A Coleção de Olhos de Dragão
1 A Coleção de Olhos de Dragão
E o jogo de RPG mais conhecido da região, o Narcoredrun¹, foi interrompido. A platéia ficou boquiaberta, a mãe do juiz (não tenho certeza, mas acho que ela se chama P*t*. Pelo menos era assim que os torcedores do time que estava perdendo estavam chamando pelo Juíz: Filho da P*t*, Filho da P*t* ...) estava horrorizada, o gordinho que não largou seu cachorro-quente nem por um segundo, chegou a parar de tomar seu refrigerante, só para prestar atenção no que estava acontecendo.
Já havia rumores de que isso ia acontecer, porém ninguém esperava que fosse em plena Tiavera, a estação com maiores índices de chuva de sapos do ano. Mas ao contrário do que o leitor pode estar pensando, as chuvas de sapos eram consideradas um bom sinal, principalmente se um sapo dos grandes cair bem na sua cabeça, se isso acontecer, pode se considerar um cara de sorte.
A nave, em forma de navio pirata, muito indiscreta, começou a pousar lentamente bem em frente à platéia. Quando estava bem próxima de tocar o solo, desligou o motor e caiu, fazendo um barulho ensurdecedor, muito indiscreto. A porta se abriu e, de dentro da nave em forma de navio, também podendo ser chamada naveio (pronuncia-se na-ve-il), começou a descer pelo elevador um ser muito indiscreto, era um habitante do Planeta Sweettystar XCVIII ², ela se chamava Bahbiberubryna III, filha de Bahriberubryna IV, um nome bem indiscreto. Bahriberubryna III exalava um cheiro tão doce, que chegava a dar náuseas. O gordinho do cachorro-quente começou a sangrar por todos os orifícios e não resistiu, morrendo na hora. Bahriberubryna pisou no solo gelatinoso, olhou indiscretamente para todos os lados e perguntou:
— Foi aqui que deixaram minha coleção de olhos de dragão?
1- Narcoredrun: Jogo de estratégia praticado por homens, e às vezes alguns macacos para completar time. São dois times com seis jogadores cada, onde o objetivo é capturar a menina de capuz vermelho que está levando supostos “doces” para uma parente próxima. O jogo é um tanto quando perigoso, pois, às vezes, lobos e caçadores invadem o local do jogo, além dos perigos intrínsecos da floresta, como, por exemplo, os miniloompas, pequenos seres amarelados vindos do Planeta Grumendhor, que confundem os turistas com suas carinhas simpáticas, os hipnotizam, seqüestram e roubam suas roupas para fazer sopa (sua única fonte de sobrevivência).
2- Planeta Sweettystar XCVIII: É um planeta da galáxia ViaIceCream. É completamente feito de doces e completamente comestível, inclusive seus habitantes. Por isso já está em sua versão 98, todos os turistas vindos de outros planetas e galáxias não resistem e acabam comendo pelo menos um pedacinho.
Não era uma coleção que se diga ~nossa, mas que coleção extraordinária~ nem ao menos os dragões eram lá grande coisa. Alguns dos dragões, por exemplo, eram dragões contadores de piadas. As piadas eram tão boas, mas tão boas, que se uma pessoa quisesse ouví-las, teria que passar por anos de Cursos Preparatórios Para Ouvir Piadas de Dragões³, ministrado pelos monges do Planeta LOL(4), caso contrário, a pessoa começa a rir, mas rir muito, e morre. E foi aqui, caros leitores, que nasceu a expressão “morrer de rir”. Não que isso seja uma piada, ou que seja engraçado, muito pelo contrário, esses casos são seriamente estudados pelos renomados médicos de Megaclow(5)
O naveio, aquela nave de que falamos anteriormente, absolutamente indiscreta, desenhada e projetada por famosos engenheiros e designers do Planeta CoolShipz(6), é descrita por aqueles que tiveram a sorte (ou azar) de observar, como uma nave que você não gostaria, de forma alguma, de ver durante uma guerra, muito menos se ela estiver com o seu oponente e, muito menos ainda, se você estiver tentando conquistar uma garota durante uma festa, porque isso, caro amigo, quer dizer que você já não tem mais chance nenhuma com ela. Aliás, não tem chance com mais garota alguma.
O naveio conta com inúmeros canhões apontados em todas as direções com uma precisão de mais ou menos 10^-42 nafiones(7) Os canhões possuem um disign contemporâneo, com pequenas agulhas super afiadas que podem ser disparadas sobre qualquer objeto fixado.
