– VAMOOOOOS! – Dougie berrou do pé da escada; uma de suas mãos segurava o celular para checar de cinco em cinco segundos o horário, enquanto a outra era entrelaçada com a de Juliet.

– Estou indo, estou indo! – Danny berrou de volta, ainda em seu quarto.

Era uma noite de sábado e os sete adolescentes que se encontravam na sala de estar da casa de Tom já estavam prontos para sair, apenas esperando por Danny, que, não era novidade, ainda se trocava.

Era a última noite de todos juntos, uma vez que os meninos partiriam para Dublin no dia seguinte com o empresário para a gravação do primeiro CD da banda. Era quase inacreditável como tudo parecera passar tão rápido, o que significava que eles teriam de deixar as meninas para trás.

Com todo aquele clima de despedida, os adolescentes resolveram achar que não havia mais razão para segredos, o que fez com que Tom admitisse na frente de todos que ele e Samantha haviam ficado três noites atrás – Danny resolveu até fazer uma festa no dia seguinte, dizendo que eles tinham que comemorar o fato de Tom ter finalmente deixado de ser lerdo –, e, por isso, Harry confessou ter pedido Elizabeth em namoro assim que os meninos ouviram sobre a notícia da viagem. Os únicos que pareciam ainda continuar ‘na mesma’ eram Danny e Suzana, mas não por opção deDanny, diga-se de passagem.

– Então quer dizer que você já sabia de tudo? – Juliet perguntou para Elizabeth ao que se sentava no sofá ao lado de Tom, que jogava videogame com Harry.

– Bem, o Harry me contou assim que o Fletch avisou os meninos... – Elizabeth respondeu quase em um sussurro, olhando com certo remorso para a amiga. Ela havia sido a primeira menina a saber sobre a viagem deles, e ainda se sentia mal por não ter contado antes para Juliet.

– Eu não acredito que você não me contou, sério! – A outra retrucou em um misto de frustração e tristeza. Ela contava tudo para Elizabeth, e ela ter escondido algo tão sério daquele tipo não a agradava.

– Eu sei, Juh, mas o Dougie que tinha que te contar. – Elizabeth continuou naquele mesmo tom de arrependimento, olhando da amiga para o namorado dela, que se encaminhava de volta à sala de estar.

– É, eu sei... – Juliet suspirou, assistindo Dougie se sentar ao seu lado no sofá. – Seu gay.

– Eu também te amo, amor. – Dougie ironizou, sorrindo meigamente para a namorada.

– Mas vem cá, me explica uma coisa só – Tom interrompeu, pausando o jogo e acertando a cabeça de Harry com um tapa ao ouvi-lo reclamar. – Se vocês só começaram a namorar essa semana, vocês já ficavam antes ou o Harry simplesmente... pediu pra te namorar?

– A gente já ficava antes. – Harry respondeu rapidamente, apanhando o controle de Tom sem que ele visse para recomeçar o jogo.

– Quanto tempo? – Samantha se intrometeu ao que voltava da cozinha com algumas cervejas.

– Erm... – Elizabeth hesitou, olhando de Harry para Juliet. – Há algum tempo?

Quanto tempo? – Juliet insistiu, semicerrando os olhos em direção à amiga, que claramente não queria responder àquela pergunta.

– Bom, lembra quando você e a Suzana foram pela primeira vez no nosso ensaio? – Harry perguntou, desistindo de brigar com Tom e voltando-se para a conversa, querendo ajudar a nova namorada.

– Sim...?

– E lembra quando vocês perguntaram o que eu ia fazer?

– Sim...?

– E eu te contei do meu encontro?

Sim...?

– Bom, esse tal encontro era com a Eliza. – Harry concluiu, sendo sua vez de parecer incerto sobre ter falado sobre isso e ao mesmo tempo arrependido por não ter contado antes para Juliet.

– O QUE? – A garota berrou, seus olhos, antes semicerrados, agora arregalados. – Você e a Elizabeth acabaram de entrar para a minha lista negra!

– Porra, isso é muito tempo! – Suzana comentou, falando pela primeira vez nos últimos longos minutos e mostrando-se surpresa, mas ainda não tanto quanto Juliet.

– Eu não acredito que vocês não me contaram nada! – A menina continuou, cruzando os braços e as pernas e amarrando a cara. – É tão legal assim esconder as coisas de mim?

– Sinto que isso foi uma pequena indireta para a minha pessoa também. – Dougie brincou, rindo baixinho enquanto observava a expressão infantil da namorada ao seu lado. Ele então se inclinou para lhe dar um selinho, surpreendendo-se ao ver Juliet desviar o rosto. – Ah Juh, qual é! Eu achei que você já tinha me perdoado por isso. E é nosso último dia, você realmente quer gastar ele brigando?

Juliet pareceu ter parado para pensar por alguns instantes, sem deixar de estar emburrada. Orgulhosa demais para admitir que Dougie estava certo, a menina apenas levantou-se, dando um selinho rápido no namorado e então dirigindo-se até a escada para berrar: “é pra hoje, Jones?”

Após mais vinte minutos de “estou indo” vindos de Danny, os oito adolescentes finalmente dirigiam-se para a boate mais badalada de Londres com direito a tratamento VIP, luxo de Fletch para a última noite deles. Juliet, Dougie e Samantha foram no carro de Tom, enquanto Suzana, Danny eElizabeth foram com o de Harry, encontrando-se em frente ao local combinado para entrarem juntos.

Mais alguns minutos e todos já se encontravam com bebidas em mãos, alguns sentados à mesa e conversando entre risos, enquanto outros se direcionavam à pista de dança completamente lotada. Todos, de alguma forma, pareciam estar se divertindo, menos Suzana. Desde que saíra de casa com Juliet, a garota havia aberto a boca apenas para soltar algumas palavras sem ânimo, e havia passado maior parte dos últimos dias sem rir ou falar as besteiras usuais que sempre falava. As meninas tiveram que arrastá-la para aquela festa, já que ela parecia não estar com vontade nem de se levantar para ir ao banheiro. É claro que ela ainda conversava normalmente, mas era, de certo modo, triste.

