A Coleção de Universos
7 Cafona
Notas iniciais
“Quando você se olha no espelho, o que vê?”. Fiz essa pergunta a alguns amigos, e a resposta que obtive foi, na maioria das vezes, vaga. Alguns, tentando ser autênticos, disseram-me: “Vejo o meu reflexo”, apenas. Então, eu os perguntei o que aquele reflexo representava; logo, presenciei o silêncio. Mais uma vez, questionei: “Você está contente?”. A resposta foi negativa.
Assim que somos surpreendidos por uma pergunta que nos tire do senso comum, como aquela do início, paramos para refletir – sim, pensamos um pouco. Na verdade, as questões mais simples exigem, em geral, respostas mais complexas. O que é a nossa imagem? Na maior parte do tempo, nós agimos como observadores: selecionamos as melhores paisagens; observamos as pessoas ao nosso redor e opinamos sobre tudo e sobre todos. Devido a isso, acabamos por esquecer nós mesmos. E nos deixamos levar pela maré.
Nós, seres humanos, que avançamos tão bem no espaço-tempo, regredimos. Somos capazes de construir arranha-céus e de destruir cidades inteiras. Temos a capacidade de possuir o amor e o ódio. Somos tão complexamente simples... Um homem, por exemplo, ao responder à minha pergunta anterior, disse-me: “Vejo, no reflexo, uma pessoa solitária”. De fato, é difícil encontrar o amor quando tudo aquilo que nos cobre é um manto de rancor. E nada é bom o suficiente. Sempre desejamos mais, mas uma casa menor é melhor de se cuidar. Porém, ainda há esperança. Podemos vencer esse conflito interno.
Ademais, atuamos todo dia. Queremos adentrar um novo espaço, novos corações, e nos distorcemos; entramos em calças apertadas, em vestidos que nos sufocam, e quase ficamos sem ar. São os nossos disfarces diários. E não nos bastamos: outro alguém, porventura, me falou que só consegue ser feliz com alguma pessoa do lado; e outro, felizmente, que se vê completo e com muita esperança. De toda forma, será que estamos realmente bem?
Fabricam-se tendências, e o que não faz parte da moda é “cafona”. Cafona? Ridículo mesmo é não ter identidade própria; é seguir a massa. Cafona é dar lugar a pensamentos toscos, perdendo a essência. Eu parabenizo quem se mostra, porque eu já não consigo. Gostaria de ser quem eu sou, caso soubesse quem sou. Porque, sinceramente, mudamos de segunda a segunda. E as semanas fecham seus ciclos, da mesma forma que nós.
Sobre a pergunta, não quero uma resposta. Eu só precisava de reflexão; não de apenas um reflexo. Estamos muito cheios de imagem e escassos de si mesmos. Então, por fim, eu o pergunto: quando se olha no espelho, o que vê? Será mesmo o seu reflexo ou alguém que se disfarça?
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