã, desligou a lanterna, pegou seu celular e novamente não conseguiu sinal.
– É muito bonito, o seu amor com a Gi. – disse Julia, deitando no saco de dormir.
– Somos muito unidos, desde que nossos pais se separam. Temos uma madrasta, ela é legal, mas não tem muito tempo para nós, assim como nosso pai. Giovanna sempre liga para a nossa mãe que está sempre viajando, então eu faço o papel de pai e mãe para ela. – disse com um largo sorriso.
– Giovanna me disse que você gosta de mim. – disse Julia, Pedro desviou o olhar- Tudo bem Pedro, depois de hoje, depois do que você fez por mim, voltou para me salvar, arriscando sua vida, eu senti que eu não merecia o misterioso Felipe e nem o ignorante Raphael.- pegou nas mãos de Pedro, que a olhou. – preciso de um homem como você, sensível e amoroso. — Ele aproximou seu rosto no dela, seus lábios se tocaram. Ele nunca tinha sentido algo assim, os lábios de Julia eram quentes, macios.
– Ér...boa noite. – falou após desencostar sua boca da Julia. Virou as costas e sorriu, assim como a garota. No pequeno saco de dormir.
Pedro acabou cochilando encostado em árvore.
– Mas que droga! Era para eu ter ficado acordado vigiando. –disse ainda meio sonolento.
Olhou para a Julia dormindo e sorriu, lembrando do beijo que recebera.
Julia acordou e se despreguiçou, dando de cara com diversas maçãs, laranjas, mamões rodeadas de flores.
– Bom dia. – Pedro explicou onde arranjou aquelas frutas, apontando para as árvores frutíferas que havia ali perto. As flores foram colhidas por Giovanna.- Temos frutas suficientes para um dia.
Quase meio dia, eles recolheram seus suprimentos e foram avançando na floresta. Não andaram muito, até que Julia fosse picada por uma aranha. O local da coxa onde o aracnídeo picou, começou a inchar e a ficar vermelho, Julia começou a perder o controle sobre os movimentos do seu corpo. Pedro desesperado e sem saber o que fazer tentou novamente ver se conseguia sinal do celular, sem sucesso. Giovanna, que talvez fosse a mais calma do grupo, abriu o kit de primeiros socorros, pegou um bisturi e cortou a parte da coxa, o sangue começou a sair junto com uma substância esverdeada. Giovanna fez uma cara de preocupada, era o que ela temia, o veneno estava se espalhando pelo corpo rapidamente.
– Ela tem que tomar uma vacina, rápido. Se não...,mas tem um jeito de retardar, o máximo que sei sobre primeiros socorros é o que aprendi nos filmes. – explicou. Sem mais delongas, ela apertou um pouco o corte, estancou, passou um remédio para desinfectar e fez um curativo. Pedro estava mais aliviado, porém Julia estava sem o controle de seus movimentos.
Decidiram descansar e no outro dia começar novamente. Julia só piorava, a febre aumentava, Pedro dava os remédios para ela, dizendo que tudo ia ficar bem. Giovanna foi colher algumas flores não muito longe, de repente ouviu um farfalhar do mato ali perto, ela olhou e viu o espantalho parado a observando. Nunca tinha reparado, mas ele não era muito alto e usava uma máscara feita de palha, sua roupa e seu chapéu estavam chamuscados, havia sangue seco na tesoura. Sem pensar, ela saiu correndo em direção onde seu irmão estava com Julia, como era pequena, conseguia passar entre os espaços das árvores, dificultando a aproximação do espantalho.
– PEDRO! PEDRO! O ESPANTALHO
Pedro estremeceu, sabia que não poderia deixar Julia sozinha naquele estado.
– Por favor, Pedro, se salva. Me deixe. – Julia quase sem força na voz.
– Não vou te deixar! Não agora. – Pedro pegou seu estilete
Giovanna chegou e falou que o espantalho estava logo atrás dela.
– Pedro, nós temos que ir. – disse ela puxando o irmão
– Não vou deixar a Julia aqui. – e empurrou Giovanna. – Vai e se salva. Não quero você morta, ta entendendo? Eu te amo. Agora corra.
– Também te amo – abraçou seu irmão — Me perdoe Julia. – com lágrimas nos olhos ela correu.
Pedro subiu na árvore para dar um ataque furtivo no espantalho, mas antes deu um beijo em Julia. O espantalho apareceu, Pedro se jogou e acabou errando, ficando desacordado. O espantalho pegou o bisturi que estava ali do lado e cortou a garganta de Julia, fazendo jorrar muito sangue.
Pedro acordou ainda meio tonto e se viu preso na árvore. Não conseguia entender o que estava havendo, quando sua visão melhorou ele viu o corpo degolado de Julia.
– Como é doce a vingança né? – Pedro reconheceu a voz e ficou estupefato – Sim, você fez com que meu namorado morresse. Agora eu matei todos os seus amiguinhos e principalmente sua namoradinha. Ainda falta aquela vadiazinha da sua irmã que seduziu meu namorado. Tudo isso é culpa sua. – Era Luana. Não, era uma mulher com sede de vingança.