Sendo uma das pessoas sentadas à mesa, junto de Harry, Elizabeth e Dougie – Tom e Samantha dançavam juntos entre a aglomeração de pessoas já alteradas e Danny perambulava por aí, também alterado e provavelmente à procura de uma garota para passar sua última noite na Inglaterra –,Juliet percebeu que Suzana começara a se sentir incomodada ao redor de casais e voltara à sua anormal tristeza. Pedindo licença aos dois garotos presentes para ir ao banheiro, Juliet puxou Elizabeth e Suzana para irem com ela, deixando Harry confuso sobre o porquê de sua namorada também precisar acompanhá-la.

– Hei, pra onde você tá me levando? – Suzana perguntou ao que era arrastada por Juliet e também Elizabeth, que havia entendido o repentino ‘puxão’ da amiga.

– Ok, aqui tá bom. – Juliet disse assim que as três alcançaram a sacada do segundo andar e viu que não estava tão lotado quanto os outros lugares da boate. – O que tá acontecendo com você?

– Que?

– Ah Suzana, não se faz de desentendida! – Elizabeth insistiu, cruzando os braços em direção à amiga enquanto Juliet a encarava seriamente dentro dos olhos.

– Não está acontecendo nada! – Suzana mentiu, desviando o olhar do de Juliet. – Vocês estão loucas. Eu vou voltar pra lá, com licença.

– Ah, mas não vai mesmo! – Juliet retrucou, puxando a menina pelo braço antes que ela pudesse dar seu primeiro passo. – Você não vai me esconder as coisas também, ouviu bem, Suzana? Já não basta todo mundo “omitindo” os segredinhos de mim, mas você não! Qual é, nós somos melhores amigas desde que eu me lembro, nós sempre nos contamos tudo! O que é?

Como se só esperasse ouvir isso para finalmente ‘liberar’ tudo o que escondia, Suzana começou a soluçar fortemente, deixando pesadas lágrimas correrem de seu rosto já corado. Juliet e Elizabeth, obviamente pegas de surpresa, não conseguiram pensar em mais nada além de abraçá-la.

– Suh! – Juliet chamou em uma voz chorosa, sentindo-se mal por ter gritado com a amiga e tê-la feito chorar. – Desculpa, eu não queria ser tão grossa assim, mas-

– Não, eu não to chorando por isso. – Suzana respondeu com dificuldade, tentando amenizar o choro mas não tendo muito sucesso.

– Porque então? – Elizabeth perguntou, trocando olhares preocupados com Juliet.

– Eu... eu... – A menina tentou, soluçando quase que exageradamente, uma vez que ainda tentava segurar as lágrimas e soluços constantes. – Eu gosto deleeee! – Ela finalmente soltou em um choro longo, voltando a abraçar as amigas e pondo-se a soluçar ainda mais.

– Gosta de quem? – Juliet perguntou confusa, mas ao olhar para Elizabeth, viu que era a única, já que a outra já sorria enquanto acariciava os cabelos de Suzana.

– Do Danny! – Ela finalmente explicou, vendo Juliet também começar a sorrir. – Você gosta do Danny, não é, Suh?

Suzana apenas levantou a cabeça e a acenou vagamente, passando a mão pelo rosto na tentativa de secar as lágrimas incessantes e também de esconder as bochechas ainda mais coradas.

– Awww, que meigo! Nossa pequenina tá apaixonadaaa! – Juliet praticamente berrou, levando as mãos à boca ao receber um tapa da amiga. – Desculpa, mas é que é tão fofo!

– Cala a boca, sua tosca! – Suzana sussurrou, rindo de leve enquanto ainda forçava os dedos bruscamente contra os olhos.

– E você tá esperando o que? – Elizabeth perguntou repentinamente, sorrindo de orelha a orelha e ignorando os olhares confusos de ambas as amigas. – O Danny é caidinho por você também, Suzana!

– É nada. – A garota respondeu, sentindo o rosto queimar ainda mais. – E ele tá indo embora de qualquer jeito, o que adianta?

– É por isso mesmo que você tem que fazer algo logo, sua jumenta! – Juliet incentivou, rindo com as amigas pela maneira delicada com que havia o feito. – Ele tá indo embora e essa é sua última oportunidade, você realmente quer desperdiçá-la? O Danny se joga do vigésimo nono andar por você!

– Exagerada. – Suzana rolou os olhos, ainda rindo de leve.

– E você sabe o quão lerdo ele é, então quer fazer o favor de parar de chorar e mexer a bunda logo e fazer algo a respeito? – Elizabeth exigiu, batendo palmas e berrando animadamente junto de Juliet, como se comemorassem, deixando Suzana ainda mais envergonhada. – Vamos logo!

Puxando a amiga de volta, Juliet e Elizabeth seguiram para a mesa onde antes estavam tendo uma Suzana ainda mais vermelha atrás delas berrando: “vamos logo pra onde?” de maneira desesperada. Assim que se aproximavam de onde antes estavam, Juliet abriu um sorriso vendo quem se encontrava ali.

– E falando na lesma, aparece o caramujo! – Ela comentou sorridente, parando em frente a Danny e empurrando uma Suzana agora roxa para cima dele.

– Como é que é? – Elizabeth perguntou em meio a risos, juntando-se à amiga, que abanava a mão em sua direção como se dissesse que aquilo era muito complexo para ela entender.

– O que ela quis dizer com “lesma” e “caramujo”? – Danny sussurrou para Suzana, olhando de esguelha para Juliet, que ria com Elizabeth e espalhava selinhos pelo rosto de Dougie. Assim que se virou para a menina em sua frente, ele avistou que o rosto dela se encontrava inchado e extremamente vermelho, como também molhado. – Você tá bem?

