A Cobaia
2 Capítulo 1 — Bom dia, rotina
Notas iniciais
Wendy avança apressada pela rua, dividida entre equilibrar-se nos salto altos demais — um erro que ela já estava arrependida de ter cometido — e desviar-se das pessoas, que insistem em enfiar-se na frente da loira. Havia acordado atrasada essa manhã, a terceira vez em uma semana, e sabia que seu chefe não a perdoaria mais uma vez. Seu carro ainda estava na revisão, então sua única opção era pegar carona com o marido, que não era gentil o suficiente para deixá-la na frente do escritório.
— Merda! — a mulher pragueja mais uma vez, sentindo seu tornozelo torcer-se junto aos saltos pretos. Algumas pessoas a olham torto, mas ela ignora. Wendy rapidamente engole a dor, sentindo o alívio tomar conta de si ao ver o arranha céus onde trabalha surgir à sua frente.
— Bom dia, Sra. Miller — a jovem secretária cumprimenta, olhando divertida para a colega de trabalho entrando pelas portas de vidro; esta que olha desesperada para o relógio dourado no pulso, perguntando-se o que fez de tão ruim para merecer isso.
Wendy sorri rapidamente para a secretária, não parando sequer para respirar ao ver o elevador fechando as portas.
— Ei, segure essa coisa!
Rapidamente um braço interrompe o curso das portas, e Wendy se vê dentro da caixa metálica junto com outros advogados. Todos permanecem olhando para frente ou para seus celulares modernos, aparentemente ignorando a existência dos companheiros. Miller não faz diferente, concentrada em arrumar os cabelos claros que se bagunçaram durante a caminhada.
Apesar de estar perigosamente próxima dos trinta anos, Wendy era uma mulher atraente. Era alta e magra — apesar de comer mais do que deveria —, e tinha feições que atraiam pretendentes mais do que seu marido gostaria. Não que a mulher reclamasse de toda atenção, na verdade, ela até gostava.
— Está atrasada, Miller. — Seu chefe está parado em frente à máquina do café, que infelizmente é ao lado da mesa de Wendy. Ela apenas pragueja mentalmente, olhando para o negro de meia idade que paga seu salário. Trabalhara duro para conseguir o posto de melhor-e-mais-dedicada, e sentia-se extremamente desgostosa ao ver isso desmanchando-se.
— É que meu carro ainda está na revisão e... — tenta justificar-se, imediatamente sabendo que é em vão. — Não se repetirá novamente, Sr. Johnson.
— Você disse isso da última vez — o homem observa começando a afastar-se, elegante em seu terno de grife. — Tem sorte de ser tão boa no que faz, Miller, senão estaria atrasada para outro emprego qualquer.
— Deus, esse homem é o diabo! — Wendy exclama para Michelle, sua colega de trabalho e amiga, quando Peter Johnson se afasta. A mulher ruiva à sua frente concorda com um careta de desgosto antes de voltar para a papelada.
Miller não planejava trabalhar na Corporações Johnson. Na verdade, era tudo que ela mais odiava no passado: pessoas de classe média alta que tinham a vida toda planejada e viviam pelo dinheiro. Na adolescência sonhava em formar-se em direito e lutar pelos mais desafortunados, talvez até pelos animais. Porém, alguma coisa no caminho — que ela sabia bem o que era —, mudou isso.
A mulher senta-se em sua mesa e inicia o trabalho, suspirando pesadamente ao lembrar-se que hoje é o jantar com os colegas de trabalho do marido, Joseph. Nunca havia os conhecido, na verdade pouco sabia sobre o trabalho de Jose, apenas que ele era cientista. E que andava muito estranho ultimamente.
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— Tem certeza que esse ficou bom? — Wendy pergunta indecisa para o marido, que a olha impaciente. O vestido vermelho lhe cai como uma luva, aderindo perfeitamente às suas curvas.
— Está linda, como estava na última vez que perguntou. — Joseph beija rapidamente a esposa, achando sua insegurança totalmente desnecessária. Mesmo esse jantar sendo de grande importância para o trabalho e seus interesses, sabia que não seria Wendy a estragar as coisas.
O celular começa a tocar com uma música padrão, fazendo com que o homem pare de ajeitar a gravata escura e corra para atender. Wendy observa Jose se afastar, como sempre faz quando é uma ligação importante. Não se permitia incomodar com a evasão do marido, achando que era totalmente válido ele ter sua privacidade. Mesmo quando esta estava se tornando absurdamente grande.
Ela termina de se arrumar, e quando o marido retorna ao quarto, já sabe que não são boas notícias.
— O que aconteceu, Josh? — pergunta preocupada, utilizando o apelido de muitos anos, enquanto pega seu colar de pérolas favorito do porta-joias. O homem loiro e esbelto está com o rosto fechado, claramente insatisfeito. Algumas rugas ao redor dos olhos claros dele denunciam que ela o conhece há muito tempo, antes mesmo delas existirem.
— Nada — responde, mais uma vez se fechando. Ele ajuda Wendy a colocar o colar, enquanto a mesma sente-se tratada como uma criança incapaz de compreender. Porém ela fica em silêncio, sabendo que falar alguma coisa apenas estragaria a noite, como acontecera inúmeras vezes. — Melhor nos apressarmos.

O casal desce para o estacionamento do prédio onde moram no centro de Atlanta e caminham até o carro de Joseph. Haviam comprado a cobertura assim que se casaram, há quatro anos. Os dois Mercedes vieram depois, apenas para preencherem ainda mais a vida confortável que levavam. Só faltava uma coisa — filhos —, e Wendy sabia que era questão de tempo para isso também acontecer.
Logo o casal já está a caminho do restaurante onde as reservas foram feitas, e Wendy se vê vagando pelas lembranças da infância, de quando brincava com sua irmã e seus velhos amigos, Rick Grimes e Shane Walsh. Os quatro eram inseparáveis, mas haviam seguido caminhos diferentes — alguns nem tão bons assim, a loira pensa amargamente ao lembrar-se do destino que a irmã teve.
Miller sente seu coração se apertar, pela saudade e pela dor, e obriga-se a parar de pensar nos fantasmas do passado. Havia deixando isso para trás há muito tempo.
And in the pulse there lies conviction
A steady push and pull routine
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