Após a pergunta feita por Bahriberubryna, e depois de um longo e constrangedor silêncio, um espectador bem peculiar, tentando evitar aquela situação toda, começou a caminhar lentamente para a saída, visivelmente muito nervoso e preocupado de parecer muito nervoso e preocupado.
O público nem o teria notado, se não fosse pelo fato de que, o curioso rapaz estava vestindo a fantasia do mascote da equipe local, um sapo, e se ainda não bastasse, ele estava bem no meio do estádio naquele momento. Porém, não foi nada disso que chamou a atençao de Bahriberubryna. O que lhe chamou a atenção foi o colar que o rapaz estava usando. Um colar não muito discreto, que tinha como pingente nada mais nada menos que um olho de dragão. Mas não era um olho de dragão qualquer. Era o olho do Grande Dragão Observador(8).
— Ei você, rapazote vestido de sapo! Reparei que você, ao contrário de todos os outros presentes, foi o único que continuou a se mover depois que aterrissamos.
— Perdão, ó grande Dama, sem desmerecer sua entrada, estou atrasado para uma entrevista de emprego, ligeiramente menos vergonhoso que este.
— Claro, entendo. Te deixarei ir assim que me disser onde encontro minha coleção de olhos de dragão.
— Hmm.. Na verdade.. Não tenho ideia do que está falando.
Bahriberubryna logo suspeitou que o rapaz estava mentindo e ordenou a seus guardas que o buscassem e o trouxessem para o naveio.
Quando já estavam todos embarcados, a nave subiu fazendo um barulho ensurdecedor e chegou à Topoczfera, que fica a 20 vezes a altura da Troposfera. Nesse momento, o rapaz foi obrigado pelos guardas a caminhar pela temida prancha. Como estava convencido de não querer se transformar no sapo da sorte de ninguém lá embaixo no estádio, quebrou o gelo com as seguintes palavras:
— Dilarsbafast Zigophetty, é a quem está procurando.
3 — Cursos Preparatórios Para Ouvir Piadas de Dragões: Curso desenvolvido e ministrado por monges a fim de preparar àqueles que estejam interessados, mas muito interessados mesmo — Não adianta estar só um pouquinho interessado, tem que estar muito, mas muito interessado mesmo – em ouvir piadas de dragões. O curso é realizado pois as piadas são tão boas, mas tão boas – não são só um pouquinho boas, são muito boas, mas muito boas mesmo – que se você ouvir alguma sem estar previamente preparado pode começar a ter crises convulsivas seguido de contorção dos órgão internos e isso se prolonga até você morrer de rir.
4 — Planeta LOL: Planeta engraçadinho habitado pelos sérios monges responsáveis pelo Cursos Preparatórios Para Ouvir Piadas de Dragões. É proíbido andar descalço no Planera LOL, pois ele sente cócegas.
5 — Megaclow: Megaclow é um hospital/hospício/centro psiquiátrico/maternidade/centro cirúrgico/necrotério/pastelaria chinesa localizado no mesmo sistema solar do Planeta LOL. Os médicos desse hospital são especializados em distúrbios do riso e gostam muito de pastel de presunto e queijo, sem orégano, por favor, obrigado.
6 — Planeta CoolShipz: É um daqueles planetas que pegam a nave velha e destruida das pessoas que mandam cartas emocionantes, e as joga fora, constrói uma nova e vende de volta para o dono. Os mecânicos, geralmente, fazem isso só por hobby e não cobram nada, já que o que realmente dá dinheiro nesse Planeta é o tráfico de tampas de canetas perdidas.
7 — Grande Dragão Observador: É o dragão líder de um grupo de dragões observadores. Para se tornar líder, os dragões interessados deverão participar de uma competiçao que acontece a cada 17 anos, onde os competidores devem ficar o mais parado possível, pelo máximo de tempo que conseguir, sem falar, sem comer, sem ir ao banheiro, sem nem ao menos piscar, ou seja, deve ficar só observando.
8 — Nafiones: Unidade do Sistema Intergalático Global (SIG), que tem uma equivalência em unidades terrestres tão complexa que não é possível de ser abordada nesse livro. Para se ter uma breve ideia, as variáveis levam em conta desde a diferença de pressão entre o interior e o exterior do útero da mãe daquele que está tentando fazer a conversão, durante seu nascimento, até o número de palavras pronunciadas por sua mãe durante o parto.
—Quem?
—DI – LARS – BA- FAST ZI- GO – PHE – TTY. Pronunciou pausadamente o cara vestido de sapo.
— Hmm... Sei. Ou melhor, não sei. Pensou baixinho Bahriberubryna.
—Diga-me onde posso encontrá-lo, senhor Sapo? O rapaz pensou...pensou, e acabou falando.