– Estou. – Suzana respondeu em um sussurro nervoso e tímido, olhando para qualquer lugar menos para aquele par de olhos em sua frente. – Erm...Danny?

– Seus olhos tão vermelhos! – Danny continuou, sem prestar atenção ao chamado da menina. – E seu rosto tá... Suh, você tava chorando?

– Danny!

– Meu Deus, Suzana, você tá bem?! O que aconteceu? Me conta que eu soco o otário, quem é? Quem é?

Em um impulso provavelmente não pensado, Suzana se inclinou rapidamente para frente, parando nas pontas dos pés e segurando o rosto de Danny, beijando-o rapidamente antes que qualquer um dos dois soubesse o que realmente estava acontecendo. Ela sabia que se tivesse parado para pensar no que estava fazendo, nunca o teria feito – era tímida demais. E, ao fazê-lo, percebeu que Danny não fazia questão alguma em recuar, apenas dando permissão para o beijo aumentar de intensidade.

Atrás deles, os dois casais começaram a assoviar alto em comemoração, e Suzana teve que quebrar o beijo para rir ao ouvir Juliet berrar um “finalmenteee!”.

Wow. – Danny sussurrou, ainda muito próximo do rosto da garota e sorrindo de orelha a orelha em descrença. – O que foi isso?

– Isso foi um beijo, seu lerdo. – Suzana brincou, rindo tanto com o amigo quanto dele mesmo.

– E que beijo! – Danny disse provavelmente também sem pensar, rindo baixinho ao ver as bochechas de Suzana voltarem a aderir a cor rosa. Ele então passou os dedos delicadamente pelo rosto dela, olhando-a nos olhos, ainda sorrindo exageradamente. – Você demorou, hein?

– Cara de pau! – Suzana riu, batendo de leve no ombro do garoto, fazendo-o rir também. – Você que demorou, isso é trabalho dos homens, e eu que tive que fazê-lo porque você é lerdo demais e... – Antes que pudesse terminar sua frase, ela foi pega de surpresa pelos lábios de Danny. Ao que eles mais uma vez se separaram, ela permaneceu de olhos fechados, sem saber o que falar exatamente e por isso tropeçando nas palavras. – E... é... você é... muito... lerdo.

Danny apenas riu baixinho e abraçou a menina pela cintura, guiando-a para onde os amigos ainda comemoravam, desenhando coraçõezinhos no ar e fazendo piadinhas sobre eles.

– Qual a graça? – Tom perguntou assim que se aproximava da mesa de mãos entrelaçadas com Samantha.

– O Danny e a Suzana acabaram de se pegar! – Dougie anunciou, apontando para o mais novo casal.

– É, cara, eles tavam no maior amasso ali! – Harry completou a idéia, abraçando a si mesmo e virando-se de costas no banco, como se imitasse um casal se beijando, fazendo todos rirem e Suzana corar exageradamente.

– SÉRIO? – Samantha berrou, saindo de perto de Tom para correr em direção às amigas, fazendo com que o garoto lhe estirasse a língua e amarrasse a cara. – Ah, você sobrevive sem uns minutos de amassos, Tom.

– É, cara... essa última noite promete! – Danny comentou sorridente, passando o braço ao redor dos ombros de Suzana e lhe dando um selinho.

Todos na mesa gritaram “awww” em uníssono. Samantha então chamou as meninas, fazendo Suzana contar os detalhes, enquanto os garotos conversavam animadamente sobre algo provavelmente não muito importante.

Dougie, em meio à conversa, puxou a mão de Juliet, olhando-a nos olhos enquanto acariciava com extrema delicadeza seu rosto, sussurrando então um “promete mesmo” antes de beijá-la carinhosamente.

É. Realmente prometia.

xx

Já eram quatro horas da manhã quando nosso carro parou à entrada da casa de Tom. Eu havia agradecido mentalmente à Samantha por estar em um estado mais sóbrio do que o restante de nós, assim eu não precisava temer tanto pela minha vida no caminho de volta. Quando ela estacionou e então desligou o carro, Tom soltara o último ronco e acordara assustado, girando a cabeça em todas as direções para tentar enxergar o lugar em que havíamos parado. Eu ri embriagado, sentindo minhas pálpebras pesadas. Juh, estirada pelo banco do carro com a cabeça descansada em meu colo, se movimentou delicadamente, ainda sem acordar.

– Amor? – Eu tentei chamá-la, mas meu sussurro não foi o suficiente. Não queria acordá-la. Ela dormia tão serenamente que eu poderia observá-la assim por horas. – Hei, amor. Nós chegamos.

Se eu tentava ser discreto e silencioso, Harry me fez o favor de estragar o plano. Aparecendo com um Danny praticamente inconsciente e apoiado sobre seu corpo, ele esmurrou o vidro da janela do carro, assustando Juliet e fazendo-a acordar em um pulo.

– Retardado – eu disse a ele ainda de dentro do carro, estirando o dedo do meio e colando-o na janela para que ele pudesse ver. Ele retribuiu o gesto e continuou arrastando Danny pela garagem. – Desculpa amor, foi o idiota do Harry. Eu não queria te acordar.

– Tudo bem. – Ela bocejou longa e exageradamente, sentando-se no banco e espreguiçando-se. – Credo, você acertou minha cabeça com um martelo?

– Não – eu ri. – Ressaca?

– Não – ela respondeu ao que massageava as têmporas. – A terceira Guerra Mundial.

Eu ri mais uma vez e automaticamente a abracei, puxando seu corpo mais próximo ao meu. Ela acariciou meu rosto delicadamente antes de me beijar.

– Hei! – Agora fora a vez de Suzana em esmurrar o vidro do carro, interrompendo nosso momento. – Chega de amassos, vamos logo!