Sem a máscara de espantalho, dava para ver os olheiras em seus olhos, seu rosto estava queimado devido ao incêndio no túnel da gruta.
– Você matou seu próprio irmão, como pôde? – perguntou um indignado Pedro
– Ele era um gordo inútil que só reclamava. Gostei tanto de ver aquele rostinho redondo caindo daquele pescoço – ela respondeu em um tom de voz forte, mas choroso de ironia.
– Como você se tornou isso?
– Vou te contar- começou e olhava para o bisturi – Logo após a minha saída para ver com meus próprios olhos se Henrique havia sido morto, por um adolescente imprestável, eu corri, corri mais do que pude para chegar até ele. Não consegui vê-lo naquele estado, o meu namorado forte estava com uma tesoura fincada nas costas. Não pude acreditar.- deu uma pausa para respirar e cortar a perna de Pedro – Bom, me aproximei de Henrique, chorando e pude sentir sua fraca respiração. Ele estava vivo, mas por um fio. Aproximei meu ouvido de sua boca, e pude escutar com muita dificuldade um “Pedro...vingança...te amo”. Ouvir aquilo foi a pior coisa da minha vida. Henrique era a minha vida!- mais uma pausa e mais um corte na perna de Pedro- Ver a pessoa que eu mais amava morto por um adolescente e pedindo para eu vingar sua morte, era a chance que eu tinha. Arranquei a tesoura de suas costas. E ele parou de respirar.
– Ele tinha chance de viver ainda, se você não tivesse retir..AAAH – um corte longo e profundo na bochecha de Pedro.
– Você se lembra que na primeira noite, Henrique e eu saímos a passeio? Nós encontramos a fantasia do espantalho e decidimos assustar vocês, apenas assustar. Mas aí, você teve que estragar o nosso divertimento. Apenas iríamos assustar vocês. – repetiu – Mas quando vi, meu Henrique pedindo vingança eu não agüentei. Me vesti de espantalho, esperei o velho cachaceiro voltar à cidade para agir. Sabe como foi bom afogar aquela vadia ruiva? Decapitar meu irmão? E aquele bonitinho do Felipe? Ver o Raphael queimando? – deu uma risada assustadora. – Agora é a sua vez, vai pagar por ter feito aquilo com o meu namorado
Ela abriu toda a tesoura e colocou o pescoço de Pedro entre elas, ele fechou os olhos e Luana deu uns grunhidos estranhos
Pedro abriu os olhos e lá estava Otávio logo atrás de Luana, que estava com uma cara estática. Ele havia dado uma machadada nela. De trás dele, saiu uma amedrontada Giovanna.
– Pedro, eu encontrei Otávio voltando para o acampamento. Pedi ajuda a ele- disse Giovanna desamarrando o irmão.
– Encontrei a garotinha desesperada pedindo socorro na estrada e logo a reconheci. Ela me contou tudo o que estava acontecendo, larguei o carro e vim o mais rápido que pude com ela.- Otávio tirou as botas para massagear os pés – Não sou mais jovem como antigamente.
– Obrigado. Mas vamos embora daqui –Pedro não conseguiu olhar para Julia. Antes de saírem, Giovanna cuidou dos ferimentos do irmão, apenas superficialmente.
Otávio mesmo cansado conseguiu ajudar a carregar Pedro junto com Giovanna. Chegaram na estrada, já era de noite, pois demoraram muito. Eles entraram no carro e Otávio explicou que foi à cidade para o Festival da Colheita.
– Há muitos anos atrás, as nossas árvores não davam mais frutas, o que gerou uma grande crise na cidade, não conseguíamos o suficiente para o nosso sustento e nem para vender em outras cidades, assim a cidade entrou na miséria. Eu nem era nascido, mas meu pai contava que a cidade perdeu a vida, não havia motivos para sorrir. Então me contou que dois irmãos foram até o centro dos pomares para brincar e foram encontrados mortos pouco tempo depois e ao lado deles tinha palha. No dia seguinte, os pomares começaram a produzir. Meu pai dizia que um espantalho, uma espécie de deus, havia sacrificado os irmãos para a colheita. — Otávio terminou de contar a história.
– Nossa, isso é arrepiante- comentou Giovanna
– Mas essa história não é real né? Digo, como pode haver um espantalho que ajuda na colheita. Parece coisas de filmes. – falou Pedro.
– Espantalhos agora me assustam.
– E desde então — Otávio parou o carro, se abaixou e pegou alguma coisa — todo o ano, dois irmãos são sacrificado para o Festival da Colheita. – Ele cortou a garganta de Pedro e enfiou o punhal na barriga de Giovanna. – Nossa cidade não pode passar por dificuldades novamente. Ele buzinou. Uma velha se aproximou junto com algumas pessoas, pegaram o corpo dos irmãos e levaram para dentro do pomar.
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