— Bom, na verdade, Dilarsbafast Zigophetty é meu avô, e ele mora em frente ao estádio onde estávamos.
— Guardas, recolham tudo e tragam o sapo para dentro, vamos voltar. Mas antes tenho que fazer uma visita a uma amiga que mora a caminho.
Estavam todos a bordo do naveio. Bahriberubryna não era lá uma grande pilota, por isso sempre deixava o naveio por conta do automático.
Automático era o nome de um de seus robôs. Um robô super simpático... Muito simpático... Insuportavelmente simpático. Queria fazer tudo por todos, era insuportável. Porém útil muitas vezes.
— Olá, minha ama! Para onde quer que eu a leve? Perguntou Automático, com uma voz insuportavelmente simpática.
— Temos que voltar ao estádio. Mas antes, passe na casa de Simophora, há tempos não a vejo!
— Será o maior prazer levá-la até lá.
— Ok, ok. Vamos!
O cara do sapo estava estranhamente calmo. Mesmo sabendo que aquela era a situação mais bizarra e assustadora que ele jamais imaginaria estar passando. Então resolveu ler o rótulo da garrafinha com um líquido transparente que ele pegou por ali e tomou achando que era água: “Retawtonsi” – Não é água, idiota. É uma bebida que te faz ficar estranhamente calmo, mesmo nas situações mais bizarras e assustadoras que você puder imaginar. Ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado.
— Ah, que ótimo! Disse o sapo calmamente enquanto colocava a garrafa em cima da mesa e se dirigia para a sala de espera para comandantes de nave que não sabem pilotar.
— Hey, Dona Bahri... Bahribrema... Ah, desisto. Dona B. Porque estamos demorando tanto, se para chegar até a Topo... Como se diz?
— Topoczfera.
— Isso. Se para chegar até a Topoczfera , demoramos apenas alguns minutos?
— É que às vezes gosto de apreciar a paisagem. Respondeu Dona B., apertando um botão que abria todas as cortinas.
Era realmente uma bela paisagem. Do ponto onde estavam era possível observar sistemas solares inteiros, sistemas lunares inteiros, sistemas de contrabando de beliches inteiros, sistemas nervosos e cardiovasculares inteiros, enfim, realmente valia a pena ir mais de vagar para ver.
— Ééé... Da hora... resmungou o Sapo, ainda sob o efeito da Retawtonsi .
— Ok, já podemos acelerar, Automático. Ordenou Dona B.
Em alguns minutos chegaram à estrela Omegaπ71, que era onde Simophora morava..
Omegaπ71 era um bom lugar para se viver, tranqüilo na maior parte do tempo. Uma das poucas coisas incomuns, era que às vezes haviam relatos sobre seqüestros de árvores. Ninguém, até hoje, resolveu esse mistério, a única pista é que os sequestradores podem também estar agindo no Brasil, na Floresta Amazônica.
Enfim, Simophora era muito gentil e muito bonita. Ela e Dona B. se conheciam desde... sempre, basicamente, sempre foram melhores amigas, mesmo que o tempo, o universo e os problemas da galáxia tivessem as separado. A única coisa levemente estranha é que Simophora tem 97 filhos!
— Bahry! Quanto tempo! Parece que há décadas não nos vemos.
— Na verdade, acho que faz décadas mesmo. Lamentou Dona B.
Mas não vamos perder mais tempo. Diga-me, como está a vida, Si? O marido e as crianças?
—Ah, estamos todos bem. Meu querido trabalha fora durante a semana toda enquanto eu cuido das crianças. Olha, vou te dizer, não é fácil ter 97 filhos. Sorte a minha de ter 6 braços! HAHAHAHA
Ambas riram e conversaram durante um tempo .
— Foi ótimo rever você, Simophora, mas agora tenho que partir. Tenho um assunto inacabado para resolver.
Dona B. embarcou no naveio e a viagem continuou.
Caros leitores, interrompemos sua leitura para apresentar a coluna semanal do Jornal Intergalático, onde o leitor terá o privilégio de saber das notícias menos importantes de todas as galáxias:
— Nessa tarde, um homem invisível foi pego tentando devolver as fitas VHS na locadora da Vila dos Ventiladores sem rebobiná-las. Guardas foram até o local, mas não conseguiram mais encontrar o homem invisível.
— Ciêntistas descobriram o que pode ser o esconderijo das borrachas. Elas se uniram e, em entrevista coletiva, disseram as seguintes palavras: “Estamos cansadas de sermos usadas só pra apagar os erros cometidos por outrem”. Alegaram que só sairão do esconderijo quando tiverem seus direitos respeitados.