– Credo! – Juh arregalou os olhos, observando a amiga de expressão sonolenta, face pálida e grandes olheiras. – Eu to assim também?

– Não. – Eu lhe dei um rápido selinho. – Você é linda.

– Uhm, por isso que eu te amo – ela me disse e me beijou novamente.

Nós finalmente saímos do carro e passamos pela porta já aberta. Ao entrarmos na casa, vimos Harry, Tom e Suzana jogados espalhafatosamente no sofá, meio acordados, meio dormindo, enquanto Danny encontrava-se estirado pelo chão.

– Gente, ele... ele tá morto? – Juh perguntou, observando o corpo inerte de Danny no carpete.

– Talvez – Harry murmurou com a voz embargada. – Muito provavelmente.

– Cutuca ele pra checar – Tom sugeriu.

Eu me aproximei com cautela e, com a ponta do sapato, cutuquei a lateral do corpo do meu amigo. Para meu alívio, ele apenas soltou um ronco alto e se virou de lado no chão.

– Vivo – eu informei.

– Graças a Deus – Juh disse, ainda observando Danny de maneira assustada. – Imagina o trabalho que a gente teria pra esconder o corpo!

– Alguém quer café? Comida? Aspirina? – Elizabeth surgiu da cozinha, arrastando os pés no chão em nossa direção. Pareceu só acordar ao avistarDanny. – AI MEU DEUS, ELE TÁ MORTO?

– Não, o Dougie já cutucou ele – Harry lhe disse. – Agora, onde estão aquelas aspirinas mencionadas?

Samantha apareceu logo em seguida. Ela parou de frente à sala, imóvel, arregalando os olhos para a figura de Danny.

– Não, ele não está morto – Juh a tranqüilizou.

Ela assentiu quase que imperceptivelmente com a cabeça e voltou a caminhar, pulando o corpo de Danny e arrastando-se até o sofá para que pudesse se jogar ao lado de Tom.

– Ô zumbis, vocês vão ficar vegetando aí? – Eu perguntei, não contendo a risada com a cena em minha frente.

A única resposta que recebi foi vários gemidos em uníssono.

– Certo, continuem morrendo aí enquanto eu e o Dougie vamos pro quarto – Juh disse, puxando-me pela mão em direção à escada.

– Pelo amor de Deus, Juliet, são quase cinco da manhã! – Samantha retrucou. – O que vocês são, animais?

– O que? Não! – Ela balançou a cabeça freneticamente enquanto eu ria alto. – Nós vamos pro quarto dormir, sua doente pervertida!

Nós nos arrastamos completamente sonolentos pelos degraus em direção ao primeiro quarto que nossos pés alcançaram. Assim que eu abri a porta do quarto, Juh arremessou os sapatos que segurava para qualquer canto e se jogou na cama. Eu logo a segui, abraçando-a quando me atirei no colchão ao seu lado.

– Eu não acho que vou conseguir acordar amanhã pra pegar o avião – eu sussurrei com a voz fraca.

– Ótimo – ela me disse.

Eu abri os olhos para encontrar os seus já me encarando. Meus dedos passearam por seu rosto e então, quando ela juntou nossos lábios com certa urgência, eles se emaranharam em seus cabelos; eu senti seu corpo escalar sobre o meu, sua língua procurar pela minha, suas mãos levantarem a barra da minha camisa. Quando nos separamos, ofegando pela falta de ar, ela encostou seu nariz ao meu e acariciou minhas bochechas com as pontas dos dedos enquanto me encarava fundo nos olhos.

– Eu vou sentir tanto sua falta.

Meu coração afundou ao som de seu sussurro. Eu controlei um grito dentro do meu peito, fechando os olhos com força e procurando mais uma vez exasperado pelos seus lábios.

O dia seguinte amanheceu chuvoso, e foi o barulho das gotas contra a janela do quarto que havia me despertado. Eu abri os olhos lentamente para ver que Juh ainda dormia abraçada a mim e aninhada em meu peito, e um sorriso sereno se formou automaticamente em meu rosto. Beijando-lhe a testa e tomando cuidado para não acordá-la, eu me distanciei com cautela até me levantar da cama. Fechei as cortinas para que a luz do dia não a incomodasse e vesti minhas roupas jogadas ao chão antes de sair em passos silenciosos do quarto.

Assim que alcancei o primeiro andar, eu avistei Danny ainda praticamente inconsciente ao chão, Tom esparramado em um dos sofás e Harry no outro logo ao lado. Samantha, Suzana e Elizabeth haviam provavelmente ocupado os outros dois quartos livres da casa.

Eu caminhei até a cozinha. Liguei a cafeteira e, enquanto esperava, abri a geladeira e os armários à procura de qualquer coisa comestível naquele lugar. Achei algumas torradas, a sobra da manteiga e uma caixa de cookies na despensa e os coloquei na bandeja sobre o balcão. Quando o café já estava pronto, eu enchi duas canecas, colocando-as junto dos outros alimentos e programei a cafeteira novamente para que o primeiro ser vivo naquela casa que conseguisse acordar pudesse ter algo para forrar o estômago. Apanhei a bandeja e voltei a seguir em passos cautelosos pela escada, de volta ao quarto. A porta rangeu à minha entrada, e eu vi Juh se mexer confortavelmente na cama.

– Dougie? – Ela chamou com a voz rouca.

– Bom dia. – Eu apoiei a bandeja ao pé da cama, sentando-me ao seu lado para beijar-lhe a testa.

– O que é isso? – Ela se levantou com dificuldade, passando as mãos pelo rosto amassado. Olhou para mim até a bandeja e de volta para mim, sorrindo. – Você me trouxe café na cama?

– Eu tentei. – Torci o nariz para o pobre café-da-manhã que eu havia lhe preparado. – É difícil achar alguma comida nessa casa que não seja pizza ou que não tenha passado da data de validade.

Ela se esticou para que pudesse me dar um rápido selinho antes de apanhar as canecas de café e me entregar uma delas.

– Essa manteiga me parece meio duvidosa – ela disse, analisando as sobras no potinho. – Eu vou ficar só com os cookies mesmo.

– E, enquanto isso, eu vou tomar um banho. – Eu apoiei a caneca de volta na bandeja e me levantei, despindo a camisa e rindo quando Juh assoviou para mim.

– Sua mala já tá aqui? – Ela me perguntou ao que me observava caminhar até o banheiro.

– Uhum. A gente trouxe tudo pra cá à tarde.

Ela não disse mais nada. Eu sabia que o fato de eu e os outros três estarmos indo ainda hoje para a Irlanda para passar um ano inteiro ainda a incomodava, como se não tivesse ou conseguisse se acostumar com aquela idéia. E eu a entedia completamente. Tudo parecia ainda tão normalque era como se nós não fôssemos ficar distantes por tanto tempo. Como se negássemos isso.

Eu liguei o chuveiro e ouvi o barulho da televisão vindo do quarto. Enquanto sentia a água quente atingir meu rosto, lembrei da imagem de Juh deitada na cama. O que eu iria fazer exatamente sem ela por um ano? Eu queria ir para a Irlanda, gravar o CD e me dedicar à banda, mas, ao mesmo tempo, eu não queria. Eu queria, eu precisava ficar aqui com ela. Mas e se eu realmente ficasse? McFly sem um integrante? Eu faria de minha namorada a Yoko, e eu seria o Lennon que largou a própria banda? Eu não queria isso. Minha banda, nossa música era importante demais para isso, mas eu temia o que poderia acontecer depois que eu partisse. E se ela cansasse de me esperar? Um ano era muito tempo.

Sentindo-me como uma garota melodramática, eu tentei afastar aqueles pensamentos. Nada iria acontecer. Eu iria para a Irlanda e, um ano depois, eu voltaria para vê-la novamente e então nunca mais precisar soltá-la.

Eu terminei o banho com um estranho peso em meu peito. Enrolei a toalha em volta da minha cintura e caminhei de volta ao quarto, observando ao que Juh rabiscava alguma coisa em um pedaço de papel.

– O que você tá fazendo?

– Ah, nada. – Ela levantou o olhar para mim e rapidamente escondeu o papel nas mãos. – Tava tentando desenhar o Stewie, do Family Guy. Não saiu muito bom.

Ela riu desconcertada e enfiou o papel debaixo da perna, sobre o colchão da cama. Eu apenas franzi o cenho, não entendendo.

– Que horas é o seu vôo? – Ela mudou de assunto.

– Uma hora – eu disse ao que passeava pelo quarto à procura da minha mala. – Hei, você viu onde eu... ah, tá lá embaixo.

– O que tá lá embaixo?

– Minha mala.

– Mas eu to bem aqui, amor – ela brincou, fazendo uma expressão infantil e sorrindo-me do jeito mais doce possível. Eu ri e obedeci ao pedido que ela me fizera para lhe beijar.

– Você não quer pegar pra mim? – Eu tentei imitar sua expressão infantil, mas duvidei que houvesse sucedido tanto quanto ela.

– Por quê? – Ela me perguntou inocentemente. – Você fica tão melhor assim.

– Assim como? Sem roupa?

Ela não me respondeu, apenas encolheu os ombros e bebericou o café com um sorriso malicioso nos lábios.

– Meu Deus, eu vou sentir a sua falta! – Eu soltei em uma risada.

– Eu sei – ela riu junto e me estirou a língua ao se levantar e passar por mim. – Eu vou lá pegar suas coisas.

Eu a observei sair do quarto, e assim que a porta se fechou atrás dela, eu me joguei na cama e apanhei o controle remoto, procurando por algum programa bom pelos canais. Em questão de apenas alguns minutos, Juh retornou ao quarto e jogou uma muda de roupas sobre o meu corpo.

– Eu espero que você não se importe, mas eu escolhi sua roupa – ela me disse, voltando a sorrir naquele modo infantil e doce. – Ah, e talvez você queira se trocar rápido.

– Por quê? – Eu perguntei, observando-a se aninhar em meu peito.

– Porque já são onze horas e o Harry disse que o Fletch vai passar aqui em meia hora.

Eu pulei da cama com o susto, apanhando minhas roupas e jogando minha toalha pelo chão no caminho ao banheiro. Ainda na cama, eu ouvi Juh rir alto e assoviar mais uma vez para mim, e acreditei que era por ela ter visto minha parte traseira nua.

– Eu não sabia que você era tão bundudo assim, Poynter – ela berrou em meio a risos para que eu pudesse ouvir.

– Por que o Fletch vai passar aqui tão cedo? – E tentei ignorar seu comentário, saltitando pela porta do banheiro em uma perna só, enquanto tentava enfiar a outra pelo buraco da calça.

– Bom, vocês precisam estar uma hora antes no aeroporto – ela me explicou, prendendo o riso ao me assistir quase perder o equilíbrio. – O Fletch vai estar aqui em meia hora, e até vocês chegaram ao Gatwick, já é mais meia hora. Se você fizer as contas, vai ver que estarão lá meio dia, exatamente uma hora antes do vôo.

– Eu tenho tanta sorte em ter uma namorada inteligente – eu brinquei. Ela apenas suspirou um “eu sei” e continuou rindo da minha luta contra minhas roupas. – Você não vai se trocar não?

– Ah é. – Ela se levantou apressada, mas logo parou com as mãos na cintura e o nariz franzido. – Uhm, eu acho que vou ter que usar as roupas de ontem à noite.

– Qual o problema?

– Nada, eu só queria poder tomar um banho e colocar roupas novas. – Ela encolheu os ombros.

– Bom, se ajuda, eu acho que você estava linda ontem e fica linda de qualquer jeito – eu lhe disse, caminhando até ela para que pudesse beijá-la.