— A lista publicada por críticos de cinema mostra que o Filme do Pelé foi considerado melhor do que muita coisa por aí.
— O clima continua o mesmo.
Essas foram as notícias menos importantes dessa semana. Não perca nossa próxima edição. Até breve e não se esqueça: Use filtro solar.
Todos voltaram para Naveio e a viagem seguiu. O efeito do Retawtonsi finalmente passou, mas o cara vestido se sapo estranhamente continuou tranquilo e estava até apreciando a viagem.
Não demorou muito para que chegassem de volta ao campo onde o Naveio aterrissou pela primeira vez. Pousaram novamente fazendo um barulho ensurdecedor e todos desceram para procurar por Dilarsbafast Zigophetty, a pessoa que, supostamente, estava com a posse da coleção de olhos de dragão que, supostamente, pertencia a Dona B. Chegando até a porta de sua humilde residência, encontraram nada mais do que um bilhete colado com goma de mascar na porta. O bilhete, com uma péssima caligrafia, continha apenas as seguintes palavras: “Cansei desse planeta. Voltei para o meu”.
Dona B. olhou para o cara de sapo e ele estava meio esverdeado… Com uma cara de… Sapo! E de repente:
— Huuuurgh
O cara de sapo vomitou.
— O que houve, Sapo? Dona B. perguntou assustada.
— Não sei. Respondeu o Sapo limpando a boca com a manga da fantasia. Deve ter sido aqueles bolinhos que eu comi no Naveio e que no rótulo estava escrito com letras garrafais: NÃO COMA.
— É.. Eu gosto de viver perigosamente. Disse o Sapo rindo sozinho.
— Bom, você sabe onde podemos encontrar seu avô? Perguntou Dona B. ao cara do Sapo.
— Então.. Na verdade, meu avô já bateu as botas há muito tempo.
— Mas então o que aquele bilhete na porta dizendo que ele se cansou desse planeta e voltou para o dele significa? Perguntou Dona B. um pouco alterada.
— Eu coloquei aquele bilhete lá para espantar vendedores de controle remoto universal. Pois na verdade mesmo... A coleção de olhos de dragão está comigo.
— O QUÊ? E POR QUE NÃO DISSE ANTES? Gritou Dona B. indignada.
— É que fiquei com um pouquinho de medo de sua reação... Ou o que poderia fazer comigo quando soubesse. Respondeu o Sapo com medo.
— Eu não farei mal algum se você me disser que minha coleção está sendo bem cuidada. Disse calmamente Dona B.
— Fiz um colar com cada olho e costumo usar para chamar a atenção das garotas. Mas.. Acho que não adianta nada, pois até hoje não conquistei garota alguma. Choramingou o Sapo.
— Deixe-me ver o colar. Pediu Dona B.
— Hmmm.. Mas é claro. Você está usando de forma errada. Veja, o olho do dragão tem que ficar voltado para você. Sendo assim o olho consegue enxergar quem você realmente é por dentro e, como um passe de mágica, consegue transmitir isso para que todos vejam também. Lembrando que isso só funciona para as pessoas que são puras de coração. Explicou Dona B. com os olhos brilhando, orgulhosa de sua criação.
— Acredito então que minha missão aqui acabou, por enquanto. Disse Dona B. aliviada.
— Automático, conecte o UPS (Universal Position System) e vamos voltar para casa. Ordenou Dona B.
— Bom, eu adoraria fazer isso imediatamente, Dona B. Lamentou Automatico.
— Mas então… Porque nao fará? Perguntou Dona B. confusa.
— Estamos sem sinal.
— Sinal? Como assim? Desde quando precisamos de “Sinal” para usar o UPS, perguntou Dona B. ainda confusa.
— Hahaha rio o Sapo. Eh Dona B. Aqui temos esses probleminhas de sinal… Tem uma certa operadora de telefonia que promete que, se voceê encontrar o sinal, você pode fazer ligações ilimitadas por apenas 25 centavos! Incrível, não? Rio o Sapo ironicamente.
— Mas, voltando ao assunto… Ja tentou desligar e ligar novamente, Automático? Isso sempre funciona!
— Boa ideia, Sapo. Respondeu Automático alegremente.
Assim que o UPS foi reiniciado, logo voltou a funcionar. Porém, nada do sinal. Então decidiram decolar e sair da área onde o sinal era afetado, para depois ligar o UPS. E, nao surpreendentemente, o sinal ficou perfeito. Assim que Naveio decolou e os dados de destino foram colocados no UPS, Dona B. ligou o Sistema de som e luzes e sua viagem de volta pra casa começou.
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