– Você é tão condescendente. – Ela riu baixinho e voltou a me beijar. – Mas eu gosto.

Já pronto, eu apenas tive que esperá-la tomar um rápido banho antes de se vestir. Nós arrumamos o quarto, fechamos as cortinas e as janelas e descemos as escadas para encontrar Harry, Tom, Danny e Suzana também já prontos e esparramados pelo sofá, mas não inteiramente acordados.

– Cadê a Sam e a Eliza? – Juh perguntou assim que se jogou ao lado de Suzana.

– Ainda se trocando – Harry respondeu com a voz arrastada.

– E que horas o Fletch chega? – Eu também perguntei e me sentei ao lado de minha namorada.

– Daqui alguns minutos. – Tom consultou o horário no celular, deixou escapar um pesado suspiro e se virou para Juh ao que procurava algo no bolso de sua calça jeans. – Eu vou deixar as chaves de casa e do meu carro com você. Vê se não abusa, ouviu? Não quero nenhuma festinha secreta enquanto eu estiver fora e nada de graças com o meu bebê também.

– Seu bebê? – Suzana repetiu.

– O carro dele – Juh explicou enquanto eu e Harry concordávamos com acenos vagarosos de cabeça. Suzana rolou os olhos e riu. – Pode deixar,Tom, eu não vou fazer nada que não deveria. Ou nada que você não faria.

– Bom, se for assim, então você está basicamente permitida a fazer quase tudo – Harry riu.

– Não, não, não. – Tom balançou a cabeça em sentido negativo freneticamente. – Eu não quero chegar aqui e ver meu carro amassado e minha casa destruída.

– Quem você acha que eu sou, Tom? Você? – Juh retrucou, tomando as chaves das mãos de Tom. – E você só volta daqui um ano mesmo.

Todos nós tornamo-nos de repente tensos. Juh parecia ter se arrependido profundamente de ter dito aquilo, e eu apertei sua mão quase como em um consolo; Tom pigarreou alto e voltou a se recostar no sofá em silêncio; Suzana e Harry franziram os lábios e passaram a observar os próprios sapatos. Danny apenas roncou mais alto do que o normal.

– Ele ainda tá inconsciente de ontem? – Juh brincou, tentando aliviar a tensão no clima, mas falhou ao perceber que sua voz havia subido uma oitava e soado repentinamente rouca.

– Credo, quem morreu aqui? – Samantha surgiu do quarto de hóspedes do primeiro andar com Elizabeth em seu encalce.

Ninguém fez menção de respondê-la, e, felizmente, ninguém precisou. A buzina vinda do lado de fora da casa interrompeu nosso silêncio desconfortável, e todos pareceram querer levantar ao mesmo tempo com certa pressa e constrangimento para apanhar as bagagens ao meio da sala – exceto por Danny, que poderia ter continuado dormindo se não fosse por Suzana ter de chacoalhar seu corpo inerte por algumas várias vezes até que ele finalmente despertasse.

O carro que nos esperava lá fora era uma imensa Range Rover preta, com Fletch no banco de passageiro e o motorista ao volante. Elizabeth eSuzana ajudaram Harry e Danny a guardarem suas coisas no porta-malas para que pudessem entrar e se acomodar no veículo, enquanto Juh eSamantha ajudavam Tom e eu a colocarem nossas bagagens no carro de Tom. Nós havíamos combinado em irmos em carros separados – uma vez que claramente não caberíamos todos juntos em apenas um – e Juh dirigiria o carro do melhor amigo com as meninas de volta à sua casa.

Durante a maior parte da viagem até o aeroporto Gatwick, nenhum de nós realmente começou um assunto muito animado. Quando falávamos, normalmente era para pedir que Tom mudasse de estação da rádio ou então fazer comentários aleatórios sobre ontem à noite. Era como se estivéssemos finalmente percebendo que aqueles eram nossos últimos minutos juntos e que dentro de apenas meia hora, teríamos que nos despedir uns dos outros. E, como esperado, ninguém parecia contente com aquilo.

Eu e Juh estávamos sentados no banco de trás e passamos toda a parte daquele tempo em silêncio; nossas mãos entrelaçavam-se firmemente, e ela manteve sua cabeça apoiada em meu ombro, nunca levantando seu olhar para mim. Eu descansei meu rosto em seus cabelos, observando seus dedos passearam carinhosamente de minha mão entrelaçada à dela até meu antebraço, e alguma vez ou outra eu a sentia suspirar com pesar e tristeza.

Cerca de trinta minutos de quietude, os carros finalmente pararam no estacionamento do aeroporto. Nós recolhemos nossas bagagens e seguimos até o terminal em que nosso avião partiria. Mesmo nos reencontrando com Harry, Danny, Elizabeth e Suzana, nosso grupo permaneceu em silêncio pelo caminho que fazíamos nos corredores movimentados, e as únicas vozes vinham de Fletch dando algumas ordens ao motorista ou então falando incansavelmente ao celular. Juh consultava seu relógio de pulso de cinco em cinco segundos, e eu sabia exatamente o porquê – nós havíamos chegado atrasados e tínhamos, no máximo, apenas mais alguns vinte minutos para nos despedirmos antes de precisarmos seguir para sala de embarque, onde as garotas não poderiam entrar.

Nós deixamos nossas malas no check-in para que Fletch pudesse cuidar de tudo. Demos nossos documentos necessários a ele e então nos distanciamos, em direção a um coffee shop ali por perto.

Quando paramos um de frente ao outro, no entanto, ninguém parecia saber ao certo o que dizer.

– Então... – Harry começou, balançando o corpo para frente e para trás com as mãos guardadas nos bolsos da calça. Todos ainda continuaram calados. – Qual é, o “então...” é sempre um bom início de conversa!

– Não é não. – Tom franziu o cenho e atingiu a cabeça do amigo com um tapa, arrancando risos de nós. – O que alguém deveria dizer depois de “então...”? Esse é o pior começo de conversa. É pra gente que não tem mais do que falar. Tipo quando o assunto é o tempo. “Então... chovendo hoje, não é mesmo?”

– Pelo menos eu tomei alguma iniciativa – ele retrucou e cruzou os braços, carrancudo.

Nós rimos novamente e voltamos a entrar naquele silêncio constrangedor.

– Então... – Juh repetiu, imitando Harry ao enfiar as mãos nos bolsos e balançar o corpo para frente e para trás. – Chovendo hoje, não é mesmo?

– Ai, como você é ridícula – Samantha lhe disse, rindo alto.

– E vocês estão sendo dramáticos – Danny retrucou ao que apoiava o braço ao redor dos ombros de Suzana. – Existe telefone e internet, a gente ainda vai se falar!

– É, mas não vai ser a mesma coisa – Elizabeth murmurou tristemente.

– E um ano é bastante tempo – Suzana completou.

Nós entramos mais uma vez em silêncio. O único barulho entre nós vinha dos profundos e constantes suspiros a cada dez segundos.

– Certo, certo, eu vou primeiro. – Danny se afastou de Suzana para se colocar ao meio de nossa pequena roda. – Eu tenho quase certeza que eu vou me emocionar, então não liguem se algumas gotas escaparem, está bem? – Nós rimos ao que ele fingiu enxugar as supostas lágrimas. – Não, sério, eu-

– Sério? – Harry riu. – Você, sério?

– Você vai me deixar falar ou quer ir antes? – Ele perguntou, fazendo-se de ofendido pela interrupção. Eu e Tom acertamos a cabeça de Harry com outro tapa enquanto as meninas riam, e então Danny finalmente prosseguiu. – Eu só queria dizer que... ah, eu gostei desse último ano mais do que os outros. E não só por causa de tudo que aconteceu com a banda, mas principalmente por causa de... vocês. – Ele completou, passeando seu olhar pelas garotas e parando em Suzana, que corou exageradamente.

– Awww! – Elizabeth escondeu o rosto nas mãos. – Eu já vou começar a chorar, não é justo!

Nós rimos ao que Danny e Harry fizeram questão em abraçá-la, como se a consolassem.

– Eu quero falar uma coisa também! – Samantha anunciou, e todos nós viramos nossas atenções em sua direção. Ela pigarreou baixinho e envergonhada, e continuou já com as bochechas coradas. – Eu também gostei mais desse ano do que de qualquer outro, e acho que apesar de vocês quatro serem extremamente idiotas... – Ela foi interrompida por vaias vindas de mim, Tom, Danny e Harry. – Deixa eu terminar! Apesar de vocês serem extremamente idiotas, eu... eu acho que devo muito a vocês. Porque talvez, mas assim, só talvez eu fosse um pouquinho superficial demais, e vocês me ajudaram a perceber que tem muito além das aparências, e eu realmente não deveria ter julgado vocês antecipadamente, porque vocês... ah, vocês são os quatro caras mais legais que eu já conheci, pronto, eu disse!

Desta vez, todos nós berramos altos “awww”, como Elizabeth havia feito anteriormente, e nos juntamos para que pudéssemos esmagar Samantha em um abraço grupal.

– Eu totalmente me senti no seriado Beauty and the geek com esse seu discurso, mas foi lindo! – Juh brincou.

– Eu acho que todos nós aprendemos muito uns com os outros esse ano – Tom comentou assim que nós saímos de nosso abraço.

– Fletcher dando uma de Dr. Phil, que profundo! – Harry riu antes de levar um soco do amigo. – Cara, vocês tiraram o dia pra me bater hoje ou o que?

– Não, o Tom e a Sam têm razão – Elizabeth disse em um fraco sorriso. – Nós tínhamos uma opinião formada sobre vocês, e vocês de nós, mas nós todos estávamos errados. Então eu realmente acho que... não sei, isso pode soar meio exagerado, mas... eu acho que vocês meio que mudaram toda nossa perspectiva, sabe?

– E eu acho que todo esse papo tá ficando deprimente demais. – Juh franziu os lábios, abraçando-me e apoiando sua cabeça em meu peito. Eu a abracei de volta, sentindo as batidas de meu coração acelerarem erraticamente, e apenas concordei com um aceno silencioso.

– Vocês vão fazer muita falta aqui – Suzana sussurrou tristemente após alguns longos minutos em que havíamos nos calado.

Ninguém voltou a dizer mais nada. Enquanto eu ainda permanecia abraçado à Juh, Tom à Samantha, Harry à Elizabeth e Danny à Suzana, nós nos entreolhamos em silêncio e tristeza. Apesar dos discursos de despedida, nenhum de nós parecia querer dizer a palavra oficial que nos separaria – o “adeus”.

– Garotos, as coisas já estão todas prontas – Fletch informou assim que surgiu do balcão em que fazia o check-in. Ele nos observou com um sorriso ligeiramente triste, desculpando-se pela interrupção. – Eu já estou indo pra sala de embarque. Encontro vocês lá em alguns minutos.

Ele se despediu brevemente das meninas antes de se virar e se distanciar em direção à entrada do terminal. Nós voltamos a nos entreolhar em silêncio.

– Acho que é isso – Elizabeth suspirou.

– Hei, um ano passa rapidinho, vocês vão ver! – Tom tentou incentivar.

– Só prometam que vocês não vão nos esquecer ou muito menos nos trocar por algumas irlandesas quaisquer – Samantha pediu em um sorriso tristonho.

– Jamais – Harry lhe assegurou.

– Impossível – Danny complementou. – Mas também não vão nos trocar por esses inglesinhos daqui!

– Nunca! – Suzana sorriu para ele.

Os garotos começaram a puxar cada uma das meninas para se despedirem. Eu aproveitei para levar Juh até um canto mais distante para que pudesse fazer o mesmo, apesar de ainda relutante com a idéia.

– Você vai ficar de saco cheio de tanto que eu vou te ligar – ela me disse, querendo quebrar o clima pesado e quase lúgubre.

– Você que vai, porque eu vou te ligar pra saber onde você tá e o que você tá fazendo a cada minuto – eu ri.

– Ótimo, acho bom que você faça isso mesmo. – Ela abaixou a cabeça, como se quisesse evitar nosso contato visual, e passou a brincar com a barra da minha camiseta. – Porque eu vou sentir saudades.

– Eu também – eu sussurrei ao que abraçava sua cintura.

Assim que Juh finalmente levantou o olhar em minha direção, eu pude ver que seus olhos já se encontravam extremamente marejados pelas lágrimas presas. Automaticamente, eu segurei seu rosto para que pudesse beijá-la demorada e carinhosamente. Meu único problema agora era conseguir soltá-la.

– Hei – ela me chamou assim que se distanciou de mim, ainda mantendo sua testa encostada à minha e os olhos fechados. – Eu escrevi uma coisinha pra você e coloquei na sua mochila. É meio idiota, mas... é só pra você se lembrar de mim. – Ela sorriu sincera e abertamente.

– Escreveu? – Eu rapidamente abri os olhos, sorrindo ainda mais ao ver seu sorriso tão perto do meu. – Quando? Eu nem-

– Eu coloquei nas suas coisas quando você me pediu pra pegar suas roupas hoje de manhã.

– Eu... não... – Eu suspirei em meio à minha luta para achar as palavras certas. – Peraí. Era isso que você tava fazendo quando eu saí do banho? – Ela encolheu os ombros. – Você disse que tava desenhando o Stewie!

– E eu não sei como você acreditou nisso. Você sabe que minha coordenação motora é horrível! – Ela riu e mordeu o lábio inferior. Como se realmente fosse algo automático em mim, eu não consegui me conter e segurei seu rosto novamente para lhe beijar.

– Obrigado – eu murmurei com os lábios ainda colados aos dela.

– Hei, gente? – Nós ouvimos Harry nos chamar e rapidamente nos separamos. – Desculpa interromper, mas... – Ele se virou para mim com um meio sorriso triste. – Nós realmente precisamos ir.

Antes de o seguirmos, eu parei Juh para que pudesse beijá-la não só mais uma vez como também pela última.

– Eu te amo. – Minha voz tremeu no sussurro em seu ouvido.

– Eu também – ela soluçou e rapidamente jogou seus braços ao redor de meu pescoço para que eu pudesse segurá-la no ar em um forte e nostálgico abraço. – Muito mesmo.

Mesmo contra a nossa vontade de nos separarmos, nós seguimos de mãos entrelaçadas até o nosso grupo. Todas as três garotas enxugavam os rostos molhados e inchados pelas lágrimas, e até mesmo Danny passava as mãos nos olhos vermelhos sem delicadeza alguma.

Eu esperei para que Juh pudesse se despedir de Harry e Danny, e então mais demoradamente de Tom. Samantha, Suzana e Elizabeth decidiram me rodear para um abraço grupal, e Danny rapidamente se juntou a nós. Harry o seguiu, e Tom e Juh, após se separarem, também resolveram participar. Nós permanecemos naquela posição por alguns minutos, atraindo as atenções das pessoas que passavam por ali, até que fomos aos poucos nos distanciando. Acenando tristemente uns para os outros, eu e os garotos começamos caminhar em passos lentos em direção ao terminal.

– Espera! – Eu ouvi Juh gritar. Rapidamente me virei para trás para vê-la correr até nós e então pular sobre mim. – Eu esqueci de te dizer que te amo – ela sussurrou em meu ouvido assim que seu corpo colidiu contra o meu e eu a carreguei.

– Mas você já disse isso – eu respondi sem entender, mas aproveitando o momento para poder abraçá-la novamente.

– Eu sei – ela me disse, e assim que terminou de me beijar, completou: – Mas é só pra você não se esquecer.

Relutantes, ela pulou para longe de meus braços e eu a observei recuar alguns passos até as amigas, caminhando de costas a elas para que pudesse me observar partir.

Eu nunca achei que seria tão difícil ou doloroso assim. Assim que sua imagem foi se tornado menor a cada passo que eu dava na direção oposta à dela, eu senti meus amigos me puxarem pela camiseta para que eu me virasse de frente e pudesse prestar atenção à funcionária do aeroporto que pedia pelo meu passaporte e minha passagem.

Já dentro da sala de embarque, eu joguei minha mochila ao chão e me sentei distante de onde os outros três e Fletch estavam, tentando lutar contra a urgência de correr de volta até ela e nunca mais largá-la. Faltavam apenas dez minutos para que fôssemos chamados para adentrar o avião e eu ainda não sabia do que mais me arrependeria: se não voltasse para ela ou se não pegasse aquele vôo.

Com certo desespero e pressa, eu me lembrei do bilhete que ela dissera ter me escrito e rapidamente procurei por ele, bagunçando tudo em minha mochila e não me importando. Quando meus dedos encontraram o pedaço de papel junto do pequeno urso de pelúcia que ela havia me comprado de presente de despedida, eu o puxei para tentar ler, apesar da minha visão turva. Assim que eu finalmente compreendi o conteúdo da carta, mesmo sem precisar terminar a leitura, meus dedos procuraram por meus olhos para apertá-los com força e enxugar as lágrimas não controladas.

Close your eyes and I’ll kiss you, tomorrow I’ll miss you; remember I’ll always be true. And then while I’m away, I’ll write home every day, and I’ll send all my loving to you.

I’ll pretend that I’m kissing the lips I am missing, and hope that my dreams will come true. Te amo pra sempre, meu Don.

Notas finais
Pra Luh u.ú